E o ponto de vista é que é o ponto da questão

Navegando pela internet uns dias atrás, me deparei com este artigo. Está na seção de viagem de um jornal e, ao que tudo indica, foi escrito por uma pessoa que conheceu Dublin como turista. Obviamente não poderia fazer uma leitura imparcial de um artigo com dicas de viagem de um lugar onde eu morei por um ano, mesmo que não quisesse, inconscientemente eu já estaria analisando e até julgando cada palavra.

Comentei sobre o post com a Bárbara e o Rick, disse que discordava de alguns pontos e que havia notado alguns erros também. Combinamos, então, de cada um escrever um post sobre as impressões que tivemos ao ler. Antes de ler meu post, vale a pena ler o artigo primeiro.

E, se ainda resistir a tudo isso, aí vai a minha cartada final: vale a pena conhecer a(s) Irlanda(s) simplesmente porque é uma viagem diferente. Você já foi mil vezes para Londres, conhece Paris de ponta-cabeça e pega o metrô em Berlim com mais tranquilidade do que em São Paulo, mas não conhece Dublin nem Belfast. Que tipo de globetrotter é você, afinal?”

Havia mil atrações e lugares interessantes para citar e motivar turistas a conhecerem a Irlanda, e a melhor justificativa que oferece é “Ah, para não repetir figurinha, Dublin é uma boa.” Outra coisa é que vê-se bem que este texto é pra coxinha, porque conhecer Paris como a palma da mão e andar melhor no metrô de Berlin do que no de São Paulo, só mesmo tendo muito dinheiro pra ficar viajando tanto assim. Sim, já estive nas capitais citadas, mas não o suficiente para concordar com tais afirmações. E outra, cheguei lá com dinheiro que ganhava sendo babá. Não soa muito coxinha pra mim ter um subemprego que é o meio para um fim: o de viajar.

Gente jovem, aliás, é o que parece deixar Dublin especialmente vibrante. A cidade tem um bairro da balada, o Temple Bar (nome do bar que define toda a região), estilo Vila Madalena, com um pub a cada dois passos. Escolher onde entrar é um tiro no escuro, mas, quase que invariavelmente, será um lugar bacana, com boa música (ao vivo quase sempre) e cerveja a preços camaradas.”

Dizer que o Temple Bar está para Dublin como a Vila Madalena está para São Paulo, ok, mas dizer que tem o mesmo estilo já é forçar a barra. As baladas irlandesas são muito diferentes das brasileiras. Eu não sei o que a pessoa considera um preço camarada, mas uma pint (500ml) de cerveja nos pubs da região custa, em média, 6 euros (uns 19 reais na cotação desses dias). Sou só eu ou mais alguém acha que pagar quase R$20,00 em meio livro de cerveja não é nada camarada? Nem nas baladas de São Paulo uma cerveja é tão cara (a lata, 350ml, custa menos de R$10,00, em média). Ah, esqueci, é um texto coxinha.

O pessoal de Dublin também se orgulha dos arredores da cidade. Um passeio clássico é rumo ao Castelo Malahide, no norte. Não vá esperando aquela coisa castelo-da-Cinderela-igual-ao-da-Alemanha. Trata-se de um castelo moderno, que ficou nas mãos de uma família podre de rica até 1973. Daí, a última herdeira perdeu a propriedade para o governo (impostos, seus vilões). Então, o lugar virou ponto turístico. Ponto. Vale a pena? Sim, mais pela viagem até lá (uns 15 minutos de carro, partindo do centro da cidade) do que pela construção em si.”

Há várias ‘coisinhas’ neste parágrafo. A última herdeira do castelo não o perdeu como afirma o artigo. Ela se viu forçada a vendê-lo ao governo por não conseguir arcar com os impostos. Perder um castelo e vendê-lo para o governo não são exatamente a mesma coisa ou estou errada? Depois, prossegue insinuando que o castelo não vale a visita porque não parece castelo de filme e que as paisagens da viagem até lá valem mais. WTF? Eu me pergunto se a autora realmente entrou no castelo e fez o tour guiado, porque oh, fazer um comentário desse é de matar! Além disso, nos arredores do castelo ainda tem um grande parque e um jardim botânico, que ela ignorou completamente.

Outro passeio interessante é o Phoenix Park, o maior da cidade.”

Então, ele não é apenas o maior parque de Dublin, é o maior parque urbano de toda a Europa, faltou pesquisar um pouco mais.

E é isso. Não cita o Dublin Castle, não fala nada da O’Connell Street, a rua mais larga da Europa, não fala da Henry Street que também é uma movimentada rua de compras (só que não é tão coxinha quanto a Grafton), não fala do Stephen’s Green Park, nenhum comentário a respeito do Spire (não é ponto turístico, mas enfim, é cartão postal da cidade), nada sobre o Dublinia que conta a história de Dublin (ótimo museu, aliás).  St. Patrick’s Cathedral, o igreja do padroeiro do país? Sim, eu sei que é apenas um artigo, não um guia de viagens, mas se a pessoa viajou a Irlanda à convite da Tourism Ireland e da British Airways (que devem ter arcado com os custos da viagem) como consta no fim do artigo, o mínimo que poderia fazer é sair do óbvio e mostrar que a cidade tem muito mais a oferecer.

Claro que entendo que o artigo foi escrito do ponto de vista de uma turista que deve ter passado alguns dias lá e eu vejo Dublin do ponto de vista de uma pessoa que teve um relacionamento sério de um ano com a capital irlandesa. Sei também que meus posts de viagem das várias cidades que conheci com certeza não refletem o ponto de vista de pessoas que as habitam, mas acredito oferecer uma visão mais ampla. Mas é como diz Raul, né, o ponto de vista é que é o ponto da questão e para quem nunca fui a Dublin, o artigo serve, pelo menos, como um começo para começar a traçar um roteiro de viagem.

 

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3 comentários sobre “E o ponto de vista é que é o ponto da questão

  1. Você citou várias coisas que citei no meu texto também, Bia. Nem preciso dizer que mais uma vez, amei seu post. Vou repetir o que eu disse pro Rick: sou sua fã! Fã de vocês dois. Vamos fazer texto ~combinandinho~ sempre? 🙂

  2. good4ufoods

    Adoro textos combinadinhos, gente!! Adorei o texto Bia e sim, vc e B’a apontaram varios pontos parecidos..hehee.. a gente pensa mto igual ❤

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