Sobre como eu quase perdi o mestrado

A vida é essa coisa que você planeja e de repente pá! Não acontece nada como você planejou. E tudo bem, para tudo dá-se um jeito, não é? Bom, no meu caso eu quase achei que não ia ter jeito nenhum, mas vocês terão que ler o post da “fênix” aqui (estaria eu ressurgindo das cinzas e voltando a postar neste humilde blog?) todinho para entender a confusão que arranjei e como tudo acabou.

Eu voltei ao Brasil em janeiro com absolutamente todas as matérias e estágios finalizados lá em Oulu, faltando só aquele nem tão pequeno detalhe que eu não entreguei a tese. Meu plano: chegar no Brasil e não trabalhar até o fim de maio ou junho para poder me dedicar a tese com a vantagem de não estar pagando meus custos de vida em euro (na verdade, de nem estar pagando nada – paitrocínio) e virar mestre. O que aconteceu: estava entediada em casa (vocês já escreveram uma tese? Não é exatamente empolgante) e me sentindo muito mal por não ter dinheiro pra comprar nem uma casquinha no McDonald’s, então comecei a procurar um emprego em fevereiro e em abril eu já tinha 2 empregos com carteira assinada (coisas de professor), um informal, aulas online e alunos particulares. E onde entrou a tese no meio disso tudo? Foi pra escanteio! Para não dizer que nada fiz, neste 1 mês e pouco sem trabalhar eu finalizei todas as minhas entrevistas, fiz a transcrição e juntei referências para a parte teórica.

Depois de arranjar mil empregos e definir novas metas e planos pra vida, gradativamente a tese foi ficando esquecida na minha cabeça… até que simplesmente sumiu da minha lista de prioridades. Eis que me programei e pensei: em 2017 preciso juntar dinheiro, portanto, vou desencanar de terminá-la este ano e deixo pra 2018, quando tudo estiver mais calmo. Quem nunca adiou planos acadêmicos que atire a primeira pedra. Trancar faculdade, parar o curso de inglês por um tempo, deixar aquela pós para um pouco mais pra frente… eu só estava sendo uma pessoa normal uma vez na vida – eu sempre fui muito certinha e há alguns anos acharia inadmissível essa história de concluir o mestrado depois. Things change.

Até aí não está tudo ótimo, mas estava tudo certo. Certo? Errado. Entre junho e setembro (ou “até agora”) eu estava numa correria tremenda da vida e ainda tendo que dar conta de todas os empregos que eu citei lá no comecinho. E o que eu esqueci de fazer? Rematrícula na universidade. E por que eu deveria fazer rematrícula?, você me pergunta. Porque eu ainda não terminei o mestrado, portanto, preciso manter algum vínculo com a universidade e tudo que deveria ter feito era me rematricular como aluno ausente, pois não receberia nenhum crédito no segundo semestre de 2017. E eu fiz isso? Não. E quando me dei conta, no fim de setembro, que precisaria fazer isso, o que descobri? Que o período de matrícula havia se encerrado em 12/09. Daí começa a saga para “não jogar todo o investimento do mestrado no lixo e levar um puxão de orelha da minha mãe“.

Além de ter perdido a data de matrícula, a minha conta para acessar o site da universidade seria suspensa. E como se isso já não fosse suficiente, minha senha de acesso ao sistema que estava para expirar já havia expirado!

Resumindo a treta toda:
1. Eu perdi o período de matrícula;
2. Por não ter me rematriculado, minha conta estava com os dias contados para expirar (28 dias depois do fim do período de matrícula, ou seja, 11/10);
3. Minha senha havia expirado e eu não conseguia nem entrar no sistema para ver se dava pra dar um jeitinho.

E quando me dei conta do problemão, foi um tal de correr atrás de um monte de gente que achei que pudesse me ajudar. Foram algumas mensagens no messenger de conhecidos e tentativas de comunicação com a universidade, tudo a muitos quilômetros de distância.

Primeiro, contatei o pessoal do TI pra tentar reaver minha senha. Eles me deram uma senha provisória que eu deveria usar para redefinir minha senha, mas essa senha não era aceita no site de “mudar senhas”. Enfim, estou com a senha fornecida por eles. Melhor que nada. E esta história está muito resumida, porque com uma diferença de 6 horas de fuso horário, nossa comunicação era na base de um email ao dia, porque eu mandava a noite quando conseguia acessar a internet (sou professora, né, não passo o dia em frente a um computador e muito menos fuçando celular), eles me respondiam quando era madrugada aqui e mesmo que eu respondesse de manhã, se passasse das 10h aqui, já era fim de expediente lá. Sério, essa novela de redefinir senha levou uns 5 dias entre erros e acertos.

Depois fui caçar no próprio site da universidade alguma informação sobre babacas como eu que simplesmente dormiram no ponto e perderam a data de matrícula. Não achei muita coisa, então mandei email para o student center. Demoraram um pouco a responder, mas veio a solução: preencha esse formulário de re-rematrícula e pague uma multa de 35 euros. Como as coisas evoluem muito, hoje em dia o Transferwise já faz remessas de dinheiro do Brasil para  o exterior, mas elas ainda demoram uns 3 ou 4 dias para chegar ao destino e eu não estava assim exatamente com todo esse tempo, porque meu acesso ao sistema já estava prestes a expirar. Entrei em contato com uma amiga que ainda mora em Oulu e pedi que ela fizesse a transferência e me mandasse o comprovante. Tudo feito, formulário preenchido e záz! Enviei. Devido a problemas de fuso já citados, essa história levou uns outros 5 dias também. Ah, eu reembolsei a dita amiga via Transferwise! 🙂

No dia seguinte o student center já confirmou que estava tudo certo e haviam reativado meu status de estudante. Ufa! Porém, seria cômico se não fosse trágico que neste mesmo dia meu acesso ao sistema expirou! :/

Felizmente, esta questão foi mais simples de ser resolvida. Assim que o departamento de TI recebeu a confirmação da minha re-rematrícula, o acesso foi ativado novamente.

Agora a situação é essa: estou ativa no sistema como aluna ausente e não preciso pagar a taxa estudantil de 54 euros. No próximo semestre, em 2018, eu precisarei me matricular (o prazo é 31/01/18 – alguém certifique-se que eu fiz isso, por favor… hahaha), mas desta vez como aluna presente, pagar a taxa e receber os créditos pela tese que, se tudo conspirar pro lado certo, será entregue em 2018!

Juro que por alguns dias eu achei que daria tudo errado e não conseguiria me formar, mas parece que o jogo virou, não é, Murphy?! O plano para 2018 é largar uma parte dos meus empregos para focar na tese. Me cobrem!

 

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Trintei!

Hoje o blog faz 6 anos e faz 3 meses sem postagens! Eu juro que não desisti dele, apenas estou com nadinha de tempo para escrever aqui. Spoiler: viajo mês que vem e com certeza estarei com os dedinhos coçando para contar como foi a viagem!

Enquanto isso, vamos ao tradicional balanço do blog e da vida.

Nestes 6 anos, o blog:

  • Recebeu 196 mil visitas;
  • Postei 452 vezes;
  • Tem 168 assinantes (e-mail);
  • Mais de 890 seguidores no Facebook;
  • Mais de 2000 comentários;
  • O post mais popular do blog agora é o roteiro de 3 dias em Dublin;

E há exatos 18 meses escrevi uma lista de 30 coisas para se fazer antes dos 30 e achei justo dar um follow-up:

  • Terminar o mestrado. Terminei todos os cursos, falta entregar a tese, portanto, quase lá.
  • Ter conhecido 30 países (foram 21 até agora). Já cheguei em 28 e mês que vem entra o 29. Faltou pouco!
  • Voltar a morar no Brasil. Sim, Brasil. Done!
  • Outra tatuagem. Não e ultimamente tenho perdido a vontade de fazer a segunda. Vamos parar no total de 1 tatuagem por enquanto.
  • Adotar um gatinho pra chamar de meu. Adotei não um, mas DOIS! Done!
  • Voltar a pesar menos de 50kg. Coitada de mim! hahaha… Não foi dessa vez.
  • Ver todos os filmes do Woody Allen, meu diretor preferido (vi mais ou menos metade até agora). Não deu ainda.
  • Assinar um contrato de exclusividadeJá tem data para isso acontecer.
  • Participar ativamente de algum coletivo feminista. Não estou com tempo nem para dormir ultimamente, o que dirá para ser ativista. Sad, but true.
  • Voltar a treinar kung fu. Done e cheguei na faixa roxa.
  • Visitar um estado brasileiro onde nunca estive (visitei 5 e o distrito federal até agora). Poderia estar para acontecer se viajar pelo Nordeste não fosse mais caro que ir para o exterior. 
  • Não achar mais nenhum cabelo branco – eu achei o primeiro há umas 2 semanas e quase surtei, mas confio que não aparecerão outros até os 30. Fingers crossedEu achei só mais um, tendo um total de 2 fios no momento – e sem previsão nenhuma de tingir meus cabelos.
  • Ler metade dos livros que comprei e jamais li. HAHAHAHA… Próximo item.
  • Aprender a investir dinheiro sem medo. E investir. Não exatamente.
  • Continuar sendo uma mulher sem filhos. Super feliz de ter conseguido essa.
  • Fazer as pazes com o passado em definitivo. Hoje posso dizer que o passado ficou no passado e o presente não poderia ser mais feliz.
  • Aprender a usar minha câmera “boa” comprada em 2013 (né?). Ai, gente, como fui sonhadora nessa lista. Claro que isso não aconteceu.
  • Dirigir, pois tenho carta há 9 anos e atualmente ela só serve como documento de identificação. Minha vontade de comprar carro é nula.
  • Organizar as pastas do meu computador, meus emails, meu HD externo, meu iPod, meu celular, minhas fotos… enfim, minha vida virtual. Não sei se rio ou choro pensando que achei que teria feito isso antes dos 30.
  • Ir a USP a passeio pela primeira vez na vida. Not.
  • Não ser estúpida com quem me tratou de forma estúpida. Eu não preciso ser o reflexo de uma atitude ruim (isso vai ser bem difícil). Não atingi esse nível de evolução e desenvolvimento ainda.
  • Ter o emprego pelo qual estudei a vida toda. Ou, pelo menos, estar quase lá. Olha, não posso reclamar do salário, mas ainda não estou no emprego dos sonhos.
  • Organizar todo material que uso para aulas particulares por tema/gramática. Já comecei a me organizar! Yay!
  • Correr. Eu já tive o hábito de ir correr aos finais de semana, mas desta vez queria levar isso mais seriamente. Aconteceram tantas desgraças com minhas juntas nos últimos tempos que eu não tenho nem mais esperança (como cair da escada e estirar o ligamento).
  • Assumindo que o item 18 se realize, comprar meu primeiro carro. Não quero carro, obrigada.
  • Ter meu canto, comprado ou alugado. Talvez no plural, considerando o item 8. Estou digitando isto de dentro do “meu canto”. 🙂
  • Parar de achar que as pessoas não vão me levar a sério porque aparento ser bem mais nova do que sou – mudança de postura e confiança. As pessoas não me levam a sério mesmo, desisti e aceitei. Faço 30 hoje e hoje mesmo um senhor achou que eu fosse uma adolescente voltando pra casa da escola. Ces’t la vie.
  • Não ficar calada para evitar discussões. Pois sim, sou de esquerda, de humanas, feminista e à favor de muita coisa que está “em pauta” hoje e muitas vezes prefiro ficar calada para não ter que discutir com quem nunca nem refletiu sobre um tema antes de opinar. Problematizar é a palavra da vez. Eu ando escolhendo minhas “tretas”.
  • Voltar a fazer crochê, arte que aprendi aos 9 anos com minha avó, e ponto-cruz. E por que não aprender a fazer tricô também? Eu crochetei uma saída de praia esse ano! Falta aprender tricô.
  • Estar e ser feliz no dia 15 de setembro de 2017. Estou super feliz, então acho que se estou realizando o item mais importante, não posso reclamar! 

Obrigada a todos os seguidores e aqueles que andam perguntando quando volto a postar, gostaria de dizer que logo, mas ainda não sei. Estou numa fase de muitas mudanças e realmente com pouquíssimo tempo para me dedicar ao blog. De qualquer forma, meu super obrigada e que venham mais 365 dias felizes!

Balanço da vida

Há quase 5 meses eu estava fazendo as malas para voltar para o Brasil pela… 4ª vez! Sem frio na barriga, sem muita ansiedade, sem tristeza de deixar o país onde morei por algum tempo e sem curiosidade sobre como seria dali pra frente. Parecia só mais um dia na vida de Beatriz.

Voltei com a mala grande e a pequena que levei e tudo que não coube ficou pra trás – ponto pra mim, pois voltei da Irlanda não com uma e nem duas, mas QUATRO malas. A filosofia de vida está aos poucos mudando para ter somente o necessário e devo um pouco disso a cultura finlandesa de não jogar nada fora e reaproveitar tudo: você acaba mantendo só o que precisa mesmo.

Nos meus voos de volta, saindo da Finlândia no auge do inverno, tive pela primeira vez a experiência de precisarem descongelar uma aeronave para decolagem, descobri que somente pessoas que falam inglês podem se sentar próximo às saídas de emergência, tive que explicar que podia sim despachar uma mala de 32kg pro Brasil sem pagar taxa de excesso de bagagem e por pouco não aconteceu um mal entendido na saída da Europa quando o oficial de imigração questionou por que eu havia entrado na Europa 5 meses antes e excedido meu tempo de visto – lembrem-se sempre de mostrar o visto de estudante na entrada e saída da Europa, crianças.

E enfim, Brasil. Voltei pra ficar até a próxima vez – é assim que respondo a todos que me perguntam se “agora não volto mais pro exterior”. Eu tenho planos de morar fora novamente? Sim e não. Então, acho que a melhor resposta é mesmo essa, voltei para ficar mesmo, mas só até a próxima viagem sem data de volta.

Cinco meses depois e eu não entreguei a dissertação de mestrado. Não vou mentir, muitos dias me pego pensando que não posso correr e um dia vou ter que encarar a realidade e terminar a dissertação – quem é que mora um ano e meio na Finlândia e fica sem o título de mestre porque não entregou a dissertação, né? Para meu consolo, eu posso dizer que já fiz todas as minhas entrevistas e transcrição do material, além de ter um esqueleto de como tudo vai se desenvolver. Só preciso escrever. .

E tenho minhas razões (justificativas, desculpas esfarrapadas, motivos ou como preferirem chamar) para não ter terminado logo com isso: não é minha prioridade. Como escrevi num post, eu ando vendo a vida como um delicioso bolo e cada parte dele é um pedaço que forma o bolo inteiro. Quanto maior o pedaço, maior sua importância. Enquanto morava na Finlândia, minha vida toda parecia ser um bolo sabor mestrado, mas depois vi que não era bem por aí, então, no momento, mestrado é um pedaço bem pequeno – está bem longe de ser minha prioridade.

Mas e a vida hoje? Atualmente estou trabalhando e ganhando cerca de 35% mais do que ganhava ao sair do Brasil, já levando em consideração a inflação do período (que não foi pouca). Só não acho que isso tenha relação direta com o mestrado, mas com o conjunto da obra. Também atribuo isso a ter ficado com a mente mais aberta e aproveitado melhor minhas opções e oportunidades. E, quando eu finalmente tiver o título de mestre, vou atrás do que esse título pode me oferecer.

E aos quase 30 anos, estou finalmente adultando e pronta para o próximo passo da vida de adulta. Em breve vou riscar alguns itens da listinha que fiz das 30 coisas para fazer antes dos 30 (que vou ter que adaptar um pouco e mudar o antes para até).

All in all, não me arrependo nem um dia de ter decidido retornar, minha vida no Brasil está caminhando muito bem em todas as áreas (quem disse que não dava para ter sorte no jogo e no amor, não é mesmo? Parece que o jogo virou… hahaha) e apesar de eu insistir que a vida não é um fluxograma, eu já tenho uma ideia de onde quero estar em 5 anos e como chegar lá.

E, no momento, a vida de intercambista e “viajadeira” vai parar só um pouquinho. Mas estou feliz, gente, bem feliz! 🙂

 

Do frio finlandês ao calor brasileiro!

 

 

Saudades de Oulu

Há pouco mais de 4 meses eu retornava ao Brasil. Retornava sem medo nenhum de me arrepender e muito certa da minha decisão. Cheguei aqui e não tive nenhuma dificuldade em me readaptar ao país, afinal, já era a 4ª vez que eu “voltava de vez” depois de um longo período morando fora. A única preocupação que eu tinha quando decidi retornar e é a parte que ainda estou me readaptando, por mais triste que isto possa parecer, é com a violência urbana de uma grande capital sul-americana. Embora nada tenha acontecido recentemente e eu nunca tenha sido efetivamente assaltada, eu voltei com muito medo de sair sozinha na rua depois que anoitece e ainda não superei isso. Em Oulu era tudo tão seguro, que eu havia até me esquecido o que é andar na rua à noite e sentir medo, ou o estado de alerta constante de checar se todos os meus “cacarecos” ainda estão dentro da minha bolsa, a ficar atenta e sempre desconfiar de quem está perto de mim na rua. Para vocês terem ideia, eu ainda não consegui voltar a sair com minha carteira na rua. Via de regra, separo uns trocados, documento de identidade e cartão do banco e coloco na bolsa.

E isso me leva ao ponto que duvidei que fosse acontecer tão cedo – o mesmo que fosse acontecer: sentir saudade da pequena Oulu. Não é uma saudade enorme que me faça querer comprar uma passagem e voltar pra lá correndo, mas nos últimos dias tenho lembrado com carinho da cidade e do momento da vida que passei lá e confesso que me sinto muito sortuda por ter tido a oportunidade de morar no Norte do mundo por algum tempo. É claro que essa saudade só aumentou por conta das pessoas que conheço, ainda estão lá e continuam postando lindas fotos nas redes sociais.

Como não sentir saudade de ver uma aurora boreal, né?

Eu sinto saudade de pedalar entres as árvores, de ver o céu colorido num amanhecer qualquer, das belas paisagens formadas pela neve, dos lagos congelados, de ter o aplicativo da aurora boreal no celular aguardando as notificações para poder ir ao lago e ver o espetáculo verde no céu, do silêncio e tranquilidade de uma cidade pequena, da sensação constante de segurança. Nesta época do ano, porém, já não escurece mais e eu não estaria muito feliz sendo privada do meu sono, mas nada nesta vida é perfeito.

Não sei se um dia voltarei a pequena Oulu para matar saudade, mas sei que a cidade tem um lugarzinho especial no meu coração. E sei, também, que a memória da gente tende a se livrar de tudo que era negativo, aumentar o que era bom e assim, a gente romantiza como tal coisa, pessoa, lugar ou situação eram bons! haha… De qualquer forma, eu tenho consciência que nunca morri de amores por Oulu e adorava morar lá porque sabia que seria tenporário, mas sempre admirei a beleza do lugar e é essa a lembrança que guardarei comigo. #saudadesOulu

Dando satisfação

Oi, pessoas que seguem o blog!

Pela primeira vez em mais de 5 anos de blog eu simplesmente sumi! Eu jamais achei que chegaria o momento que eu parasse de escrever no blog, mas parece que esse momento chegou. Como estou há quase um mês sem publicar nada, achei melhor apenas passar por aqui para dar alguma satisfação.

Como contei na última postagem, eu realmente resolvi voltar ao Brasil. Eu preciso dar mais detalhes desta decisão, contar mais algumas coisas de como foi viver na Finlândia por esse um ano e quase meio e também falar do meu mestrado e sua tese, mas por ora, só vou mesmo me justificar sobre a ausência.

Eu voltei ao Brasil acreditando que minha rotina seria de um jeito, mas ela acabou ficando de outro por conta de algumas decisões importantes que tomei. Por este motivo, meus dias andam muito corridos, mas muito corridos mesmo, e eu não tenho ânimo para escrever. Os finais de semana também estão bem corridos, mas por um motivo diferente. De qualquer forma, está difícil separar aquele tempinho de escrever no blog, já que quando ele surge, eu sempre tenho algo mais urgente a fazer. Acho que aos quase 30 anos, eu finalmente estou “adultando” e tendo muitas responsabilidades de gente grande, sabe?

Assim, esta postagem fica para dizer que não, o blog ainda não acabou, mas talvez tenha uma longa pausa até que eu consiga voltar a postar com alguma frequência. Como as visitas diárias ao blog só têm aumentado, mesmo sem postagens novas, eu acredito que este blog esteja sendo útil a almas viajantes e desbravadoras, que buscam mais informação sobre o próximo destino ou uma aventura no exterior. Espero que esses mais de 5 anos de desventuras nas diversas viagens e intercâmbios ainda continuem servindo de inspiração para todos que visitem este singelo blog.

Obrigada, gente, e eu volto a postar aqui assim que tudo se acalmar. 🙂

A decisão de voltar

No início de 2014 eu comecei a sonhar com a possibilidade de fazer intercâmbio mais uma vez, dessa vez fazendo um mestrado. Três anos depois, eu pensava na possibilidade de encerrar mais esta fase da vida.

Como todo mestrado, o de Educação e Globalização também tem a duração de 2 anos ou 4 semestres. As aulas são distribuídas nos 3 primeiros semestres e no último o mestrando fica livre para trabalhar em sua tese. Como não há aulas, muitos mestrandos optam por voltarem a seu país de origem e terminarem de lá. Quando retornei a Finlândia em agosto de 2016, eu não sabia exatamente quando iria voltar ao Brasil, mas sabia que seria antes de maio de 2017.

O que ainda me prendia a Finlândia após o término do 3º semestre era meu estágio. Eu havia começado um estágio no início de 2016, mas com o tempo notei que ele não estava me fazendo aprender nada e eu ainda me sentia como se estivesse fazendo um trabalho qualificado de graça com o nome de “estágio” e sem receber nada por isso. Por isso, desisti do primeiro estágio e fui em busca de outro – e como contei aqui, a ideia era fazê-lo no Brasil, mas com as reviravoltas da vida, acabei fazendo em Oulu mesmo. Quando assinei o contrato, ficou decidido que eu terminaria em janeiro, então já comecei a mexer os pauzinhos para adiantar minha volta.

E por que eu não quis ficar até o final?

Morar na Finlândia como estudante = gastar dinheiro e não ganhar nenhum
Por mais que eu tenha feito alguns “bicos” por lá, não ganhei nenhuma fortuna para ter o suficiente para arcar com os custos de moradia e ainda trazer uns trocados para o Brasil. Ficando lá mais tempo, eu só ia torrar mais grana do Brasil e isso já não fazia mais sentido uma vez que eu tinha o total de zero aulas para frequentar e nenhum vínculo com o país.

Fim das aulas
Como já citei, com o fim dos cursos, minha presença não era mais necessária na universidade. Eu poderia continuar lá e escrever minha tese, mas eu posso fazer isso de qualquer lugar do mundo! Já estamos em 2017 e a tecnologia já ajuda muito: posso consultar artigos online no site da universidade, posso pegar e-books emprestados, posso fazer reunião por Skype com minha supervisora, posso enviar a tese por e-mail e o melhor: na Finlândia não se defende tese como no Brasil. Basta eu enviar para minha supervisora para aprovação, depois passar por um programa de plágio e enviar para a universidade. Não tem necessidade nenhuma mesmo de continuar no país.

Frio
Sim, isso mesmo. Eu detesto frio, eu prefiro um milhão de vezes o calor do Brasil no alto verão do que o inverno finlandês. Não foi o fator decisivo, claro, mas eu já tinha passado um inverno inteiro na Finlândia e não estava feliz com a ideia de ter que encarar um segundo inverno. É lindo? É. É lindo 6 meses do ano? Não. E todo aquele ritual de colocar várias camadas de roupa, gorro, cachecol, luvas, botas e tomar cuidado para não escorregar quando a neve derretia ou pedalar “curtindo” uns -15 graus… eu passo! Se eu posso ir embora antes, por que ficar mais meses vivendo como um pinguim?

Lindo, mas ordinário!

Oulu
Isso mesmo, Oulu é o 3º motivo. É uma cidade linda, juro! Eu realmente acho uma cidade super fofa, cheia de natureza e belas paisagens, mas eu sou de São Paulo e estou acostumada com um estilo de vida nem tão monótono… A cidade era muito pequena mesmo, com poucas opções de cultura e lazer, especialmente no inverno. Para quem é dos esportes, não faltam opções nem no inverno, mas eu, apesar de curtir uma corrida e fazer kung fu, não curtia todos esses esportes de inverno. Sendo assim, a vida social acaba se limitando a frequentar a casa de amigos para comer e beber, ir em um dos dois shoppings minúsculos ou cafés – que nem são tantos assim.

O mestrado não é minha vida
No começo, realmente parecia que o mestrado era minha vida, porque afinal eu larguei emprego e toda uma vida no Brasil para ir pro fim do mundo pra Finlândia estudar. Mas depois de um tempo eu acabei percebendo que minha vida não se resume em conseguir um diploma acadêmico, mas que o diploma é parte de um monte de outras coisas que eu chamo de vida. Uma vez fiz a comparação com um bolo aqui no blog. A minha vida é esse bolo de chocolate com blueberry e cada pedaço desse bolo é uma parte da minha vida, sendo que algumas fatias podem ser maiores que outras, mas todas juntas que formam um bolo. No começo, o mestrado representava quase 100% desse bolo, mas aí percebi que este pedaço estava grande demais e que eu queria cortar o bolo em outros pedaços também. Aí que notei que tem um pedaço para emprego (vulgo “ganhar dinheiro”, porque vivo numa sociedade capitalista, né), um pedaço para vida pessoal, um pedaço para hobbies etc, e que o mestrado não precisava ser um pedaço tão grande que me prendesse na Finlândia e não me deixasse aproveitar o resto do bolo… que estava no Brasil!

E como eu nunca tive planos de morar definitivamente por aquelas bandas, achei que antecipar a volta ao Brasil faria mais sentido. Até porque o tempo que passo no exterior “atrasa” planos que tenho no Brasil. Se não há necessidade de passar mais um semestre fora, “bora” voltar. E voltei.

Conversando com o diretor – Parte 2

A conversa com o diretor foi longa e muito produtiva e com certeza foi mais uma peça para entender o quebra-cabeça da educação finlandesa – não que o sistema seja confuso, mas para nós, brasileiros é tão diferente e cada aspecto que eu “desvendo” vai completando o desenho desse quebra-cabeça.

Crise na Finlândia

Nós também abordamos a recessão no país e seu impacto na educação. Houve sim corte em educação por parte do governo e cabe ao diretor de cada escola “se virar” com o orçamento reduzido. Como não há muito no que se mexer em questão de aluguel e prestação de serviços (restaurante, limpeza etc), o corte acaba sendo em folha de pagamento, ou seja, professores, já que 80% dos gastos da escola é com o salário deles. Com um orçamento menor, a escola acaba dispensando auxiliares de classe, professores especiais ou aumentando o número de alunos por turma. Um exemplo são as aulas de inglês, que é dada por professor especialista. Por ser considerado que é uma disciplina mais desafiadora, a turma costuma ser dividida em duas e cada grupo tem a aula em um horário – por exemplo, a turma A tem aula às 9h da manhã enquanto a turma B, às 14h. Numa situação de contenção de gastos, essa divisão acaba reduzida ou não mais ocorrendo. Os alunos têm duas aulas de 45 minutos de inglês por semana, sendo que uma delas é a turma toda e a outra, a turma dividida e, no futuro, dependendo do orçamento, as duas podem voltar com os grupos divididos ou o contrário, as duas aulas com as turmas cheias.
Ainda, segundo o diretor, no último ano fiscal as 50 escolas de Oulu gastaram 10 milhões de euros acima do orçamento estipulado. Ele não entrou em detalhes sobre a dívida – de onde veio o dinheiro extra, como o débito seria quitado etc.

Aulas

Segundo o diretor, não há um número máximo de alunos por turma estipulado por lei, mas atualmente, o máximo que há na escola é 24 alunos por turma. Ele deixou claro que, dependendo do número de crianças matriculadas ou do orçamento, este número poderia subir.
Não há qualquer tipo de prova até o 6º ano (quando os alunos têm cerca de 12 anos), pois a ideia é que os alunos não precisam ser testados quando ainda são tão novos. Segundo ele, provas serviriam para fazer comparação e nesta idade a criança não tem motivos para ser comparada com os colegas e gerar competitividade desde cedo. O fato é que o povo finlandês é realmente conhecido por não ser competitivo, por não ter essa necessidade de provar que é sempre melhor – vai ver que é por isso que eles são mesmo considerados os melhores do mundo em educação – não estão competindo por este posto, estão apenas trabalhando em educar suas crianças da forma que acham melhor.
Outro tópico abordado foi reprovação. Os alunos raramente reprovam alguma série e quando isso acontece, os pais precisam aprovar a decisão da escola. O diretor contou que em todo o seu tempo de profissão – mais de 20 anos – apenas uma vez precisou reprovar um aluno na escola, mas os pais não concordaram e ele acabou seguindo em frente.

O espaço físico

O diretor também ressaltou que o espaço físico da escola é muito importante no processo de aprendizado. Ele acredita que os alunos precisam se sentir felizes e confortáveis no ambiente onde estão e uma escola feia pode ser desmotivante. A escola onde fiz estágio é realmente um espaço bonito e por ser uma escola focada em artes, os corredores são repletos de desenhos e pinturas feitas pelos alunos. Além disso, eu acredito que o fato de a escola não parecer uma prisão – não tem muros nem grades e as portas não ficam trancadas – colabora muito para essa sensação de bem estar no ambiente escolar. É claro que eu compreendo as diferenças de contexto e uma escola sem muros, grades e portas com trancas em São Paulo jamais seria uma realidade, mas o uso desses sistemas para manter as crianças protegidas dentro da escola também causam a sensação de obrigatoriedade de permanecer num lugar, com horários rígidos de entrada e saída… e quem é que gosta disto? Nós só podemos estar sendo treinado desde pequenos para bater cartão mesmo!

O segredo da educação finlandesa

Para terminar a conversa, eu perguntei se havia um “segredo” para a educação finlandesa ser tão famosa e bem-sucedida nos testes internacionais.  O diretor me respondeu que não há um segredo, mas o que muda é o objetivo. Enquanto os outros países costumam ensinar para os testes (gente, e o que é o Ensino Médio no Brasil se não uma grande preparação para passar num exame, o vestibular?), na Finlândia eles ensinam as crianças para o mundo (palavras dele) e para serem cidadãos… ir bem nos testes é uma consequência, não o objetivo.

Conversando com diversos profissionais da área de educação do país, eu sempre fico com a sensação que eles são felizes na profissão e que nunca enxergam mesmo educação como “metas”, ou seja, como rendimento em testes, mas realmente como um meio para trabalhar em desenvolver certas habilidades nos alunos que serão usadas futuramente. Eu não estou venerando o sistema finlandês e muito menos dizendo que é perfeito e que ele deveria ser copiado à risca no mundo todo para as crianças do mundo inteiro terem boa educação. Eu acredito que o exemplo da Finlândia se baseia em conhecer sua sociedade, identificar seus pontos fracos e trabalhar nisso. Cada sociedade precisa achar seu amigo e é isto que podemos aprender com este país nórdico.