Budapeste, Hungria II

No segundo dia em Budapeste eu combinei de encontrar com uma brasileira que conheci por acaso num grupo de Facebook. A L. foi muito bacana e me deu várias dicas da cidade, além de checar meu roteiro antes de eu chegar lá. Nos encontramos em frente ao “trenzinho” que leva ao topo do lado Buda, mas subimos a pé.

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O tal trenzinho chega a ser uma atração turística, mas o preço do ticket é muito alto se comparado com o valor da tarifa de transporte público da cidade: 1000 florins ou 1700 comprando ida e volta. Claro que é uma opção recomendada para pessoas mais velhas ou com alguma dificuldade de locomoção, porque para ir a pé é uma boa subida, com escadas bem íngremes em alguns pontos – mas a vista compensa o esforço para chegar ao topo da colina de Buda.

O dia não estava tão bonito, mas está a bela visão que se tem da cidade ao subir a pé
O dia não estava tão bonito, mas esta é a bela visão que se tem da cidade ao subir a pé

No lado Buda há várias atrações. Fomos visitar a Igreja de Matias primeiro e o ticket pode ou não incluir subir na torre com guia. O ticket de estudante com tour e torre inclusos custou 2000 florins (uns 6,50 euros). À princípio eu não queria muito entrar na igreja (já falei várias vezes no blog que não sou fã de visitar igrejas, pior ainda quando é pago), mas confesso que me surpreendi. É claro que é preciso muito fôlego para subir os quase 200 degraus (não tem elevador), mas há 2 paradas onde os guias contam um pouco da história do lugar e no topo, vemos o grande sino da torre e de lá dá para ver o telhado da igreja, que é uma atração à parte de tão belo. Além disso, valeu muito a pena porque a visão de ambos os lados, Buda e Peste, é incrível. Ou seja, a pessoa que não gosta de visitar igrejas está recomendando que você visite esta.🙂

A vista do topo da torre da igreja e uma parte do telhado
A vista do topo da torre da igreja e uma parte do telhado

Dentro da igreja tem um museu também e está tudo incluso no ticket.

De lá seguimos para o Bastião dos Pescadores, de onde também dá para ter uma visão do lado Peste e do Parlamento Húngaro. Há também restaurantes e lanchonetes no local.

Bastião
Bastião

Ainda do lado Buda fica a Galeria Nacional da Hungria, um prédio lindo, mas que dispensamos entrar porque estava tendo uma exposição especial do Picasso e eu já havia visitado o Museu Picasso em Barcelona, além de ter ido em exposições em São Paulo. OK, isto pode não ser motivo suficiente para não entrar na galeria, mas não estávamos tão interessados assim e achamos um pouco caro para os preços da cidade, já que para ver a exposição permanente e a do Picasso precisaríamos pagar 3200 florins (10 euros). Estávamos mais interessados em visitar o Castelo de Buda, que fica ao lado da galeria e apesar do nome, não é um castelo! Mas esta atração ficou para outro dia, porque estávamos com fome e resolvemos ir comer no Mercado Municipal.

O mercado
O Mercado

O mercado é bonito por fora, mas eu sinceramente não entendi porque é considerado uma das mais importantes atrações. Não há tantos restaurantes assim de comida típica, os preços são um pouco altos e as filas enormes. Tem muitas lojinhas vendendo artesanato e lembrancinhas que, por incrível que pareça, são realmente mais baratas do que no restante da cidade. No térreo há barracas de frutas, legumes, peixes etc e no subsolo fica o Lidl. A fila para comprar o famoso “langos” estava enorme e optamos por comer numa barraca com menos fila.

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Passeamos um pouco pelo mercado e como não ia mais dar tempo de visitar o Castelo de Buda, resolvemos voltar para o hostel e pegar nossas “roupas de banho” para ir nas famosas casas termais de Budapeste. Há inúmeras na cidade, mas as mais famosas são Széchenyi e Géllert. O valor médio do ticket para um dia é 15 euros em ambas, então decidimos visitar apenas uma e numa decisão meio aleatória, optamos pela última.

A piscina principal
A piscina principal

O spa Géllert fica num hotel e o ticket dá direito a permanecer até o local fechar. Chegamos por voltas das 17h, então ficamos até às 20h. Foi muito gostoso, mas o tempo naquele dia não estava dos mais quentes, então pouco aproveitamos a parte externa que tem uma piscina comum e uma piscina de águas termais aquecidas, além de uma sauna. No interior fica a piscina principal (foto acima), mas para usá-la era necessário usar touca (!!!) e eles cobravam o equivalente a 2 euros por uma touca descartável! Ficamos na outra piscina aquecida mesmo. Há mais piscinas aquecidas e sauna de vapor também. Apesar de ter gostado, acho que teria sido melhor ir na Széchenyi – me pareceu maior e mais turístico. Enfim, quem sabe da próxima vez?

A piscina principal
A piscina principal

Depois de um longo segundo dia que começou com muita caminhada e terminou relaxando no spa, voltamos para o hostel para descansar para nosso terceiro dia na linda Budapeste.

Budapeste, Hungria I

Chegamos em Budapeste um pouco depois da hora do almoço e o tempo estava um pouco feio, meio nublado. O wifi do aeroporto é péssimo, mas já havíamos pesquisado como ir de lá até o centro da cidade e além disso, tem um balcão de informações para o turista muito bom lá: tem mapas, brochuras com sugestões de passeios e como chegar até o centro de transporte público.

Pegamos o ônibus 200E, que sai do Terminal 2 a cada 8 minutos. O ticket unitário custa 350 florins (na época, 1 euro valia cerca de 310 florins) e pode ser comprado no guichê que tem no ponto de ônibus. Caso pague diretamente ao motorista, o valor da tarifa vai para 450 florins. Optamos por pagar ao motorista, porque não tínhamos trocado para comprar do guichê, mas agora fica a dica dada por um brasileiro que conhecemos dentro do ônibus (afinal, minha gente, onde é que não se acha brasileiro neste mundo?) e mora na cidade: compre a opção de 10 tickets, que vale para ônibus e metrô, e sai mais em conta se você for usar muito o transporte público – dá para fazer muita coisa a pé na cidade, mas uma atração ou outra é um pouco mais distante, então pode compensar. Nós compramos 10 tickets para dividir em 2 pessoas e foi o suficiente. Para ter mais informações sobre o transporte público na cidade e de como ir para o aeroporto/centro, veja aqui.

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Os tickets são de papel e não tem catraca nas estações de metrô. É necessário validar cada ticket antes de embarcar e nem pense em tentar viajar de graça: há fiscais nas entradas das estações checando se o ticket foi mesmo validado e caso não tenha ninguém, funcionários do metrô podem solicitar para ver seu ticket validado a qualquer momento.

O ônibus 200E para na estação de metrô Kobanya Kispest, de onde pegamos o metrô até a estação mais próxima do nosso hostel. Não faz sentido nenhum, mas em Budapeste se você mudar de linha (por exemplo, ir da vermelha para a verde), precisa pagar novamente a passagem! Fique atento!

O tempo estava mais agradável quando finalmente chegamos no bairro do hostel e como já era mais de 14h e estávamos sem almoço, seguimos a dica do mesmo brasileiro que conhecemos no ônibus: comer kebab! Há muitos e muitos restaurantes que vendem kebab na cidade e são os lugares mais em conta para uma refeição. Um kebab de frango no pão pita custa, em média, 700 florins (algo em torno de 2,50 euros) e eu achei delicioso.

Kebab e um delicioso chá gelado
Kebab e um delicioso chá gelado

Seguimos para o Amazing Hostel, que eu gostei muito e indico. Fica bem localizado, próximo ao distrito judeu, e de lá fizemos a maioria dos passeios a pé. É um hostel bem pequeno e indicado para quem quer paz e sossego para descansar depois de um dia visitando as atrações. Tem apenas 4 quartos compartilhados e gostei muito que eram apenas 5 camas (e não beliches como em praticamente todos os hostels), havia muito espaço no quarto e um cofre para cada cama. O local era bem limpo e a decoração muito bacana. Os funcionários foram muito simpáticos e nos ajudaram com todas as dúvidas. O hostel aceita pagamento em euros para a reserva, o que nos ajudou muito. O lado ruim é que havia apenas 2 banheiros e mesmo o hostel sendo bem pequeno (calculei que a capacidade máxima fica em torno de 15 pessoa), de manhã tem um pouco de “concorrência” para usá-los.

O hostel
O hostel

Depois de almoçar, ir para o hostel, fazer check-in e respirar um pouco já era 16h. Decidimos, então, visitar a Grande Sinagoga, já que era próxima e ficava aberta até o fim da tarde. Pagamos 2700 florins (aproximadamente 17 euros) para fazer um tour guiado e ter acesso ao museu. Há várias opções de tickets com preços mais baixos ou altos dependendo do que estava incluso. Eu não achei o tour lá essas coisas, mas vale a pena para quem quer saber mais da história e tal.

Por dentro da sinagoga
Por dentro da sinagoga

Aliás, achei muito desagradável no tour que a guia, grosseiramente, me chamou a atenção quando eu tirei minha garrafa de água da bolsa, dizendo que aquele era um local sagrado e eu não deveria comer nem beber. OK, compreensível, mas não havia nenhum tipo de sinalização dentro da sinagoga que avisasse isso e não era como se eu estivesse tomando um refrigerante, não é? Achei péssimo também que, mesmo sendo um tour pago, a guia simplesmente sumiu quando o grupo saiu para os jardins. Ela nos deu algum tempo para tirar fotos e não esperou ninguém que não estivesse na porta quando ela resolveu que era hora de sair. Tivemos que nos juntar a outro grupo para terminar o tour.

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Esta sinagoga é importante porque é considerada a maior de toda a Europa e a 3ª maior do mundo, podendo abrigar até 3 mil pessoas em seu interior. Os jardins são muito bonitos e também abrigam um cemitério onde estão enterrados mais de 2 mil judeus que morreram no gueto entre 1944 e 1945. Há ainda uma escultura, a da foto acima, que é um Memorial do Holocausto e em cada uma de suas folhas tem o nome de um judeu húngaro morto no Holocausto. O museu não impressionou muito e parecia que estava em reforma. Tem mais informações sobre a sinagoga aqui.

Ainda estava claro quando saímos da sinagoga, fomos andar um pouco mais pela cidade e chegamos na Basílica de São Estevão. Infelizmente, chegamos logo depois que a visita a torre foi encerrada, mas ainda deu para entrar na basílica de graça para visitar.

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Andamos mais um pouco até os limites do lado Peste, onde estávamos, e voltamos ao hostel depois de jantar outro kebab – comida tão simples e barata, mas tão gostosa que ainda hoje às vezes me dá uma vontade de comer!

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Começando as férias de verão

Eu gosto de viajar, acho que já notaram. Ao contrário do que muita gente pensa, eu não estou nadando em dinheiro e, portanto, viajo. Eu economizo muito no dia-a-dia e também nas viagens, consequentemente, viajo.

E mesmo com o euro que há até não muito tempo andava na casa dos 4 reais, eu achei muito justo iniciar minha férias de verão da universidade viajando por lugares da Europa por onde ainda não havia passado. E eu só consegui fazer a viagem porque (1) como já contei no blog, eu levo uma vida bem econômica em Oulu, (2) eu consegui alguns euros fazendo uns “bicos” e (3) eu escolhi um destino barato. Como eu sempre digo, eu não escolho para onde quero ir e aí pesquiso preços; eu pesquiso preços e quando acho valores bons para algum lugar onde nunca estive, viajo.

A ideia inicial era voltar a Portugal, aquele país lindo de povo charmoso e comida maravilhosa, mas por ironias da vida, era exatamente o destino mais caro para ir a partir da Finlândia! Até chegar na Grécia era mais barato (país que ainda não visitei). Seguindo a lógica dos destinos mais em conta, achei justo voltar ao Leste Europeu, já que eu amei mesmo visitar a Polônia e poderia conhecer mais da região. E assim fui parar na deslumbrante Budapeste, capital da Hungria, onde fiquei 4 dias e de lá, iria seguir direto para Praga, capital da República Tcheca. Mas analisando o mapa e pesquisando muito no Google vi que Bratislava, capital da pequena Eslováquia e cenário do medonho filme “O Albergue”, ficava no meio do caminho e era bem viável para se fazer uma rápida visita. Então, depois dos 4 dias em Budapeste, rumamos para um dia em Bratislava e, finalmente, terminamos a viagem com outros 3 dias na ensolarada Praga. I regret nothing!🙂

A viagem foi relativamente barata porque viajei no início da temporada de verão (final de maio), mas com temperaturas já bem agradáveis para fugir do frio finlandês. Chequei todos os destinos possíveis e constatei que chegar na Hungria e voltar da República Tcheca era a opção mais barata, além de, claro, os países serem relativamente baratos em relação a outros países europeus. Viena, capital da Áustria, fica na mesma região e os viajantes costumam parar para visitar a cidade também. Eu não a inclui no roteiro porque Viena é uma cidade que merece 3-4 dias, pelo menos, e eu não tinha todos estes dias disponíveis e o que pesou mais mesmo é que não é uma cidade barata e o orçamento não daria conta. Fica para a próxima!

A despedida de Oulu

Os dias já estavam ficando mais quentes e agradáveis, a natureza mais viva e bonita, mas minhas noites de sono inexistentes: não tinha mais noite e muito menos sono. Fiz as malas muito feliz – afinal, eu sabia que voltaria para a pequena Oulu ainda e não tinha o menor clima de despedida. Segui para Helsinki de ônibus, aquelas 8h de viagem que já estou acostumada. Cheguei à meia-noite, passei algumas horas na rodoviária, segui para a estação de trem e finalmente cheguei no aeroporto. Não foi uma boa noite de sono, mas é como sempre digo: você escolhe conforto ou preço e eu, por enquanto, ainda não posso me dar ao luxo de pagar o preço do conforto. Meu voo da Finnair saiu no horário e pouco mais de 2h depois, cheguei na nublada Budapeste.

Spoiler: Budapeste é linda!
Spoiler: Budapeste é linda!

FAQ – Mestrado

Amigos e conhecidos sempre me fazem muitas perguntas sobre o mestrado e acredito que os leitores do blog talvez se perguntem algumas coisas também. Muitas das respostas deste post estão aí espalhadas pelo blog, mas como também recebo emails com dúvidas, achei que seria interessante juntar tudo em uma postagem só.

1. Você foi para a Finlândia pela USP?
Não. Eu me formei na USP (Letras Português/Inglês – Bacharelado e Licenciatura), mas quando finalmente terminei a Licenciatura (em 2014), perdi todo vínculo que tinha com a universidade. A USP não intermediou o processo e muito menos foi a USP que “me mandou” para a Finlândia. Eu fiz tudo por conta própria.

2. Você está na Finlândia pelo Ciência sem Fronteiras?
Apesar de eu já ter ficado sabendo de um caso ou outro de pessoas que foram para o exterior e que são da área de Humanas, o programa não costuma contemplar quem é desta área. Não estou muito informada de como o programa funcionava em detalhes, mas sei que geralmente alunos de graduação que tinham o direito de participar. Eu me inscrevi no mestrado integral no exterior, acho que o programa não contemplava isso. Ou seja, mais uma vez, fiz tudo por conta própria.

3. Você está estudando fora com bolsa, né?
Não, eu estudo fora com minha economias. Eu não tinha nenhum vínculo com nenhuma universidade brasileira e, quando pesquisei, vi que não havia nenhum programa para bolsas de mestrado no exterior. Geralmente tem bolsa quem faz doutorado integral ou sanduíche ou participa de programas de bolsa. Não foi meu caso. Novamente, fiz tudo por conta e dinheiro próprios.

4. Você fala finlandês?
Não! Eu cheguei a fazer curso de finlandês, mas acabei desistindo. É uma língua muito complicadinha, soa feia aos ouvidos (pelo menos, aos meus), é falada apenas na Finlândia e não tinha nenhuma utilidade prática na minha vida. Eu estava muito ocupada com o mestrado e outros projetos e resolvi desistir de aprender o idioma. Eu apenas consideraria aprender se eu resolvesse morar no país depois de me formar – e este não é o caso. Só sei o básico do básico e consigo ler receitas e embalagens de alimento com certa facilidade.

5. Mas então todo mundo fala inglês?
O nível de fluência em inglês dos finlandeses, em geral, é muito bom, embora eles sejam muito tímidos e vão se negar a admitir isso. Eu nunca fui para o interiorzão da Finlândia, mas em Helsinki e em Oulu, consigo me virar tranquilamente falando apenas inglês. Em todo lugar que eu vou, sempre vai ter alguém que se comunique bem no idioma e vai poder me atender ou me ajudar.

6. E o frio?
Faz muito frio no inverno mesmo, sendo difícil ter temperatura acima de 0 entre dezembro e março. Mas tudo é muito preparado para ele e você não sentirá frio se estiver dentro de casa e se sair bem agasalhado. Em Oulu o tempo é seco e quase não venta, então a sensação térmica fica ali com o número que aparece no termômetro. Além disso, ninguém fica na rua mais que o necessário quando a temperatura baixa para os -20 graus. O frio não é nada comparado a escuridão, essa sim assusta.

7. O que você vai fazer quando terminar o mestrado?
Não me levem à mal, mas eu detesto quando me perguntam isso. Já estou morando fora fazendo um mestrado, não estou? Isso já mostra que eu me planejei bem antes de ir e tenho a “vida planejada” pelos 2 anos que ele vai durar. O que vou fazer depois, fica pra depois, certo? Como diria a Mafalda, a vida não é um fluxograma que eu preciso seguir etapa por etapa numa determinada ordem. Não decidi ainda o que quero fazer em seguida. Obrigada.

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8. E vai fazer doutorado quando terminar?
Eu nem escrevi minha tese e já estou em pânico, acham mesmo que estou pensando em fazer doutorado tão cedo? Não sei nem se quero continuar na vida acadêmica.

9. Por que você escolheu a Finlândia?
Eu não escolhi a Finlândia. Eu achei um curso de mestrado que parecia estar dentro do meu perfil e que, por ser gratuito, era um objetivo possível para mim. Se achasse algo nas mesmas condições na Hungria (ou qualquer outro país), eu estaria lá.

10. Você está gostando do mestrado?
Leia este post, este e este.

Estas são as 10 perguntas que mais são feitas para mim em relação ao mestrado. Se faltou alguma que você está curioso para saber, pode deixar nos comentários.

Primeiro ano de mestrado – Parte 3

E finalmente a conclusão da “trilogia” de posts sobre meu primeiro ano de mestrado.

Depois de descrever e refletir sobre o curso e este primeiro ano, qual é minha conclusão? Vou largar tudo e vender minha arte na praia? Vou continuar e ver no que vai dar? Está valendo a pena?

Eu tenho um amigo que faz mestrado em Letras Orientais na USP e já fiz diversas perguntas sobre o curso e não teve como não chegar à conclusão que na USP o mestrado é muito melhor. É claro que a estrutura da Universidade de Oulu não pode nem ser comparada à estrutura da FFLCH ou mesmo da Faculdade de Educação da USP, mas o curso em si é realmente mais “puxado”, organizado e consequentemente, melhor (dando uma explicação bem simplista).

Eu só fui entregar meu projeto de mestrado no início do segundo semestre, em janeiro, e até o momento eu não recebi nenhuma avaliação sobre o projeto e me pergunto: por que raios me deram um prazo para entregá-lo se ninguém iria ler e me dar um retorno dizendo o que ficou bom e o que deveria ser melhorado? Somente nas últimas semanas de aula do segundo semestre que “ganhei” um orientador para minha tese, uma pessoa que, aliás, está sobrecarregada, pois é responsável por toda a Faculdade de Educação e, na falta de outros orientadores, está com vários mestrandos sob sua responsabilidade. Conclusão: jamais tive qualquer reunião com ela para discutir meu projeto de mestrado. Para efeitos práticos de comparação, na USP (ou na FFLCH, pelo menos) todo mestrando já entra com seu projeto pronto e aprovado e com um orientador. Além disso, este meu amigo precisa cursar poucos créditos em disciplinas, que são todas relacionadas com o tema de sua tese e indicadas por seu orientador. O meu curso de mestrado tem disciplinas obrigatórias que nada se relacionam com o tema da minha tese e eu tenho apenas 10 créditos para fazer de optativas – e não tem nenhuma optativa oferecida em inglês que tenha qualquer relação com o tema que escolhi.

Conclusão

Eu não recomendaria este mestrado para quem já tem formação na área de educação, especialmente para quem é formado em pedagogia ou tenha qualquer tipo de educação formal na área, seja só a licenciatura, especialmente se for uma licenciatura na área de humanas. Todos os temas abordados em aulas costumam ser bem gerais e talvez não sejam tão “novidade” para quem já é da área. Eu recomendo para quem trabalha na área de educação – ou tem planos de – e precisa de uma visão mais global e ampla, seja por não ter a formação na área ou para mudar de área. Também recomendo para quem gostaria de trabalhar em projetos sociais ou em ONGs que têm como base a educação de alguma forma e garanto que para este fim, o curso pode sim ser muito bom.

Se eu soubesse antes de embarcar para a Finlândia que o curso seria assim, eu teria ido? Se eu estivesse indo somente por causa do mestrado em si, não, acho que eu preferiria ter ficado e feito o mestrado na USP (e continuar minha história de amor e ódio com esta universidade). Mas eu não fui somente por isso, então respondo que SIM, eu teria ido mesmo assim. Explico. Quando resolvi tentar estudar fora, a decisão foi tomada dando 50% de importância a parte do “estudar” e  outros 50% para a parte do “fora”. Eu queria sair do Brasil novamente, mas queria sair para fazer algo que realmente valesse a pena nessa altura da vida e a única coisa que pra mim valeria seria o mestrado. Não estou nem um pouco arrependida da decisão de ter ido morar, mesmo que temporariamente, de novo no exterior e só por isso eu diria que o mestrado está valendo a pena. Eu realmente não gosto muito do mestrado e 10 em 10 pessoas que me perguntam como “estão os estudos”, antes de ouvirem minhas reflexões, veem uma cara de quem chupou limão primeiro. Por outro lado, olhando o lado prático da vida, quando tudo terminar, eu vou ter um diploma de mestrado em educação emitido no país mais famoso do mundo na área e isso não vai abrir portas, vai abrir portões na minha vida profissional. Se é bom ou não, eles checam depois, mais isto já é um “chamariz” no currículo e não tem quem negue. Eu fiz USP e eu sei muito bem o peso que é ter estas 3 letrinhas num currículo numa seleção – se a USP é boa mesmo ou se eu sou uma boa profissional mesmo é tudo questionado depois. Infelizmente, sabemos que isso conta muito na vida profissional hoje.

Eu não vou largar o mestrado, porque eu acho que já fui muito longe e já investi muito para simplesmente desistir. E pensamento friamente, eu tenho só mais 3 disciplinas para cursar e uma tese para escrever (que não é “só”, gente, eu vou virar uma ermitã assim que colocar em prática o projeto e precisar escrever a tese).

Sei que algumas pessoas podem terminar de ler este relato e ficarem chateadas ou até desmotivadas, mas eu não poderia simplesmente mentir e dizer que tudo é maravilhoso e estou amando. Não seria sincero e eu não tenho motivos para mentir. Gostaria de salientar que este relato é MUITO PESSOAL e outros mestrandos da minha turma poderiam discordar completamente de mim e tecer vários elogios ao curso e à Faculdade. Mas este é meu blog e estas são minhas impressões.🙂

Primeiro ano de mestrado – Parte 2

O post anterior deve ter dado uma impressão que eu estou meio entediada com o mestrado. Seria ótimo dizer que foi só uma impressão.

A universidade e as aulas

As pessoas idolatram e idealizam a Finlândia como o país do milagre da educação. Eu não vou nem entrar no mérito dos exames usados para gerar os rankings – ou vocês acham super normal e justo usar um exame padrão para avaliar países tão distintos como Brasil e Finlândia, por exemplo? -, mas o que as pessoas talvez não notem é que isso se aplica ao ensino básico. Não estou dizendo que as universidades finlandesas não são boas, mas que quando pensamos no tal milagre da educação, isto não inclui o ensino superior. Não vou aqui citar posições em rankings das universidades, porque a colocação pode variar muito dependendo de qual ranking você escolhe, o que é avaliado e quantos países estão inclusos – nada nessa vida é preto no branco.

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A Universidade de Oulu tem uma estrutura incrível e nem poderia ser diferente, já que a cidade é considerada o “vale do silício finlandês”. Não faltam computadores para uso dos alunos, a biblioteca é muito boa e com muitos espaços para estudos individuais ou em grupo, as instalações são ótimas, tem wifi no prédio inteiro, todas as salas de aula têm computador, projetor, aquecimento, ventilação, enfim, tudo necessário para dar condições adequadas a alunos e professores de aprenderem e ensinarem. Mas como a gente sabe, o protagonista ainda é o professor. E aí a coisa pode complicar um pouco.

Eu tive diversos professores enquanto cursava Letras e Licenciatura na USP e 99,9% deles tinha algo em comum: doutorado. É claro que eu sei que a USP não corresponde a realidade do país, mas esta é a realidade de onde eu saí para ir me meter na Finlândia… Para chegar e notar poucos meses depois que a Faculdade de Educação está um tanto sucateada. Cerca de metade dos meus professores são doutorandos e muitos deles ensinam disciplinas não relacionadas com sua área de pesquisa. Veja, eu não estou desmerecendo os professores, até porque admito que alguns deles são realmente muito bons e vão bem preparados para a aula, mas não faz sentido nenhum você colocar para ensinar no mestrado alguém que o maior título “conquistado” é o de mestre. Ou então, pense assim: uma escola de inglês, por menor que seja, jamais vai colocar uma pessoa que acabou de sair do curso avançado ou que ainda não tem experiência como professor para dar aula para a turma avançada. Esta pessoa vai começar com os níveis mais básicos, porque ela não vai dar aula para uma turma que vai ganhar o mesmo certificado que ela acabou de receber. A comparação pode parecer besta, mas é para deixar meu ponto de vista mais claro. E aí eu penso “Poxa, saí do Brasil para ter minhas aulas de mestrado com pessoas que são mestres, enquanto no Brasil eu tinha aula na graduação com doutores. Oi?”

Eu tive professores doutores terríveis na USP, aliás, alguns para serem chamados de terríveis ainda precisariam melhorar muito, mas eram todos pesquisadores que dominavam muito o assunto que lecionavam e nunca deixavam uma pergunta sem resposta. Eu já saí de aulas do mestrado onde perguntas foram feitas e respostas não foram exatamente dadas. Além disso, já foi dito abertamente que porque um professor titular que ministrava as principais disciplinas do curso se demitiu, mestrandos foram escolhidos às pressas para ocupar seu lugar – para lecionar as principais disciplinas do curso. Tirem suas conclusões. Enfim, resumindo: como diz o ditado “diploma não encurta a orelha de ninguém”, mas nem por isso eu acho que é aceitável termos professores no mestrado que são mestres e, visivelmente, estudaram o tema da aula para estar lá lecionando e não dominam o assunto. Não dá para nivelar por baixo. Assim como eu não posso dar aula no ensino regular no Brasil sem ter meu diploma de licenciatura por mais talentosa que eu seja como professora, certas regras deveriam ser seguidas no corpo docente de qualquer curso de mestrado que se preze. E eu não culpo os professores, eu culpo a Faculdade mesmo.

Outro ponto é que o formato de aula da USP é um tanto parecido com o da universidade, o que por um lado é bom, pois não tive dificuldades em me adaptar, mas por outro me faz sentir entendiada. Assim como na USP, a maioria das aulas pressupõe que o aluno tenha lido o artigo escolhido para que haja discussão em sala de aula que é mediada ou guiada pelo professor. O que difere um pouco é que na Finlândia muitas vezes os professores nos separam em grupos para propor estas discussões. Muitos colegas meus ficam admirados que o “aluno tem voz e participa das aulas e que os professores não são os donos absolutos da verdade”. Ehhh… mais ou menos, né, gente?

Há muitas discussões em aula, o que é ótimo mesmo, mas são discussões que, pra mim, soam como mais do mesmo, senso comum, algo lógico e óbvio pra cabeça de uma pessoa que já estudou educação formalmente. Enquanto meus colegas parecem ter insights e epifanias, eu fico pensando no que vou fazer pro jantar, porque não me sinto interessada, desafiada e tampouco na vibe de entrar na discussão. É lógico que eu não sou expert em educação, não sei tudo, não li tudo e tenho muito a aprender (a vida seria muito chata se a gente não aprendesse algo todo dia, não é?), mas é que, no máximo, vejo que as discussões apresentam um outro ponto de vista de um assunto que pra mim já é claro. Nestes casos, me interesso nos primeiros 5 minutos e depois minha mente voa… Finalmente, algumas disciplinas simplesmente não me interessam ou do jeito que são expostas, se fazem desinteressantes.

Nos últimos meses, me perguntei diversas vezes qual era o problema. Eu não tinha a menor vontade de ir a maioria das aulas, os assuntos não me interessavam e eu sentia que nada acrescentava muito à minha formação pelos motivos que eu já citei. Mas ao mesmo tempo, notava que a maioria dos meus colegas de turma pareciam estar tirando proveito da experiência.

Continua…

Primeiro ano de mestrado – Parte 1

É com muita alegria que escrevo um post sobre o fim do meu primeiro ano de mestrado! A sensação que dá é que estou jogando Super Mario (minha referência de video game é só essa – not a gamer at all) e que vou desbravando os mundos. Agora estou no mundo “mestrado” e cada “telinha” é uma parte do curso que eu começo, passo pelos obstáculos – às vezes perco o Yoshi, às vezes sou um mini Mario vulnerável, às vezes tenho a capinha de voar e passo rápido pela tela – e finalmente, vou chegar no grande desafio – entregar a tese – e passar para o mundo seguinte, que eu ainda não sei como ou qual será. O bom de não ter decidido o que fazer depois é que renúncias ainda não foram feitas e há um mundo de possibilidades.

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Com metade do caminho percorrido, esta é uma boa hora para fazer um balanço, refletir e renovar as energias para seguir pelo segundo ano. Eu pouco tenho falado do meu mestrado no blog, então esta é a hora de tirar o atraso e jogar a real.

O sonho do mestrado começou no início de 2014 quando eu fiquei sabendo do curso em Oulu. O ano de 2014 inteiro foi basicamente me preparando para a possibilidade de entrar no programa: juntei dinheiro, pesquisei bastante sobre o curso e preparei minha inscrição. Em 2015, já aprovada, me preparei para embarcar nessa nova aventura, sem saber muito bem como seria, mas muito empolgada por estar indo cursar o mestrado que eu meio que idealizei por tantos meses. O meu primeiro mês na Finlândia foi muito intenso! Muita informação, muitas coisas novas, muitas coisas para aprender, entender, saber lidar e conhecendo gente nova de todas as partes do mundo todos os dias! Eu jamais havia me sentido assim antes e foi bem overwhelming, confesso! Depois tudo entrou numa rotina e pela primeira vez na vida adulta toda, eu me tornei apenas uma estudante (eu fiz USP, mas eu trabalhei praticamente durante minha graduação inteira).

O fator novidade acabou e a adaptação já não era um problema. O que me restou foi uma rotina de semana com aulas e muitas leituras, preparação de apresentações e trabalhos. E aí eu comecei a notar que  o mestrado não era assim exatamente aquela última Trakinas de morango do pacote. É muito simplista resumir minha impressão do mestrado dessa forma, eu sei, mas vou tentar explicar minha percepção deste quase um ano morando em Oulu exclusivamente para me formar mestranda.

O programa

Eu faço mestrado em Educação e Globalização. Isso significa que o tema educação é abordado de um ponto de vista, teoricamente, mais global. Ou, resumindo a descrição do site oficial, o programa foca em ética, currículos, planejamento, avaliação e estudos comparativos em educação, visando capacitar os mestrandos a serem líderes com responsabilidade social nos mais diversos contextos, enfatizando o diálogo entre os 4 cantos do mundo e como a globalização afeta vários setores da educação. Lindo, não? Trocando em miúdos, é um mestrado para quem deseja trabalhar nos “bastidores” da educação, não necessariamente em sala de aula, que é o palco. Eu fiquei encantada, afinal, sempre acreditei que a educação é uma forma de mudar o mundo e fazer a diferença na vida das pessoas e era exatamente assim que eu me via enquanto dava aula – não era uma transmissora de conteúdo, era alguém que poderia, de uma forma ou de outra, fazer a diferença na vida dos alunos. Este mestrado, então, me ajudaria nesta “tarefa”.

O programa na real

Talvez eu tenha ignorado uma informação muito importante: o programa não é exclusivo para graduados na área de educação. Soa meio irônico, sem sentido, mas a realidade é que na minha turma de 15 alunos, tem uma arquiteta, 2 linguistas, uma contadora, um psicólogo, uma tradutora, 2 formadas em administração, 2 formados em literatura e 1 formado em filologia. Fez as contas? De 15, apenas 4 tem estudos formais em educação, eu inclusa. Dentre os 11 de outras áreas, 6 têm alguma experiência em sala de aula, a maioria ensinando inglês a estrangeiros e/ou por pouco tempo apenas. Eu sou licenciada em Letras e professora há quase 6 anos. O que aprendemos com este parágrafo? Que muito ironicamente, meu perfil é bem diferente do restante da turma e sou basicamente a única com formação e experiência na área de educação.

O curso é dividido em major e minor. Major são aquelas disciplinas obrigatórias e o minor pode ser escolhido livremente, mas o minor padrão do curso é em Educação. Eu queria fazer este minor? Não. Eu precisaria fazer este minor? Não. Eu tive outra opção a não ser fazê-lo? Não. Sim, eu poderia ter escolhido outro minor desde que eu falasse finlandês, pois não havia realmente nenhuma outra opção minimamente ligada ao meu mestrado ministrada em inglês. Levei esta questão a coordenadora esperando que ela me ajudasse a achar alguma solução para que eu não ficasse eternamente entediada, mas a resposta não foi muito diferente de “eh, infelizmente, são poucas opções em inglês… eh, você vai ter que procurar algo que te interesse e seja em inglês… eh eh”. Eh, eu estou fazendo o minor em educação. Mas vamos olhar o lado positivo: teria sido muito pior se eu fosse formada em Pedagogia, não é mesmo?

 Continua…