Como eu me sustento na Finlândia?

Já estou morando na Finlândia há quase 8 meses. Tenho visto de estudante que permite trabalhar até 20h semanais legalmente, mas o problema é conseguir emprego sem saber falar finlandês. Impossível não é, mas vai exigir muita perseverança de quem estiver disposto a tentar. E se, teoricamente, eu não trabalho aqui, como eu me viro para pagar as contas?

Como já falei algumas vezes em outros posts, apesar de o país ter sim um custo muito alto de vida, eu dei “sorte”. O custo de vida de Oulu é mais baixo do que de Helsinki, eu moro num apartamento de estudantes com aluguel muito baixo – é menos do que eu pagava em Dublin para dividir quarto -, a internet é gratuita, água e luz estão inclusas no aluguel e enfim, eu consigo me manter gastando bem  menos do que os 560 euros mensais exigidos pela imigração para emitir o visto.

Mas mesmo gastando pouco, eu gasto. E gasto em euros que ainda está na casa dos 4 reais. De onde eu tiro dinheiro? Que banco eu roubei?

Vamos deixar algumas coisas claras:
1  – Eu trabalho desde os 18 anos.
2 – Desde que meu primeiro pagamento eu criei o hábito de poupar. O dinheiro batia na conta, eu separava uma quantia que não faria falta naquele mês e guardava.
3 – Eu sempre tratei meu dinheiro guardado como sagrado: não mexia nele a menos que fosse extremamente necessário.
4 – Eu estudei em universidade pública, eu nunca saí da casa dos meus pais (só nos meus intercâmbios) e eu não tenho filhos e é claro que não posso negar que isso facilitou muito o processo de guardar dinheiro.
5 – Eu nunca me endividei com cartão de crédito.
6 – Eu me permitia alguns “mimos”, como comprar uma roupa ou um relógio de vez em quando, mas apenas se eu tivesse dinheiro para tal. Jamais fiz dívidas de cartão a perder de vista.

Então, num misto de educação financeira e certos privilégios já citados, eu consegui juntar dinheiro. Paguei meu intercâmbio nos EUA assim. Paguei o intercâmbio na Irlanda assim também. E agora que estou na Finlândia, é esse mesmo dinheiro que me sustenta aqui. Eu não comecei a poupar quando recebi o resultado do mestrado ou quando me inscrevi, nem mesmo quando decidi que queria tentar, 1,5 ano antes de vir. Eu poupo dinheiro desde sempre. Não estou concluindo que qualquer um possa fazer isso, como eu já disse, eu reconheço meus privilégios, sendo o maior deles não precisar gastar dinheiro em educação, mas que poupando um pouco todo mês, com tempo e paciência, a gente consegue juntar de acordo com nossas limitações.

Mas agora eu preciso contar que não é só esse dinheiro que me sustenta na Finlândia. Por um acaso enorme, eu consegui um trabalho freelancer aqui que me garantiu alguns bons euros. A universidade, mais especificamente a faculdade de educação, precisava de alguém fluente em português para traduzir dados de uma pesquisa para o inglês. Foram 4 meses de trabalho conciliados muito bem com os estudos. Além disso, como já contei aqui, participei duas vezes do Ravintola Päivä e isso me garantiu alguns euros também. No fim das contas, considerando-se o quanto ganhei e meus gastos mensais, todo este dinheiro junto foi suficiente para quase 5 meses. Eu vou completar 8 meses morando em Oulu.

Vocês sabem que sou professora de inglês, mas talvez você não saibam que eu também sou freelancer. E, no momento, eu tenho dois trabalhos “fixos”, ou seja, eu presto serviço para duas empresas no Brasil, o que significa que todo mês entra dinheiro e, consequentemente, eu não preciso tirar das minhas economias. É óbvio que receber em reais e gastar em euros não é nada legal, não é bom, não é o ideal. Mas eu não tenho planos de imigrar definitivamente, então, se não há trabalho para mim que pague em euros, ainda acho mais vantajoso ganhar em reais do que não ganhar nada.

Resumindo: na falta de bolsa de estudos ou de família mandando dinheiro, eu me sustento na Finlândia com uma mistura de recursos poupados ao longo de anos, trabalhos aleatórios que surgem aqui e trabalhos freelance do Brasil. É o melhor, o ideal? Não sei, o ideal mesmo seria eu ter uma bolsa, mas na impossibilidade de uma, eu me viro como posso e tem dado certo.

Meu conselho é só um: poupe sempre e invista seu dinheiro, nem que você só possa poupar 20 reais por mês. O importante é começar a ter o hábito e aprender a se planejar financeiramente. Eu sei que todos temos nossas limitações, que vai ter mês que as contas vão apertar e não está fácil pra ninguém, mas ao invés de procurar desculpas, procure motivação para tentar. 🙂

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3 comentários sobre “Como eu me sustento na Finlândia?

  1. Seu conselho só não é melhor do que o “use filtro solar”, haha. Você demonstrou em exemplos claros o quanto sua educação financeira te proporcionou fazer o que queria. Aliás, isso entra bastante no campo do planejamento a longo prazo, que é algo que pelo menos no Brasil a gente (de forma geral) simplesmente não é ensinado a fazer.
    Meus maiores “passos financeiros” que foram comprar um carro, sair da casa dos meus pais e vir pra Irlanda foram bastante planejados. Só acho que nossa diferença é que consigo funcionar muito bem quando tenho um objetivo, e “guardar só por guardar” (que pra efeitos práticos a gente sabe que nem é bem assim) não dá muito certo pra mim, falta um pouco de motivação.
    Hats off to you! 🙂

    1. Bia

      Obrigada, Lucas!
      Eu acho que brasileiro, em geral, tem uma péssima educação financeira e a facilidade de crédito no país (que muito difere da Europa, por exemplo) faz as pessoas terem uma falsa sensação de poder de compra e acabam esquecendo que uma hora a conta vem e vem sem dó! Vide essas lojas de departamentos que oferecem seu próprio cartão e permitem parcelar compras em até 8x! Isso só se vê no Brasil!
      Eu entendo perfeitamente a questão de só conseguir poupar quando há um objetivo, afinal, quando a gente sabe que se não poupar o desejo não vai concretizar, a motivação vem, mas no meu caso a motivação sempre foi ter o “plano B” e independente de eu ter algo em mente para o dinheiro, a sensação de saber que em caso de muita necessidade eu teria um pé-de-meia sempre foi meu fator de motivação.

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