Turistando em Dublin

Aproveitei que ficaria dois dias inteirinhos em Dublin para turistar pela cidade. “What?! Mas tu não morou um ano lá? Vai turistar o que?”

Pode parecer muito óbvio que uma pessoa que morou um ano numa cidade tenha conhecido tudo que há nela e dizer que vai fazer turismo soe estranho. Mas encaremos os fatos: nasci em São Paulo e dos meus 27 anos de vida, 25 foram morando aqui. Eu nunca fui ao Mercado Municipal nem ao Jardim Botânico. Deal with that. Não conheci tudo que Dublin tinha a oferecer, porque muitas vezes eu estava com preguiça de sair de casa no frio ou não encarava a vida como uma eterna descoberta irlandesa, afinal, eu morava lá e sempre podia deixar pra semana seguinte… até que o dia de voltar ao Brasil chegou e não deu tempo de fazer tudo.

No dia 1 de janeiro estava quase tudo fechado, mas a fábrica da Guinness estava aberta e esse foi o grande passeio do dia. Eu não bebo cerveja, eu não gosto de cerveja porque acho amargo e não fiz questão de visitar a Guinness enquanto morava em Dublin. Mas voltando para lá como turista, achei que seria uma visita interessante – e eu estava absolutamente certa!

A entrada é bem cara – paguei 16,20 euros comprando online – mas se você fizer uma visita bem feita, vai ficar umas boas 4h lá dentro, então até que vale o preço, ainda mais porque você ganha uma pint, o que por si só custaria uns 6 euros num pub.

Siga as setas!
Siga as setas!

A visita começa contando como a Guinness é fabricada e tudo que está envolvido em sua fabricação. Engraçado é que até o modo como os barris de madeira são feitos é enfatizado. Outro ponto interessante é que até a água que é utilizada na fabricação tem lá seus padrões de qualidade. Aliás, fica a dica, picolé de chuchu, vulgo Alckmin:

O cara estava preparado pra defender até a morte o abastecimento de água para fabricar sua cerveja... e eu aqui bebendo água do volume morte... tem algo errado nessa história!
O cara estava preparado pra defender até a morte o abastecimento de água para fabricar sua cerveja… e eu aqui bebendo água do volume morto… tem algo errado nessa história!

Lá pelo 3º andar, começa o endeusamento de Arthur Guinness e sua família. Sério, eles tratam o cara como uma espécie de padroeiro irlandês! Primeiro Deus, depois St. Patrick e Arthur Guinness. Anyway, o andar que fala sobre ele e a família é muito legal, porque nas paredes há TVs penduradas como se fossem quadros dentro de molduras e em cada “quadro” tem um vídeo contando a história toda. O que me chamou a atenção foi que a senhora Guinness, Olivia, pariu 21 crianças. VINTE E UMA crianças. Não sei vocês, mas quando eu ouço um caso desse não consigo não pensar o que parir 21 crianças não faz com o corpo de uma mulher… Voltando. Destas, 11 crianças sobreviveram à idade adulta e foram elas que deram continuidade ao legado do pai.

Finalmente chegamos ao que interessa: a cerveja. Entramos numa sala cheia de vaporzinho com aromas diferentes de cerveja. Cada botão que se apertava, soltava um aroma diferente em forma de vapor. Nesta mesma sala, colocaram a Guinness em pequenos copinhos para que pudéssemos ir a sala de “prova”. A parte mais legal foi quando o guia disse que “qualquer um que aparente ter menos de 23 anos precisará mostrar o ID. Não se ofendam!” Lá fui eu toda feliz pegar minha Guinness quando a mocinha do balcão me impediu. “Can I see your ID?”. Why not, né, gente? Mostrei e peguei minha mini Guinness.

As olheiras não negam: eu havia dormido apenas 7h nos últimos dois dias! E essa fumaça não é que o você está pensando! hehe...
As olheiras não negam: eu havia dormido apenas 7h nos últimos dois dias! E essa fumaça não é que o você está pensando! hehe…

Na sala seguinte, a guia nos ensinou como se deve beber Guinness e isso foi life changing! Bem, eu não gosto de cerveja e eu sempre achei a Guinness muito amarga! Até então, porém, eu jamais havia bebido uma pint, apenas tinha dado bicada na cerveja alheia e feito careta – tira isso da minha frente! Ela explicou que dar bicadas na cerveja é totalmente errado, pois desta forma, só se sente o amargor. O correto é – prestem muita atenção – respirar fundo, dar um grande gole e soltar o ar enquanto a cerveja é engolida. E juro, quando eu fiz isso eu achei o sabor da Guinness muito agradável! Não testei com outras cervejas para ver se o resultado seria o mesmo, mas acho que se um dia eu voltar a Irlanda, até topo pedir uma Guinness no pub!

Finalmente chegamos ao pub! No penúltimo andar eles dão um mini curso de como fazer a pint perfeita, porque há toda uma regra de como se deve colocar a cerveja no copo! Cada um tem o direito de fazer a sua e beber em seguida.

The perfect pint of Guinness!
The perfect pint of Guinness!

Eles, então, emitem um certificado dizendo que você sabe fazer “the perfect pint of Guinness” e você pode ficar à vontade para saborear sua cerveja. E por incrível que pareça, eu bebi a minha usando a técnica certa e gostei!

Finalmente, no último andar, tem um bar/restaurante de onde se tem uma visão 360º de Dublin. Well, o prédio não é muito alto e Dublin também não tem prédios altos ou atrações turísticas mundialmente conhecidas que pudessem ser vistas de cima, mas de qualquer forma, achei legal ver a cidade “de cima”.

Dublin, prazer!
Dublin, prazer!

Terminada a visita, a ideia era ir aos museus do centro da cidade, mas saí da Guinness quase às 17h, hora que os museus fecham. E como é inverno, já estava escuro também. Voltei para a casa e tive uma noite agradável com todos os envolvidos…

No dia seguinte, sim, fui turistar no centro: passei pelo Stephen’s Green, Grafton Street e Trinity College. Visitei a National Gallery of Ireland, depois o Museu de Arquelogia e, finalmente, o Museu de Artes Decorativas e História. Vale lembrar que os dois primeiros ficam em Dublin 2 e o último em Dublin 7 – e fiz todo o roteiro a pé, o que significa que neste dia andei demais! Todos os museus são gratuitos e cheios de coisa para ver.

Eu até cheguei a dar uma passadinha na Penneys (saudades) neste dia, mas como não poderia gastar muito antes de partir para os outros dois países, me contentei em pegar só o necessário: um par de luvas decentes. Eu tinha um par de luvas de couro que comprei nos EUA por coisa de 10 dólares e adorava! Um belo dia, levando os loirinhos no shopping, enfiei as luvas no bolso do casaco e elas caíram – fiquei bem chateada! Comprei um par por 9 euros achando que eram luvas sintéticas. Quando cheguei no Brasil e fui guardá-las me atento a etiqueta dentro da luva: 100% leather. Eh, dá pra dizer que fiz um ótimo negócio, só resta saber quando terei a chance de usá-las novamente.

Eu morei um ano em Dublin e nunca havia provado o “prato típico” local: fish&chips – eu raramente comia na rua, porque não é assim exatamente barato, então, a oportunidade acabou passando. Neste dia almocei o famoso! Paguei 4,95 euros achando que não me encheria: que engano! Comi até dizer chega e ainda sobrou! Nada de especial no prato, mas agora já posso dizer que comi!

No fim do dia, voltei para a casa da Bárbara exausta! Pedimos uma pizza (então, não estava com saudade de pizza irlandesa, não… haha), tivemos uma noite agradável com o Rick e o R., preparamos nossas malinhas e fomos dormir tarde, mesmo sabendo que às 3h40 acordaríamos para ir para nossa tão falada viagem! hehe…

Eu contra a luz na Grafton. Quem vê pensa que Dublin é ensolarada! hehe...
Eu contra a luz na Grafton. Quem vê pensa que Dublin é ensolarada! hehe…

Once, em Dublin

Eu escrevi sobre o filme Once aqui, antes mesmo de ter vindo para a Irlanda. No Brasil ainda, creio que o assisti 2 ou 3 vezes (melhor rever um bom filme do que perder tempo com um ruim), mas ainda não havia assistido depois de conhecer as ruas de Dublin.

No último final de semana, depois de assistir uma entrevista do Glen Hansard para o The Busking Project, decidi assistir o filme novamente, desta vez prestando atenção nos lugares onde as cenas foram gravadas.

Abre parênteses.
O Glen era um destes artistas de rua de Dublin (assim como seu personagem no filme) e desde a adolescência tocava na Grafton Street para ganhar dinheiro. Busker, em inglês, significa músico de rua e o The Busking Project entrevista artistas de rua do mundo todo e, inclusive, o projeto tem planos de passar pelo Rio de Janeiro. Para quem admira o trabalho do Glen, aqui está a entrevista. O vídeo está sem legendas, mas o sotaque irlandês dele não é tão difícil de se entender. Se gostar e quiser assistir outra entrevista bem bacana com ele, clique aqui.
Fecha parênteses.

O filme começa com o Glen tocando numa rua. Opa, eu conheço esse lugar! Ele está na Grafton em frente a Dunnes Stores.

Se liga no jeito de knacker do cara aí do lado!
Se liga no jeito de knacker do cara aí do lado!

O rapaz que rouba o dinheiro tem o jeito de falar dos knackers. Que jeito? Bem, não sei explicar, mas os tais knackers têm um jeito diferente de falar, um sotaque bem peculiar. Ele rouba as moedas e sai correndo para um parque… calma aí, é o Stephen’s Green Park!

Stephen's Green Park e o Stephen's Green Shopping Centre ao fundo. Já passei muito por aí!
Stephen’s Green Park e Stephen’s Green Shopping Centre ao fundo. Já passei muito por aí!

A maior parte das cenas de rua em que ele toca foram gravadas na Grafton Street mesmo, que termina no Stephen’s Green Park. A cena em que a moça tcheca o conhece também foi gravada lá. Aliás, ela está segurando uma revista e até pergunta se o músico gostaria de comprar um exemplar, a Issues.

Issues... Big Issue!
Issues… Big Issue!

Aqui na Irlanda (e não só) tem uma revista, a Big Issue, que é produzida para ajudar moradores de rua e pessoas sem condições financeiras de se manter. Basicamente, o lucro da venda da revista vai para quem vende. A tcheca do filme é uma moça sem condições que vende flores na rua e faz faxina para sustentar a mãe e a filha pequena e está vendendo a revista para complementar a renda. Não sei se o nome foi trocado no filme ou se o nome da revista mudou, mas a ideia é a mesma.

Mais adiante, depois que já viraram “amigos”, os dois pegam ônibus. E reconheço o estofado azul com estampas coloridinhas dos ônibus de dois andares de Dublin. O filme é de 2006, mas 7 anos depois tudo continua igual.

Dublin Bus
Dublin Bus

Finalmente, a cena que reconheci e fiquei de queixo caído foi esta:

Mountjoy Square
Mountjoy Square

Esta é a Mountjoy Square, onde eu morei assim que cheguei em Dublin! Algum de vocês já morou em algum lugar que já foi cena de filme? 😉 Eu já! #esnobe

A Mountjoy Square é tão famosa que tem até artigo no Wikipedia aqui. Mas hoje em dia não tem tanto glamour, já que é essencialmente ocupada por estudantes, imigrantes e irlandeses de baixa renda, além de ter a fama de ser frequentada por knackers, embora eu nunca tenha visto nada. Ah, e os ônibus da cidade continuam como o que aparece na cena, amarelos com detalhes em azul.

Um fato que me chamou muita atenção no filme é que não há cenas na chuva, muito pelo contrário, em várias cenas o que se vê são dias ensolarados (ensolarados padrão Irlanda). Tentei achar naquele que tudo sabe, o Google, quando o filme foi gravado e num site dava a entender que havia sido em janeiro. A questão é que se o filme foi gravado em 2006 e lançado num festival de cinema local em julho do mesmo ano, ele não foi gravado no verão. Então, das duas uma: ou eles tiveram muita sorte de terem começado as filmagens numa semana em que os leprechauns estavam de bom humor e o sol apareceu ou eu que estou tendo muito azar com esta Dublin fria! Ok, ok… falando a verdade, há umas 3, 4 semanas, o tempo estava bacaninha aqui. Anyway, Dublin na maioria das vezes está nublada, quando não, chuvosa, e no filme não se vê muito isso.

Foi muito bacana rever o filme e reconhecer ruas que fazem parte do meu dia-a-dia por aqui. Se você já mora em Dublin ou mesmo que ainda esteja só pensando em vir para cá, vale a pena assistir Once. Na verdade, o filme vale a pena ser assistido por qualquer um! 😉