É dia a noite inteira!

– Beatriz, é dia a noite inteira!
– Como assim, F.? É dia de noite?
– Ehhh (com cara de maravilhado). Fica claro a noite toda.
– Ahhh… Quando você acorda está claro?
– Tá, sim!
– E quando você vai dormir está claro?
– Siiiim! (super cara de maravilhado).
– Poxa, que coisa incrível, né, F.? Não existe mais noite…
– Tô te falando, Beatriz!

F., 3,5 anos, acorda todos os dias entre 7h e 8h da manhã e vai dormir às 20h, ou seja, acorda depois que o sol nasceu e vai dormir antes de o sol se por. E esta é a conclusão óbvia, né: não existe mais noite! 🙂

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Onze meses de Irlanda

Longe de casa há 335 dias.

“Mas você já morou fora antes, já sabe como é, está acostumada”, todos dizem. A gente não se acostuma com a saudade e com a falta que faz viver longe de onde cresceu. Não eu. Eu me adapto muito fácil, foi assim nos EUA, está sendo assim aqui, mas eu sempre digo que eu só suporto estar longe do meu mundo porque sei que tem prazo de validade: um dia eu volto. Contraditório, eu sei.

No meu ano na Obamaland nos EUA eu percebi como era flexível e que eu, com 20 anos, já conseguia ser um tanto quanto responsável. Mas eu tinha casa, comida e roupa lavada (por mim, mas tinha) e minha preocupação era “só” cuidar das crianças (uma baita responsabilidade). Na Irlanda eu aprendi a pagar todas as minhas contas, a me preocupar com meu café-da-manhã, almoço e janta, a não me preocupar a que horas chegaria em casa, a cozinhar (não morri de fome nem emagreci, logo…). Eu não precisava sair do Brasil pra isso – era só ir morar sozinha- mas em terras tupiniquins eu teria tudo fácil (família, amigos, realidade que eu conheço) e aqui eu cheguei sem nada.

Foram onze meses bons e ruins ao mesmo tempo. As coisas ruins eu levo como aprendizado e algumas delas vão virar histórias engraçadas em roda de amigos em algum tempo. As coisas boas vou lembrar nostalgicamente no futuro.

Em onze meses eu perdi o medo da chuva (e matei minha vontade de ter galochas enquanto me desfiz do guarda-chuva- touca na cabeça é vida); controlei meu consumo de doces (o que não é nada fácil morando num país onde chocolate é barato demais e o Tesco vende mousse a 1 euro); troquei a Smirnoff Ice pela Kopparberg; não aprendi a beber cerveja; saquei que se a vida é minha e eu pago as minhas contas, ninguém tem nada a ver com a  roupa que eu uso (me deixa ir no mercado de pijama, ok?); que eu não nasci para passar frio; que eu não tenho mais desejo de ver neve; que a melhor comida do mundo é a do Brasil; que o motorista do ônibus ouve Beatles e Alanis; que roda de samba aqui é música celta com jeito de Senhor dos Anéis (filme que, aliás, eu nunca vi); que irlandês deve ser um pouco triste por achar que 20 graus é calor; que violência tem em todo lugar, até em Dublin (destruí seu mundo!); a valorizar imensamente um lindo dia de sol; que a marca do mercado é, na maioria das vezes, tão boa quanto a marca cara; a parar de converter do euro para o real; que se eu não fizer, ninguém vai fazer por mim; que eu gosto mesmo é de São Paulo, com todos os seus prós e contras.

Quem diria que eu poderia aprender tanta coisa em tão pouco tempo?

O verão irlandês

Se te disseram que aqui na Irlanda faz muito frio por muito tempo, que os dias são quase todos cinzas e o verão é um mito, acredite! Não ache que só reclamo, eu até curtia um friozinho, mas os sete-quase-oito meses de frio constante irlandês foram demais pra mim! 😦

Mas havia boatos de que o verão era quente. Na verdade, o verão não é frio, quente não define o tempo por aqui. Mas um milagre (?) aconteceu no começo do mês: 10 dias seguidos de tempo bom, sol e temperaturas de até 20 graus. Pela reação dos irlandeses, ficou óbvio que o acontecimento era raro. Um jornal local até publicou uma matéria bem engraçada dando conselhos de como lidar com um tempo magnífico por muito tempo. Segundo o artigo, há 7 estágios no processo: 1- Surpresa (Que estranho, está ensolarado!); 2- Deleite (Sol, sol, seu lindo!); 3- Aproveitar como se não houvesse amanhã (Preciso fazer tudo que planejei há anos para um dia de sol); 4- Planejamento (Vou pescar, vou a praia, vou fazer um churrasco, vou pegar um bronze natural…); 5- Confusão (Que estranho! Uma semana sem céu cinzento); 6- Esperança (Poxa, será que ainda dura muito?) e 7- Medo (Será que vai durar muito? Não tenho roupas pra tantos dias de sol!).

E, de fato, tivemos 10 incríveis dias de tempo bom. As sorveterias estavam lotadas, os parques disputadíssimos, pessoas saindo com seus cachorros na rua, playgrounds lotados… Foi engraçado ver irlandesas no parque de biquini tomando sol, muito estranho.

Sem contar as reações engraçadas da família para qual trabalho. No 3º dia de sol, a B., mãe das crianças, chegou em casa com uma piscina inflável para os meninos, afinal, estava fazendo sol e 18 graus, né? Estava na cozinha enchendo a piscina e olhando para mim, se explicando “Sabe, Beatriz, não temos muitos dias assim, então, quando acontece, aproveitamos com todas as nossas forças.” Não consegui segurar o riso de quem vem de um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, né? No dia anterior, fazendo incríveis 17 graus, a B. me diz que está abafado para ela e pergunta se eu também me sinto assim. “Abafado? Mas não está nem quente ainda.” Sei que fui má, mas 17 graus eu ainda estou usando uma casaco leve, né? Eu já havia sido ainda pior uns dias antes, quando cheguei na casa num dia ensolarado e fazendo uns 12 graus, o K. me diz que o tempo está bom e indaga se no Brasil fica melhor. “Isso é inverno em São Paulo.” E o K., desolado, “Ahhh… esse é basicamente nosso verão.” Dá dó.

Mas para pagar minhas língua cheia de maldades com o povo irlandês, resolvi aderir à moda de pegar sol no parque. Na verdade, fui andar de bicicleta no Phoenix Park, o maior parque da Europa, e resolvemos relaxar um pouco na grama depois. Eu estava com um top de academia por baixo da camiseta, tirei e me esparramei na grama por uma meia hora, no máximo. Resultado: estou até hoje com uma marca super sexy do top nas costas. Sem contar meu braço que ganhou uma marca branca de relógio (vergonhoso, vergonhoso!).

Mas o verão irlandês chegou ao seu fim e tivemos que guardar todas as roupas de verão no fundo da mala novamente. Porém, hoje é oficialmente o início do verão no hemisfério norte. Só que o céu estava assim hoje de manhã:

Cadê o verão?
Cadê o verão?

Mas o tempo aqui é um tanto bipolar, especialmente nesta época do ano e até os irlandeses brincam com isso:

Bipolaridade pouca é besteira!
Bipolaridade pouca é besteira!

Mas para não ser injusta, à tarde o sol apareceu e até chegou a 18 graus. Claro, lá pelas 19h, choveu e agora venta muito. Adoro a constância.

Blue sky
Blue sky

Com o verão, os dias ficam mais longos. Tem amanhecido por volta de 4h e pouquinho da manhã (Bia, a coruja) e pouco depois das 22h ainda é possível ver alguns raios de sol. E isso é bom, exceto pelo fato de nos confundir um pouco, pois olhar pela janela às 21h e estar completamente claro dá um nó no cérebro.

E para terminar o post, uma historinha:

Era uma vez um brasileira que decidiu passar um tempo na Irlanda. Um dia ela estava no ponto de ônibus e um irlandês puxa papo, claro, falando sobre o tempo. “Antigamente tínhamos verão por aqui (oi?), mas agora é esse tempo estranho. Mas ainda assim esquenta e faz entre 17 e 20 graus no verão.” A brasileira reflete por 1 segundo e diz “Mas 20 graus não é verão”. E seu lugar no inferno está garantido, afinal, ela gosta de calor mesmo.

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Nove meses de Irlanda

Mais um mês na terra dos leprechauns! Meu humor mudou muito desde o post de oito meses… passei de um “quase renovo o visto para ficar mais um ano” para um “falta muito para eu voltar para minha terra?”

De repente, a Irlanda perdeu o encanto. Claro que alguns fatores contribuíram para isso, mas nada que eu já não houvesse notado antes. Simples e literalmente, um dia acordei de “saco cheio” e este feeling não passou ainda.

Dentre os motivos:

Frio! Sim, eu sabia que aqui fazia frio, mas eu não imaginava que fizesse tanto frio e por tanto tempo. As temperaturas só começaram a passar de 10 graus há uns 10 dias e fazia frio desde setembro. Foram 7 meses de muito frio e agora está apenas frio. Eu não lembro mais o que é sentir calor, eu não sei mais o que é sair de camiseta na rua, usar rasteirinha ou usar um vestido soltinho.

Dias cinzas. O clima influencia nosso humor, mas só notei isto de fato aqui. A maioria dos dias são cinzas, nublados ou com cara de poucos amigos. O sol sai um dia ou outro e nem sempre fica o dia todo. Passar dias sem ver raios de sol deprime. E você só percebe que era isso o que te deprimia quando finalmente chega aquele dia que o sol brilha sem nuvens o dia todo.

Típico céu irlandês
Típico céu irlandês

Sotaque irlandês. Não, eu não gosto do sotaque deles, de nenhuma região (pois apesar de ser uma ilha com pouco mais de 4 milhões de habitantes, há inúmeros sotaques até mesmo em Dublin). Ainda hoje me pego dizendo “Sorry” por não entender o que me dizem, algo que raramente eu fazia quando morava nos Estados Unidos. A pior parte é que não tive como evitar a mudança no meu inglês: substitui várias palavras no meu vocabulário e passei a “enrolar” menos a língua para falar. Não é pants, é trousers. Não é diaper, é nappy. Não é sneakers, é trainers. Agora eu ando falando waTer, liTTle, beauTiful, nada daquele som de “r”… Quando cheguei por aqui, era comum ouvir os irlandeses me dizendo que eu tinha sotaque americano (leia-se “sotaque brasileiro com traços americanos”). Não sei se isso ainda se aplica.

Sem motivos nem objetivos. Fiquei me perguntando porque estava morando na Irlanda. Aprender inglês? Não. Melhorar o inglês? Também não. Juntar dinheiro? Estudar? Não. Vim para cá para ter mais experiência no exterior e viajar. Experiência, ok. Viajar? Não viajei tanto quanto gostaria ainda.

Rotina. A rotina também tem seu papel. Acordo cedo, trabalho, chego cansada, tomo banho, janto e durmo. Os finais de semana não têm tido tantas novidades também.

Mas a Irlanda tem coisas positivas também, claro, acho que apenas estou vendo o copo meio vazio ultimamente. Talvez meu humor tenha mudado até o post de 10 meses. 😉

Comprovado: neva de verdade em Dublin!

Dizem que nevou muito aqui em Dublin no inverno de 2009/2010, mas que depois disto a neve nunca mais foi vista. Teve um ensaio de neve dia desses (contei aqui), mas não foi nada demais, parecia mais gelo de freezer do que neve. Embora as previsões que falei a respeito neste post aqui dessem conta de um inverno super gelado, não foi bem isso o que tivemos, muito pelo contrário, nas últimas semanas o sol até deu bastante as caras, apesar de as temperaturas não passarem muito dos 6, 7 graus.

Na semana passada, checando a previsão do tempo no celular, vi que havia previsão de neve para ontem e hoje. Olhei e pensei “Pffft, neve? Ah vá!”, porque já havia visto previsões antes e nada de neve cair.

Hoje acordei às 6h00, como de costume, e chequei a temperatura: -1 grau com sensação térmica de -11. A sensação térmica sempre é mais baixa por aqui, mas nunca tinha visto um número tão baixo. Saí de casa e vi um pouco de neve pelas ruas e o vento, bem, o vento quase me carregou até o ponto de ônibus.

Cheguei na casa da família, aqueles lindos para quem eu trabalho, e quando olho pela janela vejo tudo ficando branco!

Tudo branquinho!
Tudo branquinho!

Nevou por 20 minutos sem parar e, finalmente, a neve acumulou na rua. Pouco depois, o sol apareceu e a neve derreteu, mas o dia todo ficou neste “neva, não acumula neve no chão”. E o frio e o vento estavam impressionantes hoje!

Quase não ficou neve para contar história!
Quase não ficou neve para contar história!

Não há mais previsão de neve esta semana, mas pelo menos tive o gostinho de ver uma neve digna nesta cidade! 😉