A entrevista

No dia e horário marcados (que eu me certifiquei se estava correto, afinal marcaram no horário de Oulu, onde é 6h mais tarde que aqui), lá estava eu pronta para ir trabalhar, porém tinha uma entrevista por Skype a ser feita antes. Avisei no trabalho que talvez chegaria um pouco atrasada naquele dia e me preparei psicologicamente.

Às 8h30 em ponto eu liguei para o usuário de Skype da universidade morrendo de medo já. Uma das professoras do curso atendeu a ligação e apresentou sua colega de entrevista, uma doutoranda japonesa que havia cursado o mesmo mestrado e dado continuidade aos estudos em Oulu.

Eu tentando agir naturalmente ao começar a entrevista no Skype
Eu tentando agir naturalmente ao começar a entrevista no Skype

Já de cara eu senti um clima de descontração e a primeira pergunta foi um quebra-gelo mesmo: queriam saber como eu tinha conhecido o programa e por que eu havia me candidatado. Eu expliquei que era professora, que sempre gostei da profissão e via o mestrado como uma ótima oportunidade de continuar minha formação acadêmica/morar fora novamente. Já aproveitei o embalo para mencionar que havia morado no exterior – não sei porque, mas sempre acho que isso conta pontos na vida – e elas me perguntaram como havia sido a experiência, especialmente sobre a vida nos EUA, já que, segundo elas, eu era muito novinha quando fui pra lá (tinha 20 anos). Expliquei que foi uma experiência maravilhosa e sei lá eu porque, destaquei a questão do frio como um desafio vencido – acho que para mostrar que mesmo sendo de um país tropical eu soube lidar bem com realidades diferentes da minha – e, obviamente, elas já me jogaram na cara a fria (perdão, não resisti) realidade que vai ser Oulu no inverno e me perguntaram como eu ia lidar com isso. Eu devolvi no mesmo nível: morei na Irlanda, um lugar tão frio que até urso polar usaria gorro. E elas devolveram com um “eh, não é só um país frio, mas muito úmido, o que faz a sensação térmica ser muito mais baixa”. Adoro quando as pessoas me compreendem. Brigada eu.

Terminando o quebra-gelo, já partiram para minha intenção de pesquisa e pediram para eu explicar melhor. Desenvolvi minhas ideias tentando deixar bem claro o porquê eu escolhi o tema e como eu achava que ele era relevante, já que eu via esta questão dando aula e queria discutir a diferença entre o Brasil e a Finlândia neste aspecto (calma, eu vou explicar meu projeto futuramente).

Depois me perguntaram qual era minha intenção ao terminar o mestrado e voltar ao Brasil. Fuén, sei lá, não refleti sobre isso, não sei dizer exatamente o que quero fazer quando voltar, mas acho que o caminho mais lógico seria começar carreira em universidade, então disse que iria voltar e dar aula em faculdades particulares. Pronto, aí dei pano pra manga, pois a isso se seguiu a seguinte observação/pergunta delas:

“Interessante. Você veio de uma universidade pública, mas pretende dar aula numa universidade particular e, inclusive, você trabalha no setor privado! Como é isso? Por que você não tem a intenção de dar aula em faculdades públicas?” Ou seja, por que eu tive toda uma educação “gratuita” (paga com os meus e os seus impostos, o ICMS para ser mais exata) e não queria retribuir isso na mesma universidade pública. Aí lá vai eu tentar explicar a loucura que é o sistema de ensino brasileiro, como funciona o processo para entrar numa faculdade pública como professor e como a USP está sucateada e malemal contratando gente, por exemplo. Não é fácil assim.

Aí caímos na questão de alunos de escolas particulares que ocupam a maioria das vagas das universidades públicas e os das públicas que se matam para pagar uma particular e toda a incoerência do processo. No fim, a professora finlandesa disse que apesar de já ter noção que o ensino no Brasil funciona assim – já havia recebido brasileiros no curso antes – ela não consegue compreender isso tendo sido educada na sociedade que foi. E eu disse que nem tendo sido educada nesta sociedade eu entendia também e que, infelizmente, eu era uma exceção, já que fui uma aluna da rede pública por toda vida e entrei na USP. Até falei que a gente tem programas e tal para facilitar o acesso ao ensino superior, como o ProUni (que agora não vem ao cado minha opinião) e foi isso.

Para finalizar, pediram um pouco mais de detalhes da minha pesquisa de mestrado. Perguntaram se eu tinha alguma dúvida. Não. Destacaram então que o curso era em período integral e que embora meu visto fosse permitir que eu trabalhasse, eu não deveria contar com isso, mas estar preparada para me bancar, já que a universidade também não me daria nenhum tipo de assistência – que o curso já era free.

A professora finlandesa, antes de se despedir, disse que havia gostado muito da minha intenção de pesquisa e que havia muitas oportunidades dentro deste campo no mestrado e foi isso. Me desejaram boa sorte e desligaram, usando 28 dos 30 minutos previstos para a entrevista, que foi mais mesmo uma conversa.

Eu estava muito nervosa, muitas palavras sumiram da minha cabeça e em alguns momentos eu até fiquei com receio de estar enchendo linguiça e me repetindo. Eu senti um clima muito informal mesmo e um foco diferente ao que é dado no Brasil: aqui sinto que sou um papel com minha formação acadêmica, títulos e projetos – eles não estão interessados no meu perfil, mas na minha produção acadêmica. Nesta entrevista eu senti que eles tinham interesse no indíviduo Beatriz: quem é, o que faz, onde vive? Por que escolheu ser professora e fazer mestrado na terra do Papai Noel? Hoje, no blog Um Fabuloso Destino. Piadas à parte, senti um interesse nas minhas ideias, visão de mundo e na minha contribuição para o curso – afinal, partem do princípio que os mestrandos não vão só aprender mas também ensinar, já que ensino é isso mesmo: uma troca!

Fiquei um tanto eufórica o resto do dia e fiquei ansiosa pelo resultado, que saiu duas semanas depois.

O resultado

Eu sei que já dei spoiler do resultado logo no primeiro post sobre a Finlândia, mas mesmo assim o processo todo merece uma explicação.

As inscrições de mestrado seriam avaliadas da seguinte maneira:
Fase I: documentos
Fase II: entrevista

Na fase I, cada candidato poderia fazer até 18 pontos, sendo 6 pontos para o currículo como um todo e sua relevância para a área do mestrado e neste caso, como eu já expliquei antes, quem já tem formação em Educação ganha mais pontos do que quem é de Humanas, e formados em todas as outras áreas ficam na lanterninha; outros 6 pontos para a carta de apresentação (viram a importância de rasgar seda?) e mais 6 pontos pela relevância da intenção de pesquisa.

E o currículo e as cartas de referência? Bem, eles não contam pontos nesta fase, mas servem como base para a entrevista da fase II, se for o caso.

Nesta etapa, eles selecionariam, no máximo, 60 inscritos para a fase II, uma entrevista de 30 minutos presencial (se a pessoa já estiver em Oulu) ou por Skype.

Um dia, em fins de março de 2015, a Bia acorda com a cara amassada linda e enquanto toma coragem para levantar e se arrumar para trabalhar, pega o celular como de costume e vê suas notificações (a viciada em tecnologia). Na caixa de entrada havia um email com o seguinte assunto em letras garrafais “INTERVIEW INVITATION”. Estavam me dando os parabéns por ter passado para a segunda fase e a data da minha entrevista com o usuário do Skype que eu deveria ligar. Fiquei meio sem reação, afinal, mandar uma inscrição de mestrado para uma universidade europeia é uma coisa, saber que você está halfway there é outra completamente diferente.

E levantei da cama assim.
E levantei da cama assim.

A entrevista seria em menos de duas semanas e eu não fazia ideia do que iriam me perguntar – nunca tinha feito nada parecido na vida! Achei que deveria ler novamente tudo que escrevi na inscrição e responder as perguntas de forma mais honesta possível.

A entrevista vale 10 pontos e para ser aprovado, o aspirante a mestre deve fazer, no mínimo, 5 pontos. A entrevista serve para tirar dúvidas que possam ter surgido no application, checar se a pessoa tem aptidão para a área de educação e consegue discutir o conteúdo do programa de mestrado, a motivação e relevância da intenção de pesquisa e, finalmente, se o nível de inglês está de acordo com o exigido, já que o mestrado é no idioma.

Aliás, isto me chamou atenção: normalmente, as universidades já na inscrição exigem algum certificado de proficiência em inglês, que varia de universidade para a universidade, mas na Europa o mais comum é o IELTS – que eu não tenho. Algumas também aceitam CAE e CPE. Já eles foram muito mais práticos que teóricos: não quero ver um pedaço de papel provando que você sabe falar inglês, quero ver na prática se você sabe ou não. Se não souber se virar nos 30, você é simplesmente tirado da “competição”.

A entrevista durou meia hora e acho que merece um post só para ela, então vamos continuar com a história.

O resultado final sairia em duas semanas e eu confesso que estava tranquila. Estava realmente na vibe de “se passar, passou, se não, seguimos com a programação normal da minha vida”. Eu realmente estava okay com ambos resultados, porque mesmo que não tivesse passado, já estaria feliz de saber que uma universidade europeia havia me considerado como possível estudante e se não, a vida no Brasil estava muito bem, obrigada.

O dia previsto para sair o resultado era 21 de abril, então fiquei aguardando o email como das outras vezes, mas não recebi nada. Então, no dia 22 mandei um email para a coordenadora do curso perguntando se o resultado já havia saído e ela me responde começando com “Congratulations” e enviando o link para checar a lista no site do curso. Li este email na mesma situação do anterior: deitada na cama tomando coragem para levantar e encarar a vida. Aí eu sentei e fiquei minutos olhando para o nada, tentando acreditar no que tinha acabado de ler. O processador deste cérebro aqui não estava conseguindo mesmo processar essa informação e foram muitos e muitos minutos sentada de pijama e descabelada na cama tentando compreender o que estava para acontecer – ah, cheguei atrasada no trabalho, mas não estava nem aí também – eu ia pra Finlândia!!!

No próximo post conto como foi a entrevista por Skype e depois, toda a novela para deixar tudo certinho para embarcar!

[Todas as informações que dei neste texto estão, em inglês, aqui.]