Os incomodados que se mudem

Eu deveria ter contado isso no blog há uns bons meses, mas fui acumulando posts de viagem e quando me dei conta, a história passou e eu não contei. Antes tarde do que nunca, fiquem com o post meio no estilo “Casos de Intercâmbio” e percebam que nem tudo é flores quando a gente resolve morar fora. Neste post inteiro eu vou chamar as envolvidas de finlandesa e iraniana para ficar mais fácil de seguir a história. E senta, que lá vem história.

Eu contei aqui no blog como foi para conseguir uma vaga em república em Oulu e eu confesso que não fiquei pensando quem seriam as pessoas que morariam comigo. Aliás, eu não fiquei pensando como seria morar em Oulu at all.

No dia que cheguei conheci uma das flatmates, a R., uma finlandesa de 19 anos que havia acabado de começar sua graduação em Educação. Ela foi bem receptiva, mas havia se mudado para o apartamento apenas uma semana antes de mim e me disse que a outra menina estava viajando, mas que ela parecia “uma pessoa bacana”, isto dito com um sorriso meio amarelo. A outra menina chegou e conheci a iraniana que estava fazendo doutorado em algo x que eu não me lembro. Ela se apresentou cheia de sorrisos e ficou por isso.

A casa estava cheia de decorações bregas de gosto duvidoso, como luzinhas de Natal em agosto (algo que eu não curto nem em dezembro), arranjos caindo do teto que pareciam ter sido feitos por crianças de 5 anos, posteres de paisagens americanas e cartões pregados na geladeira.

Sintam. O. Drama.
Sintam. O. Drama.

A finlandesa e eu, novas moradoras, não curtimos muito esta decoração já que concordamos que a área comum deveria ser algo clean, e enfim, cada uma tinha um quarto enorme para decorar como bem entendesse. Além disso, esta decoração não tinha significado nenhum para nenhuma de nós duas. A iraniana morava lá há um ano, mas eu parto do princípio que se todo mundo paga o mesmo valor de aluguel, não tem dessa de morador antigo ditar regras e então a finlandesa e eu resolvemos conversar com a iraniana. Notem que não decidimos simplesmente tirar a decoração porque éramos maioria, mas queríamos conversar. A iraniana, porém, não gostou da ideia, disse que gostava de decorações felizes para se sentir mais como se estivesse numa casa e não compartilhava da ideia de área comum neutra. Tentamos, em vão, argumentar que ela tinha todo o direito de decorar seu quarto do jeito mais feliz que ela quisesse, mas que havia outras duas pessoas morando naquela casa que não gostavam da decoração. Final da conversa: ela topou tirar os cartões da geladeira e as fotos de paisagens da parede, mas as luzinhas de natal e a decoração grotesca do teto permaneceram e não sei se foi pirraça, mas ela resolveu ligar as malditas luzinhas justo naquela semana e elas jamais foram desligadas – economia de energia mandou lembranças. O motivo da conversa em si pode parecer bobo – eu podia praticar o deboísmo e deixar pra lá – só que a conversa disse muito sobre a personalidade de cada pessoa e isso sim foi muito importante. Continuemos.

Minha convivência com as duas se resumia a cumprimentar a finlandesa, que era muito reservada e não muito dada a conversas, e trocar algumas palavras com a iraniana, que em alguns dias estava cheia de sorrisos e em outros, com cara de enterro.

Passada a situação da decoração, chegou a hora de falar da limpeza da casa. A iraniana, sem perguntar nada, pendurou uma tabela na parede para cada uma de nós colocar o nome na semana que fizesse faxina. Ficou decidido (somente por ela) que cada uma deveria limpar sozinha o apartamento inteiro e cada uma deveria comprar os próprios produtos de limpeza para isso. Eu teria ficado muito mais chocada com isso não fosse o fato de que quando cheguei haver inúmeros pratos, panelas, talheres e outros itens  na cozinha e ela me falar que era tudo dela e eu deveria comprar os meus. A isso, junte que havia vários recadinhos pelo apartamento com mensagens do tipo “Dê descarga duas vezes”, “Lave sua louça imediatamente”, “Guarde a louça seca”, “Lembre-se da sua semana de limpar a casa” etc. E estamos falando de um espaço habitado por pessoas adultas.

Apesar dos bilhetinhos, todos escritos por ela, eu achava roupas dela de molho na pia do banheiro (e daí que eu queria escovar o dente, né?) e – atenção, frase forte a seguir – pelos na pia, como se ela tivesse raspado a axila e batido a lâmina para limpar. Como eu sei que era ela? A finlandesa era loira, os pelos eram pretos e eu não tinha feito aquilo. Mas a vida ia seguindo.

Um belo dia, apenas um mês depois de eu me mudar, chego em casa e ela está na cozinha muito nervosa. Ela havia limpado a casa naquela manhã e tinha migalhas no balcão da cozinha. Ela me olhou e disse num tom muito nervoso que não se conformava que a casa jamais ficava limpa. Eu só olhei de canto e disse “Eu acabei de chegar”, como quem diz “reclame com quem você sabe que fez”. Vou ao meu quarto, e momentos depois quando saio, ela me pergunta rispidamente se eu ainda iria guardar coisas no meu armário, do contrário, deveria mantê-lo fechado. Oi?! Se eu esqueci aberto, o que custa ela fechar se a incomoda? E não é como se eu sempre deixasse aberto!

Algumas semanas depois é a vez dela de limpar a casa novamente. Eu havia limpado duas semanas antes, mas ao invés de ter feito num domingo, como o usual, limpei na segunda, porque estava ocupada no final de semana, e não havia ninguém em casa no momento. Não sei porque e nem questionei, ela não limpou na semana seguinte e esperou 2 semanas para faxinar. Agora é que a treta começa.

Estou eu saindo do apartamento para ir a lavanderia quando olho para a tabela de faxina que ela colocou na parede. Ao lado do meu nome, na última data que incluí, ela escreveu:

"didn't really notice!"
“really didn’t notice!” – imagem borrada para preservar a “identidade” das envolvidas

Pois ela, agindo como uma adolescente, resolveu deixar um desaforo. Quando eu li isso, meu sangue ferveu! Dei meia-volta, bati na porta do quarto e fui perguntar qual era o problema dela. Ela ficou parada na porta como um cão com o rabo entre as pernas e deu a justificativa mais estúpida: as pessoas não gostam de ser incomodadas, então eu prefiro deixar bilhetes. Eu expliquei que o que ela havia feito era muito rude e que se ela tivesse algum problema com minha limpeza, que me falasse. E ela ainda soltou um “A casa estava tão suja que não parecia que você havia limpado” e eu “É que como você não limpou na semana passada, depois de duas semanas está suja mesmo”.

Desci para colocar minhas roupas na máquina de lavar e quando voltei, ela havia escrito “problem solved :)” ao lado do “really didn’t notice”, com carinha e tudo. O problema não estava resolvido, estava só começando.

Eu fiquei tão puta inconformada com a atitude dela, que daquele dia em diante eu passei a ignorá-la completamente. E ela também, mas continuou deixando bilhetinhos pela casa. No final de semana seguinte, por exemplo, a finlandesa fez batatas no forno e largou a forma suja em cima do balcão e foi viajar. A iraniana, sendo muito madura, deixou um bilhete:

O recado era pra forma sair de lá sozinha ou que?
O recado era pra forma sair de lá sozinha ou o que?

Eu tirei foto de tudo porque acho que só contando ninguém acredita em mim. No dia seguinte, percebendo que eu dei tanta importância ao recado que a forma não havia mexido um milímetro do lugar, ela mesma guardou. Por que não fez isto logo ao invés de deixar bilhetinho, né?

E foram dias seguidos de bilhetinhos deixados por aí com regras que ela criou sozinha e não perguntou a ninguém. Ela não sugeriu que houvesse uma conversa para falar de limpeza, porque era muito mais fácil agir assim, pelo jeito. E foram outros episódios, mas os deste post já são suficientes para ilustrar a situação.

A mudança

Felizmente para mim, no apartamento onde A. e V. já moravam, no mesmo prédio, o outro quarto iria ficar vago. Elas já se davam bem e ficaram com receio de entrar uma pessoa que não fosse bacana. Eu achava que poderia viver num apartamento simplesmente ignorando uma de minhas flatmates, mas depois de todas estes episódios, eu percebi que não, não dava. Foi então que fomos ao PSOAS e formalizamos minha mudança! O mais engraçado é que a finlandesa se mudou no mesmo final de semana que eu, ou seja, a iraniana não é flor que se cheire.

Pois é!
Pois é!

Eu adorava a vista que tinha do 5º andar! Era um nascer do sol mais lindo que o outro e até aurora boreal eu conseguia ver se fosse numa noite boa. A vista do segundo andar não é tão encantadora assim, mas a paz e tranquilidade de morar com gente normal compensa. 🙂

Pois é, nem tudo é lindo quando a gente resolve ir estudar no exterior. E este foi o “Barracos de Intercâmbio”.

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Vivendo em república

Acredito que a maioria dos intercambistas que escolhem a Irlanda nunca tenha saído da casa dos pais. Logo, nunca compartilharam seu espaço com estranhos.

Eu morei na casa da linda da família Weiser nos Estados Unidos, mas o contexto era completamente diferente. Tinha meu quarto com banheiro no porão, com total privacidade. Era só não deixar minhas coisas jogadas pela casa (e eu não deixava), limpar o que sujava e a vida continuava linda.

Mas aí eu vim para a Irlanda. E divido meu espaço com outras 4 pessoas que nunca havia visto na vida. Tem mais: não moramos juntas por afinidade, mas sim, porque achamos a vaga em algum site e gostamos do lugar. Não somos todas da mesma nacionalidade. Não temos os mesmos hábitos e costumes. Não temos a mesma idade! Oh céus, como proceder para ter uma convivência pacífica?

O que falarei a seguir é baseado na minha experiência e de como as coisas funcionam aqui na Pirihouse (nome da república que não foi escolhido por mim e, acreditem, é só nome mesmo!).

Somos cinco meninas de 24, 25, 27, 31 e 32 anos. Duas brasileiras, três coreanas. Temos horários e rotinas diferentes. Mas todas comem, tomam banho, sujam (e limpam) a casa e dividem áreas comuns. E aí, como faz?

Espaço – A casa é bem grande. No quarto, temos nossos espaços bem definidos e nenhuma invade o espaço da outra. Se esta é a minha gaveta, só eu vou usar e ponto. Não temos o hábito de deixar nossos pertences espalhados pela casa, fica tudo dentro do quarto de cada uma. Se estou na sala e quero assistir um filme, eu uso fone de ouvido, porque as outras não são obrigadas a ouvir meu barulho. E assim segue a vida.

Limpeza – Todo mundo quer morar numa casa limpinha. Aqui temos uma escala de limpeza. São 5 meninas e 5 coisas para fazer, logo cada uma fica responsável por fazer uma coisa por semana. Limpar cozinha, hall, banheiro, sala de estar  e levar o lixo. Só pra constar, eu detesto quando é minha semana de limpar o banheiro (quem não?). A ideia é manter tudo limpo, não fazer uma faxina. Assim, se sou responsável pela cozinha, sempre que eu achar que ela está meio sujinha e desorganizada, vou lá e dou um tapa. E assim, a casa segue limpa.

Cada um lava o seu – Regra de ouro. Sujou um copo? Um garfo? Um prato? Você lava.

Itens de uso comum – Detergente, esponja, produtos de limpeza, papel higiênico. Quando um desses itens acaba, alguma de nós compra no mercado, coloca o recibo na geladeira e as outras pagam a parte devida. A exceção é o papel higiênico, que cada uma compra um pacotão por vez.

Visitas – De modo geral, são permitidas. A gente só pergunta para as outras quando queremos trazer muitos convidados ou se mais de uma pessoa vai dormir aqui.

Quem mexeu no meu queijo? – Cada uma tem seu cantinho nos armários da cozinha, geladeira e freezer. Respeitamos não apenas o espaço, mas também o que tem nele. Ninguém come a comida de ninguém sem autorização.

Banheiro – Juro que pensei que isso seria um grande problema, mas por incrível que pareça, não é! Como temos rotinas e hábitos diferentes, é muito difícil todas precisarem usar o banheiro na mesma hora. Eu, normalmente, sou a primeira a acordar para ir para escola e costumo tomar banho à noite. Meus horários não batem com os de ninguém. O máximo que acontece é chegar em casa apertada, ter alguém tomando banho e ter que esperar para usar.

Lavando roupa – Antes cada uma lavava sua roupa quando precisasse. Aí a conta de luz chegou e quase falecemos +.+. Desde então, criamos uma escala: num dia roupas escuras, em outro roupas brancas e no outro, coloridas. Todas nós lavamos nossas roupas juntas, respeitando a cor do dia. Ou quase.

Contas – Aluguel, luz e internet. A responsável por pagar a conta coloca um envelope na mesa próximo a data de vencimento e as outras vão colocando sua parte dentro dele. Tem funcionado bem.

Bom senso – Regra de diamante! Alguns não têm, mas felizmente, todas aqui têm… pelo menos, na maioria do tempo!

Nossa convivência é muito boa, de modo geral. Acho que o segredo é cada um respeitar o espaço comum e também o espaço que é só do outro, além de respeitar as regras já estabelecidas pela casa. Regras são criadas para facilitar a convivência, então, siga-as. Imagine se eu resolvo que não estou no clima de lavar banheiro na minha semana? É justo com as outras, que sempre limpam? Acho que outra regrinha de ouro é pensar: e se fizessem isso comigo, eu iria gostar? Se a resposta for não, não faça!