Como é fazer estágio numa creche finlandesa?

Eu não sou formada em pedagogia e, teoricamente, com minha licenciatura em Letras eu posso dar aula para crianças a partir de 10-11 anos, ou seja, a partir do 6º ano. Mas na prática, eu dava aula numa escola de inglês que o público alvo é apenas crianças e adolescentes e eu ensinava crianças desde os 4 anos de idade até adolescentes e, por lei, não há nada de errado nisso – escolas de inglês são consideradas “cursos livres” e não exigem nenhuma formação específica de seus professores (pois é!). Resumindo: eu sei bem o que é dar aula para crianças pequenas. A minha tese de mestrado tem relação com o ensino infantil e juntando tudo isso, achei que seria interessante cursar uma disciplina eletiva chamada Early Childhood Education and Care in Finland and in Other Countries (Ensino Infantil na Finlândia e em outros países) que oferecia a oportunidade de fazer um estágio (não obrigatório) de 50 horas numa creche. E pensei “por que não?”

A escola

Fiz o estágio numa escola bilíngue, o que facilitou muito tudo, porque eu podia conversar com as crianças e entender tudo que acontecia. A escola atende crianças de 3 a 6 anos, sendo creche e pré-escola, mas outras creches podem receber crianças muito menores, já que o ensino infantil no país é desde 0 ano. Nesta escola, crianças de 3 a 5 anos passam o dia alternando atividades estruturadas (jogos, artes etc) e tempo livre para brincar. As de 6 anos, como estão na pré-escola, tem 3 aulas no dia que são alternadas com tempo livre para brincar também; elas têm aula de matemática, alfabetização e finlandês, pois por lei mesmo escolas bilíngues precisam oferecer pelo menos uma aula na língua local.

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O estágio

Eu já comentei aqui no blog que o finlandês parece ter uma cultura de não explicar nada e achar que você deve saber o que fazer. O professor da disciplina não deu nenhuma instrução de como deveria ser feito o estágio e só entregou uma descrição e a ficha que deveria ser preenchida e assinada pela creche. Sendo assim, cheguei na creche sem saber se era para apenas observar ou se teria que dar aula e ao conversar com a professora supervisora, ficou combinado que eu só observaria e ajudaria eventualmente e no fim, daria uma aula, já que quando preenchi meu “objetivo de aprendizado”, eu deixei claro que queria entender como funcionava o ensino através de observação das interações entre alunos e professores e não ensinar, até porque nem sou formada na área.

No primeiro dia eu apenas conversei com uma das donas, que mostrou o local e me explicou o funcionamento da escola, e acompanhei um pouco as turmas de crianças de 3 anos. Nos demais dias, acompanhei os grupos da pré-escola e já no fim do estágio, fiquei responsável por um grupo por algumas horas.

Um dia típico na pré-escola

Oficialmente, o dia começa às 8h50 quando as crianças se reúnem e cantam músicas. Antes deste horário, as que chegam mais cedo podem tomar café da manhã no local. Na morning routine,  todas as crianças cantam diversas músicas em inglês e finlandês e a diretora faz a chamada. Em seguida, as crianças da pré-escola alternam aulas e tempo livre para brincar até às 13h, quando o horário de aulas termina. Cada umas das 3 aulas dura cerca de 40 minutos e entre elas, as crianças têm 30 minutos para brincar livremente e no último intervalo, almoçam. Após às 13h, os pais podem buscar as crianças, mas nesta escola todas ficavam até o fim do dia. Das 13h às 14h30, elas brincam no parquinho da escola. Das 14h30 às 15h elas tomam o lanche da tarde. Às 15h, normalmente, os professores leem um livro e depois disso, brincam livremente até irem embora (entre 16h e 17h). A rotina das crianças menores é um pouco diferente apenas de manhã, já que elas não têm aulas e fazem atividades diversas, como jogos, pinturas e música. Na parte da tarde, a única diferença é que elas vão para o parquinho logo depois do almoço, ficando mais de 2h.

Sala de finlandês
Sala de finlandês

A brincadeira

Talvez a impressão que dê é que as crianças só brincam e, bem, não é mentira. Como não sou pedagoga, minha experiência com ensino infantil no Brasil é a minha própria, lá no começo dos anos 90 (e sim, eu sei que deve ser bem diferente hoje). Eu lembro que ficava 4 horas na escola e que eu tinha aulas e/ou atividades sempre orientadas pela professora, sendo que o único momento de brincar livremente era quando ia para o parquinho – e eu nem lembro se isso acontecia todos os dias. Sendo assim, nos primeiros dias eu ficava me perguntando porque estas crianças ficavam tanto tempo do seu dia brincando do que bem entendessem enquanto os professores ficavam de canto conversando entre eles e pouco interagindo com as crianças. E ao mesmo tempo que achei muito entendiante passar dias numa creche vendo crianças brincarem, também fiquei pensando o quão fácil era ser professor de ensino infantil na Finlândia. Confesso que fiquei me perguntando qual era o sentido daquilo tanto para mim quando para a educação – para mim, por que eu não estava vendo sentido em fazer 50 horas de estágio para ver crianças brincando, e para o professor, que havia estudado para ficar mais da metade de seu dia só sendo o responsável enquanto as crianças brincavam.

As diretrizes nacionais e a brincadeira

Foi então que resolvi ler as diretrizes nacionais do ensino infantil e tudo fez sentido, embora os dias continuassem bem entediantes. Todo o ensino infantil no país é baseado na brincadeira. Sim, isso mesmo, o ensino infantil não é aula, é brincadeira. O documento alega, por exemplo, que embora as crianças não brinquem para aprender, elas aprendem muito quando brincam, pois é assim que fazem sentido do mundo e, portanto, o momento da brincadeira é muito valorizado. Outros pontos importantes do documento é ressaltar a importância de estabelecer vínculos com os adultos, no caso os professores, pois isto faz os pequenos se sentirem seguros e assim, aprendem mais. Muito importante também neste processo é as crianças se sentirem curiosas, então os professores precisam estimular a curiosidade delas. Os pais também têm papel fundamental: o documento deixa claro que a família precisa estar envolvida, portanto, pais e professores se encontram de 3 a 4 vezes no ano e juntos desenvolvem um planning individual com o que a criança deve aprender e que habilidades deve desenvolver. O planning é reavaliado todo vez que pais e professores se encontram.

Conclusão

Embora eu realmente tenha ficado muito entediada e contando as horas para ir embora em vários dias, mesmo que eu interagisse com as crianças nos momentos de brincadeira livre, eu pude compreender melhor como funciona o ensino infantil no país tanto na teoria com a leitura de documentos, quanto na prática. Pode parecer absurdo a gente mandar uma criança para escola para ela brincar a maior parte do dia (ela pode fazer isso em casa com os vizinhos, não é mesmo?), mas há um fundamento nisso e as crianças acabam sim desenvolvendo habilidades sociais e interpessoais, aprendem sobre o mundo a sua volta e não têm nenhuma pressão, afinal, vão ter a vida inteira para isso, né?

Mestrado em Educação e Globalização

Em janeiro de 2014 eu me encantei com a possibilidade de fazer mestrado na Finlândia e, basicamente, passei o primeiro semestre inteiro  pesquisando sobre o curso e tudo que era necessário para enviar minha inscrição.

Antes de explicar toda essa parte, vamos entender que curso é esse e por que ele despertou meu interesse. Senta que, para variar, lá vem história.

Desde pequena quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu respondia que queria ser professora porque gostava de ajudar meus coleguinhas de sala que estavam com dúvidas. Claro que ao longo da adolescência eu mudei de ideia algumas vezes e até mesmo quando preenchi a folha de inscrição da FUVEST, eu ainda tinha dúvidas. Para ser bem sincera, eu escrevi “Relações Públicas” – não sei de onde tirei isso -, mas na noite anterior a entrega da ficha, sonhei que havia passado em Letras, que era a segunda opção, e não tive dúvidas: passei branquinho e mudei o curso. Passei, levei 5 anos para me formar Bacharel em Português e Inglês (e eu tranquei a faculdade no meio para ir aos EUA), até tive minhas dúvidas se estava na carreira certa, mas no fim ficou muito claro que sim, eu estava e estou fazendo o que quero e gosto. Ainda demorei um pouco mais para conseguir terminar a Licenciatura, que também foi trancada para eu ir para a Irlanda e, ao todo, foram 7 anos para conseguir me formar Bacharel e Licenciada em Letras pela USP – se contar os 2 anos que parei pelos intercâmbios, foram 9 primaveras!

E eu nunca pensei em parar por aí, já que educação é realmente minha praia. No mesmo ano de 2014, eu me inscrevi para o mestrado na mesma USP. Fiz a prova de proficiência de inglês e passei, mas não fui fazer a prova específica para a área que queria – estava trabalhando muito e não tive tempo de fazer as leituras obrigatórias, então deixei pra lá e continuei pesquisando o curso da Universidade de Oulu. Então, chega de papo e vamos a ele.

Neste link (em inglês) há uma breve descrição do curso. Tem duração de dois anos, sendo que no primeiro você “estuda” e faz matérias diversas e no segundo, desenvolve sua dissertação de mestrado, que não precisa ser sobre um tema inédito – isso fica para o doutorado. Sendo assim, é um curso stricto sensu, ou seja, ao final terei o título de Mestre em Artes (não sei porque, mas no exterior a minha área é chamada assim – seria eu uma artista?). Entre o primeiro e o segundo ano, nas férias de verão, os alunos precisam fazer estágio em alguma escola, ONG ou no governo, que pode ser feito em qualquer lugar do mundo – e eu planejo fazer aqui no Brasil mesmo.

O foco do curso é trabalhar questões de ética, planejamento, currículo etc dentro do campo de Educação e assim, melhorar a qualidade de ensino e formar profissionais competentes para atuarem de forma responsável em suas comunidades. O curso foca na diversidade, então sempre têm uma turma bem heterogênea com pessoas de todas as partes do mundo, o que acredito que contribua muito para o desenvolvimento de todos. Sendo assim, o curso é ministrado em inglês e exige um certo nível de fluência no idioma para acompanhar as aulas.

Apesar de ser um curso em educação, estudantes de qualquer área podem se candidatar, sendo que por motivos óbvios, eles dão preferência a quem já seja desta área – no caso, Pedagogia no Brasil -, logo depois para quem é de Humanas (que é o meu caso) e por último, todas as outras áreas.

Para quem ficou curioso ou interessado, neste link tem o currículo para o ano de 2014-2015. No primeiro semestre, além das matérias de educação, há ainda disciplinas para ensinar o basicão de finlandês e cultura finlandesa! Ufa! 🙂

E qual é meu objetivo fazendo este mestrado? Como citei anteriormente, nunca pensei em parar no ensino superior e o mestrado seria só a próxima etapa do fluxograma (sou contra o fluxograma da vida, mas educação é outra história). Não quero continuar estudando por uma questão profissional apenas, até porque a área que atuo não é exatamente uma profissão de mercado. Quero fazer mestrado em Educação porque eu já comecei optando por um curso que gostava, não que me daria dinheiro, e pretendo seguir assim – trabalhando com o que gosto, porque me desculpe a sociedade capitalista, dinheiro não pode ser meu objetivo principal de vida. Escolhi como projeto de mestrado um tema que gosto (falarei a respeito futuramente), porque assim meu mestrado fica mais gostoso de ser feito. É óbvio que quando voltar ao Brasil (gente, sem esse papo de “você vai arranjar um europeu e vai ficar por lá” ou “duvido que queira voltar, o Brasil tá uma m***a” – parem, apenas parem), eu sei que terei oportunidades profissionais que irão além de atuar em sala de aula (algo que, apesar de todos os pesares, gosto muito) e, consequentemente, ganharei mais do que ganho hoje. Aliás, minha perspectiva é que volte ganhando pelo menos 1/3 a mais do que ganho atualmente, mas de qualquer forma, esta não é a motivação principal. Além da questão de “fazer porque gosto”, juntei a fome com a vontade de comer: vou morar fora novamente e apesar de já ter passado por isso duas vezes antes, desta vez o desafio será muito maior, afinal, é muito fácil ir morar num país onde a língua oficial é inglês quando você já é fluente na língua, né? Mas e o finlandês? E a cultura? O que você sabe sobre a Finlândia? O que eu sabia quando resolvi entrar nessa? Aguardem os próximos posts!

Fluxograma da vida: Mafalda não aprova
Fluxograma da vida: Mafalda não aprova.