Um dia em Londres I

Na Europa, no fim de março, as escolas costumam ter o Spring Break, uma semana de “férias”. Na Finlândia, ao invés disso eles têm o Winter Week no início do mês. Agora tirem suas conclusões sobre o clima nessas bandas do mundo.

Apesar de ser uma semana de feriado, os professores do mestrado sempre nos lembram que é apenas uma semana sem aulas presenciais com foco no estudo individual. Mas claro, eles também nos perguntam quem vai “estudar em outro lugar” e eu fui estudar passear no Reino Unido.

Embora eu já tenha ido para a Inglaterra 3 vezes antes (Londres em 2009 e 2012 e Liverpool em 2013) e se considerarmos Reino Unido, ainda dá para colocar mais 2 vezes na conta com Escócia e Irlanda do Norte, este foi meu destino do feriadão.

Londres, 2009
Londres, 2009

Todas as outras vezes que entrei no Reino Unido, com exceção de 2009, foi saindo de Dublin, então não vi imigração. A imigração inglesa é uma das mais rigorosas e temidas (pelo menos, eu temo, apesar de nada dever) e já fui preparada para as perguntas. Em 2009, o oficial só faltou perguntar a cor da minha calcinha, então eu tinha certeza que pior que aquilo não poderia ficar.

Já cheguei entregando meu passaporte com meu visto finlandês, que era pra oficial logo ver que eu já estava morando legalmente na Europa, seguindo minha vida com o Olaf, e estava de boas de querer imigrar ilegalmente na terra da Rainha.

– Está viajando sozinha?
– Sim.
– O que você faz na Finlândia?
– Mestrado.
– Em que?
– Educação.
– Posso ver sua carteirinha de estudante?

Ela tentou escanear meu passaporte, mas não sei por qual motivo, a máquina não lia. Ela “escondeu” o passaporte perto do colo dela e continuou:

– Onde seu passaporte foi emitido?
– Em Dublin.
– Em que ano?
– 2013.
– Por que?
– Porque eu estava morando lá nesta época.
– E o que fazia lá?
– Era estudante.
– De que?
– Inglês.
– Você ainda tem vínculos com a Irlanda?
– Não.
– Você já esteve no Reino Unido antes?
– Sim, em 2009. Mas o visto está no passaporte vencido, neste não tem nada.

O passaporte ainda não queria passar pela máquina. Então, ela o entregou para um outro oficial que usou aqueles “óclinhos” para analisar se meu passaporte era verdadeiro. Claro que é. Ela o pegou de volta e começou a folheá-lo realmente parando e olhando cada visto que eu tinha.

– Você tem sua passagem de volta para Finlândia?
– Sim.
– Posso ver?

Depois de ter certeza que eu não queria imigrar ilegalmente e estava lá de boas curtindo uns dias no Reino Unido, ela carimbou meu passaporte e me liberou. Notem que ela não pediu comprovação de fundos ou reserva de acomodação e acredito que isso só não aconteceu porque eu mostrei meu visto finlandês no ato.

Finalmente, encontrei o R. em Londres à noite e fomos para o hostel, que eu não recomendo à ninguém. O Smart Hyde Park Inn só tem nome e fachada bonitos, de resto… tudo bem que como era apenas uma noite, optamos pelo hostel mais em conta numa boa localização, então não podíamos esperar muito. É bem aquele tipo de hostel gigante, com muitos quartos e muitas pessoas dormindo neles. O quarto fedia (aquele cheiro de gente respirando num lugar fechado, sabe?), eu achei baratinhas no banheiro e o chuveiro é daqueles que você precisa ficar apertando a cada 30 segundos, como torneiras de banheiros públicos. Ou eu estou escolhendo péssimos hostels ultimamente ou já estou chegando na hora de parar de me hospedar neles.

A ideia era passar um dia na capital inglesa para ir em alguns lugares que eu nunca tinha visitado e tirar umas fotos com o R., que também já havia conhecido a cidade em outra oportunidade. Foi mais um dia de passeio do que de turismo.

Portobello & Camden Town

São duas famosas áreas da cidade por suas lojinhas, feirinhas e restaurantes. Portobello é uma rua de comércio com lojas e barraquinhas que vendem desde souvenir para turista até frutas e legumes.

Portobello Road
Portobello Road

O lugar também é conhecido por vender antiquidades e vimos muitas coisas interessantes. Eu não tinha intenção de comprar nada, aí vi um vestido lindo… já tem uns 2-3 anos que eu amo comprar saias e vestidos, mas não em lojas, gosto de ir em feirinhas como a que acontece todos os domingos no Shopping Center 3 em São Paulo. ❤ Bem, nesse frio eterno finlandês, eu ainda não aprendi a usar saia e vestido e ainda me manter aquecida – aliás, eu nem trouxe vestidos – e quando vi aquela gracinha me olhando, converti o valor de librar para reais (enquanto eu gastar em moeda estrangeira o que ganhei em reais, sim, eu vou converter) e ainda achei o valor justo. Aguardando ansiosamente o dia de poder usá-lo (tipo, quando parar de fazer temperatura negativa em Oulu por mais de uma semana).

Antiquidades de Portobello
Antiquidades de Portobello

Estava um lindo dia de sol e fazia uns 6 graus – e eu estava morrendo de calor usando o casacão que trouxe da Finlândia. Depois de tanto tempo vivendo abaixo de 0, qualquer sol vagabundo com temperatura positiva faz a gente assar! 🙂

Pegamos o metrô e seguimos para Camden Town, outra região de comércio. Parênteses. A malha metroviária de Londres é enorme e uma mesma linha pode ter pontos finais diferentes ou no mesmo trilho passar trens para destinos diferentes, enfim, não é para amador. Nós pegamos trem errado mais de uma vez e chegamos à conclusão que foi mais fácil nos virar no metrô da Rússia em cirílico do que lá. há. Fecha o parênteses.

Eu sempre ouvi falar do lugar, mas por algum motivo não o visitei nas outras duas vezes que estive na cidade. Chegando lá, vi o famoso market e resolvi entrar para dar uma olhada. E o que tem lá? Várias barraquinhas vendendo roupas, sendo algumas falsificadas de grandes marcas, acessórios, arte e outras coisinhas. Para quem é de São Paulo, imagine aquele monte de barraquinha vendendo roupas falsificadas e acessórios na saída do Terminal Parque Dom Pedro II – é a mesma coisa!

Na região tem outras muitas lojas e próximo ao canal tem um mercado cheio de barraquinhas de comidas típicas de várias partes o mundo. Encontramos, inclusive, uma barraquinha de docinhos brasileiros. O local estava muito cheio, mesmo sendo sexta-feira à tarde!

1,50 pounds por brigadeiro! O.o
1,50 pounds por brigadeiro! O.o

Vale a pena visitar os mercados a céu aberto? Vale, sim! É bacana para conhecer um pouco mais da cidade e é um passeio ótimo para quem gosta de olhar lojinhas e experimentar comidas diferentes. 😉

Dublin, we don’t belong together

No último post sobre o rolezinho na Europa (que eu levei praticamente 6 meses para contar tudo – ufa!), falei sobre aquela sensação de estar em Dublin e sentir que eu não pertencia àquele lugar. Pois vamos por esta história aí a limpo (e já pega a pipoca, que o post será longo).

Eu já tinha morado fora antes – fui au pair em Denver, Colorado, nos EUA entre 2008 e 2009. Foi minha primeira experiência longe de casa e foi uma ótima experiência. Eu adorava a cidade, pois apesar de ser uma cidade relativamente grande (500 mil habitantes na época), tinha todo aquele ar aconchegante de cidade pequena. O clima me agradava – verões quentes e secos e invernos gelados com muito neve, PORÉM, os dias eram sempre ensolarados e eu tinha minha dose diária de vitamina D e alegria. A família que me acolheu era ótima: me respeitavam, respeitavam as regras do programa, me incluíam nas atividades em família, me ajudavam com inglês e eu amava as crianças. Fiz amigas que até hoje mantenho contato. Tive a oportunidade de conhecer várias partes dos EUA e também viajar para a Europa e, como se tudo isso não bastasse, eu ainda tinha minha própria suíte e ganhava um pocket money que me permitia fazer tudo que estava com vontade: cinema, balada, compras, viagens. Foi um ano muito gostoso e que me deixa cheia de nostalgia. Não tive a oportunidade de voltar aos EUA ainda, mas certamente visitaria a cidade cheia de lembranças boas e saudades.

Pula aí uns 3 anos.
Entre 2012 e 2013 eu morei em Dublin, capital da Irlanda. Vocês já sabem que só fui fazer intercâmbio novamente porque a vida estava meio sem graça por esses lados e achei que morar fora de novo daria outra perspectiva de mundo pra mim. Ter sido au pair nos EUA realmente me marcou muito e despertou essa vontade de continuar viajando, conhecendo, descobrindo e aprendendo com outros lugares e culturas. E Dublin foi escolhida pelo simples fato de “ah, o visto é fácil e pode trabalhar”. Sei que agora a situação está mudando muito e as regras para visto de estudante estão mais rígidas, mas há 3 anos estava tudo muito fácil e o euro, muito baixo.

No começo foi tudo festa, novidade e alegria! Mas eu odiava o clima da cidade! Como as pessoas vivem e conseguem ser felizes passando dias e dias sem ver o sol brilhar no céu? Eu ainda tive o azar de pegar um dos invernos mais frios dos últimos tempos e isso me causou um trauma pra vida toda: eu detesto o frio desde então! Minha relação com o frio não era assim tão ruim antes de morar em Dublin. Em Denver eu cheguei a pegar -27 graus. ME-NOS VIN-TE E SE-TE. E lá nevava. Sabe neve? Aquela coisa que você acha super linda quando vê nos filmes e morre de vontade de ver porque, né, você é brasileiro e não tem dessas coisas por aqui. Neve é realmente muito legal no primeiro dia, super divertida no segundo, bacana pra caramba no terceiro, mas aí você precisa viver sua vida: sair, trabalhar etc e aquela neve toda passa a não ser assim aquela última Trakinas de morango do pacote. E ainda assim, o frio e eu ainda tínhamos uma relação amigável. Mas em Dublin é frio e chuva na sua cara sem dó, isso quando não vem aquele vento a 80km/h fazendo sua sensação térmica despencar e parecer que seu freezer é mais quentinho. E o sol? Eu preciso ver sol para me sentir feliz e Dublin não é assim exatamente um local ensolarado. Resumindo: eu detestava o clima da cidade e até hoje detesto sentir qualquer friozinho – e tô amando esse inverno paulistano 2015 fazendo 27 graus! ❤

Inverno em Denver - eu até achava legal!
Inverno em Denver – eu até achava legal!

“Putz, Bia, não aguentou um friozinho?”
Confesso que o frio que passei lá tem um papel importante nessa história toda, mas tem mais. Dublin é praticamente uma colônia brasileira e você pode tranquilamente viver lá sem falar inglês, porque até na sua escola você vai achar alguém pra te explicar as coisas em português. Ah, mas você pode fazer amizade com pessoas de outros países e ignorar os brasileiros. Pode, mas olha, você vai ter muito trabalho e tiro o chapéu se você me disser que morou lá um ano e conseguia manter distância de brasileiros. E é até natural a gente querer fazer amizade com o “igual” quando se está no exterior – eu, na reta final da vida de au pair nos EUA, só tinha amiga brasileira – a gente precisa procurar alguém que vai nos ouvir, entender nossa língua e saber do que estamos falando. Mas sabe, em Dublin isso excedia o limite. E bem, onde tem muito brasileiro vai ter muita coisa brasileira. Eu já não tinha paciência para páginas de facebook feita por brasileiros e todo aquele mimimi, e aquelas festas com música brasileira e záz. Eu compreendo isso quando a pessoa muda de país porque, sei lá, foi transferida pela empresa ou se casou com um europeu, mas quando a pessoa deliberadamente escolhe morar lá e para aprender inglês, desculpe, eu não entendo, não. Fizesse um CNA por aqui mesmo que economizaria mais.

Além de tudo isso, eu acabo associando Dublin com alguns eventos pessoais não muito agradáveis como o dia que arrombaram minha casa e roubaram meu laptop, o desaparecimento misterioso do meu passaporte e pessoas que não são assim tão legais e só conheci porque estava lá. É óbvio que muita coisa boa aconteceu também! Conheci pessoas maravilhosas que ainda são amigas, a família dos loirinhos era fora de série e pessoas mais que maravilhosas também e tirei meu CAE por lá. Mas enfim, nosso cérebro age de maneiras misteriosas, não é mesmo? E o meu agiu assim.

Pula 1 ano e meio.
Início de 2015 e lá estou eu passeando novamente pelas ruas de Dublin. Apesar de tudo isso, esse dramalhão mexicano que escrevi, eu ainda sentia muita saudade de Dublin, ficava a todo momento lembrando de lá, imaginava se um dia voltaria e enfim, eu realmente sentia uma nostalgia. Vocês nem imaginam minha alegria quando comprei as passagens para visitar a Fair City novamente. Aí, estou eu lá linda do baixo alto dos meus menos de 1,60 de altura andando pela cidade e tendo altos flashbacks da época que morava lá e passava regularmente por tais lugares e não estava tendo nenhuma reação além de reconhecer o local. Cheguei na casa onde morei e fuén… nada! Passei pelo centro e “oh, que legal, passei muito aqui” e só. Eu me senti um corpo estranho andando pela cidade que eu conhecia quase tanto como São Paulo. Foi aí que meu castelinho de saudade e nostalgia se desfez e percebi que, ehhh… até que foi legal na época, mas acabou. No hard feelings, o problema não é você, Dublin, sou eu. Não senti vontade nenhuma de voltar a morar lá ou sequer de voltar para visitar e fiquei com a clara sensação que aquela visita serviu como um “Adeus e obrigada por tudo”, pois agora estou pronta para deixar você partir.

Até então, eu ainda olhava no relógio e calculava que horas eram por lá e no app de clima do celular, eu ainda mantinha Dublin e sempre checava o quão horrível o tempo estava na cidade. Bem, eu ainda escrevia aqui no blog sobre a capital irlandesa! Tudo isso acabou quando peguei o avião de volta ao Brasil e tive a certeza que Dublin não era meu lugar. Não me entendam mal: não estou cuspindo no prato que comi ou desaconselhando quem quer que seja a ir para lá. Dublin é a mesma pra todos e, ao mesmo tempo, é única para cada um – e só você pode dizer aonde você pertence e se sente bem e, (in)felizmente, notei que Dublin não é mesmo meu lugar.

Apesar de tudo, acredito que a visita foi muito importante para eu finalmente me desapegar e focar em outros objetivos. Eu sempre vou lembrar das coisas boas que esse intercâmbio me trouxe e, com sorte, deixar no passado as coisas ruins que vieram como consequência disso também. Fico feliz por ter tido a oportunidade de fazer um segundo intercâmbio e com certeza aprendi e amadureci muito com todas as experiências boas e, principalmente, as ruins.

E com este post encerro o blog que comecei para escrever sobre a vida em Dublin. Oh wait… não encerro o blog literalmente, mas não vou mais escrever sobre Dublin – seja para falar de mudanças ou citar meus tempos lá, mas o blog continua. Meu segundo intercâmbio ficará por aqui apenas como arquivo, pois agora minha vida e, consequentemente, este diário online, mudam de rumo! Em breve começarei a escrever sobre “isso”. Eu sei que vocês devem estar imaginando que sabem o que vou fazer… eh, estão no caminho certo, mas tenho certeza que ficarão bem surpresos! 😉

[fazendo suspense para vocês continuarem lendo o blog]

Goodbye, so long, farewell!
Goodbye, so long, farewell!

Rolezinho na Europa: uma introdução

Julho de 2014, véspera da viagem à Argentina.

Chego em casa e checo meus emails. Sempre tem um do Melhores Destinos e eu sempre abro e bato o olho para ver se tem algo interessante. Sempre tem algo interessante, mas nunca num mês interessante pra mim – ossos do ofício, só posso viajar nos meses de férias, quando tudo está, via de regra, mais caro e quase não tem promoção. Mas neste dia tinha.

Eu já estava com as malas prontas para ir a Buenos Aires no dia seguinte, mas o preço estava ótimo, a Bárbara e o Rick me convenceram que eu não poderia deixar essa chance passar (ai, como sou influenciável) e resolvi que iria me endividar com outra viagem sem nem mesmo ter desfrutado da dívida feita para a primeira. Esse negócio de sofrer de wanderlust pode ser um caso sério, juro. E assim comprei minhas passagens para passar férias na Europa, passar 19 dias dando altos rolês no hemisfério norte, mesmo sabendo que deixaria para trás um baita verão para passar frio. Sério, sofrer de wanderlust te faz fazer coisas que você não faria em CNTP (condições normais de temperatura e pressão).

Fui e voltei de Buenos Aires. Trabalhei. Andei de bicicleta. Tive encrencas com a USP. Trabalhei muito mais. Comi muito doce. Fui ao cinema. Dormi às vezes. Passei umas 2 faixas no kung fu. Zoei meu joelho. Passei finais de semana corrigindo provas. Trabalhei um tico mais. E assim, seis meses se passaram até que o dia 30/12 chegou e eu, ainda meio desorganizada, fui ao aeroporto suando horrores (eita, verão paulistano!) e com um casacão enorme na mão para pegar meu voo rumo a… Dublin!

Primeiro que meu voo saía do Terminal 3, o terminal novo e super moderno do aeroporto de Guarulhos. Eu já passei por alguns aeroportos mundo à fora, mas nunca vi nada tão moderno! O check in é apenas pela máquina e a gente só pega a fila do guichê para despachar a mala. O controle de passaporte é todo automatizado (é essa a palavra?) – eu coloquei meu passaporte no leitor, a primeira catraca se abriu, aí me posicionei em frente a câmera que se abaixou até ficar da minha altura (né?), bateu uma foto minha e me identificou como menina e liberou a segunda catraca para eu passar. Ou eu sou muito caipira ou isso é realmente muito moderno!

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Viajei de AirFrance e gostei muito do serviço e tal. O voo foi bem tranquilo e pela primeira vez uma refeição de avião me deixou satisfeita, sem contar que deram sorvete – a Lufthansa não me deu sorvete! Eu dei muita sorte porque consegui ficar na primeira fileira de poltronas, aquela com espaço extra para as pernas – não que eu precise de espaço extra, afinal, mal cheguei ao 1,60 de altura, mas enfim, foi um voo muito confortável e 10h30 depois, cheguei em Paris com temperatura de 3 graus. Cho-que. Lá precisei passar pela segurança novamente e que lerdeza! Peguei um voo da CityJet e 1h20 depois desembarquei em Dublin!

Quando cheguei lá em 2012, tudo era festa! A imigração era festa! Era.

“Hi.”
“Hi. What’s the purpose of you visit?”
“Tourism.”
“How long are you staying?”
“I’m leaving on the 16th.”
“Can I see your tickets?”
Mostrei a reserva de passagem de volta para minha terra.
“Oh, you’ve been here before.” – ele viu meus carimbos de entrada no país de 2013.
“Yes, I had a student visa.”
“Where’s your old passport?” – err… lembram que eu “perdi” meu passaporte? Aquele que tinha meu primeiro visto de estudante?
“Well, I lost my passport… but I have my GNIB here.”
Entreguei para ele, ele jogou meus dados no sistema e eu vi minha foto feia do dia que cheguei na Irlanda pela primeira vez aparecendo na tela do computador dele.
“What are you doing here?”
“I’m visiting friends and traveling to some other countries.”
“And where are you staying?”
“I’m staying with a friend.” – e entreguei a carta do R., um irlandês.
“Uhnn… is R. your boyfriend?” – danado, querendo me pegar no pulo!
“No, he is not.”
“How did you meet him?”
“He dates a friend of mine.”
“Uhn. Did you work when you lived here?”
“No, I just studied.” – eu jamais tive um trabalho formal na Irlanda, não tinha motivo nenhum de contar que eu trabalhei como babá, porque ele poderia me fazer mais perguntas e eu poderia me enrolar. Preferi bancar a ryca que foi para Europa só estudar.

Depois de todo o interrogatório, carimbou meu passaporte me dando exatamente a quantidade de dias que eu ficaria lá como prazo para sair do país. Ah, e disse que ficaria com meu GNIB. Eu, corajosa demais, resolvi perguntar porque ele não ia me devolver o GNIB. “It’s expired and we usually keep it.” Perdi, playboy.

A fila para a imigração levou uns 20 minutos, porque eu não era a única respondendo mil perguntas e vi gente sendo levado para a salinha. Eh, a Irlanda está mesmo fechando as pernas.

Quando saí do aeroporto, vi aquele lindo dia irlandês me esperando: céu cinza e frio. Eu estava tão cansada da viagem (que eu mal dormi), que me sentia anestesiada vendo as ruas de Dublin pela janela do ônibus. Não sentia saudade, nostalgia, alegria, nada! Eu reconhecia as ruas e só. Parecia apenas que eu havia viajado de férias e estava voltando para “casa”.

Quando cheguei na casa da Bárbara, minha ex-casa, tudo pareceu muito familiar, mas ainda assim, não estava sentindo nada. O fato de anoitecer por volta das 16h30 me deixou muito confusa também. Fui ao mercado e tentei comprar uma Kopparberg – guess what? Não havia levado meu ID e o cara não me deixou levar.

Tomei um banho, tirei um cochilo de 2h que pareceram apenas 5 minutos e fizemos a ceia de Ano Novo. Fomos para um pub no centro e, tipo, já tive Reveillons xoxos, mas o de Dublin certamente estará no topo da lista por muito tempo: sem fogos, sem festa, apenas uma contagem regressiva no pub e nothing else to do. Voltamos para casa e é óbvio que o sono não veio até quase 5 da manhã, né?

Eu fiquei mais 2 dias em Dublin, mas isso fica para o próximo post.

Uma viagem muito louca

Eh, voltei para o Brasil, mas não pense que as 21h que se passaram entre a hora que saí da minha então casa em Dublin até chegar na minha agora casa em São Paulo não foram cheias de emoções e trapalhadas. Ou você acha que este post tem título de filme de Sessão da Tarde de graça?

Tudo começa com as malas. Eu não sou daquelas que consegue montar a mala dias antes da viagem, então, às vésperas de voltar, não sabia bem se precisaria de 2 ou 3 malas para levar minha vida de volta para o Brasil. A ideia era levar apenas 2 malas despachadas, mas aos 45 do segundo tempo notei que sou muito apegada às coisas materiais, bem estilo Material Girl da Madonna, e não consegui me desfazer das minhas posses. Nota mental: Viver à lá Chris McCandless qualquer dia desses, mas sem me meter no meio do mato.

Arranjei uma terceira mala e lá fomos nós para o aeroporto: eu, duas flatmates lindas e maravilhosas, 4 malas e uma mochila. Como o voo era à tarde, resolvi ir de ônibus e no caminho encontramos uma brasileira indo para o aeroporto também. Eu meio nervosa, querendo me distrair, puxei papo com ela e me arrependi 5 minutos depois. A menina era daquelas que foi au pair nos EUA e mora na Europa (tipo eu), e acha que Brasil é uma merda e a Europa é vida (tipo eu, só que não) e ficou com esses papinhos de ter necessidade de morar em Portugal, porque, né, que retardado iria querer morar no Brasil? Convencida de que eu não precisava ouvir isso naquele estado de nervosismo de quem volta para o Brasil depois de 1 ano fora, virei a cara para a janela e deixei a menina falando com as flatmates (sorry, meninas, mas estava quase vomitando ouvindo o ser humano).

Ou eu calculei mal o tempo ou o motorista era muito lerdo (segunda opção, os motoristas de Dublin são a cara da lerdeza) e já estava tensa pelo horário quando finalmente chegamos ao aeroporto faltando 1h30 para o voo decolar. Fiz check-in, paguei excesso de bagagem pela minha 3ª mala despachada (165 euros, diga-se de passagem), me despedi das meninas, passei pela segurança e fui procurar o portão 311. Naquele misto de emoções, eu meio avoada, me dei conta que fui parar no lugar errado e quando tentei voltar, tá dáááá: no way out! A porta era bloqueada e não havia como eu voltar. Faltando 20 minutos para começar o embarque, eu estava perdida dentro do aeroporto. Como eu saí de lá? Eu SAÍ, literalmente! Fui parar na fila da imigração que tinha apenas um oficial para atender. Comecei a pedir desesperadamente para os primeiros da fila me deixarem passar, pois estava atrasada, até que um casal de americanos me deixou passar na frentes deles, e o asiático da frente, comovido com minha cara de loser, me deixou passar também. Já estava esperando ser barrada lá, porque, né, eu só tinha uma desculpa esfarrapada de que saí pelo portão errado e não deveria estar ali.

– Oi! Eu me perdi no aeroporto e precisei sair para ir para o portão certo. Meu voo para Frankfurt sai daqui a pouco!
– Ah, vai reto aqui pelo corredor até o final, suba e procure as plaquinhas de voos de conexão. (e nem olhou meu passaporte – e se eu estivesse mentindo?)

Cheguei, novamente, na segurança do aeroporto. A essa altura já estava suando até pela sola do pé. E lá vamos nós tirar bota, cinto, lenço e apitar no detector de metais (engraçado que da primeira vez não apitou) e ser apalpada revistada pela funcionária. Desta vez olhei as plaquinhas com mais atenção e consegui chegar no portão quando a fila se formava para o embarque, molhada de suor.

Ainda consegui fazer umas ligações de última hora na fila. Quando entrego meu bilhete para a agente de embarque, ela me lança um olhar do mal e diz que minha mala é muito grande para ir comigo na cabine, pega a balancinha e diz que o limite de peso é 8kg e a minha tinha mais (eh, tinha mesmo). Falei que iria colocar os kilos extras na minha mochila, então, simples. Aí começou uma pequena discussão (porque eu sou bocuda e argumento com o pessoal da companhia aérea, mesmo sabendo que eu posso ficar sem minha mala ou parte das minhas posses):

– Não, porque sua mala é muito grande e você só pode levar uma mala de mão.
– Mas isto não é uma mala, é uma mochila.
– Não importa, é muito grande.
– Meu destino final é o Brasil e quando vim, eu pude trazer a mala e a mochila comigo.
– Ah eh? Não sei disso.
– Tem muita gente embarcando com mala e bolsa (apontei a galera passando), isto não é justo!
– Sua mala é muito grande e você só tem direito a uma na classe econômica. Você pode despachá-la ou deixá-la aqui.
– E quanto você vai me cobrar para despachar a mala?
– Não estou te cobrando nada, mas se você quiser pagar, fique à vontade. (e este é o treinamento que a Lufthansa dá aos funcionários!)
– É seu trabalho me informar isso!
– Sua mala não tem nem etiqueta de mala de mão, você não mostrou ao fazer check-in.
– A atendente não me perguntou sobre minhas malas de mão e não sou obrigada a saber disso, não sou eu que trabalho para a Lufthansa. Ela deveria ter me orientado sobre as malas de mão (na verdade, eu sabia de tudo, mas o fato é que a moça do check-in realmente deveria ter perguntado sobre as malas de mão, né?)
– É obrigação do passageiro apresentar todas as suas malas ao fazer check-in. Você vai despachar a mala ou deixá-la aqui?
(muuuuuito frustrada)
– Você tem algum lacre para eu colocar na mala?
– Não, não tenho.
– Qualquer um pode abrir a minha mala, a Lufthansa se responsabiliza se algo estiver faltando quando eu chegar no Brasil?
– Nós não abrimos malas. (inocência ou ironia?)

Abri minha mala de mão, tirei os itens de valor e amarrei um lacinho prendendo o zíper. Não iria impedir ninguém de abrí-la, mas pelo menos não seria fácil demais. Fui a última passageira a embarcar num voo lotado para Frankfurt, lançando um último olhar à minha malinha e me perguntando se a veria novamente.

O voo decolou às 18h15, horário local, e a viagem toda durou 1h30. Acostumada ao padrão Ryanair, achei estranho quando serviram um lachinho, uma saladinha com torradas. O voo foi tranquilo, mas eu tenho o dom de me sentar perto de pessoas que cheiram mal, acontecia sempre nos ônibus de Dublin. Foi um voo tenso, vários odores e eu não via a hora de chegar!

Saí do avião e tinha 1h para embarcar no voo para São Paulo. Quer dizer, 1h para o avião decolar, o embarque começaria 40 minutos antes. Coloquei a mochila nas costas e fui seguindo as placas muito atentamente desta vez (porque imagina a confusão se eu me perdesse novamente?) e uns 15 minutos de caminhada depois, cheguei a segurança (terceira vez no dia). Para variar, o detector apitou quando passei e fui, mais uma vez, apalpada revistada.

Meu celular toca e um policial da GARDA se identifica, falando sobre laptops roubados. Juro que se ele estivesse ligando para avisar que haviam achado meu laptop eu iria xingá-lo, porque isso não se faz! Ligar para pessoa com uma notícia dessas no dia que ela está deixando a Europa nas lembranças? Mas não, era só para me perguntar se quando levaram meu laptop eu recebi uma ligação pedindo “resgate”, porque havia acontecido um caso assim na região que ele atendia e queria apenas checar se os crimes eram parecidos. Ah bom, né?

Embarquei sem grandes problemas no voo para o Brasil (já tinha dado de causar na Europa), pronta para as próximas 11h20 de viagem.

[continua]

You won’t be ready to kiss… goodbye

Eu trabalho para a família M. desde janeiro. Já falei deles aqui e de como eles são pessoas muito bacanas. A B., mãe das crianças, é professora e as férias aqui vão de fim de junho a fim de agosto e quando ela está de férias não precisa de ninguém para ficar com os meninos, ou seja, hoje foi meu último dia com eles.

Trabalhar com criança é um negócio que não tem meio-termo: ou você ama ou você detesta. Criança dá trabalho, tem dia que é estressante, mas a gente acaba se apegando aos pequenos e eu, claro, me apeguei aos loirinhos.

Até aí nenhuma novidade, não é difícil se apegar a duas coisinhas loiras fofas e elétricas. Só que os pais, B, e K., sempre foram muito atenciosos e legais demais. Eles sempre me perguntavam se eu precisava de algo, se eu queria que eles comprassem algo para eu comer lá e coisas assim. Além disso, me deram um passeio de barco pelo Rio Liffey; quando perdi meu passaporte e comentei com eles, me deram quase metade do valor da taxa de emissão para me ajudar a pagar (e eles não tinham absolutamente nada a ver com isso); quando arrombaram a casa e levaram meu laptop, se ofereceram para ir me buscar para eu passar a noite na casa deles (o que não aceitei), além de me emprestarem o iPad e me deixarem usar o laptop deles na casa; já foram me buscar no ponto de ônibus de manhã em dia de chuva mais forte e enfim, são pessoas lindas.

Isso tudo é muito bom, o ruim é na hora de dizer tchau pela última vez. Resolvi agradar os meninos e ontem à noite, pela primeira vez na vida, fiz brigadeiro e modéstia à parte, ficou muito bom. Eles, obviamente, adoraram o “brigadeirrrou” e fiquei feliz por deixar a vida de dois irlandesinhos um pouco mais doce num dia chuvoso. O O. só tem 2 anos e não faz ideia do que está acontecendo, mas o F. já tem 3,5 anos e achei que devia dar uma explicação para ele. Peguei o globo terrestre, mostrei a Irlanda e o Brasil para ele e disse que eu estava voltando para casa num grande avião. Ele não entendeu muito bem. Depois, disse para ele que eu iria para o Brasil e não voltaria mais. Ele me olhou intrigado e perguntou por que, desconversei um pouco e ele disse que iria me visitar no Brasil, só que ele ia ter que voltar para casa depois para ficar com mummy e daddy. Resumindo, ele não sacou que eu não vou voltar mais lá. Finalmente, a B. chegou em casa com uma sacolinha. Dentro tinha uma St Brigid’s Cross de prata.

St. Brigid's Cross
St. Brigid’s Cross

Ela me disse que é um símbolo da Irlanda e do cristianismo e eu já havia visto uma dessas na casa deles. Também disse que estava me dando para eu ter algo para lembrar sempre do tempo que vivi na Irlanda. Depois li no livrinho que veio com ela, que ela representa esperança e novos começos. 😉

Até este momento estava tudo sob controle. Aí ela me dá um cartão homemade com uma foto minha junto com ela e dos loirinhos e dentro, o contorno das mãozinhas dos dois e um desenho de cada um que, teoricamente, sou eu. Eu nem li o que estava escrito e lágrimas rolaram (não muitas, tá?). A B. me agradeceu, disse que os meninos gostavam demais de mim, que eles serão eternamente gratos por eu ter cuidado tão bem deles, que sentiriam minha falta e que eles viam que eu realmente tinha jeito com crianças. Pediu para mantermos contato e trocarmos fotos. Ai, fiquei triste. 😦

Voltei para casa refletindo sobre tudo. Peguei o cartão e li a mensagem:

“We will be forever grateful for the great care you gave to F. and O. You are so kind and gentle and they love you so much. We wish you a bright and happy future wherever it lies!”
Lots of love,”

Quando termino de ler, no iPod está tocando a música The Game do Echo and the bunnymen, justamente no trecho que dá título a este post: “You won’t be ready to kiss… goodbye”. Talvez uma outra lágrima tenha rolado.

Ehhh… vou sentir saudades imensas desses loirinhos ligados no 220.