Saudades de Oulu

Há pouco mais de 4 meses eu retornava ao Brasil. Retornava sem medo nenhum de me arrepender e muito certa da minha decisão. Cheguei aqui e não tive nenhuma dificuldade em me readaptar ao país, afinal, já era a 4ª vez que eu “voltava de vez” depois de um longo período morando fora. A única preocupação que eu tinha quando decidi retornar e é a parte que ainda estou me readaptando, por mais triste que isto possa parecer, é com a violência urbana de uma grande capital sul-americana. Embora nada tenha acontecido recentemente e eu nunca tenha sido efetivamente assaltada, eu voltei com muito medo de sair sozinha na rua depois que anoitece e ainda não superei isso. Em Oulu era tudo tão seguro, que eu havia até me esquecido o que é andar na rua à noite e sentir medo, ou o estado de alerta constante de checar se todos os meus “cacarecos” ainda estão dentro da minha bolsa, a ficar atenta e sempre desconfiar de quem está perto de mim na rua. Para vocês terem ideia, eu ainda não consegui voltar a sair com minha carteira na rua. Via de regra, separo uns trocados, documento de identidade e cartão do banco e coloco na bolsa.

E isso me leva ao ponto que duvidei que fosse acontecer tão cedo – o mesmo que fosse acontecer: sentir saudade da pequena Oulu. Não é uma saudade enorme que me faça querer comprar uma passagem e voltar pra lá correndo, mas nos últimos dias tenho lembrado com carinho da cidade e do momento da vida que passei lá e confesso que me sinto muito sortuda por ter tido a oportunidade de morar no Norte do mundo por algum tempo. É claro que essa saudade só aumentou por conta das pessoas que conheço, ainda estão lá e continuam postando lindas fotos nas redes sociais.

Como não sentir saudade de ver uma aurora boreal, né?

Eu sinto saudade de pedalar entres as árvores, de ver o céu colorido num amanhecer qualquer, das belas paisagens formadas pela neve, dos lagos congelados, de ter o aplicativo da aurora boreal no celular aguardando as notificações para poder ir ao lago e ver o espetáculo verde no céu, do silêncio e tranquilidade de uma cidade pequena, da sensação constante de segurança. Nesta época do ano, porém, já não escurece mais e eu não estaria muito feliz sendo privada do meu sono, mas nada nesta vida é perfeito.

Não sei se um dia voltarei a pequena Oulu para matar saudade, mas sei que a cidade tem um lugarzinho especial no meu coração. E sei, também, que a memória da gente tende a se livrar de tudo que era negativo, aumentar o que era bom e assim, a gente romantiza como tal coisa, pessoa, lugar ou situação eram bons! haha… De qualquer forma, eu tenho consciência que nunca morri de amores por Oulu e adorava morar lá porque sabia que seria tenporário, mas sempre admirei a beleza do lugar e é essa a lembrança que guardarei comigo. #saudadesOulu

Solstício de inverno

Hoje, 21 de dezembro, é o solstício de verão no hemisfério sul (ai que inveja) e solstício de inverno aqui no hemisfério norte. Trocando em miúdos, hoje é o dia mais curto do ano e como eu estou no norte da Finlândia porque desgraça pouco é besteira, isso é algo que não passa despercebido.

Hoje o sol nasceu às 10h30 e se pôs às 14h, contabilizando somente 3h30 de claridade, mas na prática o dia começa a ficar claro um pouco antes de amanhecer e escure um pouco depois de entardecer, o que no fim das contas nos dá uns 30 minutos a mais de claridade. Então, sim, imaginem um dia com apenas 4 horas de claridade e imaginem que este dia estava nublado hoje. :/

Este é o sol se pondo ontem por volta das 14h30
Este é o sol se pondo ontem por volta das 14h30

Os dias estão notavelmente curtos há mais de um mês e isso mexe muito com nossa mente, corpo e humor. Não é legal, não é mesmo. Cada pessoa reage de uma forma e eu não tenho reagido muito bem – teoricamente, por ser meu segundo inverno aqui, eu deveria estar acostumada, mas justamente por ser a segunda vez, acho que o impacto está sendo mais forte. Eu tenho tido dificuldade de concentração, alguns dias eu não tenho vontade nenhuma de sair da cama, sinto sono durante o dia mesmo que tenha dormido muito à noite, me sinto cansada sem ter feito nada que justificasse isso, os dias parecem passar muito rápido e acredito que esta percepção de tempo seja alterada pelas longas horas de escuridão, afinal, depois que fica escuro o cérebro “acha” que o dia está acabando e já vai se preparando para descansar – ou seja, desde às 14h30-15h sua mente já está na vibe de ficar de boas.

Ou seja, amigos, passar um inverno aqui por estas bandas não é fácil e eu me pergunto como os locais conseguem lidar com isso ano após ano sem entrar numa depressão daquelas!

A boa notícia é que a partir de hoje os dias começam a ficar mais longos novamente! O processo é lento, já que todos os dias ganharemos cerca de 6 minutos a mais de claridade e até chegarmos ao solstício de verão, quando o sol praticamente não se poe mais, vai tempo (6 meses, né? hahaha).

Foto tirado por volta das 10h, pouco antes do sol nascer
Foto tirada por volta das 10h, pouco antes do sol nascer

E o que é pior, os dias muito longos ou as longas noites? Esta é uma pergunta difícil de responder, pois os longos dias me faziam ficar elétrica e eu não conseguia dormir já que quando fui embora de Oulu, em meados de maio, às 3h da manhã já estava super claro! Imagine que durante o dia você não se sente cansado porque a luz constante faz sua mente achar que ainda precisa produzir, porém à noite você não consegue dormir bem e se recuperar para o dia seguinte e o ciclo se repete! Eu me sentia exausta sem perceber e qualquer meia hora de escuridão me fazia “desmaiar” imediatamente. Agora, eu fico sem referência de tempo e se não coloco despertador, durmo direto até depois das 10h, quando começa a ficar claro! E acordar antes disso é um sacrifício, mesmo que eu tenha ido pra cama super cedo na noite anterior.

Apesar das belezas de um inverno branquinho, nem tudo é perfeito por aqui e não tem como não admirar os bravos finlandeses que enfrentam isso todos os anos!

De qualquer forma, feliz solstício de inverno (ou o quão feliz dá para ser nessas circunstâncias)!!!

Verão em Oulu

O auge do verão já havia passado quando retornei a Oulu, mas ainda consegui pegar o finalzinho da estação e aproveitar para fazer algumas atividades que só acontecem nesta época.

Sauna no Rio

Já faz alguns anos que no verão funciona a sauna flutuante no Rio de Tuira, próximo ao centro da cidade. Fui apenas uma vez no ano passado e achei sensacional.

Sauna flutuante
Sauna flutuante

Este ano tive a oportunidade de ir duas vezes e eu não posso deixar de recomendar a experiência se alguém um dia resolver conhecer a Finlândia no verão. A sauna de Tuira tem capacidade para até 20 pessoas, a entrada custa 5 euros e não há limite de tempo de permanência.  A sauna é de madeira e a ideia é que após alguns minutos de sauna a pessoa saia e entre no rio, que mesmo sendo verão, já está bem gelado. Os mais corajosos pulam; os mais cautelosos descem as escadas e entram no rio; a Bia só observa. Eu não sei nadar muito bem, então é fora de cogitação mergulhar e descer as escadas aos poucos não encoraja muito, então só entrei a até a altura da cintura! De qualquer forma, é uma ótima experiência para entender um pouco mais da cultura finlandesa.

Campeonato de Air Guitar

Talvez você não saiba, mas Oulu sedia o Campeonato Mundial de Air Guitar há alguns anos. Bem, talvez você bem saiba o que é isso, então vou explicar: é um campeonato em que os participantes tocam guitarra sem ter uma guitarra! Basicamente, ficam no palco por um minuto fingindo tocar guitarra, portanto, a performance e o carisma são muito importantes. Normalmente, este tipo de evento não me chamaria a atenção – tanto é que não fui no ano passado -, mas como sou aluna tutora este este, resolvemos fazer um tour pelo centro da cidade com os novos alunos e terminar assistindo o evento.

Air Guitar Championship
Air Guitar Championship

O mais engraçado é que eu curti! O evento acontece na praça principal da cidade, Rotuaari, e é gratuito. A praça estava cheia, mas não é muito grande, então estamos falando de apenas alguns poucos milhares de pessoas assistindo – mas em Oulu isto significa muita gente. Como tudo aconteceu em inglês, ficou ainda mais fácil de entender o que estava rolando e, sinceramente, nunca tinha visto Oulu tão movimentada como naquele dia. E este é o tipo de evento que só pode acontecer mesmo nesta época do ano, afinal, quem iria aguentar ficar horas a céu aberto vendo um campeonato? Não que estivesse calor, mas as temperaturas ainda passam dos 10 graus nesta época. 🙂

Café no castelo de Oulu

Sim, Oulu tem um castelo. Ou tinha. O castelo de madeira foi construído no final do século 16 próximo ou Rio Oulu, no local onde muito provavelmente havia outro castelo no século 14. No século 18, o castelo foi destruído por um incêndio causado pelos russos. Aí o que você faz com as ruínas de um castelo? Constrói um café, claro. Hoje, no local, é possível visitar as ruínas de uma das torres do castelo original e em cima delas há uma café feito de madeira em forma de castelo.

Oulu castle

É um prédio bem interessante e aconchegante e do último andar há uma bela vista do parque. É um passeio de verão porque o local só abre nesta época, normalmente entre 1º de maio de 15 de setembro.

Uma representação de como era o castelo que havia no local
Uma representação de como era o castelo que havia no local

Parques

Sabendo como o inverno é escuro e frio por aqui, o melhor a se fazer é aproveitar sempre que possível para andar nos parques da cidade ou apenas abrir a porta de casa e sair andando, o que essencialmente é estar num parque – com exceção do centro, a cidade toda parece um grande parque com casas.

Este é o parque em frente ao castelo de Oulu.

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E este é um parque no centro da cidade, próximo da barragem do rio. À noite, há luzes no rio e é lindo.

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E isto pode parecer uma pista de corrida em um parque, mas é só a avenida da universidade mesmo. Como disse, a gente abre a porta de casa aqui e já está no parque.

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Quando se mora num país de extremos, ficamos impressionados como tudo pode ser muito diferente no verão ou no inverno. Apesar da alegria do tempo relativamente bom, eu não conseguia tirar da cabeça que em alguns poucos meses tudo estaria branco, frio e escuro e eu só estou no meu segundo ano aqui! Fico imaginando como ficam as pessoas que, de fato, moram por aqui desde que nasceram – é mais fácil ou mais difícil lidar com estes extremos?

De qualquer forma, posso dizer que aproveitei ao máximo o restinho de verão e já sinto saudade dele mesmo antes da primeira neve ter caído!

De volta a Oulu

Fim das férias no Brasil, hora de retornar a Oulu. Confesso que nos quase 3 meses que fiquei fora da cidade não senti exatamente saudade. Não me leve à mal, apesar de Oulu ser pequena e pacata, é uma cidade linda e que oferece uma super qualidade de vida, mas não deu tempo de sentir falta. Ainda mais se você pensar que no verão não escurece e o sol da meia-noite é realmente um fato por aqui – e eu já não conseguia dormir em maio por conta disso, estaria puxando os cabelos se tivesse passado o verão na cidade. São Paulo me deixou dormir.

Retornei no início de agosto somente porque os preços de passagem estavam melhores, senão teria deixado para o fim do mês mesmo. Foram 11 horas sem dormir até Paris (porque eu resolvi ver 3 filmes) pela AirFrance, que eu achei bem se comparada com a KLM, outras 2 horas até Helsinki pela Finnair e quase 8 horas de trem até Oulu. Vamos falar do trem. Eu escolhi esta opção porque trouxe uma mala de 32kg, dos quais metade era comida, e num voo doméstico o limite é 23kg enquanto no trem ninguém checa nada. Escolhi um trem que chegaria às 23h, pois assim poderia pegar o ônibus às 23h25 e ir para casa. Todas as vezes que usei o trem, o horário de chegada foi bem pontual, mas é claro que desta vez ele atrasou quase 1 hora. Perdi o ônibus que pretendia pegar e o último vinha só 1h25. Depois de 30 horas de viagem quase sem dormir, eu estava me sentindo um farrapo humano e sem disposição pra ficar 1h30 esperando ônibus. Conclusão: o ticket de Helsinki a Oulu custou 29 euros e o táxi da estação de trem até minha casa (uns 7km) custou 25 – isto porque eu pechinchei, o taxista queria 35.

Não estranhei nada no retorno, apenas a paisagem muito verde. A maior parte do tempo que morei na cidade ela estava coberta de neve e embora já fosse primavera quando fui embora, as árvores ainda estavam sem folhas e as flores não estavam nascendo. Foi meio que um choque ver Oulu tão tão tão verdinha!

Tudo verde!
Tudo verde!

Mas nem tudo são flores…

O PSOAS está trocando o sistema hidráulico dos banheiros do meu prédio, ou seja, desde que cheguei não posso usar meu banheiro e preciso usar o de uso comum e tomar banho na sauna. No começo foi bem ruim, mas depois de quase 2 meses a gente acostuma.

O verão aqui não é exatamente quente, mas o que tem de insetos! Embora eu tenha voltado já na reta final da estação, ainda pude sentir na pele, literalmente. Os pernilongos daqui são mutantes, deixam os de São Paulo no chinelo! Além de enormes, eles picam por cima da roupa e dói! Apesar disso, eles nem foram meu maior problema. Assim que cheguei fui picada por algum inseto até hoje não identificado e a picada inchou absurdamente, ficou vermelha, dura e quente. Fiquei assustada e fui ver o médico, que não sabia o que tinha me picado, mas ficou com medo que pudesse ter sido um carrapato que transmite a doença de Lyme. Saí do hospital mais assustada ainda e com a receita de uma pomada para aliviar as picadas. Voltei ao hospital uma semana depois e como as picadas não continuaram crescendo, a médica eliminou a suspeita da doença. As picadas só foram se curar de vez mais de duas semanas depois. Ainda tenho as marquinhas no braço, como se fossem cicatrizes das feridas da catapora.

Nos dias mais quentes desde que voltei fez 20 graus e como as casas são projetadas para o frio, fica realmente quente dentro. Eu nunca vi ar condicionado aqui e nem ventilador, então a solução era mesmo abrir as janelas e lidar com os insetos.

No fim das contas, é bom estar de volta e poder andar de bicicleta, correr em volta do lago, usar a sauna e viver por mais uns meses numa cidade tranquila, sem correria e muito segura! Sei que um dia vou sentir saudade de tudo isso! 🙂

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Começando as férias de verão

Eu gosto de viajar, acho que já notaram. Ao contrário do que muita gente pensa, eu não estou nadando em dinheiro e, portanto, viajo. Eu economizo muito no dia-a-dia e também nas viagens, consequentemente, viajo.

E mesmo com o euro que há até não muito tempo andava na casa dos 4 reais, eu achei muito justo iniciar minha férias de verão da universidade viajando por lugares da Europa por onde ainda não havia passado. E eu só consegui fazer a viagem porque (1) como já contei no blog, eu levo uma vida bem econômica em Oulu, (2) eu consegui alguns euros fazendo uns “bicos” e (3) eu escolhi um destino barato. Como eu sempre digo, eu não escolho para onde quero ir e aí pesquiso preços; eu pesquiso preços e quando acho valores bons para algum lugar onde nunca estive, viajo.

A ideia inicial era voltar a Portugal, aquele país lindo de povo charmoso e comida maravilhosa, mas por ironias da vida, era exatamente o destino mais caro para ir a partir da Finlândia! Até chegar na Grécia era mais barato (país que ainda não visitei). Seguindo a lógica dos destinos mais em conta, achei justo voltar ao Leste Europeu, já que eu amei mesmo visitar a Polônia e poderia conhecer mais da região. E assim fui parar na deslumbrante Budapeste, capital da Hungria, onde fiquei 4 dias e de lá, iria seguir direto para Praga, capital da República Tcheca. Mas analisando o mapa e pesquisando muito no Google vi que Bratislava, capital da pequena Eslováquia e cenário do medonho filme “O Albergue”, ficava no meio do caminho e era bem viável para se fazer uma rápida visita. Então, depois dos 4 dias em Budapeste, rumamos para um dia em Bratislava e, finalmente, terminamos a viagem com outros 3 dias na ensolarada Praga. I regret nothing! 🙂

A viagem foi relativamente barata porque viajei no início da temporada de verão (final de maio), mas com temperaturas já bem agradáveis para fugir do frio finlandês. Chequei todos os destinos possíveis e constatei que chegar na Hungria e voltar da República Tcheca era a opção mais barata, além de, claro, os países serem relativamente baratos em relação a outros países europeus. Viena, capital da Áustria, fica na mesma região e os viajantes costumam parar para visitar a cidade também. Eu não a inclui no roteiro porque Viena é uma cidade que merece 3-4 dias, pelo menos, e eu não tinha todos estes dias disponíveis e o que pesou mais mesmo é que não é uma cidade barata e o orçamento não daria conta. Fica para a próxima!

A despedida de Oulu

Os dias já estavam ficando mais quentes e agradáveis, a natureza mais viva e bonita, mas minhas noites de sono inexistentes: não tinha mais noite e muito menos sono. Fiz as malas muito feliz – afinal, eu sabia que voltaria para a pequena Oulu ainda e não tinha o menor clima de despedida. Segui para Helsinki de ônibus, aquelas 8h de viagem que já estou acostumada. Cheguei à meia-noite, passei algumas horas na rodoviária, segui para a estação de trem e finalmente cheguei no aeroporto. Não foi uma boa noite de sono, mas é como sempre digo: você escolhe conforto ou preço e eu, por enquanto, ainda não posso me dar ao luxo de pagar o preço do conforto. Meu voo da Finnair saiu no horário e pouco mais de 2h depois, cheguei na nublada Budapeste.

Spoiler: Budapeste é linda!
Spoiler: Budapeste é linda!