Dez saudades

Deixei a Irlanda há quase 4 meses e já deu tempo de sentir muita saudade de lá (mas não do frio, deste eu nunca senti falta). Inspirada pelo post que o Rick escreveu esta semana, resolvi escrever minha própria lista de saudades.

10. Kopparberg Strawberry & Lime

Yummy!

A Kopparberg é tipo uma cidra, mas ao contrário daquelas que vêm na cesta de Natal, ela não tem gosto de cabo de guarda-chuva. Meu sabor preferido é a de morango com limão, embora a de frutinhas não seja ruim também. Também tem a Kopparberg de pera, mas não sou muito fã. O teor alcoólico é muito baixo e é tão docinha que parece refrigerante. Apesar da marca ser sueca, em todo e qualquer pub, mercado e off-licence de Dublin se encontra a bebida (e o irônico é que quando fui para a Suécia, não achei a Kopparberg em lugar nenhum). Era a bebida que eu pedia nos pubs e que tomava nas sextas em casa. 😉

9. O’Reillys
O’Reillys é um dos pubs que mais frequentei, especialmente aos sábados quando só tocava rock e tudo ficava bem mais barato. Gostei do lugar desde a primeira vez que fui, porque o pub tem uma decoração que lembra uma taverna antiga. O engraçado é que, segundo o site do local, o pub não é nada antigo- foi inaugurado em 2010. O O’Reillys fica embaixo da Tara Station (DART).

8. Book Market no Temple Bar
Que o Temple Bar é uma área turística da cidade cheia de pubs e com uma vida noturna bem agitada tenho certeza que você já sabe. Mas você sabia que aos sábados e domingos durante o dia rola uma feirinha de livros? Na verdade, não tem só livros, mas também antiquidades, vinis e outras coisinhas. Sempre que passava pelo Temple Bar no horário da feira, parava para dar uma olhada e acabava ficando um bom tempo olhando tudo. Foi lá que comprei um button super legal dos Smiths (que acabei perdendo quando fui para Londres).

7. Grafton Street
Uma das ruas mais famosas de Dublin com seu piso de pedras vermelhas e exclusiva para pedestres, suas lojas caríssimas (e outras nem tanto) e seus artistas de rua e buskers. Durante um tempo, morei bem perto da Grafton e passava muito por lá. Todas às sextas-feiras, por exemplo, quando recebia meu pagamento num envelope com uma carinha sorridente (sim!), passava na agência do AIB da rua, onde o auto-atendimento funcionava até tarde e aos finais de semana, e depositava o dinheiro na minha conta. É uma rua extremamente turística, mas para mim it felt like home. Já sabia os truques dos artistas de cor e salteado, mas quando eu achava que já tinha visto de tudo, já no meu último mês de Irlanda, vi isso:Grafton

6. Spire
Dublin não tem nenhum ponto turístico realmente famoso. Sabe quando alguém te fala uma cidade e logo te vem na cabeça uma atração? Londres, Big Ben. Paris, Torre Eiffel. New York, Estátua da Liberdade. Roma, Coliseu. Dublin….. Mas se você já morou na cidade, provavelmente é o Spire que aparece em sua mente. O Spire nada mais é que uma “agulha” na O’Connell Street e está lá há pouco mais de 10 anos. O interessante é que o Spire é o ponto de encontro de todo mundo que vai para o centro. Já na minha primeira semana na Irlanda, quando ainda estava na acomodação da escola, marquei meu primeiro encontro com conhecidos lá. Às vezes dá saudade de soltar um “Me encontra no Spire tal hora”.

Uma das muitas fotos que tirei da Agulha! hehe
Uma das muitas fotos que tirei da Agulha! hehe

5. Céu cinza e garoa
What? Você tá com saudade disso? Vamos com calma. Tenho a leve impressão de que já deixei bem claro neste blog que eu detestava o frio e, por tabela, os dias cinzentos e chuvosos de Dublin. Porém, desde que voltei para o Brasil, sempre que o céu fica cinza e/ou a temperatura cai e/ou chove fraco, eu lembro de Dublin e, de certa forma, sinto que estou lá. Obviamente, eu prefiro um bilhão de vezes um dia de sol com temperatura passando dos 30 graus (como a maioria dos últimos dias por aqui) do que o frio de quase 0 grau de Dublin com tempo feio, mas não posso deixar de sentir saudade sempre que o clima fica meio parecido. E claro, fico muito mais feliz por saber que em breve verei um céu azul, algo que era mais raro por lá.

4. A felicidade de um dia de Sol
Ainda falando do tempo, a sensação de abrir a janela e ver um belo dia de sol depois de dias e dias de céu cinza era a pura definição de felicidade. Se fosse um dia de sol com temperatura acima de 15 graus, então, era o paraíso na terra. Ver os irlandeses passeando felizes pela rua, levando as crianças ao parquinho, almoçando nos bancos da rua, lendo livros nos parques… O humor da cidade mudava com o clima. Na Irlanda eu aprendi a valorizar cada raio de sol, era simplesmente proibido ficar dentro de casa se estava ensolarado e mesmo aqui no Brasil, onde os dias de sol são bem mais comuns, às vezes ainda tenho essa sensação de precisar aproveitar cada raio. Só que aqui eu adquiri outro hábito: sol e calor é sinônimo de saia e vestido e só!

3. Meus loirinhos
Eu simplesmente morro de saudade do F. e do O., os meus loirinhos. Eu cuidei dessas belezuras por quase 6 meses e dar tchau para eles foi uma das partes mais difíceis de ir embora. A pessoa que está cuidando deles agora é indicação minha, então, às vezes ela me manda fotos deles e no meu aniversário, até fotografou um desenho que o F. fez para mim. Não preciso dizer que sinto um aperto no coração e uma vontade enorme de voltar e ver essas coisas loiras, né?

Os loirinhos me davam flores.
Os loirinhos me davam flores.

2. Dublin Bus
Calma, não é que eu sinto falta do ônibus de Dublin em si, mas quando comparo com os ônibus de São Paulo confesso que sinto uma super saudade dos de Dublin! Tirando a parte que a tarifa de ônibus da cidade é extremamente cara e que os knackers fumavam e bebiam dentro do transporte, todo o resto me faz sentir saudade. Ônibus com banco acolchoado, nunca tão cheio que eu não conseguisse me mexer, motoristas pacientes que esperavam até os bêbados sentarem antes de sair do ponto para evitar qualquer acidente, pontos de ônibus com letreiro informando quando o próximo ônibus chegaria e, claro, o aplicativo de celular para monitorar seu ônibus e não ficar meia hora em pé no ponto esperando. Já aqui em São Paulo é tudo isso ao contrário e todos os dias fico à beira de um surto psicótico utilizando o transporte público. Dublin Bus, seu lindo.

1. Mountjoy Square
Eu morei na Mountjoy Square nos meus primeiros 5 meses na Irlanda e mesmo quando ainda estava no país, sentia uma certa nostalgia quando passava por lá. A Mountjoy é composta por prédios de quase 200 anos e já foi o lugar onde ricos e influentes moravam, porém hoje em dia abriga irlandeses de baixa de renda, imigrantes e estudantes. Já apareceu no cinema, no filme Once, que adoro! Meu único arrependimento é nunca ter entrado no parque que ficava bem em frente de onde eu morava. A minha desculpa era sempre o tempo ruim, mas quando saía um solzinho, a preguiça falava mais alto e depois que me mudei de lá, dificilmente voltaria para passear.

Sinto falta de outras tantas coisas e várias vezes tenho flashbacks dos tempos que morei na terra dos leprechauns. Sinto muita saudade e tenho certeza que ainda volto para lá, nem que seja a passeio.

Once, em Dublin

Eu escrevi sobre o filme Once aqui, antes mesmo de ter vindo para a Irlanda. No Brasil ainda, creio que o assisti 2 ou 3 vezes (melhor rever um bom filme do que perder tempo com um ruim), mas ainda não havia assistido depois de conhecer as ruas de Dublin.

No último final de semana, depois de assistir uma entrevista do Glen Hansard para o The Busking Project, decidi assistir o filme novamente, desta vez prestando atenção nos lugares onde as cenas foram gravadas.

Abre parênteses.
O Glen era um destes artistas de rua de Dublin (assim como seu personagem no filme) e desde a adolescência tocava na Grafton Street para ganhar dinheiro. Busker, em inglês, significa músico de rua e o The Busking Project entrevista artistas de rua do mundo todo e, inclusive, o projeto tem planos de passar pelo Rio de Janeiro. Para quem admira o trabalho do Glen, aqui está a entrevista. O vídeo está sem legendas, mas o sotaque irlandês dele não é tão difícil de se entender. Se gostar e quiser assistir outra entrevista bem bacana com ele, clique aqui.
Fecha parênteses.

O filme começa com o Glen tocando numa rua. Opa, eu conheço esse lugar! Ele está na Grafton em frente a Dunnes Stores.

Se liga no jeito de knacker do cara aí do lado!
Se liga no jeito de knacker do cara aí do lado!

O rapaz que rouba o dinheiro tem o jeito de falar dos knackers. Que jeito? Bem, não sei explicar, mas os tais knackers têm um jeito diferente de falar, um sotaque bem peculiar. Ele rouba as moedas e sai correndo para um parque… calma aí, é o Stephen’s Green Park!

Stephen's Green Park e o Stephen's Green Shopping Centre ao fundo. Já passei muito por aí!
Stephen’s Green Park e Stephen’s Green Shopping Centre ao fundo. Já passei muito por aí!

A maior parte das cenas de rua em que ele toca foram gravadas na Grafton Street mesmo, que termina no Stephen’s Green Park. A cena em que a moça tcheca o conhece também foi gravada lá. Aliás, ela está segurando uma revista e até pergunta se o músico gostaria de comprar um exemplar, a Issues.

Issues... Big Issue!
Issues… Big Issue!

Aqui na Irlanda (e não só) tem uma revista, a Big Issue, que é produzida para ajudar moradores de rua e pessoas sem condições financeiras de se manter. Basicamente, o lucro da venda da revista vai para quem vende. A tcheca do filme é uma moça sem condições que vende flores na rua e faz faxina para sustentar a mãe e a filha pequena e está vendendo a revista para complementar a renda. Não sei se o nome foi trocado no filme ou se o nome da revista mudou, mas a ideia é a mesma.

Mais adiante, depois que já viraram “amigos”, os dois pegam ônibus. E reconheço o estofado azul com estampas coloridinhas dos ônibus de dois andares de Dublin. O filme é de 2006, mas 7 anos depois tudo continua igual.

Dublin Bus
Dublin Bus

Finalmente, a cena que reconheci e fiquei de queixo caído foi esta:

Mountjoy Square
Mountjoy Square

Esta é a Mountjoy Square, onde eu morei assim que cheguei em Dublin! Algum de vocês já morou em algum lugar que já foi cena de filme? 😉 Eu já! #esnobe

A Mountjoy Square é tão famosa que tem até artigo no Wikipedia aqui. Mas hoje em dia não tem tanto glamour, já que é essencialmente ocupada por estudantes, imigrantes e irlandeses de baixa renda, além de ter a fama de ser frequentada por knackers, embora eu nunca tenha visto nada. Ah, e os ônibus da cidade continuam como o que aparece na cena, amarelos com detalhes em azul.

Um fato que me chamou muita atenção no filme é que não há cenas na chuva, muito pelo contrário, em várias cenas o que se vê são dias ensolarados (ensolarados padrão Irlanda). Tentei achar naquele que tudo sabe, o Google, quando o filme foi gravado e num site dava a entender que havia sido em janeiro. A questão é que se o filme foi gravado em 2006 e lançado num festival de cinema local em julho do mesmo ano, ele não foi gravado no verão. Então, das duas uma: ou eles tiveram muita sorte de terem começado as filmagens numa semana em que os leprechauns estavam de bom humor e o sol apareceu ou eu que estou tendo muito azar com esta Dublin fria! Ok, ok… falando a verdade, há umas 3, 4 semanas, o tempo estava bacaninha aqui. Anyway, Dublin na maioria das vezes está nublada, quando não, chuvosa, e no filme não se vê muito isso.

Foi muito bacana rever o filme e reconhecer ruas que fazem parte do meu dia-a-dia por aqui. Se você já mora em Dublin ou mesmo que ainda esteja só pensando em vir para cá, vale a pena assistir Once. Na verdade, o filme vale a pena ser assistido por qualquer um! 😉