Voltou por que?

Por que a Irlanda atrai muitos brasileiros? Essa é fácil de responder: facilidade de visto, preço razoável e, claro, a possibilidade de poder morar no país por até 3 anos com o visto de estudante. Ao decidir renovar o visto por outro ano, tudo que o intercambista precisa fazer é se matricular novamente num curso de inglês de 26 semanas, comprovar 80% de frequência no curso anterior e pagar a taxa de emissão do GNIB na imigração. Tudo muito simples.

Eu já estava bem acomodada na Irlanda e tinha emprego que pagava o suficiente para eu pagar todas as minhas contas, fazer umas comprinhas de vez em quando e guardar para viajar. Por que, então, eu não renovei, oras?

Confesso que durante meses eu não sabia bem se ficaria um ano ou renovaria. Não tinha fortes motivos para voltar, mas também não tinha para ficar. Numa semana daquelas, eu decidi que iria mesmo voltar e comecei a contar os dia para ir embora. Um bom motivo que todos que acompanham o blog sabem bem foi o frio. Não sei se teria condições psicológicas de passar outro inverno na terra dos leprechauns. Sim, psicológicas. Eu detesto passar frio (e se você nunca saiu do Brasil, não me diga que gosta do frio porque, NÃO, você nunca passou frio de verdade). Há um mês, mais ou menos, fez muito frio para o padrão paulistano, as temperaturas chegaram a 6 graus e todos reclamavam e saíam de casa encapotados- eu senti frio, mas ainda assim, achei muito suportável e tranquilo. E fez frio por uns 5 dias. E saiu sol. Na Irlanda, no inverno, 5 graus é temperatura máxima, venta demais e por dias e dias, ao olhar para o céu, só se vê nuvens cinzas, nada de sol. Amanhece quase às 8h e no auge, em dezembro, às 16h30 já está escuro. É frio de meados de setembro à meados de abril. Eu não tinha condições psicológicas de lidar com isto novamente- bate uma deprê, a vontade de sair casa é quase inexistente e parece que o dia não rende.

E Morrissey, para variar, fala por mim- até sobre a deprê de um inverno melancólico.
“Everyday is like Sunday
Everyday is silent and grey”

A essa altura ou você está me achando exageradamente dramática ou chata. Até que você tem razão, mas não foi fácil – pra mim- passar muito frio por tantos meses.

Supondo que na Irlanda só fizesse muito frio de dezembro a fevereiro, como em Denver, CO, onde morei por um ano e moraria fácil o resto da vida, caso fosse uma opção, eu teria renovado? Não!

Há momentos da vida que a gente vai seguindo o fluxo e vivendo com o que vai aparecendo e há aqueles momentos em que estabelecemos objetivos, metas, prazos… whatever! No início do intercâmbio estava vivendo o hoje todo dia, mas quando tive o click de voltar comecei a pensar em prioridades, motivos e objetivos e foi quando notei que Irlanda, sua fria, não dava mais mesmo.

Muita gente decide que vai ficar mais um ano porque ainda precisa melhorar fluência no idioma. Oras, eu já era professora antes mesmo de ir para lá, ou seja, este não era um motivo. Além disso, eu pouco falava inglês lá já que convivia com muitos brasileiros. O interessante, por assim dizer, é que a maioria dos que decidem ficar para melhorar o inglês, não focam nos estudos por conta do trabalho (mas esta “polêmica” fica para outro post).

No Brasil eu tenho diploma de ensino superior e profissão reconhecidas. Na Irlanda eu era uma estrangeira que falava inglês muito bem e só. Meu diploma não tinha validade nenhuma e quais as chances de alguém dar emprego de professor de inglês para uma estrangeira? Eu precisaria, no mínimo, ter conseguido o CPE e fazer o CELTA para  tentar. E dar aula de português, well, quantas pessoas por aí têm interesse no idioma? Não daria para me manter assim por muito tempo. Ficar outro ano na Irlanda, então, significaria outro ano num subemprego. Calma aí, não estou criticando quem tem um subemprego, afinal, eu fui babá por quase todo o tempo em que morei lá e adorava a família M. e os loirinhos que eu cuidava, mas isso é bom por um tempo. É aquela história de o fim justificar os meios: eu queria morar fora um ano e viajar, eu não nasci nem em berço de prata o que dirá de ouro e precisava me manter lá- subemprego, vem ni mim! A questão era: valeria a pena ficar outro ano cuidando de crianças (lindas) em troca de algumas semanas de viagens pela Europa (que seria minha única meta)? Já dizia um bom amigo meu: você ganha um ano de Irlanda, mas também perde um ano de Brasil. E eu iria perder outro ano de trabalho (oi, aposentadoria), a Licenciatura e enfim, adiar quaisquer planos que tinha na volta. Claro que morar um ano fora não é perder no Brasil, pois profissionalmente falando, é sempre positivo uma experiência no exterior. Só que UM ano basta.

E eu comecei a sentir falta da vida no Brasil, com todos os seus problemas, mas senti. Sou movida a objetivos, vivo o presente pensando como vou alcançar algum objetivo daqui um ou dois anos. Antes de ir para a Irlanda, este era meu objetivo: eu aguentava trabalhar em n lugares diferentes, ir para faculdade duas vezes por semana e fazer estágio porque sabia que largaria tudo em algum momento para viajar. Na Irlanda eu vivia o hoje, mas com o objetivo de viajar sempre que possível e tirar certificados de proficiência, mas no segundo ano eu ficaria com aquela sensação de não estar fazendo nada de útil lá, entende? Abrir mão de outro ano no Brasil a troco de algumas semanas viajando não me pareceu mais tão vantajoso. Afinal, posso continuar minha vida por aqui e ainda assim, viajar algumas semanas por ano (inclusive, para Europa).

Eu não tinha bons motivos para ficar num país frio com um subemprego, sem estudar algo realmente relevante para minha vida. E eu voltei. 🙂

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I was looking for a job…

… and then I found a job, já cantaria Morrissey com The Smiths.

Isso mesmo, leitores, eu estou trabalhando aqui na terra dos leprechauns!

Depois que passei por toda a burocracia de legalizar meu status de estudante aqui na Irlanda, comecei timidamente a procurar emprego. Cada um joga com as cartas que tem, e como eu tenho muita experiência trabalhando com criança, fui tentar a vida de au pair/childminder/babá por aqui também.

Eu tenho conta no Au Pair World  desde bem antes de vir para a Irlanda e até havia feito uma entrevista via Skype com uma família irlandesa ainda no Brasil. A família gostou muito de mim, mas como precisariam de alguém para trabalhar o dia todo, não pude aceitar a proposta.

Seguindo a vida aqui na Irlanda, tentei outros contatos pelo site. Mas o problema é que para cada família que se inscreve, tem 10 meninas procurando emprego. Aí você pensa “Bia, você já foi au pair, tem muita experiência, se destaca no site em relação as outras meninas”. Mas não, simplesmente porque quem não tem experiência, diz que tem e assim, no fim das contas, fica todo mundo no mesmo barco. Eu tenho experiência de verdade com crianças, mas todas as outras que não têm, vão colocar lá que cuidaram de um primo, um vizinho etc e suas chances de conseguir uma entrevista serão iguais às minhas!

Foi quando descobri o GumTree, um site que serve tanto para procurar como para anunciar vagas de emprego, dentre outras coisas. Criei um perfil e fiz um anúncio bem específico sobre o tipo de vaga que eu estava procurando. Acho isso muito importante, pois assim nem você nem a família perdem tempo. No caso, deixei claro que só poderia trabalhar de tarde (porque de manhã vou para a aula) e que estava procurando uma posição live out, ou seja, que não queria morar com a família. Fora isso, antes de responder anúncios de famílias, eu checava a região onde eles moravam e via no Google se não era muito longe da minha casa ou se era possível ir de transporte público facilmente. Tem meninas que nem leem o anúncio e entram em contato. Besteira! Do que adianta a família marcar uma entrevista se as expectativas de ambos não corresponderem?

Feito isto, depois de um contato ali e aqui, uma família marcou uma entrevista comigo. Fui até a casa deles morrendo de medo de que um velho tarado abrisse a porta (eu sou só um pouquinho desconfiada), mas não é que se tratava de uma família irlandesa mesmo?

Conversamos por 15 minutos, a mãe disse que entrevistaria outras duas meninas e retornaria no dia seguinte. Não retornou. Desencanei. Dois dias depois, ela me mandou um email perguntando se eu ainda estava disponível e pedindo para eu ir trabalhar já na semana seguinte. Aceitei e agora trabalho 12h por semana “cuidando” de duas meninas.

Recomendo MUITO o site GumTree para procurar emprego, não só de au pair, mas basicamente, qualquer coisa. Indiquei o site para alguns amigos e alguns já estão trabalhando em vagas que acharam lá!

Num próximo post contarei como é a vida de uma au pair aqui na terra dos leprechauns!