Sobre como eu quase perdi o mestrado

A vida é essa coisa que você planeja e de repente pá! Não acontece nada como você planejou. E tudo bem, para tudo dá-se um jeito, não é? Bom, no meu caso eu quase achei que não ia ter jeito nenhum, mas vocês terão que ler o post da “fênix” aqui (estaria eu ressurgindo das cinzas e voltando a postar neste humilde blog?) todinho para entender a confusão que arranjei e como tudo acabou.

Eu voltei ao Brasil em janeiro com absolutamente todas as matérias e estágios finalizados lá em Oulu, faltando só aquele nem tão pequeno detalhe que eu não entreguei a tese. Meu plano: chegar no Brasil e não trabalhar até o fim de maio ou junho para poder me dedicar a tese com a vantagem de não estar pagando meus custos de vida em euro (na verdade, de nem estar pagando nada – paitrocínio) e virar mestre. O que aconteceu: estava entediada em casa (vocês já escreveram uma tese? Não é exatamente empolgante) e me sentindo muito mal por não ter dinheiro pra comprar nem uma casquinha no McDonald’s, então comecei a procurar um emprego em fevereiro e em abril eu já tinha 2 empregos com carteira assinada (coisas de professor), um informal, aulas online e alunos particulares. E onde entrou a tese no meio disso tudo? Foi pra escanteio! Para não dizer que nada fiz, neste 1 mês e pouco sem trabalhar eu finalizei todas as minhas entrevistas, fiz a transcrição e juntei referências para a parte teórica.

Depois de arranjar mil empregos e definir novas metas e planos pra vida, gradativamente a tese foi ficando esquecida na minha cabeça… até que simplesmente sumiu da minha lista de prioridades. Eis que me programei e pensei: em 2017 preciso juntar dinheiro, portanto, vou desencanar de terminá-la este ano e deixo pra 2018, quando tudo estiver mais calmo. Quem nunca adiou planos acadêmicos que atire a primeira pedra. Trancar faculdade, parar o curso de inglês por um tempo, deixar aquela pós para um pouco mais pra frente… eu só estava sendo uma pessoa normal uma vez na vida – eu sempre fui muito certinha e há alguns anos acharia inadmissível essa história de concluir o mestrado depois. Things change.

Até aí não está tudo ótimo, mas estava tudo certo. Certo? Errado. Entre junho e setembro (ou “até agora”) eu estava numa correria tremenda da vida e ainda tendo que dar conta de todas os empregos que eu citei lá no comecinho. E o que eu esqueci de fazer? Rematrícula na universidade. E por que eu deveria fazer rematrícula?, você me pergunta. Porque eu ainda não terminei o mestrado, portanto, preciso manter algum vínculo com a universidade e tudo que deveria ter feito era me rematricular como aluno ausente, pois não receberia nenhum crédito no segundo semestre de 2017. E eu fiz isso? Não. E quando me dei conta, no fim de setembro, que precisaria fazer isso, o que descobri? Que o período de matrícula havia se encerrado em 12/09. Daí começa a saga para “não jogar todo o investimento do mestrado no lixo e levar um puxão de orelha da minha mãe“.

Além de ter perdido a data de matrícula, a minha conta para acessar o site da universidade seria suspensa. E como se isso já não fosse suficiente, minha senha de acesso ao sistema que estava para expirar já havia expirado!

Resumindo a treta toda:
1. Eu perdi o período de matrícula;
2. Por não ter me rematriculado, minha conta estava com os dias contados para expirar (28 dias depois do fim do período de matrícula, ou seja, 11/10);
3. Minha senha havia expirado e eu não conseguia nem entrar no sistema para ver se dava pra dar um jeitinho.

E quando me dei conta do problemão, foi um tal de correr atrás de um monte de gente que achei que pudesse me ajudar. Foram algumas mensagens no messenger de conhecidos e tentativas de comunicação com a universidade, tudo a muitos quilômetros de distância.

Primeiro, contatei o pessoal do TI pra tentar reaver minha senha. Eles me deram uma senha provisória que eu deveria usar para redefinir minha senha, mas essa senha não era aceita no site de “mudar senhas”. Enfim, estou com a senha fornecida por eles. Melhor que nada. E esta história está muito resumida, porque com uma diferença de 6 horas de fuso horário, nossa comunicação era na base de um email ao dia, porque eu mandava a noite quando conseguia acessar a internet (sou professora, né, não passo o dia em frente a um computador e muito menos fuçando celular), eles me respondiam quando era madrugada aqui e mesmo que eu respondesse de manhã, se passasse das 10h aqui, já era fim de expediente lá. Sério, essa novela de redefinir senha levou uns 5 dias entre erros e acertos.

Depois fui caçar no próprio site da universidade alguma informação sobre babacas como eu que simplesmente dormiram no ponto e perderam a data de matrícula. Não achei muita coisa, então mandei email para o student center. Demoraram um pouco a responder, mas veio a solução: preencha esse formulário de re-rematrícula e pague uma multa de 35 euros. Como as coisas evoluem muito, hoje em dia o Transferwise já faz remessas de dinheiro do Brasil para  o exterior, mas elas ainda demoram uns 3 ou 4 dias para chegar ao destino e eu não estava assim exatamente com todo esse tempo, porque meu acesso ao sistema já estava prestes a expirar. Entrei em contato com uma amiga que ainda mora em Oulu e pedi que ela fizesse a transferência e me mandasse o comprovante. Tudo feito, formulário preenchido e záz! Enviei. Devido a problemas de fuso já citados, essa história levou uns outros 5 dias também. Ah, eu reembolsei a dita amiga via Transferwise! 🙂

No dia seguinte o student center já confirmou que estava tudo certo e haviam reativado meu status de estudante. Ufa! Porém, seria cômico se não fosse trágico que neste mesmo dia meu acesso ao sistema expirou! :/

Felizmente, esta questão foi mais simples de ser resolvida. Assim que o departamento de TI recebeu a confirmação da minha re-rematrícula, o acesso foi ativado novamente.

Agora a situação é essa: estou ativa no sistema como aluna ausente e não preciso pagar a taxa estudantil de 54 euros. No próximo semestre, em 2018, eu precisarei me matricular (o prazo é 31/01/18 – alguém certifique-se que eu fiz isso, por favor… hahaha), mas desta vez como aluna presente, pagar a taxa e receber os créditos pela tese que, se tudo conspirar pro lado certo, será entregue em 2018!

Juro que por alguns dias eu achei que daria tudo errado e não conseguiria me formar, mas parece que o jogo virou, não é, Murphy?! O plano para 2018 é largar uma parte dos meus empregos para focar na tese. Me cobrem!

 

A decisão de voltar

No início de 2014 eu comecei a sonhar com a possibilidade de fazer intercâmbio mais uma vez, dessa vez fazendo um mestrado. Três anos depois, eu pensava na possibilidade de encerrar mais esta fase da vida.

Como todo mestrado, o de Educação e Globalização também tem a duração de 2 anos ou 4 semestres. As aulas são distribuídas nos 3 primeiros semestres e no último o mestrando fica livre para trabalhar em sua tese. Como não há aulas, muitos mestrandos optam por voltarem a seu país de origem e terminarem de lá. Quando retornei a Finlândia em agosto de 2016, eu não sabia exatamente quando iria voltar ao Brasil, mas sabia que seria antes de maio de 2017.

O que ainda me prendia a Finlândia após o término do 3º semestre era meu estágio. Eu havia começado um estágio no início de 2016, mas com o tempo notei que ele não estava me fazendo aprender nada e eu ainda me sentia como se estivesse fazendo um trabalho qualificado de graça com o nome de “estágio” e sem receber nada por isso. Por isso, desisti do primeiro estágio e fui em busca de outro – e como contei aqui, a ideia era fazê-lo no Brasil, mas com as reviravoltas da vida, acabei fazendo em Oulu mesmo. Quando assinei o contrato, ficou decidido que eu terminaria em janeiro, então já comecei a mexer os pauzinhos para adiantar minha volta.

E por que eu não quis ficar até o final?

Morar na Finlândia como estudante = gastar dinheiro e não ganhar nenhum
Por mais que eu tenha feito alguns “bicos” por lá, não ganhei nenhuma fortuna para ter o suficiente para arcar com os custos de moradia e ainda trazer uns trocados para o Brasil. Ficando lá mais tempo, eu só ia torrar mais grana do Brasil e isso já não fazia mais sentido uma vez que eu tinha o total de zero aulas para frequentar e nenhum vínculo com o país.

Fim das aulas
Como já citei, com o fim dos cursos, minha presença não era mais necessária na universidade. Eu poderia continuar lá e escrever minha tese, mas eu posso fazer isso de qualquer lugar do mundo! Já estamos em 2017 e a tecnologia já ajuda muito: posso consultar artigos online no site da universidade, posso pegar e-books emprestados, posso fazer reunião por Skype com minha supervisora, posso enviar a tese por e-mail e o melhor: na Finlândia não se defende tese como no Brasil. Basta eu enviar para minha supervisora para aprovação, depois passar por um programa de plágio e enviar para a universidade. Não tem necessidade nenhuma mesmo de continuar no país.

Frio
Sim, isso mesmo. Eu detesto frio, eu prefiro um milhão de vezes o calor do Brasil no alto verão do que o inverno finlandês. Não foi o fator decisivo, claro, mas eu já tinha passado um inverno inteiro na Finlândia e não estava feliz com a ideia de ter que encarar um segundo inverno. É lindo? É. É lindo 6 meses do ano? Não. E todo aquele ritual de colocar várias camadas de roupa, gorro, cachecol, luvas, botas e tomar cuidado para não escorregar quando a neve derretia ou pedalar “curtindo” uns -15 graus… eu passo! Se eu posso ir embora antes, por que ficar mais meses vivendo como um pinguim?

Lindo, mas ordinário!

Oulu
Isso mesmo, Oulu é o 3º motivo. É uma cidade linda, juro! Eu realmente acho uma cidade super fofa, cheia de natureza e belas paisagens, mas eu sou de São Paulo e estou acostumada com um estilo de vida nem tão monótono… A cidade era muito pequena mesmo, com poucas opções de cultura e lazer, especialmente no inverno. Para quem é dos esportes, não faltam opções nem no inverno, mas eu, apesar de curtir uma corrida e fazer kung fu, não curtia todos esses esportes de inverno. Sendo assim, a vida social acaba se limitando a frequentar a casa de amigos para comer e beber, ir em um dos dois shoppings minúsculos ou cafés – que nem são tantos assim.

O mestrado não é minha vida
No começo, realmente parecia que o mestrado era minha vida, porque afinal eu larguei emprego e toda uma vida no Brasil para ir pro fim do mundo pra Finlândia estudar. Mas depois de um tempo eu acabei percebendo que minha vida não se resume em conseguir um diploma acadêmico, mas que o diploma é parte de um monte de outras coisas que eu chamo de vida. Uma vez fiz a comparação com um bolo aqui no blog. A minha vida é esse bolo de chocolate com blueberry e cada pedaço desse bolo é uma parte da minha vida, sendo que algumas fatias podem ser maiores que outras, mas todas juntas que formam um bolo. No começo, o mestrado representava quase 100% desse bolo, mas aí percebi que este pedaço estava grande demais e que eu queria cortar o bolo em outros pedaços também. Aí que notei que tem um pedaço para emprego (vulgo “ganhar dinheiro”, porque vivo numa sociedade capitalista, né), um pedaço para vida pessoal, um pedaço para hobbies etc, e que o mestrado não precisava ser um pedaço tão grande que me prendesse na Finlândia e não me deixasse aproveitar o resto do bolo… que estava no Brasil!

E como eu nunca tive planos de morar definitivamente por aquelas bandas, achei que antecipar a volta ao Brasil faria mais sentido. Até porque o tempo que passo no exterior “atrasa” planos que tenho no Brasil. Se não há necessidade de passar mais um semestre fora, “bora” voltar. E voltei.

Retrospectiva 2016 e planos para 2017

Primeiro dia do ano e eu venho aqui fazer a retrospectiva do ano que se foi há algumas horas e falar um pouco dos planos para 2017, aquele que eu faço 30 anos (mas geeente)!

Todo mundo falando que 2016 foi o horror, um ano horrível. De fato, aconteceu muita coisa ruim estranha, mas de uma perspectiva pessoal foi um ano bem tranquilo pra mim, sem grandes emoções nem para o bem nem para o mal. Vamos a retrospectiva feat. planos 2017?

Viagens

Eu não viajei tanto quanto gostaria (eu nunca vou viajar tanto quanto gostaria, não importa quantas viagens tenha feito!), mas conheci 8 países este ano (País de Gales, Hungria, Eslováquia, República Tcheca, Uruguai, Estônia, Letônia e Lituânia) e fica até feio eu reclamar. Eu também conheci outras partes da Finlândia, como Turku e Rovaniemi, e “repeti figurinhas” voltando a Londres e Liverpool. Passei as férias no Brasil e acho que isso me fez um bem tão grande nessa jornada de morar na Finlândia!

Rovaniemi, 2016
Rovaniemi, 2016

Eu optei por não começar o ano viajando (quando se tem tempo e dinheiro e não viaja é realmente opção, né?). Tenho alguns motivos como economizar dinheiro para outras viagens que estão meio sei lá talvez quase certas e outros motivos que vão ficar claros nos posts futuros. Não quero dar spoilers (a louca achando que o blog é um seriado), mas pode rolar Ásia este ano, o que me leva a uma reflexão…

Eu conheço 28 países, o que pode parecer muito, mas são quase 200 países nesse mundão todo e 28 não é assim exatamente um número impressivo no fim das contas. Destes 28 países, só 5 não estão na Europa e vamos combinar que Europa é bem mainstream. Além disso, depois que você começa a viajar por muitos países europeus, tudo começa a ficar meio igual. Todo país tem algo na história sobre a Segunda Guerra, todo país tem algo sobre o Holocausto (uns mais e outros menos, claro), todo o país tem uma baita influência da Igreja Católica com suas igrejas e catedrais, todo país tem o “mais” ou “maior” qualquer coisa da Europa… No começo você não percebe, mas depois de algumas viagens algumas histórias soam muito familiares e você começa a fazer as conexões. Eu não estou aqui falando pra ninguém mais viajar pra Europa ou que se você conhecer um país, conheceu todos. Não! Cada país tem uma particularidade, óbvio, mas no geral, você vai vendo que há tanta coisa em comum… Basta pensar em termos de Brasil, que é quase tão grande quanto a Europa toda. A cultura do norte e do sul são super diferentes, né? Comidas, tradições, clima e até sotaque e vocabulário – ou seja, cada região tem sua particularidade, mas no geral nós somos mais iguais que diferentes, temos mais em comum do que diferente e às vezes ao viajar a Europa toda você sente isso: sim, são países diferentes, mas às vezes são tão iguais! Enfim, espero que isso tenha ficado claro e eu agora sinto uma preguiça tremenda de viajar para conhecer mais do mesmo que é um pouco diferente. Por este motivo, em 2017 se for pra viajar, que seja mais da América do Sul ou Ásia – ou ambas.

Mestrado

Eu tive altos e baixos com o mestrado. O primeiro semestre, em 2015, foi muito intenso, porque não foi só começo do mestrado, mas o começo de um período na Finlândia. Em 2016, com a poeira (ou a neve) baixando, as coisas mudaram um pouco. Eu posso dividir entre antes e depois das férias no Brasil. Ao terminar o segundo semestre eu estava muito insatisfeita com o curso e postei a respeito aqui no blog. Não vou discutir muito isto, pois “desabafei” em 3 posts! Quando chegou a hora de retornar a Finlândia para o segundo ano eu só vim porque fui obrigada não fazia sentido ter investido um ano da minha vida num projeto e largar na metade, além de todo o dinheiro que investi e deixei de ganhar neste um ano (basicamente, torrando as economias e por não estar trabalhando, deixando de juntar mais no Brasil para outros projetos). Ou seja, começou, termina. E no fim das contas, eu sabia que não precisaria ficar outro ano inteiro fora e que a longo prazo, um diploma de mestre obtido na Finlândia na área de educação acabaria compensando (essa parte eu volto daqui uns anos para contar que se é verdade).

Voltei, é a vida, e terminei o terceiro e último semestre de aulas. Tenho outra visão do curso agora e futuramente escreverei sobre isso com mais detalhes. Eu continuo achando que o curso ficou aquém das expectativas, mas no fim das contas quando eu penso no resultado, não posso negar que aprendi muito e melhorei profissionalmente, academicamente e serumanamente como indivíduo.

Agora com todos os cursos concluídos, eu tenho o primeiro semestre de 2017 apenas para escrever a dissertação que ainda existe apenas nos planos das ideias. O que quero dizer com isso? Eu sei o que quero fazer, sei como fazer, tenho ideia dos meus resultados, falta “fazer”. E como eu sou bem procrastinadora, só estou começando mesmo agora. Eu tenho 4 anos para me formar a partir da data de início do curso, o que significa que eu poderia entregar minha dissertação até 2019 sem problemas. Meu plano é tentar (veja bem, tentar) entregar até junho deste ano, mas se não der (porque life happens), ficaria satisfeita se pudesse terminar até o fim do ano (o que me dá ainda 364 dias e 1/2). No fim das contas, eu prefiro viver a vida com mais leveza e o mestrado não resume minha vida – ele é um pedaço desse bolo de chocolate com blueberry que eu chamo de minha vida. Eu tenho outras áreas, aka pedaços de bolo, que são tão ou mais importantes que ele e sendo muito sincera, obter o título de mestre em junho ou em dezembro de 2017 não vai fazer muita diferença na minha vida profissional – e foi com este raciocínio que eu optei estender minha graduação em Letras em 6 meses para terminar as matérias com calma, por exemplo. No regrets.

E depois do mestrado? O doutorado? O pós-doc? E os empregos? O casamento? Os filhos? Os netos? 

Já dizia Mafalda, a vida não é um fluxograma.

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Eu não sei o que vem depois do mestrado ou se vem algo. Acho que a vida acadêmica não é pra mim, talvez. Mas eu posso mudar de ideia e ir fazer doutorado na China, vai saber? Se eu acabar o mestrado em junho de 2017, eu não sei o que vem depois e estou feliz assim. Um passo de cada vez, né?

E como o blog é basicamente sobre viagens e intercâmbio (que no caso, atualmente é o intercâmbio disfarçado de mestrado), este post termina aqui! As outras áreas da minha vida, o resto do bolo, são offline. 😉

Bia, a kummi

Quando estava na fase de me organizar para vir para Oulu tive a ajuda dos meus kummi, os alunos tutores. As universidades sempre selecionam alunos tutores em cada curso para ajudar os calouros, não somente nos cursos internacionais como o meu, mas até mesmo no bacharelado para alunos finlandeses. O papel do kummi é orientar os alunos novos com dúvidas do dia-a-dia para ajudar na organização e adaptação a vida universitária, já que seria inviável que os alunos ficassem entrando em contato com a coordenação  para isso e os alunos veteranos passaram por esta fase recentemente e podem ajudar com a maioria das dúvidas.

Este programa das universidades finlandesas é muito útil, especialmente para alunos internacionais que precisam lidar com todo o processo de se mudar para um país diferente e poder conversar com quem passou pela mesma situação é bem confortante. Eu fiz várias perguntas aos tutores do meu curso antes de vir e apesar de eu me julgar bem independente e saber me virar nestas situações, ajuda nunca é demais e não seria orgulhosa de não contar com eles.

E achei tão legal essa história de ajudar quem está chegando num lugar que resolvi me candidatar a vaga de kummi do meu curso de mestrado. Afinal, não vi muita diferença do que já faço aqui no blog, pois ao contar minhas experiências de viagem e intercâmbio de forma bem pessoal, sei que acabo ajudando muita gente com as informações que dou e quando a dúvida ainda persiste, chegam os emails e mensagens na fanpage que eu sempre tento responder da melhor maneira possível.

O processo foi bem simples, bastava preencher um formulário e justificar porque gostaria de ser um aluno tutor. Acabei sendo escolhida com outros 3 colegas e participamos de reuniões com a coordenação e também alguns treinamentos, mas acho que não tem muito segredo para quem já havia tido a experiência de ser ajudado por um tutor: lembre-se de todas as dúvidas que teve ao chegar, de todas as dicas úteis que recebeu e dê seu melhor.

Claro que tem a parte chata, que é a parte mais burocrática: preencher planejamento, entregar relatório de atividades e reuniões com a coordenação para discutir coisas de senso comum (mas claro, eles precisam falar de qualquer jeito), mas o resto do trabalho é bem dinâmico, pois estamos em contato com alunos de todas as partes do mundo.

Sendo kummi

Eu acho que fui bem ativa! Respondi vários emails com dúvidas, fui ao PSOAS pegar as chaves do apartamento de todos os alunos que pediram, encontrei alguns alunos na estação de trem ou no ponto de ônibus para levá-los a seus apartamentos, ajudei alguns com burocracias diversas (assinar contrato de aluguel, abrir conta no banco etc etc etc) e com a ajuda dos meus colegas, organizamos uma sessão de dúvidas e informações úteis para recém-chegados, tour pela cidade, um passeio noturno em busca da aurora (que apareceu, mas bem fraquinha), churrascos, sessões de sauna e outras atividades.

Depois das primeiras semanas em Oulu, a maioria dos alunos novos já conseguem se virar sozinhos e as perguntas e dúvidas vão diminuindo, mas vamos fazendo amizade. O trabalho como kummi terminou oficialmente em 30 de setembro e eu fiquei com a sensação de “dever cumprido”! É sempre bom poder ajudar só porque você tem uma informação que para você pode ser algo banal, mas para quem ainda não chegou na Finlândia é preciosa para decidir o próximo passo ou a melhor maneira de se organizar.

E claro, também tem a parte que é remunerado! Só que quem faz isso certamente não é pelo dinheiro, pois o valor pago é bem baixo para os padrões finlandeses de salário e a universidade paga no máximo 15 horas trabalhadas para cada kummi, e se botar na ponta do lápis, nós trabalhamos bem mais que isso. Vai ser muito bom quando o dinheiro, mesmo que não muito, cair na minha conta, mas o que vale mesmo neste trabalho é a satisfação de ajudar pessoas que estão vindo para cá com o mesmo sonho que você e saber que pode contribuir pelo menos um pouquinho para tornar esse sonho real.

Sendo kummi na Terra da Surora
Sendo kummi na Terra da Aurora

Primeiro ano de mestrado – Parte 3

E finalmente a conclusão da “trilogia” de posts sobre meu primeiro ano de mestrado.

Depois de descrever e refletir sobre o curso e este primeiro ano, qual é minha conclusão? Vou largar tudo e vender minha arte na praia? Vou continuar e ver no que vai dar? Está valendo a pena?

Eu tenho um amigo que faz mestrado em Letras Orientais na USP e já fiz diversas perguntas sobre o curso e não teve como não chegar à conclusão que na USP o mestrado é muito melhor. É claro que a estrutura da Universidade de Oulu não pode nem ser comparada à estrutura da FFLCH ou mesmo da Faculdade de Educação da USP, mas o curso em si é realmente mais “puxado”, organizado e consequentemente, melhor (dando uma explicação bem simplista).

Eu só fui entregar meu projeto de mestrado no início do segundo semestre, em janeiro, e até o momento eu não recebi nenhuma avaliação sobre o projeto e me pergunto: por que raios me deram um prazo para entregá-lo se ninguém iria ler e me dar um retorno dizendo o que ficou bom e o que deveria ser melhorado? Somente nas últimas semanas de aula do segundo semestre que “ganhei” um orientador para minha tese, uma pessoa que, aliás, está sobrecarregada, pois é responsável por toda a Faculdade de Educação e, na falta de outros orientadores, está com vários mestrandos sob sua responsabilidade. Conclusão: jamais tive qualquer reunião com ela para discutir meu projeto de mestrado. Para efeitos práticos de comparação, na USP (ou na FFLCH, pelo menos) todo mestrando já entra com seu projeto pronto e aprovado e com um orientador. Além disso, este meu amigo precisa cursar poucos créditos em disciplinas, que são todas relacionadas com o tema de sua tese e indicadas por seu orientador. O meu curso de mestrado tem disciplinas obrigatórias que nada se relacionam com o tema da minha tese e eu tenho apenas 10 créditos para fazer de optativas – e não tem nenhuma optativa oferecida em inglês que tenha qualquer relação com o tema que escolhi.

Conclusão

Eu não recomendaria este mestrado para quem já tem formação na área de educação, especialmente para quem é formado em pedagogia ou tenha qualquer tipo de educação formal na área, seja só a licenciatura, especialmente se for uma licenciatura na área de humanas. Todos os temas abordados em aulas costumam ser bem gerais e talvez não sejam tão “novidade” para quem já é da área. Eu recomendo para quem trabalha na área de educação – ou tem planos de – e precisa de uma visão mais global e ampla, seja por não ter a formação na área ou para mudar de área. Também recomendo para quem gostaria de trabalhar em projetos sociais ou em ONGs que têm como base a educação de alguma forma e garanto que para este fim, o curso pode sim ser muito bom.

Se eu soubesse antes de embarcar para a Finlândia que o curso seria assim, eu teria ido? Se eu estivesse indo somente por causa do mestrado em si, não, acho que eu preferiria ter ficado e feito o mestrado na USP (e continuar minha história de amor e ódio com esta universidade). Mas eu não fui somente por isso, então respondo que SIM, eu teria ido mesmo assim. Explico. Quando resolvi tentar estudar fora, a decisão foi tomada dando 50% de importância a parte do “estudar” e  outros 50% para a parte do “fora”. Eu queria sair do Brasil novamente, mas queria sair para fazer algo que realmente valesse a pena nessa altura da vida e a única coisa que pra mim valeria seria o mestrado. Não estou nem um pouco arrependida da decisão de ter ido morar, mesmo que temporariamente, de novo no exterior e só por isso eu diria que o mestrado está valendo a pena. Eu realmente não gosto muito do mestrado e 10 em 10 pessoas que me perguntam como “estão os estudos”, antes de ouvirem minhas reflexões, veem uma cara de quem chupou limão primeiro. Por outro lado, olhando o lado prático da vida, quando tudo terminar, eu vou ter um diploma de mestrado em educação emitido no país mais famoso do mundo na área e isso não vai abrir portas, vai abrir portões na minha vida profissional. Se é bom ou não, eles checam depois, mais isto já é um “chamariz” no currículo e não tem quem negue. Eu fiz USP e eu sei muito bem o peso que é ter estas 3 letrinhas num currículo numa seleção – se a USP é boa mesmo ou se eu sou uma boa profissional mesmo é tudo questionado depois. Infelizmente, sabemos que isso conta muito na vida profissional hoje.

Eu não vou largar o mestrado, porque eu acho que já fui muito longe e já investi muito para simplesmente desistir. E pensamento friamente, eu tenho só mais 3 disciplinas para cursar e uma tese para escrever (que não é “só”, gente, eu vou virar uma ermitã assim que colocar em prática o projeto e precisar escrever a tese).

Sei que algumas pessoas podem terminar de ler este relato e ficarem chateadas ou até desmotivadas, mas eu não poderia simplesmente mentir e dizer que tudo é maravilhoso e estou amando. Não seria sincero e eu não tenho motivos para mentir. Gostaria de salientar que este relato é MUITO PESSOAL e outros mestrandos da minha turma poderiam discordar completamente de mim e tecer vários elogios ao curso e à Faculdade. Mas este é meu blog e estas são minhas impressões. 🙂