A inscrição

Curso escolhido e muita pesquisa depois, chegou a hora de fazer a inscrição. Lá para meados de outubro, a universidade disponibilizou o edital para 2015. Basicamente, era idêntico ao de 2014, mas agora eu tinha datas e informações mais precisas.

O que a universidade queria para aceitar minha inscrição se resumia em:
– Comprovar que eu tinha diploma de Bacharel, ou seja, meu diploma e histórico escolar;
– Duas cartas de recomendação de ex-professores ou algum superior do trabalho;
– Uma carta de apresentação rasgando seda loucamente e dizendo como sou demais;
– Uma intenção de pesquisa de mestrado;
– Uma cópia do meu passaporte;
– Um CV acadêmico.

Parece tudo muito simples, né? E é até a página 2. Vamos começar a novela.
A cópia do passaporte foi muito fácil (duh) e o CV acadêmico também. Apesar de eu não ter absolutamente nada além da minha graduação (não fiz iniciação científica, não participei de simpósios nem nada do tipo, não desenvolvi nenhum estágio relevante ao curso, enfim, eu era a típica universitária que só frequentava as aulas e não fazia nada além disso porque precisava trabalhar), eu pude incluir meu trabalho que era relevante para o curso, ou seja, dar aulas. Então coloquei todas as escolas que eu já havia trabalhado – que não são poucas -, enfeitei o pavão desmembrando meus cursos de Letras e Licenciatura em dois (inclusive incluindo como atividade extra as 400h fucking horas de estágio obrigatório da Licenciatura) e fiz uma introdução muito bonita falando como eu queria novos desafios.

Aí eu precisei da USP. E o lema da USP é “pra que simplificar se a gente pode complicar?”. Sério, tudo naquela universidade é complicado, demorado e burocrático. Fiz um requerimento de documentos – histórico escolar e uma declaração que já era provável licenciada em Letras – e aguardei. Ok. Juntei tudo isso e fiz uma tradução juramentada que me custou um rim foi cara, porém, é o único tipo aceito nessas situações. Aí a universidade pedia além da tradução juramentada original, uma cópia dos documentos na sua língua de origem, cópia que deve ser “certificada” pela universidade. Lá vai a Bia levar as cópias para a USP fazer isso.

“Bom dia. Você poderia carimbar todas as páginas destas cópias? Vou enviar junto com minha inscrição de mestrado.”
“Carimbar? Pra quê?”
“Porque a universidade solicita que as cópias sejam certificadas, querem uma prova que conferem com as originais.”
“Nossa, mas eu nunca vi isso!”
“Entendo. Mas realmente preciso disso. Você poderia carimbar?”
“Ow Fulano, já viu isso? Carimbar cópia de documento?”
“Pois é, mas é uma exigência da universidade, se eu não enviar carimbado, pode ser que desconsiderem minha inscrição…”

Eu já estava quase perguntando pra senhorinha se ia cair o braço dela se ela só checasse as cópias com as originais e carimbasse tudo, porque olha, que implicância! No fim, ela carimbou e deu um visto em todas as páginas, mas por um momento achei que ela ia ficar a manhã toda discutindo comigo por isso.

Aí tem a parte que eu precisava de duas cartas de referência de professores. Eu nunca fui uma aula destaque – sentava lá no meu lugar morrendo de sono, assistia a aula, fazia meus trabalhos e pronto – ou seja, não era aquele tipo de aluna que os professores conhecem pelo nome e trocam ideias nem que faz comentários em aula e záz. Esta era eu na universidade e já fazia 3 anos que eu havia me formado, como ir atrás de professores nestas circunstâncias? Procurei a linda professora D., porque já que eu tinha ela como amiga no Facebook, acreditei que ela poderia, pelo menos, se lembrar de mim. Ela se prontificou a escrever a carta, apenas pediu alguns detalhes do curso que eu queria e passei por conta própria os detalhes da minha graduação (média ponderada, habilitação etc). Acho que em menos de 10 dias ela escreveu a carta e deixou no departamento para eu retirar. Uma fofa!

Agora precisava de um segundo professor. Eu estava cursando minha última matéria da Licenciatura, só que era uma disciplina ministrada no curso de Letras – gente, não tentem entender a USP – e era com um professor que já tinha me dado aula antes. Pedi e o professor D. topou também, mas tive que correr um pouco atrás dele para que tudo saísse nos conformes.

Estas cartas deveriam ser escritas pelos professores num formulário, assinadas, colocadas num envelope e lacradas com a assinatura deles no lacre. Sim, tudo muito confidencial, já que a ideia é que eu não soubesse o que eles tinham escrito.

Agora faltava minha carta de apresentação e a intenção de pesquisa.
Para escrever a carta eu pesquisei muito no Google modelos e dicas do conteúdo, afinal, eu jamais havia escrito uma antes. Basicamente, comecei exaltando a universidade e explicando porque ela despertou meu interesse, depois passei a falar de mim destacando que era professora de inglês, que havia me formado na melhor e mais complicada universidade da América Latina e como acreditava que a educação era a solução e a base de tudo (sério, gente, eu acredito nisso mesmo). Falei que era uma pessoa muito flexível, que já havia morado no exterior e como essas experiências foram enriquecedoras e finalizei explicando que estudar lá seria uma ótima oportunidade para mim e para meu país. Rasguei seda sim – a ideia era me vender mesmo!

Por fim, a parte mais difícil: escrever a intenção de pesquisa! Diferente da USP e outras universidades que querem seu projeto de mestrado pronto quando você se inscreve, a Universidade de Oulu só queria saber sobre o que eu pretendia pesquisar. Eu já tinha uma ideia do que fazer, mas penei muito para conseguir desenvolvê-la e ainda fiquei insegura com o resultado. No fim, deu tudo certo e mandei algo aceitável para eles – no momento apropriado, ainda vou explicar sobre o que será minha dissertação.

Para completar todo esse processo, eu precisei me cadastrar neste site aqui, já que todas as inscrições para qualquer universidade finlandesa devem ser enviadas através dele. Ganhei um número de inscrição e precisei completar todos os meu dados pessoais no início do cadastro. Preenchi tudo, copiei e colei tanto a carta de apresentação como a intenção de pesquisa, imprimi, chequei a lista de documentos umas 50 vezes para ter certeza que tinha colocado tudo que eles exigiam dentro do envelope.

Fui ao correio um dia antes de ir para minha Eurotrip – narrada aqui no blog por quase 6 meses – e antes de deixar o envelope lá, chequei outras 50 vezes se havia escrito o endereço certo (estava em finlandês, gente, era muita letra junta). Paguei a taxa com aviso de recebimento e esqueci isso. Meu objetivo era tentar e saber que tinha feito meu melhor para passar; se desse certo bem, se não desse, ok… ia fazer o mestrado na USP mesmo.

O endereço: um monte de letras juntas
O endereço: um monte de letras juntas

Mestrado em Educação e Globalização

Em janeiro de 2014 eu me encantei com a possibilidade de fazer mestrado na Finlândia e, basicamente, passei o primeiro semestre inteiro  pesquisando sobre o curso e tudo que era necessário para enviar minha inscrição.

Antes de explicar toda essa parte, vamos entender que curso é esse e por que ele despertou meu interesse. Senta que, para variar, lá vem história.

Desde pequena quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu respondia que queria ser professora porque gostava de ajudar meus coleguinhas de sala que estavam com dúvidas. Claro que ao longo da adolescência eu mudei de ideia algumas vezes e até mesmo quando preenchi a folha de inscrição da FUVEST, eu ainda tinha dúvidas. Para ser bem sincera, eu escrevi “Relações Públicas” – não sei de onde tirei isso -, mas na noite anterior a entrega da ficha, sonhei que havia passado em Letras, que era a segunda opção, e não tive dúvidas: passei branquinho e mudei o curso. Passei, levei 5 anos para me formar Bacharel em Português e Inglês (e eu tranquei a faculdade no meio para ir aos EUA), até tive minhas dúvidas se estava na carreira certa, mas no fim ficou muito claro que sim, eu estava e estou fazendo o que quero e gosto. Ainda demorei um pouco mais para conseguir terminar a Licenciatura, que também foi trancada para eu ir para a Irlanda e, ao todo, foram 7 anos para conseguir me formar Bacharel e Licenciada em Letras pela USP – se contar os 2 anos que parei pelos intercâmbios, foram 9 primaveras!

E eu nunca pensei em parar por aí, já que educação é realmente minha praia. No mesmo ano de 2014, eu me inscrevi para o mestrado na mesma USP. Fiz a prova de proficiência de inglês e passei, mas não fui fazer a prova específica para a área que queria – estava trabalhando muito e não tive tempo de fazer as leituras obrigatórias, então deixei pra lá e continuei pesquisando o curso da Universidade de Oulu. Então, chega de papo e vamos a ele.

Neste link (em inglês) há uma breve descrição do curso. Tem duração de dois anos, sendo que no primeiro você “estuda” e faz matérias diversas e no segundo, desenvolve sua dissertação de mestrado, que não precisa ser sobre um tema inédito – isso fica para o doutorado. Sendo assim, é um curso stricto sensu, ou seja, ao final terei o título de Mestre em Artes (não sei porque, mas no exterior a minha área é chamada assim – seria eu uma artista?). Entre o primeiro e o segundo ano, nas férias de verão, os alunos precisam fazer estágio em alguma escola, ONG ou no governo, que pode ser feito em qualquer lugar do mundo – e eu planejo fazer aqui no Brasil mesmo.

O foco do curso é trabalhar questões de ética, planejamento, currículo etc dentro do campo de Educação e assim, melhorar a qualidade de ensino e formar profissionais competentes para atuarem de forma responsável em suas comunidades. O curso foca na diversidade, então sempre têm uma turma bem heterogênea com pessoas de todas as partes do mundo, o que acredito que contribua muito para o desenvolvimento de todos. Sendo assim, o curso é ministrado em inglês e exige um certo nível de fluência no idioma para acompanhar as aulas.

Apesar de ser um curso em educação, estudantes de qualquer área podem se candidatar, sendo que por motivos óbvios, eles dão preferência a quem já seja desta área – no caso, Pedagogia no Brasil -, logo depois para quem é de Humanas (que é o meu caso) e por último, todas as outras áreas.

Para quem ficou curioso ou interessado, neste link tem o currículo para o ano de 2014-2015. No primeiro semestre, além das matérias de educação, há ainda disciplinas para ensinar o basicão de finlandês e cultura finlandesa! Ufa! 🙂

E qual é meu objetivo fazendo este mestrado? Como citei anteriormente, nunca pensei em parar no ensino superior e o mestrado seria só a próxima etapa do fluxograma (sou contra o fluxograma da vida, mas educação é outra história). Não quero continuar estudando por uma questão profissional apenas, até porque a área que atuo não é exatamente uma profissão de mercado. Quero fazer mestrado em Educação porque eu já comecei optando por um curso que gostava, não que me daria dinheiro, e pretendo seguir assim – trabalhando com o que gosto, porque me desculpe a sociedade capitalista, dinheiro não pode ser meu objetivo principal de vida. Escolhi como projeto de mestrado um tema que gosto (falarei a respeito futuramente), porque assim meu mestrado fica mais gostoso de ser feito. É óbvio que quando voltar ao Brasil (gente, sem esse papo de “você vai arranjar um europeu e vai ficar por lá” ou “duvido que queira voltar, o Brasil tá uma m***a” – parem, apenas parem), eu sei que terei oportunidades profissionais que irão além de atuar em sala de aula (algo que, apesar de todos os pesares, gosto muito) e, consequentemente, ganharei mais do que ganho hoje. Aliás, minha perspectiva é que volte ganhando pelo menos 1/3 a mais do que ganho atualmente, mas de qualquer forma, esta não é a motivação principal. Além da questão de “fazer porque gosto”, juntei a fome com a vontade de comer: vou morar fora novamente e apesar de já ter passado por isso duas vezes antes, desta vez o desafio será muito maior, afinal, é muito fácil ir morar num país onde a língua oficial é inglês quando você já é fluente na língua, né? Mas e o finlandês? E a cultura? O que você sabe sobre a Finlândia? O que eu sabia quando resolvi entrar nessa? Aguardem os próximos posts!

Fluxograma da vida: Mafalda não aprova
Fluxograma da vida: Mafalda não aprova.