Coisas que não recomendo

O tema original do desafio dessa semana era “Superpoderes que gostaria de ter”. Bem, como não vi de que forma eu poderia relacionar isso com a Irlanda, troquei por uma sugestão feita pela Cely nos comentários da primeira semana do desafio.

Semana 6 – Coisas que não recomendo

Eh, gente, eu sei! Difícil acreditar, mas Dublin tem seu lado ruim! Tá, eu sei que você ficou surpreso e isso é um choque de realidade, mas vamos a minha lista de “não recomendações”.

1 – Fazer compras na Carrolls

A Carrolls é uma rede de souvenirs e tem uma loja em cada esquina no centro. Ao mesmo tempo em que posso dizer que lá tem milhares de opções e que tudo lá, normalmente, é de boa qualidade, também digo que a loja é extremamente cara e que vale a pena visitar lojas menores do centro, onde você também pode achar souvenirs bacanas e com um preço melhor. Só depois de garimpar essas lojinhas, vá a Carrolls.

2 – Ir do aeroporto até o centro da cidade de táxi

Se você não estiver carregado de malas ou mesmo que esteja, se tiver alguém pra te ajudar no trajeto a pé até sua acomodação, vá para o centro de ônibus. O táxi vai custar em torno de 35 euros, o ônibus, no máximo 4 euros (estou um pouco desatualizada, não sei o valor exato) e passa bem pelo centrão de Dublin, onde estão a maioria dos hotéis e hostels. O inconveniente é o horário de circulação do ônibus, mas se chegar na cidade durante o dia, isto não é problema.

3 – Fazer compras apenas no Tesco

Apesar de o mercado ser o mais famoso, nem sempre tem os melhores preços e variedade. Vale muito a pena fazer compras em mercados como SuperValu, Dunnes Store, Lidle e Aldi. Eu já escrevi um post do que era melhor/mais barato onde. Já tem um tempinho, mas acho que ainda dá para se basear nele.

4 – Morar próximo de knackers

Esse é o tipo de exemplo “faça o que eu digo, não o que eu faço”, porque eu morei bem em frente de um condomínio estilo “Cingapura” lá em Dublin. Sim, sei que este tópico soa bem preconceituoso e estou definindo o caráter destas pessoas pela suas condições de moradia. Mas o que digo com conhecimento de causa é que estas pessoas, via de regra, te encaram, suas crianças vivem soltas na rua brincando, berrando, brigando. Ah, as mulheres também vivem na rua berrando com sua vozes roucas e enfim, não é uma vizinhança muito legal e tranquila. Os vizinhos jogavam latas de cerveja no nosso quintal, as crianças escalavam nossa cerca pra pedir comida quando fazíamos churrasco… Se puder evitar, evite. Se não puder, acostume-se.

5 – O transporte público de Dublin

Fiquei pensando se incluiria ou não este tópico. Já é um pouco contraditório, porque no item 2 eu recomendei o transporte público para chegar ao centro da cidade. A questão, na verdade, é: se puder ir a pé ou de bicicleta, vá. Não priorize o transporte público. O sistema em Dublin é caro (e não me venha com a argumentação de que o salário mínimo de lá é x euros, então tá ok – vamos justificar qualquer valor alto baseado no salário mínimo de lá? Trabalhadores  irlandeses não têm vale-transporte e pagam do bolso), o horário do transporte é ridículo (aos domingos, por exemplo, os primeiros ônibus começam a circular depois das 7 da manhã) e todo o sistema é baseado no centro: todos os ônibus chegam ao centro, mas se você precisar cruzar a cidade, vai precisar de 2, 3 ônibus. Fora que as pessoas fumam e bebem dentro do ônibus e nunca ouvi nenhum motorista falar nada. Claro que tem seu lado bom: não lota como em São Paulo (mas aí também é até covardia: São Paulo tem 11 milhões de habitantes e Dublin, 1 milhão) e nos pontos de ônibus mais movimentados tem um painel mostrando o horário dos próximos ônibus chegando.

Once, em Dublin

Eu escrevi sobre o filme Once aqui, antes mesmo de ter vindo para a Irlanda. No Brasil ainda, creio que o assisti 2 ou 3 vezes (melhor rever um bom filme do que perder tempo com um ruim), mas ainda não havia assistido depois de conhecer as ruas de Dublin.

No último final de semana, depois de assistir uma entrevista do Glen Hansard para o The Busking Project, decidi assistir o filme novamente, desta vez prestando atenção nos lugares onde as cenas foram gravadas.

Abre parênteses.
O Glen era um destes artistas de rua de Dublin (assim como seu personagem no filme) e desde a adolescência tocava na Grafton Street para ganhar dinheiro. Busker, em inglês, significa músico de rua e o The Busking Project entrevista artistas de rua do mundo todo e, inclusive, o projeto tem planos de passar pelo Rio de Janeiro. Para quem admira o trabalho do Glen, aqui está a entrevista. O vídeo está sem legendas, mas o sotaque irlandês dele não é tão difícil de se entender. Se gostar e quiser assistir outra entrevista bem bacana com ele, clique aqui.
Fecha parênteses.

O filme começa com o Glen tocando numa rua. Opa, eu conheço esse lugar! Ele está na Grafton em frente a Dunnes Stores.

Se liga no jeito de knacker do cara aí do lado!
Se liga no jeito de knacker do cara aí do lado!

O rapaz que rouba o dinheiro tem o jeito de falar dos knackers. Que jeito? Bem, não sei explicar, mas os tais knackers têm um jeito diferente de falar, um sotaque bem peculiar. Ele rouba as moedas e sai correndo para um parque… calma aí, é o Stephen’s Green Park!

Stephen's Green Park e o Stephen's Green Shopping Centre ao fundo. Já passei muito por aí!
Stephen’s Green Park e Stephen’s Green Shopping Centre ao fundo. Já passei muito por aí!

A maior parte das cenas de rua em que ele toca foram gravadas na Grafton Street mesmo, que termina no Stephen’s Green Park. A cena em que a moça tcheca o conhece também foi gravada lá. Aliás, ela está segurando uma revista e até pergunta se o músico gostaria de comprar um exemplar, a Issues.

Issues... Big Issue!
Issues… Big Issue!

Aqui na Irlanda (e não só) tem uma revista, a Big Issue, que é produzida para ajudar moradores de rua e pessoas sem condições financeiras de se manter. Basicamente, o lucro da venda da revista vai para quem vende. A tcheca do filme é uma moça sem condições que vende flores na rua e faz faxina para sustentar a mãe e a filha pequena e está vendendo a revista para complementar a renda. Não sei se o nome foi trocado no filme ou se o nome da revista mudou, mas a ideia é a mesma.

Mais adiante, depois que já viraram “amigos”, os dois pegam ônibus. E reconheço o estofado azul com estampas coloridinhas dos ônibus de dois andares de Dublin. O filme é de 2006, mas 7 anos depois tudo continua igual.

Dublin Bus
Dublin Bus

Finalmente, a cena que reconheci e fiquei de queixo caído foi esta:

Mountjoy Square
Mountjoy Square

Esta é a Mountjoy Square, onde eu morei assim que cheguei em Dublin! Algum de vocês já morou em algum lugar que já foi cena de filme? 😉 Eu já! #esnobe

A Mountjoy Square é tão famosa que tem até artigo no Wikipedia aqui. Mas hoje em dia não tem tanto glamour, já que é essencialmente ocupada por estudantes, imigrantes e irlandeses de baixa renda, além de ter a fama de ser frequentada por knackers, embora eu nunca tenha visto nada. Ah, e os ônibus da cidade continuam como o que aparece na cena, amarelos com detalhes em azul.

Um fato que me chamou muita atenção no filme é que não há cenas na chuva, muito pelo contrário, em várias cenas o que se vê são dias ensolarados (ensolarados padrão Irlanda). Tentei achar naquele que tudo sabe, o Google, quando o filme foi gravado e num site dava a entender que havia sido em janeiro. A questão é que se o filme foi gravado em 2006 e lançado num festival de cinema local em julho do mesmo ano, ele não foi gravado no verão. Então, das duas uma: ou eles tiveram muita sorte de terem começado as filmagens numa semana em que os leprechauns estavam de bom humor e o sol apareceu ou eu que estou tendo muito azar com esta Dublin fria! Ok, ok… falando a verdade, há umas 3, 4 semanas, o tempo estava bacaninha aqui. Anyway, Dublin na maioria das vezes está nublada, quando não, chuvosa, e no filme não se vê muito isso.

Foi muito bacana rever o filme e reconhecer ruas que fazem parte do meu dia-a-dia por aqui. Se você já mora em Dublin ou mesmo que ainda esteja só pensando em vir para cá, vale a pena assistir Once. Na verdade, o filme vale a pena ser assistido por qualquer um! 😉

Arthur’s Day e Guinness

No começo de setembro, percebi que havia vários outdoors e anúncios nas laterais dos ônibus divulgando que no dia 27 de setembro a cidade estaria pintada de preto (“Paint the town black”). Pensei “What the hell?“. Descobri, então, que era o Arthur’s Day. Aí, pensei “Who is Arthur?” Foi quando comecei a ligar os pontos. Vamos por partes.

Arthur Guinness é o fundador da famosa cervejaria… adivinhem? Isso mesmo, da Guinness. Vocês sabem qual é a cor da cerveja? Não de qualquer cerveja, mas desta tradicional cerveja irlandesa. Vou dar uma dica:

Guinness, prazer!

Agora ficou fácil, né? Ela é preta e bem amarga, mas muito amarga! E tem um gostinho de café. Aí que eu venho para a Irlanda e não bebo cerveja e 2,5 meses depois eu ainda não comecei a beber. A isso, acrescente o fato de que eu sou professora, mas não, eu não bebo café. Juntou a cevada com a cafeína e você achou mesmo que eu iria gostar disso aí da Guinness só porque é famosa? Pffft… Falando sério agora, a Guinness não tem cafeína, mas como o malte é torrado acaba deixando um gostinho que, para meu humilde paladar, lembra o de café.

Voltando ao que interessa, “pintar a cidade de preto” fazia uma referência à comemoração dos 253 anos da fundação da cervejaria, fazendo parecer que o Arthur Guinness é um tipo de St. Patrick por aqui. Falando no Patrício, digo, Patrick, que país é esse que celebra tanto o santo responsável por trazer o cristianismo para esta terra de pagãos celtas leprechauns quanto o cara que roubou a receita inventou uma cerveja? Enfim.

Essa comemoração começou em 2009, quando a Guinness completou 250 anos e, ao que tudo indica, já faz parte do calendário irlandês. Obviamente, não passa de uma jogada de marketing, mas vamos deixar isso para lá.

Como vocês ainda não sabem, eu não bebo cerveja. Então, nem me animei muito para as tais comemorações, mesmo com a Guinness fazendo o maior mistério sobre os locais onde algumas bandas, como Fat Boy Slim, iriam se apresentar. Porém, acabei saindo para dar uma volta no Temple Bar para ver o que estava rolando. Ok que já era pra lá de 11 da noite, mas segue um resumo do que vi:

– Pessoas bêbadas;
– Copos quebrados na rua;
– Pessoas muito bêbadas;
– Latas e garrafas de bebidas aos montes nas ruas;
– Irlandesas vestidas como se aqui fosse Rio 40 graus mostrando tudo que não têm. Ah, e bêbadas;
– Pubs lotados numa quinta-feira;
– E já mencionei que vi pessoas bêbadas?

Para os apreciadores de Guinness ou àqueles que só precisam de um motivo qualquer para beber, torçam para que o Arthur’s Day se repita em 2013 (o que acho quase certo de acontecer).

Curiosidades

Arthur Guinness faleceu em 1803 no local onde esta blogueira reside atualmente. Não me refiro a casa, mas ao “quarteirão”. Moro numa praça cercada por prédios em estilo gregoriano que datam do início do século 19. À época, apenas pessoas ricas e influentes residiam aqui (o que explica o porquê de o Arthur resolver bater as botas nesta região). Hoje em dia, porém, a área é mais frequentada por estrangeiros, irlandeses de classe média baixa e uns tais de knackers.

Eu insinuei aí em cima que a receita foi roubada. No final de semana passado, conhecemos um britânico que, pasmém, falava português! Papo vai, papo vem naquela mistura linda de português e inglês de todas as partes envolvidas, o rapaz conta que o Arthur não inventou nada, apenas comprou a receita de um britânico qualquer. Se isso é verdade, eu não sei (nem perguntei para o Google), mas que a investida do senhor Guinness deu certo, ah deu!