Frio: como lidar?

Sabe aquela pessoa que detesta o verão porque transpira muito, dorme mal e não aguenta de calor? Que prefere um friozinho e se sente muito melhor quando as temperaturas estão mais baixas? Bom, esta pessoa não sou eu! Eu adoro o verão, acho maravilhoso sair de casa usando um vestido ou uma saia bem fresquinha e não me preocupar em levar nem um casaquinho porque vai continuar quente à noite; adoro acordar de manhã num belo dia de verão, pular da cama, abrir a janela e ver aquele céu azul com um baita sol brilhando – isso me enche de energia e me deixa feliz; eu transpiro relativamente pouco e menos ainda se não estiver fazendo nenhuma atividade física e o calor não muda isso; eu consigo dormir maravilhosamente bem no verão e ainda uso meias (porque eu estou acostumada mesmo); e para o calor começar a me incomodar precisa estar chegando perto dos 40 graus. Ou seja, o calor de São Paulo, que costuma ter suas máximas entre 30 e 35 graus no verão, só me deixa feliz. Por outro lado, eu detesto o frio! Em São Paulo, por não termos nenhum tipo de sistema de aquecimento, tem dia que fica mais frio dentro de casa do que fora e eu posso fácil fácil listar vários motivos porque frio não é legal no Brasil:

  • Você vai dormir, a cama está fria;
  • Você acorda e fica morrendo de preguiça de levantar;
  • Aliás, você acorda e fica com medo de sair da cama e enfrentar a vida, porque sabe que assim que se livrar do cobertor vai morrer de frio;
  • É preciso muita coragem pra tomar banho, porque tirar a roupa não é fácil;
  • Quando a temperatura cai muito, não temos roupas quentes o suficiente para nos proteger do frio da rua;
  • A pele fica ressecada;
  • Todos fecham as janelas porque está frio e qualquer lugar fechado ou transporte público se torna uma “sauna” em pouco tempo;
  • Não sei que tipo de pessoa fica mais chique no inverno, porque eu pareço uma mendiga vestindo qualquer roupa que me faça sentir menos frio;
  • Minhas costas doem, pois o frio me faz contrair os músculos e no fim do dia não aguento de dor.

Ah, Bia, mas na Finlândia não é assim, tem aquecimento em todo lugar e mesmo que esteja – 30 lá fora, dentro de caso está quente. Eh, mais ou menos. Vai aí outra lista de como o frio é horrível quando o fator “falta de aquecimento” é eliminado:

  • O inverno é escuro;
  • A pouca luz pode causar muitos efeitos negativos na vida de uma pessoa, como eu já falei aqui;
  • Sair de casa e chegar em casa é sempre um ritual: colocar/tirar camadas e camadas de roupa, touca, luvas, cachecol, meias grossas, botas etc;
  • E mesmo que você esteja adequadamente vestido para a temperatura, isso não significa que você vai poder ficar horas na rua de boa – o rosto normalmente fica exposto e se faz -30, por exemplo, não é frio que você sente, é dor;
  • Os pés e as mãos doem de frio depois de um tempo na rua;
  • O aquecimento é maravilhoso, levantar de manhã e não morrer de frio é sensacional, mas resseca a pele e muito! O ar fico muito seco e você até acordo de madrugada com a boca seca;
  • Num país como a Finlândia onde o norte fica coberto de neve  por praticamente 6 meses todo ano, andar na neve pode ser uma aventura – se neva muito, a neve fofa dificulta caminhar, mas se a temperatura esquenta um pouco e a neve derrete, é horrível andar entre neve e água e, finalmente, quando a temperatura cai novamente e a neve derretida, vulgo água, congela de novo, aí a cidade vira um rinque de patinação – não é legal;
Tipo isso (meme retirado da internet)
Tipo isso (meme retirado da internet)
  • Aliás, neve só é legal em filme e por uma semana quando você está de férias – viver sua vida por quase 6 meses rodeado de neve não é! Já até escrevi um post sobre os tipo de neve.

Eu não teria nenhum problema em continuar esta lista, mas vamos seguir em frente, acho que já ficou claro que eu detesto não gosto muito de frio. Mas e como lidar com um inverno tão rigoroso como o do norte da Finlândia?

A primeira coisa que você precisa saber é que os finlandeses têm um ditado por aqui: não está frio, você que não se vestiu direito. Há controvérsias, mas eles dizem que basta você se vestir adequadamente para a temperatura e ficará bem. Se isso é verdade ou não, de qualquer forma é importante usar roupas adequadas para a temperatura e sensação térmica (porque -20 sem vento não é igual a -20 ventando). Quando a temperatura está até 0 grau, eu não me visto muito diferente de como me vestiria no Brasil num dia bem frio. De -1 a -10, eu já visto a legging e camiseta térmicas por baixo da roupa e saio com protetor de orelha e luvas térmicas. Dependendo do vento, coloco uma segunda camadas de meias (grossas) e um fleece. A partir de -10, eu visto calças de inverno (que parecem calças de ski), coloco uma camada extra entre a camiseta térmica e o fleece, visto uma meia mais grossa, coloca luva de couro e por cima dela, luva térmica e cubro a cabeça com um gorro. Se vou pedalar, também uso um buff, uma espécie de cachecol que se coloca em volta do pescoço que corta o vento e ao mesmo tempo deixa a pele respirar – é extremamente útil, pois pedalar numa temperatura tão baixa sem proteger o rosto pode ressecar muito a pele e causar feridas em volta dos lábios.

Saindo para pedalar num dia que fazia -16 graus e sensação térmica de -26
Saindo para pedalar num dia que fazia -16 graus e sensação térmica de -26

O sapatos também devem ser apropriados, como botas de neve ou tênis mais grossos. É muito importante também usar muito hidratante e protetor labial e, além disso, tentar não lavar o rosto pouco antes de sair na rua, pois nossa pele tem uma oleosidade natural que a protege e se lavamos o rosto, ela se vai e ficamos mais vulneráveis aos efeitos do frio.

É importante proteger bem a cabeça, mãos e pés. A cabeça porque é por onde nosso corpo mais perde calor e os pés e mãos porque acabam sendo os mais prejudicados nessa história e sério, doem muito! Tanto luvas como calçados devem estar meio folgados para deixar o ar circular e aquecê-los. Sapatos muito justos acabam fazendo os pés perderem muito calor, por isso a recomendação é sempre comprar botas de inverno um número maior para poder usar meias grossas e deixar o pé confortável.

E claro que todo nesse ritual de virar uma cebola (as roupas formam várias camadas) a gente acaba levando uns 5 minutos para ficar pronto para sair e mais 5 para se despir quando chega em casa! Olha, morar num lugar frio como Oulu não é só a beleza de uma paisagem de inverno!

E minha melhor dica é: tá absurdamente frio? Você realmente precisa sair de casa? Se a resposta for não, não saia! Se precisar, tente ficar o menor tempo possível na rua.

E é assim que eu lido com o frio, que aqui nesse lado do mundo, fica só da porta da rua pra fora. 🙂

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O inverno mais lindo

Eu nunca escondi aqui no blog que eu não gosto de frio e que o que me conquista mesmo é um calorzinho. Aí muita gente queria saber porque eu resolvi vir justo pra Finlândia e como eu estava sobrevivendo aqui.

Aqui é frio, mas é suportável e tudo conspira para o inverno não traumatizar ninguém: ar seco, não venta, tem aquecimento em todo lugar e tem sauna! Se isso não bastasse para curar meu trauma de frio, as paisagens finlandesas no inverno são as coisas mais lindas e eu não me canso de admirar. Então vamos para o segundo post de fotos de inverno, porque um só é muito pouco para toda a beleza daqui!

O dia amanhecendo no meio da floresta em Ii, uma cidada a 40km de Oulu.

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A neve e o sol, uma combinação que não tem como não ser linda!

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E havia um jogo de xadrez aí.

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-11 graus, mas um cenário lindo. Está perdoado.

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E a neve continua acumulando em cima das bicicletas.

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E a beleza não some quando a noite chega.

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Um lago.

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Uma tempestade de neve. No lago.

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E o real significado da frase “mais branco que paisagem finlandesa no inverno”.

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Prédios na floresta.

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Um banco. A neve.

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Agora vocês entendem como eu vivo feliz num lugar frio como Oulu?! 🙂

Ahhh o inverno!

Há não muito tempo fiz um post apenas com fotos da gracinha de outono finlandês. Apesar de os dois últimos posts denigrirem não motivarem ninguém a vir conhecer Oulu no inverno, é inegável que a cidade fica linda, especialmente logo depois da neve cair e tudo ficar branquinho. Embora talvez seja um pouco cedo para postar fotos – o inverno, oficialmente, começou há menos de um mês -, Oulu já mostrou sua graça e já tenho uma coleção de fotos bacanas (que seriam  melhores se eu soubesse fotografar direito). E, se necessário, escrevo o post II com mais fotos futuramente. 😉

A primeira neve de verdade, que caiu, ficou e deixou tudo branco, aconteceu no fim de novembro. Eu estava no centro da cidade e a paisagem estava linda.

Uma foto poética
Uma foto poética

A neve deixa tudo mais bonito, mas quando ela pinta os pinheiros de branco também, ah, aí é mais do que lindo!

pinheiro branco
O caminho de pinheiros que leva a universidade

E os galhos, então? Secos, mas cobertos de neve?

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Esta foi uma tentativa de focar o primeiro plano, mas não deu certo.

A primeira vez que vi o lago congelado. A paisagem quase toda alva.

As árvores encontrando o lago congelado
As árvores encontrando o lago congelado

E talvez seja uma boa ideia guardar a bicicleta em um abrigo. 😉

Vamos pedalar?
Vamos pedalar?

Neve nos cantos, um belo caminho e um sol espetacular. Se esquentasse, então, seria sensacional! haha…

Aurinko (sol em finlandês)
Aurinko (sol em finlandês)

Anjinho na neve, quem nunca?

Anjinho no lago congelado
Anjinho no lago congelado

E o lago congelado encontra o rio gelado.

Bucólico?
Bucólico?

E pedalar na neve?

Sem capacete: vida loka!
Sem capacete: vida loka!

E a calmaria de um lago congelado com um por-do-sol?

Perdi o fôlego!
Perdi o fôlego!

E escrever na neve acumulada no lago congelado? Pode.

Gosto tanto dessa palavra que...
Gosto tanto desta palavra que…

Patinar no gelo? Oulu ganha dezenas de rinks ao ar livre.

Como se eu soubesse...
Como se eu soubesse…

E se não está fácil pra uma estátua, imagine pra quem é de carne, osso e sente frio?

No centro da cidade
No centro da cidade

Oulu, uma cidade gracinha.

Galhos, neve, prédio
Galhos, neve, prédio

As cores do céu encantam tanto quando o branco do chão.

Colorido
Colorido

Por aqui, até o mar congela. Oulu é banhada pelo Mar Báltico.

frozen sea
Frozen

Poxa, inverno, não precisa apelar!

-25!
-25!

E até o momento, no dia mais frio tivemos -28 graus! Até então, meu record tinha sido -27 quando morava no Colorado, nos EUA. Obrigada, Oulu, por ter batido o record sqn. 🙂

Hello, darkness

My close friend, I’ve come to talk to you again!

No último post eu falei sobre kaamos, a deprê que bate no inverno. Acredita-se que há relação direta entre a falta de exposição à luz solar e o transtorno e por isso, ele é muito mais comum no inverno. No Brasil mal se sente a diferença entre as estações e apesar de no verão os dias serem mesmo mais longos, não é um absurdo de diferença. Em São Paulo, pelo menos, mesmo no verão o sol se põe pouco depois das 19h enquanto que no inverno isso acontece pouco depois das 17h. Aqui, segundo o que me contaram, o sol não se põe completamente no verão – ele fica escondidinho no horizonte por cerca de 2h durante a madrugada – e no inverno, como eu sei por experiência própria, ele aparece muito acanhado por cerca de 4h. É realmente bem extremo!

Por este motivo, o tema do post é escuridão! Como é a viver num lugar com tão pouca luz solar por alguns meses do ano?

Spoiler
Spoiler

Como eu já falei mil vezes aqui no blog, o essencial é tomar vitamina D! Parece que estou exagerando, mas é tão importante que acho que para garantir que até mesmo quem resolve que não vai tomar os comprimidos tenha uma dosagem mínima consumida diariamente, muitos alimentos tem a vitamina adicionada. Além disso, em qualquer mercado se encontra diversas marcas e dosagens e o preço, por incrível que pareça e mesmo convertido de um euro que tá valendo mais de 4 reais no momento, ainda é menor aqui do que no Brasil.

Eu não sou uma morning person e sou daquelas que quer aproveitar até o último minuto do sono da manhã – e por essas e outras que prefiro tomar banho à noite, já que banho de manhã significa ter de acordar mais cedo. Multiplique minha falta de disposição para acordar cedo por cem quando são 9h da manhã e ainda está completamente escuro. Agora imagina minha falta de motivação para acordar às 7h da madrugada quando está tão escuro quanto se fosse 4h da manhã? Minha sorte é que no último mês do semestre anterior eu tinha apenas uma aula na semana que começava às 8h15. Todas as quartas-ferias eu travava uma batalha interna discutindo comigo sobre as implicâncias e consequências de não ir à aula e sobre como estava gostoso estar embaixo da coberta. E olha que nem frio estava, já que até então a temperatura estava por volta de 0 grau aqui. O triste é que quando a aula terminava, às 9h45, ainda estava escuro. Então, acordar antes das 1oh e não ver um raio de sol ou uma claridade de um céu nublado é muito desmotivador.

Superada a manhã, você sabe que tem apenas 4h de claridade no seu dia. Durante a semana e com aulas isto significa que praticamente toda esta claridade será desperdiçada, pois ou você estará tendo aulas ou dentro da biblioteca estudando – eu, no caso, prefiro o conforto do meu quarto para estudar. No final de semana, você precisa calcular bem seu dia dependendo da atividade que quer fazer, nem que essa atividade seja ir ao mercado – melhor ir enquanto estiver claro para pegar um pouco de ar fresco e luz do que depois que escurecer. Lembrando que nos meses de inverno aqui, o índice UV (aqueles raios solares que a gente sempre ouve falar que dá câncer, mas na medida certa, fazem bem ao organismo) é constantemente 0 – o sol até vem dar um ‘oi’, mas ele não tem efeito nenhum: não bronzeia, não ajuda a produzir vitamina D, não esquenta, não dá câncer.

E eu acho curiosíssimo que o sol não fica a pino! Ele não nasce no leste, “dá a volta” no céu e se põe no oeste. Ele aparece menos ao leste do que no verão, “desliza” e se põe pouco depois. Claro que estou falando da nossa percepção, eu sei que o sol está parado no mesmo lugar e é a posição da Terra em relação a ele que causa esse efeito, mas de qualquer forma, é curioso e eu nunca tinha visto isso antes de chegar aqui.

Foto tirada perto das 13h no início de dezembro
Foto tirada perto das 13h no início de dezembro

Se assim como eu você é daqueles que almoça tarde quando não tem compromisso nenhum com a vida, como nos finais de semana (porque se você acorda às 11h, né, não existe almoço às 12h), vai achar muito estranho sentar para comer lá pelas 14h30-15h e estar escuro. Às vezes eu até me perguntava se era almoço ou janta e é a parte do dia que mais me confunde. Ou num dia comum, que tenho aula e chego em casa às 16h, já escuríssimo, bate aquela sensação que é hora do jantar e você come aquele pratão às 16h30. Se eu contar que eu já fiz isso sem perceber que era tão cedo para jantar, vocês acreditam em mim? O problema disso é até eu ir pra cama (o que nunca acontece antes da meia-noite), vai me dar fome… aí eu já jantei, faço o que? Fico beliscando com a balança me olhando com deboche.

E este é o sol se pondo às 14h, também no início de dezembro
E este é o sol se pondo às 14h, também no início de dezembro

Como a maior parte do tempo está escuro, precisamos tomar algumas precauções também. É essencial andar de bicicleta com lanterna e quem desobedece pode ganhar uma multa de 50 euros. O que não significa que eu sempre use a minha! Não é que eu sou a desafiadora da lei, vida loca, a iluminada, rebelde! Mas quase todas as ciclovias têm iluminação pública, então o caminho é bem visível e eu acabo esquecendo de ligar a lanterna e eu sei que preciso ficar mas atenta, pois ela não serve apenas para que eu enxergue o caminho, mas para que outros ciclistas e até carros possam me ver de longe. Outro item que todo mundo usa (até eu) são os refletores. Sabe aquele material que reflete quando bate a luz? Então. Muitas roupas de inverno tem refletores, mas mesmo assim é muito normal ver pessoas andando com um chaveiro-refletor grudado na roupa ou na mochila. Isso é para evitar acidentes, principalmente se a pessoa estiver caminhando, pois se um carro se aproximar ou uma bicicleta (com uma pessoa que use uma lanterna, no caso, eu a partir de hoje), a luz vai fazer os refletores ficarem visíveis e a pessoa não vai ser atropelada.

Eu ganhei esse refletor quando fui numa Feira de Intercâmbio no Brasil e passei no stand do Study in FInland. No começo achei que era só um chaveiro, só chegando aqui que notei que era item de segurança!
Eu ganhei esse refletor (super potente) quando fui numa Feira de Intercâmbio no Brasil e passei no stand do Study in Finland. No começo achei que era só um chaveiro, só chegando aqui que notei que era item de segurança!

E para terminar, as vantagens – porque tudo na vida deveria ter precisa ter um lado bom, né? DORMIR. Eu não consigo dormir com luz na minha cara a menos que tenha batido uma laje no dia anterior e esteja super cansada. As janelas aqui não são como as do Brasil com aquela parte escura que você fecha e cria seu escurinho particular, aqui é uma janela enorme com três camadas de vidro para te proteger do frio, mas sem uma camada para bloquear a luz. Cheguei quase no fim do verão quando ainda amanhecia antes das 6h da manhã e era uma luta para dormir, pois mesmo com uma boa venda nos olhos, meu corpo sentia que estava claro e não me deixava dormir (eu não sabia que isso era possível, mas como não entrava nem um pouco de luminosidade pela venda e mesmo assim eu acordava por volta de 6h e pouco sozinha todo dia, só pude concluir isso). Já agora eu posso dormir até 11h da manhã tranquilamente, porque mesmo que esteja ensolarado, o sol nem se mete a besta de conseguir entrar pela janela. Aliás, como você viram, o sol mal sai do horizonte!

 E assim vou vivendo aqui no escurinho de Oulu, que ainda é charmosa nas 4h diárias que fica às claras. 😉

Kaamos

No último post comentei que viajei no winter break, mas antes de começar a escrever sobre a viagem, não posso perder o timing e falar do assunto que dá nome ao post: kaamos!

Kaamos é uma palavra finlandesa que significa “transtorno afetivo sazonal” ou, em outras palavras, aquela deprê que bate por causa do inverno frio e principalmente escuro destas bandas. O transtorno é algo tão presente por aqui que tem uma palavra só para nomeá-lo!

O nome em português é autoexplicativo, mas não custa nada falar um pouco a respeito. Como o próprio nome sugere, é uma depressão relacionada a determinadas épocas do ano e como eu nunca ouvi falar que alguém se sinta deprê num belo verão, ele está relacionado mesmo ao inverno (brincadeiras à parte, apesar de bem mais raro, também existe a de verão, viu?). Os sintomas geralmente incluem transtornos de humor e episódios depressivos, irritabilidade, sonolência e/ou muita preguiça e moleza além do normal, cansaço anormal,  a concentração diminui e há um desejo maior de ingerir alimentos ricos em açúcar e carboidrato e, consequentemente, ganho de peso.

Há teorias de que o transtorno tenha relação com a luz solar: menos sol, menos alegria.

Agora feche um olho (o outro continua lendo o post, ok? haha) e imagine que você está em Oulu. Oulu é uma cidade lindinha a cerca de 170km do círculo polar ártico e no auge do inverno o dia começa a ficar claro depois das 10h da manhã e começa a escurecer pouco depois das 14h. O sol nasce e se põe depois e antes disso e ele não fica a pino – ele nasce no horizonte, “anda de ladinho” e se põe poucas horas depois. Num dia que, de fato, o céu esteja limpo e vemos o sol, ele fica lá por menos de 4h.

That's the feeling!
That’s the feeling!

Olhando pelo lado positivo, pelo menos aqui o sol aparece, né? No extremo norte da Finlândia ele se põe no fim de novembro e só nasce novamente em meados de janeiro. Vou me considerar uma sortuda. 🙂

E eu tenho kaamos? Como estou sobrevivendo no inverno finlandês?

Eu não sei o porquê, mas eu sentia muito mais quando morava em Dublin, onde no auge do inverno o sol nasce pouco depois das 8h e se põe lá pelas 16h. Eu me sentia irritadiça e sem ânimo e estranhava muito o dia extremamente curto – meu cérebro não conseguia lidar bem que apesar de já estar completamente escuro às 17h, o dia ainda estava longe de acabar. Aqui eu não me sinto irritada, mas claro que a sonolência, o cansaço e a preguiça me pegaram de jeito mesmo antes do inverno começar, mas com a vitamina D eu estou indo bem. Um outro sintoma relacionado ao inverno é a perda de cabelo e enquanto no Brasil meu cabelo quase não caía nem quando eu lavava, aqui passei a tirar perucas do ralo depois do banho. Claro que me assustei e comecei a tomar um multivitamínico para dar um help para natureza e como ele também tinha vitamina D – numa dosagem 5 vezes menor – eu resolvi que só tomaria ele. Duas semanas depois chegou uma manhã que eu não aguentei levantar da cama e hoje em dia eu alterno os comprimidos: um dia a vitamina D apenas, um dia o multivitamínico. Tem funcionado – o cabelo ainda cai mais do que caía no Brasil, mas já diminuiu e eu não fico mais sonolenta.

Vontade de comer doce eu sempre tive, então não sei dizer se isso aumentou aqui – o que aumentou foi meu peso. Tem horas que acho que meu cérebro pensa que sou um ser que hiberna e está poupando banha gordura para essa etapa da vida que nunca vai chegar. Engordei 2-3kg desde que cheguei aqui, mas isso também pode ser facilmente associado a falta de exercícios físicos regulares e uma alimentação baseada em “no que estou com vontade de comer agora”. No Brasil eu fazia kung fu três vezes por semana e caminhava bastante e aqui, apesar de andar de bicicleta, a frequência diminuiu muito com a chegada do inverno.

Meu cérebro está muito de bem com a escuridão, porque eu não tenho aquela sensação que meu dia acabou depois das 15h quando está completamente escuro. Só fico atenta que para certas atividades preciso me atentar ao horário para aproveitar a pouca luz do dia que aparece aqui.

Estou lidando bem com os possíveis efeitos colaterais do inverno aqui. Isto é um tapa na cara da sociedade que fez de quem fez cara de nojinho pra mim me perguntando o que eu ia fazer num país de clima inóspito! Não vou dizer que adoro o inverno finlandês, mas nós dois estamos nos entendendo bem. 🙂