Estágio – Peculiaridades do ensino finlandês

No post anterior comecei a contar sobre meu estágio na escola finlandesa. Este estágio surgiu por acaso, já que eu estava mesmo tentando achar algo em alguma ONG brasileira, mas no fim das contas, fiquei satisfeita de não ter obtido resposta de nenhuma das ONGs e acabar estagiando numa escola local. Como professora, posso dizer que a experiência foi excelente e pude ver na prática o que já havia lido na teoria em vários artigos sobre a educação no país. Neste post vou contar mais um pouco sobre esta experiência e o sistema de ensino.

Aulas de inglês

Até 2015, os alunos começavam a ter aula de inglês no 3º ano (com 9 anos de idade), mas com a implementação do novo currículo em 2016, as aulas de inglês começam no 2º ano. Eu pude observar algumas aulas do 2º ano e também dar algumas aulas. Os professores ainda estão “testando” o novo currículo e deixam bem claro que tudo ainda é uma experiência.

De modo geral, nas aulas os professores e os alunos recorrem muito a primeira língua (finlandês) para ensinar inglês. Quando estava trabalhando com os 6ºs anos, por exemplo, todos os textos que entregava os alunos, literalmente, traduziam em finlandês no caderno e eu observei que era uma atitude natural, ou seja, algo que já estavam habituados a fazer em aula. O material didático também recorre a tradução o tempo todo para ensinar inglês.

Conversando com os professores, perguntei se existia algum tipo de escola de idiomas particular (como as que temos no Brasil) ou se os alunos aprendiam inglês apenas na escola. Eu fiquei muito surpresa quando a professora falou que todo o inglês dos alunos é aprendido apenas na escola. No 6º ano, os alunos já dominam o idioma suficientemente bem para se comunicarem em situações do dia a dia e o ensino continua até o fim do ensino médio. Além disso, os alunos tinham 2 aulas semanais de inglês, sendo que em uma delas a turma sempre era separada em duas e fazia a aula em horários diferentes. Segundo a professora, isso acontecia para dar mais oportunidade aos alunos, já que a atenção da professora não era dividida com uma turma inteira.

Porém, de modo geral, os finlandeses são muito tímidos e humildes para reconhecerem que falam inglês bem, então uma situação muito comum é um finlandês ter vergonha de conversar em inglês e se desculpar muito pelo “péssimo inglês”, o que não é verdade. Minha experiência morando em Oulu é que qualquer finlandês com menos de 40 anos tem um nível de proficiência suficiente para se comunicar, mesmo que cometa erros ou tenha um sotaque muito forte, o que prova como o ensino de idiomas no sistema público de educação é bom. Claro que algumas pessoas têm mais facilidade/interesse que outras e falam melhor, mas isto se aplica a tudo, né? Matemática, Biologia, Física etc.

Outros idiomas

Além do inglês, sueco também é obrigatório, pois é a segunda língua oficial do país. Eles só começam a aprender sueco lá pelo 5º ano e, pelo o que notei, não são tão fluentes no idioma como em inglês, talvez até porque não necessitem tanto usar no dia a dia quanto o inglês. Além dos dois idiomas obrigatórios, as escolas costumam oferecer outros idiomas como aulas extras após o período de aula – geralmente espanhol ou alemão. Os alunos que optarem por fazer mais um idioma, não pagam nada a mais, já que o ensino é completamente gratuito.

Aulas optativas

Os alunos da escola primária têm o professor de sala e o professor de inglês/sueco. Na escola onde fiz estágio, eles também poderiam escolher entre fazer aula de trabalhos manuais voltada para artesanato ou marcenaria e afins. Apesar de toda a fama de ser um país com mais igualdade de gênero, alguns estereótipos são os mesmos: eu só vi meninas na aula de artesanato e os meninos todos na aula de marcenaria. Não acompanhei nenhuma aula de marcenaria, mas na de artesanato a professora ensinava a fazer decoração de Natal. Eu gosto muito de trabalhos manuais e acho que teria adorado ter uma aula dessas na escola, ainda mais porque tudo que os alunos fazem tem alguma ligação com a vida fora da escola – quando visitei a escola no verão, as meninas estavam aprendendo corte e costura fazendo saias, por exemplo. Notei que todas as mulheres finlandesas sabem tricotar e todas aprenderam na escola – e saber tricotar uma boa meia ou cachecol na Finlândia é realmente uma habilidade necessária! 🙂

Alunos especiais

 Há um imaginário que no sistema finlandês há a inclusão total. Na verdade, é o que vendem: “nenhum aluno é deixado de fora”. Por um lado, como o sistema é público e trabalha de acordo com a necessidade dos alunos, isto é verdade, mas por outro, não significa que todos os alunos estarão juntos em sala de aula sem qualquer tipo de “segregação”. Os alunos com dificuldades são separados da turma para aula de reforço. Numa turma de 6º ano, duas irmãs gêmeas que tinham muita dificuldade com inglês não participavam das aulas com os demais alunos e faziam exercícios extras em outra sala. As mesmas irmãs e uma outra aluna tinham dificuldade com as aulas de finlandês e as 3 iam para outra turma ter aula com uma professora especial. Nesta aula, com menos alunos, elas podiam ir no próprio ritmo e, assim, ter a oportunidade de aprender também.

Religião

A maioria da população finlandesa é luterana e a aula de religião “padrão”, então, é luterana. Mas o sistema impõe que a religião de cada aluno seja respeitada, portanto, caso o aluno professe outra fé, a escola é obrigada a contratar um professor para dar aulas daquela religião para o aluno. Descobri isso um dia, depois do horário de aula, quando vi uma aluna sozinha com uma professora em uma sala e perguntei a A., a professora de idiomas, o que estava acontecendo. Foi quando ela me explicou que a aluna era católica ortodoxa e como não participava da aula de religião com os demais alunos e era a única na escola, ela ficava depois do horários para ter estas aulas. A A. também me explicou que se a família não tem nenhuma religião, a criança tem aula de ética. Já perguntaram o que aconteceria se a criança fosse do candomblé ou umbanda, ou até mesmo espiritismo… bem, primeiro que eu acredito que não tenha essas religiões por lá ainda, já que são “brasileiras”. Caso isso acontecesse, eu não sei se a escola poderia prover uma aula especial a estes alunos, pois precisariam de professores capacitados. Meu “chute” é que talvez a criança participasse da aula de ética, mas eu realmente não tenho uma resposta final para esta pergunta.

Continua… 😉

Kummi Family

Independente do motivo que escolhemos para ir morar fora, queremos entender um pouco da cultura daquele local e, quem sabe, até fazer parte dela em algum momento. Nos Estados Unidos eu era au pair, morava com uma família americana e aprendia todos os dias um pouco da cultura e religião deles, que eram judeus. Uma experiência ótima e certamente aprendi muita mais que inglês com eles. Na Irlanda, eu trabalhei como babá para duas famílias e embora eu não tenha morado com nenhuma delas, eu passava boa parte do meu dia com as crianças da segunda família, os loirinhos (aliás, eles ganharam uma irmã, agora tem uma loirinha!) e conversava bastante com a B., mãe deles e, de certa forma, também pude aprender mais com nativos sobre a cultura irlandesa. Aqui na Finlândia minha situação é bem diferente, pois como estudante em tempo integral não tenho tempo para arranjar emprego de babá, por exemplo, e ter a chance de conviver diariamente com uma família finlandesa. É claro que tenho amigos finlandeses, mas não convivo com eles o suficiente para dizer que aprendo a cultura plenamente, então, para preencher essa lacuna eu resolvi me inscrever num programa da universidade que visa a troca cultural entre uma família finlandesa e um aluno internacional, o kummi family (família tutora).

A ideia é bem simples: famílias e alunos se inscrevem na universidade e as famílias escolhem um aluno, com quem devem passar algum tempo em atividades diversas. O programa é gratuito e não há nenhuma obrigatoriedade de nenhuma das partes em estar sempre disponível ou se encontrar todo o final de semana, por exemplo. É uma atividade de lazer nas horas vagas.

Eu me inscrevi em janeiro e embora o prazo seja de duas semanas para um match, um mês depois eu ainda estava esperando ser escolhida por uma kummi family e quase desistindo da ideia. Finalmente, recebi um email da universidade informando que eu poderia entrar em contato com a família L.! Na verdade, eles me mandaram um email logo em seguida se apresentando: uma família com 5, eu disso cin-co, filhos! Eles me pediram meu contato de Whatsapp e começamos a nos comunicar pelo aplicativo.

Os pais aparentam estar na faixa dos 40 anos e têm 3 meninas e 2 meninos. A mais velha, a L., tem 15 anos e é com quem mais converso. A L. tem 12 anos,  os meninos são o P. e o N., de 8 e 6 anos, e a menina mais nova, a A., tem 3 anos e é muito fofa! Eles não me contaram antes, mas no primeiro dia que nos encontramos eu notei que tem uma 6ª criança chegando!

A família mora numa cidade chamada Ii (engraçado, né?) que fica a 40km  de Oulu e no nosso primeiro encontro eles vieram me buscar em casa para passar uma tarde/noite de sábado com eles. E. e P., os pais, conseguem se comunicar em inglês, mas com certa dificuldade e algumas vezes a comunicação fica um pouco difícil. L., a mais velha, é a que mais fala e embora também não seja fluente, conseguimos nos comunicar bem, mesmo que às vezes ela precise usar o Google Tradutor. As outras crianças não falam inglês ainda, então só trocamos sorrisos. Os meninos sempre ficam me olhando com muita curiosidade e a mais novinha, a A., acha engraçado que eu não sei falar finlandês – ela não entende como uma pessoa não fala a língua dela!

Vista do "quintal" da casa da família L.
Vista do “quintal” da casa da família L.

O primeiro encontro

Quando chegamos na casa, eu vi que eles não exageraram quando me disseram que moravam na floresta. O vizinho mais próximo está a uns 5 minutos a pé e não se vê nada além de árvores ao redor da casa. Conversamos um pouco e logo serviram o jantar – às 17h – que era sopa de salmão, comida tipicamente finlandesa que estava deliciosa. Havia também vários tipos de pão e leite para acompanhar, porque isso também é algo muito finlandês – eles comem pão e bebem leite em praticamente todas as refeições.

Após o jantar, todos nos vestimos adequadamente e fomos brincar na neve. No dia fazia -1 grau, uma temperatura super agradável – sem ironia. Saímos todos com sledges na mão para descer os morrinhos. Eu já fui esquiar, mas pra ser sincera, não me lembro e já ter usado um sledge antes e nas primeiras vezes desci junto com a L., a mais velha. Ficamos lá uma meia hora e foi muito legal ver aquela família enorme se divertindo. Fiquei pensando como pra eles aquilo é algo super normal e como tudo aquilo fará parte da memória dos pequenos quando eles crescerem enquanto eu só fui ver neve pela primeira vez aos 21 anos. Por outro lado, minha memórias de infância incluem praia, mar e calor e talvez aquelas crianças nunca tenham visitado um mar de verdade e sua praia seja a beira dos rios no verão. Esse mundo é muito grande mesmo, né?

Indo para o morrinho
Indo para o morrinho

Voltamos para casa e foi a hora da sobremesa. Eu quis agradar e levei um bolo de cenoura com cobertura de chocolate ao estilo brasileiro para eles. Bolo de cenoura tem no mundo todo (pelo menos em todo “o mundo” onde eu estive), mas é sempre marrom e com cobertura de cream cheese, já o bolo laranjão com chocolate é invenção nossa e os finlandeses acharam bem interessante e adoraram! A gente sabe quando eles comem por educação e quando gostam – tenho experiência servindo comida brasileira pra gringo – e eles gostaram mesmo, pois até repetiram.

Em seguida, fomos todos para a sala e o pai trouxe seu laptop com o Google Maps aberto e quis que eu mostrasse minha casa em São Paulo. Eu já morrendo de vergonha, porque apesar de morar num prédio com uma fachada limpa e organizada, a rua que eu moro não é exatamente linda e tem  uma casa abandonada, velha e toda pichada bem em frente, além de todos os fios pendurados nos postes que deixam as ruas de São Paulo horrorosas e não passaram despercebidas pelos olhares dos finlandeses. Eles ficaram surpresos com o prédio, muito alto na opinião deles. Eu querendo sair logo da rua, resolvi mostrar pontos mais interessantes da cidade, como a Avenida Paulista, a USP e o Parque do Ibirapuera. Eles ficaram admirados com o tamanho da cidade, curiosos vendo as estações de metrô na avenida e não sabiam o que eram aquelas “caixas” nas janelas dos prédios da Paulista.

– O que são essas coisas nos prédios?
– Ah, isso é ar condicionado.
Cara de interrogação.
– Ar condicionado para deixar o local mais fresco, faz muito calor em São Paulo no verão e as empresas sempre têm para deixar o ambiente numa temperatura confortável.

Aparentemente, ar condicionado não é algo normal para eles, mas pois bem, eles moram na Finlândia, não é? Aquecedor eles conhecem bem, mas uma máquina para deixar o ambiente mais frio é estranho… hahaha…

E é claro que eles me fizeram perguntas esdrúxulas, mas eu não julguei, porque eles moram no meio da floresta da Finlândia e o Brasil é realmente algo bem diferente e exótico pra eles. E eu já perdi as contas de quantos brasileiros já me perguntaram se tem urso aqui perto de Oulu, então fica quase que elas por elas.

– Os meninos adoram futebol! Quando contamos para eles que você era do Brasil, ficaram empolgados porque adoram o Messi.
– Ah, legal. Mas o Messi é da Argentina. Conhecem o Neymar? Eles sim é do Brasil.
– Ahhhh.

– Que tipo de animais de estimação vocês têm no Brasil?
– Gatos, cachorros, passarinhos… essas coisas.
– Ah, vocês não têm macacos?
– Olha, que eu saiba nem pode ter macaco de estimação. São animais silvestres, sabe?

– E lá em São Paulo todos têm eletricidade em casa?
– Sim, claro, São Paulo é uma cidade grande.

Fora isso, ficavam me perguntando os nomes da árvores que eles viam no Google Maps. Aqui em Oulu e região só tem pinheiros e estas árvores de tronco fino e longo, algumas escuras e algumas brancas e basicamente é isso. Em São Paulo, mesmo nas ruas, temos essas árvores de copa gigante e galhos crescendo pra todos os lados, algo que eles acharam bem curioso, só que quem sou eu pra saber o nome dessas árvores? Eu nunca nem pensei em saber o nome delas!

Finalmente, me contaram que adoram pescar no verão e queriam saber de peixes brasileiros. Taí outro assunto que sou expert, só que não. Se eu mal sei o nome dos peixes que eu como em português, o que dirá em inglês. Lembrei, então, que eu gosto muito de comer cação que, por definição, é um tubarão. Expliquei isto e ficaram muito surpresos que no Brasil se come tubarão – agora imagino que eles ficaram pensando no Tubarão Branco e nos achando ainda mais exóticos.

Gostei da família L. e fui muito bem tratada por eles. Eles estão abertos a novas culturas e curiosos para aprender coisas novas, ou seja, realmente estão no clima do programa. Acredito que outro motivo para participarem seja para melhorar inglês, principalmente dos filhos, já que a filha mais velha está aprendendo na escola e ter um estrangeiro é uma forma de praticar.

Agora é esperar para ver o que mais sai desta interação. 🙂

A entrevista

No dia e horário marcados (que eu me certifiquei se estava correto, afinal marcaram no horário de Oulu, onde é 6h mais tarde que aqui), lá estava eu pronta para ir trabalhar, porém tinha uma entrevista por Skype a ser feita antes. Avisei no trabalho que talvez chegaria um pouco atrasada naquele dia e me preparei psicologicamente.

Às 8h30 em ponto eu liguei para o usuário de Skype da universidade morrendo de medo já. Uma das professoras do curso atendeu a ligação e apresentou sua colega de entrevista, uma doutoranda japonesa que havia cursado o mesmo mestrado e dado continuidade aos estudos em Oulu.

Eu tentando agir naturalmente ao começar a entrevista no Skype
Eu tentando agir naturalmente ao começar a entrevista no Skype

Já de cara eu senti um clima de descontração e a primeira pergunta foi um quebra-gelo mesmo: queriam saber como eu tinha conhecido o programa e por que eu havia me candidatado. Eu expliquei que era professora, que sempre gostei da profissão e via o mestrado como uma ótima oportunidade de continuar minha formação acadêmica/morar fora novamente. Já aproveitei o embalo para mencionar que havia morado no exterior – não sei porque, mas sempre acho que isso conta pontos na vida – e elas me perguntaram como havia sido a experiência, especialmente sobre a vida nos EUA, já que, segundo elas, eu era muito novinha quando fui pra lá (tinha 20 anos). Expliquei que foi uma experiência maravilhosa e sei lá eu porque, destaquei a questão do frio como um desafio vencido – acho que para mostrar que mesmo sendo de um país tropical eu soube lidar bem com realidades diferentes da minha – e, obviamente, elas já me jogaram na cara a fria (perdão, não resisti) realidade que vai ser Oulu no inverno e me perguntaram como eu ia lidar com isso. Eu devolvi no mesmo nível: morei na Irlanda, um lugar tão frio que até urso polar usaria gorro. E elas devolveram com um “eh, não é só um país frio, mas muito úmido, o que faz a sensação térmica ser muito mais baixa”. Adoro quando as pessoas me compreendem. Brigada eu.

Terminando o quebra-gelo, já partiram para minha intenção de pesquisa e pediram para eu explicar melhor. Desenvolvi minhas ideias tentando deixar bem claro o porquê eu escolhi o tema e como eu achava que ele era relevante, já que eu via esta questão dando aula e queria discutir a diferença entre o Brasil e a Finlândia neste aspecto (calma, eu vou explicar meu projeto futuramente).

Depois me perguntaram qual era minha intenção ao terminar o mestrado e voltar ao Brasil. Fuén, sei lá, não refleti sobre isso, não sei dizer exatamente o que quero fazer quando voltar, mas acho que o caminho mais lógico seria começar carreira em universidade, então disse que iria voltar e dar aula em faculdades particulares. Pronto, aí dei pano pra manga, pois a isso se seguiu a seguinte observação/pergunta delas:

“Interessante. Você veio de uma universidade pública, mas pretende dar aula numa universidade particular e, inclusive, você trabalha no setor privado! Como é isso? Por que você não tem a intenção de dar aula em faculdades públicas?” Ou seja, por que eu tive toda uma educação “gratuita” (paga com os meus e os seus impostos, o ICMS para ser mais exata) e não queria retribuir isso na mesma universidade pública. Aí lá vai eu tentar explicar a loucura que é o sistema de ensino brasileiro, como funciona o processo para entrar numa faculdade pública como professor e como a USP está sucateada e malemal contratando gente, por exemplo. Não é fácil assim.

Aí caímos na questão de alunos de escolas particulares que ocupam a maioria das vagas das universidades públicas e os das públicas que se matam para pagar uma particular e toda a incoerência do processo. No fim, a professora finlandesa disse que apesar de já ter noção que o ensino no Brasil funciona assim – já havia recebido brasileiros no curso antes – ela não consegue compreender isso tendo sido educada na sociedade que foi. E eu disse que nem tendo sido educada nesta sociedade eu entendia também e que, infelizmente, eu era uma exceção, já que fui uma aluna da rede pública por toda vida e entrei na USP. Até falei que a gente tem programas e tal para facilitar o acesso ao ensino superior, como o ProUni (que agora não vem ao cado minha opinião) e foi isso.

Para finalizar, pediram um pouco mais de detalhes da minha pesquisa de mestrado. Perguntaram se eu tinha alguma dúvida. Não. Destacaram então que o curso era em período integral e que embora meu visto fosse permitir que eu trabalhasse, eu não deveria contar com isso, mas estar preparada para me bancar, já que a universidade também não me daria nenhum tipo de assistência – que o curso já era free.

A professora finlandesa, antes de se despedir, disse que havia gostado muito da minha intenção de pesquisa e que havia muitas oportunidades dentro deste campo no mestrado e foi isso. Me desejaram boa sorte e desligaram, usando 28 dos 30 minutos previstos para a entrevista, que foi mais mesmo uma conversa.

Eu estava muito nervosa, muitas palavras sumiram da minha cabeça e em alguns momentos eu até fiquei com receio de estar enchendo linguiça e me repetindo. Eu senti um clima muito informal mesmo e um foco diferente ao que é dado no Brasil: aqui sinto que sou um papel com minha formação acadêmica, títulos e projetos – eles não estão interessados no meu perfil, mas na minha produção acadêmica. Nesta entrevista eu senti que eles tinham interesse no indíviduo Beatriz: quem é, o que faz, onde vive? Por que escolheu ser professora e fazer mestrado na terra do Papai Noel? Hoje, no blog Um Fabuloso Destino. Piadas à parte, senti um interesse nas minhas ideias, visão de mundo e na minha contribuição para o curso – afinal, partem do princípio que os mestrandos não vão só aprender mas também ensinar, já que ensino é isso mesmo: uma troca!

Fiquei um tanto eufórica o resto do dia e fiquei ansiosa pelo resultado, que saiu duas semanas depois.

Eu sinto em português

Uma das coisas que gosto em São Paulo é a intensa vida cultural da cidade. Sempre há algo novo para se fazer ou ver morando nesta Paulicéia Desvairada, afinal, tudo quanto é exposição chega aqui.

Apesar de não postar a respeito no blog, eu costumo ir em tudo quanto é evento cultural e esse ano fui ver Stanley Kubrick, David Bowie, Castelo Rá-Tim-Bum, Cazuza, o musical e FILE 2014, para citar alguns. Pois bem, ontem começou a exposição surrealista de Ron Mueck na Pinacoteca e como era feriado, resolvi ir. Como esperado, a fila estava enorme e já que o Museu da Língua Portuguesa fica bem em frente, resolvi dar uma volta lá (pela 3ª vez na vida) antes de encarar a fila que dobrava o quarteirão.

No último andar do museu é exibido um filme sobre a origem da língua e em seguida, são feitas projeções nas paredes ao som de trechos e poesias de vários autores brasileiros. No meio de todas aquelas palavras, eu ouço “Eu falo português. Eu penso português. Eu sinto português.” e tive um remember de uma epifania!

Explico. Mas senta que lá vem história.

Falar uma língua não é pura e simplesmente conhecer seu vocabulário e gramática, mas tomar conhecimento de sua cultura – língua e cultura são inseparáveis. Se português é sua língua materna, você traz na bagagem tudo que inclui ser um falante nativo de português do Brasil. Você pensa em português e todas as suas experiência de vida foram processadas por você em português. Reserve este parágrafo.

Dizem por que pessoas bilíngues assumem personalidades diferentes quando falam cada idioma. Claro que isso não significa que a pessoa se transforma em outra completamente diferente, mas que assume posturas diferentes, como ser mais extrovertida falando uma língua do que outra e, claro, isso acontece se a pessoa também está/esteve inserida na cultura de ambas as línguas. A minha voz muda quando eu estou falando inglês por muito tempo – esta semana mesmo, por exemplo, precisei falar português com meus alunos teens, algo que nunca faço, e o comentário imediato deles ao me ouvirem falando português: “Teacher, sua voz em português é tão diferente”. Tenho dupla personalidade vocal, aparentemente. Reserve este parágrafo.

Se você fala outra língua e já precisou/foi obrigado a usá-la por muito tempo sem poder/conseguir usar português, lembre-se como você se sentiu. E por muito tempo quero dizer dias seguidos, no mínimo. Na Irlanda eu falava português frequentemente, pois vocês já sabem que em Dublin tem mais brasileiros que muitas cidades pequenas daqui, né? Passava o dia falando inglês com os meninos, mas a noite era só português com os flatmates. Mas quando cheguei nos Estados Unidos só fiz amizade com estrangeiras, morava com uma família americana e nos meus primeiros 2,5 meses eu praticamente não falei português. Eu cheguei num ponto de estar quase pirando, de não aguentar mais falar “a língua dos outros”, de querer expressar meus sentimentos e pensamentos na minha língua e em alguns momentos me sentia até frustrada de olhar para a cara daqueles americanos e saber que não entendiam uma palavra na minha língua.

Finalmente, se você é fluente em algum idioma, já chegou aquele momento em que precisou falar dos seus mais profundos sentimentos e não conseguir achar as palavras certas, não por não sabê-las, mas porque parecia que nada descrevia exatamente o que você sentia? Ou então, falar alguma frase carregada de sentimentos, mas ter a sensação que ela não soa tão sincera/real/profunda quanto soaria se pronunciada na sua própria língua?

Agora junte os quatro últimos parágrafos. Exatamente! Não importa o quão fluente eu seja numa língua, o quanto eu manje dos paranauês dela, o quão confortável eu me sinta enquanto a falo, eu sempre vou sentir e processar minhas emoções em ~português~. Eu falo português, eu penso português e eu sinto português. Afinal, inglês é e sempre será minha segunda língua, “guardada” no meu cérebro numa gaveta diferente do português, aquela língua que parece que também tem uma gavetinha no coração. 😉

Ah e sim, eu acabei visitando a Pinacoteca e achei as obras sensacionais! Visita recomendada!

Ficava sem graça quando…

A pessoa chega num país que não conhece bem e fica meio sem graça às vezes…

Semana 13 – Ficava sem graça quando…

1- Não entendia o sotaque

Não é novidade pra ninguém que o sotaque irlandês (ou os sotaques, já que há vários) pode ser bem chatinho de se entender, ainda mais no começo quando ainda não se está habituado. Eu estava muito acostumada ao sotaque americano quando cheguei lá e os meus primeiros meses foram terríveis toda vez que precisava falar com um nativo. Numa das minhas primeiras vezes no mercado, a caixa me perguntou se eu queria uma BAIG. What? BAIG. Ahn? BAIG. A bike? No, a BAG! ¬¬

2- Não conhecia  o equivalente em inglês britânico

Sim, eu era professora de inglês antes mesmo de ir para a Irlanda, mas o meu inglês era basicamente americano e eu tinha contato com o tal em filmes, livros e seriados e sabia aquele basicão do “é assim no inglês britânico”. Aí, a primeira vez que fui ao banco depositar meus euricos, eu fiquei meio perdida até sacar que lodgement era como eles falavam depósito. Ou então, quando comecei a cuidar dos meninos, tive que começar a falar nappies e cot ao invés de diaper e crib.

3- Elogiavam meu inglês

Quando comecei a fazer minhas primeiras entrevistas de emprego, chegava na casa da família, abria e boca e “Oh, your English is very good… have you lived in America? You sound American“. E onde meter a cara? Eu, definitivamente, não sou uma pessoa que sabe receber elogios – ou fico sem graça ou fico sem graça. Ou finjo que não é comigo.

4- Brincar com os loirinhos na frente dos pais

Não acontecia só com eles, nos EUA também tinha isso: eu sempre fico sem graça de interagir com as crianças na frente dos pais, simplesmente não sou a mesma pessoa. Quando ficava só com os meninos, eu era a pessoa mais retardada brincando com eles, daquelas que fica pegando, zoando e fazendo macaquices com os meninos; na frente dos pais, mal sabia como conversar com eles. Eh, muito besta!

5- Reclamar com flatmate folgado

Aquele flatmate que vai tomar banho com a água quente do boiler que você ligou ou que pega sua comida sem pedir ou que não lava a panela mesmo sabendo que esse é um item de uso comum ou joga as responsabilidades da casa para os outros ou [insira sua revolta aqui] e você, porque é um cara legal, fica sem graça de reclamar e causar um mal-estar na casa.