Uma viagem muito louca

Eh, voltei para o Brasil, mas não pense que as 21h que se passaram entre a hora que saí da minha então casa em Dublin até chegar na minha agora casa em São Paulo não foram cheias de emoções e trapalhadas. Ou você acha que este post tem título de filme de Sessão da Tarde de graça?

Tudo começa com as malas. Eu não sou daquelas que consegue montar a mala dias antes da viagem, então, às vésperas de voltar, não sabia bem se precisaria de 2 ou 3 malas para levar minha vida de volta para o Brasil. A ideia era levar apenas 2 malas despachadas, mas aos 45 do segundo tempo notei que sou muito apegada às coisas materiais, bem estilo Material Girl da Madonna, e não consegui me desfazer das minhas posses. Nota mental: Viver à lá Chris McCandless qualquer dia desses, mas sem me meter no meio do mato.

Arranjei uma terceira mala e lá fomos nós para o aeroporto: eu, duas flatmates lindas e maravilhosas, 4 malas e uma mochila. Como o voo era à tarde, resolvi ir de ônibus e no caminho encontramos uma brasileira indo para o aeroporto também. Eu meio nervosa, querendo me distrair, puxei papo com ela e me arrependi 5 minutos depois. A menina era daquelas que foi au pair nos EUA e mora na Europa (tipo eu), e acha que Brasil é uma merda e a Europa é vida (tipo eu, só que não) e ficou com esses papinhos de ter necessidade de morar em Portugal, porque, né, que retardado iria querer morar no Brasil? Convencida de que eu não precisava ouvir isso naquele estado de nervosismo de quem volta para o Brasil depois de 1 ano fora, virei a cara para a janela e deixei a menina falando com as flatmates (sorry, meninas, mas estava quase vomitando ouvindo o ser humano).

Ou eu calculei mal o tempo ou o motorista era muito lerdo (segunda opção, os motoristas de Dublin são a cara da lerdeza) e já estava tensa pelo horário quando finalmente chegamos ao aeroporto faltando 1h30 para o voo decolar. Fiz check-in, paguei excesso de bagagem pela minha 3ª mala despachada (165 euros, diga-se de passagem), me despedi das meninas, passei pela segurança e fui procurar o portão 311. Naquele misto de emoções, eu meio avoada, me dei conta que fui parar no lugar errado e quando tentei voltar, tá dáááá: no way out! A porta era bloqueada e não havia como eu voltar. Faltando 20 minutos para começar o embarque, eu estava perdida dentro do aeroporto. Como eu saí de lá? Eu SAÍ, literalmente! Fui parar na fila da imigração que tinha apenas um oficial para atender. Comecei a pedir desesperadamente para os primeiros da fila me deixarem passar, pois estava atrasada, até que um casal de americanos me deixou passar na frentes deles, e o asiático da frente, comovido com minha cara de loser, me deixou passar também. Já estava esperando ser barrada lá, porque, né, eu só tinha uma desculpa esfarrapada de que saí pelo portão errado e não deveria estar ali.

– Oi! Eu me perdi no aeroporto e precisei sair para ir para o portão certo. Meu voo para Frankfurt sai daqui a pouco!
– Ah, vai reto aqui pelo corredor até o final, suba e procure as plaquinhas de voos de conexão. (e nem olhou meu passaporte – e se eu estivesse mentindo?)

Cheguei, novamente, na segurança do aeroporto. A essa altura já estava suando até pela sola do pé. E lá vamos nós tirar bota, cinto, lenço e apitar no detector de metais (engraçado que da primeira vez não apitou) e ser apalpada revistada pela funcionária. Desta vez olhei as plaquinhas com mais atenção e consegui chegar no portão quando a fila se formava para o embarque, molhada de suor.

Ainda consegui fazer umas ligações de última hora na fila. Quando entrego meu bilhete para a agente de embarque, ela me lança um olhar do mal e diz que minha mala é muito grande para ir comigo na cabine, pega a balancinha e diz que o limite de peso é 8kg e a minha tinha mais (eh, tinha mesmo). Falei que iria colocar os kilos extras na minha mochila, então, simples. Aí começou uma pequena discussão (porque eu sou bocuda e argumento com o pessoal da companhia aérea, mesmo sabendo que eu posso ficar sem minha mala ou parte das minhas posses):

– Não, porque sua mala é muito grande e você só pode levar uma mala de mão.
– Mas isto não é uma mala, é uma mochila.
– Não importa, é muito grande.
– Meu destino final é o Brasil e quando vim, eu pude trazer a mala e a mochila comigo.
– Ah eh? Não sei disso.
– Tem muita gente embarcando com mala e bolsa (apontei a galera passando), isto não é justo!
– Sua mala é muito grande e você só tem direito a uma na classe econômica. Você pode despachá-la ou deixá-la aqui.
– E quanto você vai me cobrar para despachar a mala?
– Não estou te cobrando nada, mas se você quiser pagar, fique à vontade. (e este é o treinamento que a Lufthansa dá aos funcionários!)
– É seu trabalho me informar isso!
– Sua mala não tem nem etiqueta de mala de mão, você não mostrou ao fazer check-in.
– A atendente não me perguntou sobre minhas malas de mão e não sou obrigada a saber disso, não sou eu que trabalho para a Lufthansa. Ela deveria ter me orientado sobre as malas de mão (na verdade, eu sabia de tudo, mas o fato é que a moça do check-in realmente deveria ter perguntado sobre as malas de mão, né?)
– É obrigação do passageiro apresentar todas as suas malas ao fazer check-in. Você vai despachar a mala ou deixá-la aqui?
(muuuuuito frustrada)
– Você tem algum lacre para eu colocar na mala?
– Não, não tenho.
– Qualquer um pode abrir a minha mala, a Lufthansa se responsabiliza se algo estiver faltando quando eu chegar no Brasil?
– Nós não abrimos malas. (inocência ou ironia?)

Abri minha mala de mão, tirei os itens de valor e amarrei um lacinho prendendo o zíper. Não iria impedir ninguém de abrí-la, mas pelo menos não seria fácil demais. Fui a última passageira a embarcar num voo lotado para Frankfurt, lançando um último olhar à minha malinha e me perguntando se a veria novamente.

O voo decolou às 18h15, horário local, e a viagem toda durou 1h30. Acostumada ao padrão Ryanair, achei estranho quando serviram um lachinho, uma saladinha com torradas. O voo foi tranquilo, mas eu tenho o dom de me sentar perto de pessoas que cheiram mal, acontecia sempre nos ônibus de Dublin. Foi um voo tenso, vários odores e eu não via a hora de chegar!

Saí do avião e tinha 1h para embarcar no voo para São Paulo. Quer dizer, 1h para o avião decolar, o embarque começaria 40 minutos antes. Coloquei a mochila nas costas e fui seguindo as placas muito atentamente desta vez (porque imagina a confusão se eu me perdesse novamente?) e uns 15 minutos de caminhada depois, cheguei a segurança (terceira vez no dia). Para variar, o detector apitou quando passei e fui, mais uma vez, apalpada revistada.

Meu celular toca e um policial da GARDA se identifica, falando sobre laptops roubados. Juro que se ele estivesse ligando para avisar que haviam achado meu laptop eu iria xingá-lo, porque isso não se faz! Ligar para pessoa com uma notícia dessas no dia que ela está deixando a Europa nas lembranças? Mas não, era só para me perguntar se quando levaram meu laptop eu recebi uma ligação pedindo “resgate”, porque havia acontecido um caso assim na região que ele atendia e queria apenas checar se os crimes eram parecidos. Ah bom, né?

Embarquei sem grandes problemas no voo para o Brasil (já tinha dado de causar na Europa), pronta para as próximas 11h20 de viagem.

[continua]

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CSI Dublin

Quem acompanha sempre o blog deve ter percebido que sumi, já que o último post já tem quase uma semana. É que fica um pouco difícil para uma blogueira escrever sem seu laptop… que foi roubado!

O caso

– Alô!
– Bia, você não acredita! Entraram em casa e levaram tudo!
– Mentira!

Na última segunda-feira a casa onde moro foi arrombada e levaram todos os laptops. Sim, isso mesmo, invadiram minha casa e roubaram meu laptop!

Estava voltando do trabalho quando um dos flatmates me ligou. Eu não consegui acreditar, só pensei nas fotos e nos arquivos que tinha no laptop. Liguei para a B., a mãe das crianças, perguntando o que poderia fazer. Ela me orientou a ligar para o 999, o número de emergência da Irlanda.

Nenhum dos moradores estava em casa e durante o dia, alguém arrombou a porta (aqui não existe a cultura do portão, logo, a porta dá direto para a rua) e roubou apenas nossos laptops. Não levaram câmeras, não reviraram a casa à procura de dinheiro ou outros objetos de valor. Só queriam nossos preciosos laptops.

A GARDA

Liguei para o 999, que me redirecionou para GARDA, a polícia irlandesa, e 30 minutos depois dois policiais vieram em casa. Olharam a “cena do crime”, vulgo “quartos”, pediram algumas informações e detalhes dos laptops furtados. Eu não sabia se ria ou chorava quando um dos policiais me disse que eu deveria ligar dando todos os dados do laptop para eles colocarem no sistema, pois caso o achasse, me ligariam para devolver. Tipo, há a possibilidade de ele ser achado? 😦

Os detetives

Logo depois, os detetives da GARDA vieram procurar indícios do fdp desgraçado indivíduo que invadiu a casa. Nesta hora eu me senti num episódio de CSI. Dois homens com maletas procurando digitais pela casa. Mas não deu em nada: o cretino indivíduo usou luvas e não deixou rastros.

A ficha caiu

Eu fiquei muito chateada. Meu desânimo foi tanto que pensei em voltar para o Brasil já. Nunca me aconteceu isso por lá e eu não vim para a Europa para ser furtada. Era só isso que eu pensava. Dormi muito mal naquela noite, ficava imaginando um bastardo indivíduo entrando no meu quarto e pegando meu laptop de cima da cama. No dia seguinte, a esperança de chegar em casa e ver meu velho Dell em cima da cama ainda vivia, mas ele não estava lá. Anos de downloads de música, fotos, arquivos e trabalhos freelancers que eu faço se foram. E assim como o passaporte, não me deixaram bilhete de despedida também.

O apoio

A família para qual trabalho é realmente maravilhosa, e no mesmo dia me ligaram à noite para saber como eu estava e se eu queria que eles me buscassem para dormir na casa deles. Claro que não aceitei, mas fiquei feliz com a atitude. Eles deixaram o laptop deles para eu usar e me emprestaram o iPad para não ficar sem net em casa. Pessoas lindas: sim ou claro?

Além disso, após fazer muito drama no Facebook, um amigo se comoveu comigo e me doou um tablet que ele não usava mais. Não substitui um laptop, mas quebra um galho e a atitude dispensa comentários.

Quem entrou em casa fez tudo muito rápido, tanto é que um dos laptops não foi roubado simplesmente porque não estava visível (estava do lado da cama, do lado contrário da porta). O meu e os outros estavam em cima da cama, visíveis. O corno desgraçado indivíduo não se deu ao trabalho de procurar nada, levou o que viu. Com certeza vai trocar por drogas…

Na mesma semana, o e-Dublin publicou uma matéria sobre furtos na cidade. Eh, esqueçam esta história de que na Europa é tudo maravilhoso. Eu nunca tive essa ilusão, mas não esperava ter conhecimento de causa para falar a respeito!

Rindo da própria desgraça

Para descontrair um pouco, um amigo me enviou esta matéria sobre um laptop roubado em Londres que começou a mandar fotos de seus novos donos no Irã! Infelizmente, eu não tinha nenhum programa espião ou algo do tipo no meu laptop e jamais saberei de seu paradeiro, mas por um momento pensei que o danadinho pode começar a viajar mais do que eu!

GNIB

A Irlanda exige que se comprove 3 mil euros para tirar o visto de estudante. Nós, brasileiros, não tiramos o visto ainda no Brasil. Quando se chega aqui na Ilha Esmeralda, o oficial da imigração faz um tipo de triagem, vendo se você tem todos os documentos exigidos para entrar no país, carimba seu passaporte te dando 30 dias para regularizar sua situação e avisa que você vai ter que procurar a imigração.

Parece fácil, né? Mas existe um longo (e árduo) caminho até lá.

Primeiro, o que quer dizer a sigla GNIB? Garda National Immigration Bureau, ou seja, o escritório de imigração da Irlanda. É lá que você vai pegar seu visto, mas antes…

O grande X da questão é que para provar que você é o feliz dono de 3 mil euros, é necessário um extrato bancário. Eles não querem ver dinheiro em espécie, não querem ver extratos de VTM, não! Querem ver o extrato de um banco irlandês. Neste post aqui você já ficou sabendo como funciona o sistema bancário dos leprechauns e viu que ele pode ser tudo, menos rápido.

Além da questão de ter um endereço fixo primeiro para poder receber cartão e senha do banco pelo correio, tem toda a demora peculiar já explicada num outro post. Por isso, não é estranho conhecer intercambistas que conseguem o GNIB depois de quase 2 meses na Irlanda.

Eu consegui meu GNIB com 20 dias de Irlanda. E agora vou revelar como consegui tal façanha!

1- Consegui endereço fixo com 2 dias de Irlanda;

2 – Para minha alegria, a ECM tem parceria com o AIB e foi só levar a carta da escola com meu endereço para eles abrirem minha conta de estudante;

3- Depois que abri a conta, em cerca de 10 dias eu estava de posse do cartão e da senha;

4- Depositei o dinheiro numa sexta-feira e na segunda fui lá solicitar o extrato. Como tudo na Irlanda, é óbvio que isso não ficaria pronto na hora. Me deram um prazo de 5 dias (in)úteis;

5- Aí você pensa “Ah, pega o extrato no caixa!”. Ideia brilhante, se nele aparecesse meu nome e o número da minha conta. Só que não.

Tendo em mente a sabedoria popular que diz que o não eu já tenho e preciso ir atrás do sim, peguei minha carta do seguro governamental, meu passaporte e o extrato sem identificação com meus 3 mil euricos na conta e fui encarar o escritório da imigração.

Chegando lá, o irlandês do guichê pediu meus documentos. Eu entreguei tudo com a maior cara de tonta que tenho (ou seja, a do dia a dia mesmo).

“Mas nesse extrato aqui não tem seu nome…”
“Não?!” (fazendo cara de surpresa)
“Não, você não tem um com seu nome?”
“Ah, eu posso mostrar meu cartão do banco pra você conferir o número da conta…”
“Mas não tem o número da sua conta no extrato…”
“Ah não?” (Jura?)
“Não…”
“Bem, tenho outro extrato aqui com o número da minha conta. Olha.” (é um outro tipo de extrato, para simples conferência e acreditem, neste tinha mesmo o número da minha conta!)
“Ok, mas de qualquer forma não dá pra provar que esse extrato é seu… ok, tudo bem, mas da próxima vez você vai precisar de um com seu nome impresso, ok?”

E assim regularizei minha situação no país dos leprechauns!

E foi assim que consegui meu GNIB sem provar que o extrato do banco era meu mesmo. Ou isso ou teria que esperar mais uma semana até o AIB me mandar o de verdade pelo correio.

Viu como na Europa é tudo moderno, rápido e simples?

See you, folks!