Primeiro ano de mestrado – Parte 2

O post anterior deve ter dado uma impressão que eu estou meio entediada com o mestrado. Seria ótimo dizer que foi só uma impressão.

A universidade e as aulas

As pessoas idolatram e idealizam a Finlândia como o país do milagre da educação. Eu não vou nem entrar no mérito dos exames usados para gerar os rankings – ou vocês acham super normal e justo usar um exame padrão para avaliar países tão distintos como Brasil e Finlândia, por exemplo? -, mas o que as pessoas talvez não notem é que isso se aplica ao ensino básico. Não estou dizendo que as universidades finlandesas não são boas, mas que quando pensamos no tal milagre da educação, isto não inclui o ensino superior. Não vou aqui citar posições em rankings das universidades, porque a colocação pode variar muito dependendo de qual ranking você escolhe, o que é avaliado e quantos países estão inclusos – nada nessa vida é preto no branco.

mestrado

A Universidade de Oulu tem uma estrutura incrível e nem poderia ser diferente, já que a cidade é considerada o “vale do silício finlandês”. Não faltam computadores para uso dos alunos, a biblioteca é muito boa e com muitos espaços para estudos individuais ou em grupo, as instalações são ótimas, tem wifi no prédio inteiro, todas as salas de aula têm computador, projetor, aquecimento, ventilação, enfim, tudo necessário para dar condições adequadas a alunos e professores de aprenderem e ensinarem. Mas como a gente sabe, o protagonista ainda é o professor. E aí a coisa pode complicar um pouco.

Eu tive diversos professores enquanto cursava Letras e Licenciatura na USP e 99,9% deles tinha algo em comum: doutorado. É claro que eu sei que a USP não corresponde a realidade do país, mas esta é a realidade de onde eu saí para ir me meter na Finlândia… Para chegar e notar poucos meses depois que a Faculdade de Educação está um tanto sucateada. Cerca de metade dos meus professores são doutorandos e muitos deles ensinam disciplinas não relacionadas com sua área de pesquisa. Veja, eu não estou desmerecendo os professores, até porque admito que alguns deles são realmente muito bons e vão bem preparados para a aula, mas não faz sentido nenhum você colocar para ensinar no mestrado alguém que o maior título “conquistado” é o de mestre. Ou então, pense assim: uma escola de inglês, por menor que seja, jamais vai colocar uma pessoa que acabou de sair do curso avançado ou que ainda não tem experiência como professor para dar aula para a turma avançada. Esta pessoa vai começar com os níveis mais básicos, porque ela não vai dar aula para uma turma que vai ganhar o mesmo certificado que ela acabou de receber. A comparação pode parecer besta, mas é para deixar meu ponto de vista mais claro. E aí eu penso “Poxa, saí do Brasil para ter minhas aulas de mestrado com pessoas que são mestres, enquanto no Brasil eu tinha aula na graduação com doutores. Oi?”

Eu tive professores doutores terríveis na USP, aliás, alguns para serem chamados de terríveis ainda precisariam melhorar muito, mas eram todos pesquisadores que dominavam muito o assunto que lecionavam e nunca deixavam uma pergunta sem resposta. Eu já saí de aulas do mestrado onde perguntas foram feitas e respostas não foram exatamente dadas. Além disso, já foi dito abertamente que porque um professor titular que ministrava as principais disciplinas do curso se demitiu, mestrandos foram escolhidos às pressas para ocupar seu lugar – para lecionar as principais disciplinas do curso. Tirem suas conclusões. Enfim, resumindo: como diz o ditado “diploma não encurta a orelha de ninguém”, mas nem por isso eu acho que é aceitável termos professores no mestrado que são mestres e, visivelmente, estudaram o tema da aula para estar lá lecionando e não dominam o assunto. Não dá para nivelar por baixo. Assim como eu não posso dar aula no ensino regular no Brasil sem ter meu diploma de licenciatura por mais talentosa que eu seja como professora, certas regras deveriam ser seguidas no corpo docente de qualquer curso de mestrado que se preze. E eu não culpo os professores, eu culpo a Faculdade mesmo.

Outro ponto é que o formato de aula da USP é um tanto parecido com o da universidade, o que por um lado é bom, pois não tive dificuldades em me adaptar, mas por outro me faz sentir entendiada. Assim como na USP, a maioria das aulas pressupõe que o aluno tenha lido o artigo escolhido para que haja discussão em sala de aula que é mediada ou guiada pelo professor. O que difere um pouco é que na Finlândia muitas vezes os professores nos separam em grupos para propor estas discussões. Muitos colegas meus ficam admirados que o “aluno tem voz e participa das aulas e que os professores não são os donos absolutos da verdade”. Ehhh… mais ou menos, né, gente?

Há muitas discussões em aula, o que é ótimo mesmo, mas são discussões que, pra mim, soam como mais do mesmo, senso comum, algo lógico e óbvio pra cabeça de uma pessoa que já estudou educação formalmente. Enquanto meus colegas parecem ter insights e epifanias, eu fico pensando no que vou fazer pro jantar, porque não me sinto interessada, desafiada e tampouco na vibe de entrar na discussão. É lógico que eu não sou expert em educação, não sei tudo, não li tudo e tenho muito a aprender (a vida seria muito chata se a gente não aprendesse algo todo dia, não é?), mas é que, no máximo, vejo que as discussões apresentam um outro ponto de vista de um assunto que pra mim já é claro. Nestes casos, me interesso nos primeiros 5 minutos e depois minha mente voa… Finalmente, algumas disciplinas simplesmente não me interessam ou do jeito que são expostas, se fazem desinteressantes.

Nos últimos meses, me perguntei diversas vezes qual era o problema. Eu não tinha a menor vontade de ir a maioria das aulas, os assuntos não me interessavam e eu sentia que nada acrescentava muito à minha formação pelos motivos que eu já citei. Mas ao mesmo tempo, notava que a maioria dos meus colegas de turma pareciam estar tirando proveito da experiência.

Continua…

Como eu me sustento na Finlândia?

Já estou morando na Finlândia há quase 8 meses. Tenho visto de estudante que permite trabalhar até 20h semanais legalmente, mas o problema é conseguir emprego sem saber falar finlandês. Impossível não é, mas vai exigir muita perseverança de quem estiver disposto a tentar. E se, teoricamente, eu não trabalho aqui, como eu me viro para pagar as contas?

Como já falei algumas vezes em outros posts, apesar de o país ter sim um custo muito alto de vida, eu dei “sorte”. O custo de vida de Oulu é mais baixo do que de Helsinki, eu moro num apartamento de estudantes com aluguel muito baixo – é menos do que eu pagava em Dublin para dividir quarto -, a internet é gratuita, água e luz estão inclusas no aluguel e enfim, eu consigo me manter gastando bem  menos do que os 560 euros mensais exigidos pela imigração para emitir o visto.

Mas mesmo gastando pouco, eu gasto. E gasto em euros que ainda está na casa dos 4 reais. De onde eu tiro dinheiro? Que banco eu roubei?

Vamos deixar algumas coisas claras:
1  – Eu trabalho desde os 18 anos.
2 – Desde que meu primeiro pagamento eu criei o hábito de poupar. O dinheiro batia na conta, eu separava uma quantia que não faria falta naquele mês e guardava.
3 – Eu sempre tratei meu dinheiro guardado como sagrado: não mexia nele a menos que fosse extremamente necessário.
4 – Eu estudei em universidade pública, eu nunca saí da casa dos meus pais (só nos meus intercâmbios) e eu não tenho filhos e é claro que não posso negar que isso facilitou muito o processo de guardar dinheiro.
5 – Eu nunca me endividei com cartão de crédito.
6 – Eu me permitia alguns “mimos”, como comprar uma roupa ou um relógio de vez em quando, mas apenas se eu tivesse dinheiro para tal. Jamais fiz dívidas de cartão a perder de vista.

Então, num misto de educação financeira e certos privilégios já citados, eu consegui juntar dinheiro. Paguei meu intercâmbio nos EUA assim. Paguei o intercâmbio na Irlanda assim também. E agora que estou na Finlândia, é esse mesmo dinheiro que me sustenta aqui. Eu não comecei a poupar quando recebi o resultado do mestrado ou quando me inscrevi, nem mesmo quando decidi que queria tentar, 1,5 ano antes de vir. Eu poupo dinheiro desde sempre. Não estou concluindo que qualquer um possa fazer isso, como eu já disse, eu reconheço meus privilégios, sendo o maior deles não precisar gastar dinheiro em educação, mas que poupando um pouco todo mês, com tempo e paciência, a gente consegue juntar de acordo com nossas limitações.

Mas agora eu preciso contar que não é só esse dinheiro que me sustenta na Finlândia. Por um acaso enorme, eu consegui um trabalho freelancer aqui que me garantiu alguns bons euros. A universidade, mais especificamente a faculdade de educação, precisava de alguém fluente em português para traduzir dados de uma pesquisa para o inglês. Foram 4 meses de trabalho conciliados muito bem com os estudos. Além disso, como já contei aqui, participei duas vezes do Ravintola Päivä e isso me garantiu alguns euros também. No fim das contas, considerando-se o quanto ganhei e meus gastos mensais, todo este dinheiro junto foi suficiente para quase 5 meses. Eu vou completar 8 meses morando em Oulu.

Vocês sabem que sou professora de inglês, mas talvez você não saibam que eu também sou freelancer. E, no momento, eu tenho dois trabalhos “fixos”, ou seja, eu presto serviço para duas empresas no Brasil, o que significa que todo mês entra dinheiro e, consequentemente, eu não preciso tirar das minhas economias. É óbvio que receber em reais e gastar em euros não é nada legal, não é bom, não é o ideal. Mas eu não tenho planos de imigrar definitivamente, então, se não há trabalho para mim que pague em euros, ainda acho mais vantajoso ganhar em reais do que não ganhar nada.

Resumindo: na falta de bolsa de estudos ou de família mandando dinheiro, eu me sustento na Finlândia com uma mistura de recursos poupados ao longo de anos, trabalhos aleatórios que surgem aqui e trabalhos freelance do Brasil. É o melhor, o ideal? Não sei, o ideal mesmo seria eu ter uma bolsa, mas na impossibilidade de uma, eu me viro como posso e tem dado certo.

Meu conselho é só um: poupe sempre e invista seu dinheiro, nem que você só possa poupar 20 reais por mês. O importante é começar a ter o hábito e aprender a se planejar financeiramente. Eu sei que todos temos nossas limitações, que vai ter mês que as contas vão apertar e não está fácil pra ninguém, mas ao invés de procurar desculpas, procure motivação para tentar. 🙂

Sete meses em Oulu

Tenho a impressão que toda semana escrevo post de “mesversário” em Oulu! O tempo voa quando a gente está até o pescoço com coisas pra fazer, não é? Sete meses sem pão francês, canjica e bisnaguinha com requeijão.

  • Alunos e professores do meu mestrado se reuniram num frio e ensolarado sábado à tarde para prática de esportes de inverno. Se algum finlandês falar que vai esquiar, esqueça as montanhas e as descidas de ski! Aqui se pratica o cross country skiing, que nada mais é do que deslizar na neve em um lugar plano.
Tipo isso!
Tipo isso!

Eu não sou fã de ski, então fiquei descendo as montanhas de neve no sledge mesmo. 🙂

  • Fiquei 9 dias fora no Reino Unido aproveitando a winter week e foi muito bom para relaxar um pouco e esquecer um pouco do trabalho e do mestrado. Voltei mais cansada do que fui, claro, mas valeu cada minuto.
  • Já estou preparando a renovação do meu visto para o segundo ano de mestrado. O processo todo é muito parecido com a solicitação do primeiro visto, mas ao invés de ir na Embaixada, como já estou na Finlândia só precisarei comparecer na polícia com horário marcado e os documentos originais.
  • Eu muito exaltei o inverno finlandês aqui e aqui. E não é que não é mais lindo, mas eu não aguento mais ver branco e neve todo dia em todo lugar! Nem estes 9 dias fora sem neve foram suficientes para voltar a achar neve legal. Já vamos aí pra 4 meses ininterruptos de neve acumulada – só pra constar, reza a lenda que o inverno dura 3 meses.
  • E aí, este semana, quando todo mundo achava que a primavera ia engatar – uma semana inteira com temperaturas acima de 0, neve derretendo loucamente, partes de grama sendo avistadas, passarinhos cantando e o sol saindo todo dia – voltou a nevar na velocidade 5 e em 2 dois caiu uns 5cm.
That's the feeling! Retirado da página do Facebook do Funland
That’s the feeling! Retirado da página do Facebook do Funland
  • Uma noite eu estava no meu quarto, sentada no meu sofá usando meu laptop, como de costume. Senti meu sofá tremendo, ouvi a janela batendo e 5 segundos depois tudo se acalmou e eu achei que tivesse tido uma alucinação. Aí fiquei sabendo que não fui a única e descobri que vivi um terremoto! Calma, não tem terremoto na Finlândia, o que sentimos foi um reflexo de um terremoto de 4.1 na escala Richter que ocorreu a uns 100km daqui, na costa da Suécia. Quem diria?
  • Num domingo, quando supostamente a primavera começou (e fez -10 graus), eu estava no meu quarto e vejo pela janela dois meninos andando na rua vestidos de bruxa. Achei estranho, não é Halloween, né? E nem no Halloween eu vi isso, pra falar a verdade. Aí descobri tudo! Aqui há uma tradição que no domingo antes da Páscoa, crianças se vestem de bruxas para celebrar o início da primavera. Elas vão de porta em porta para “abençoar” a casa em troca de doces, meio parecido com Halloween mesmo. Interessante, não? Leia mais aqui, em inglês.
  • Eu engordei incríveis 4kg nestes 7 meses, a maior parte deles depois que o invernão começou. Aí entra uma série de fatores: eu fui de praticar kung fu e fazer muita caminhada no Brasil a uma vida sedentária – com a chegada do inverno, apesar de eu não parar de pedalar, eu só pedalo distâncias de no máximo até 2km com frequência, o que não conta muito. Eu passei a cozinhar por hobby e, bem, eu como tudo que faço. E, isso é dedução minha (se alum entendido ler isso e puder opinar, agradeço), acredito que meu metabolismo desacelerou para poupar energia por conta do inverno. O resultado eu vejo na balança. :/
  • Por conta disso, resolvi fazer dieta e voltar a praticar exercícios. Comecei a correr aproveitando aquela semana que a neve derreteu das vias e o asfalto voltou a ficar visível. Lembrando que é só eu sair do prédio e já posso sair correndo, porque Oulu é praticamente um parque com casas. Só que aí nevou de novo, cobriu tudo de neve de novo e eu estou esperando derreter pra voltar a correr. Sorte, me desejem sorte.
  • Ando tendo umas homesick. Nada sério, nada pra querer cortar os pulsos. Só que é nessas horas que eu vejo que adoro viajar, morar fora, conhecer lugares, pessoas e culturas diferentes, mas eu também acho um máximo voltar. E questiono se eu conseguiria, de fato, imigrar de vez.
  • Eu escrevi um guest post no Partiu Intercâmbio, um blog com muitas dicas de como morar fora em geral. Leia meu artigo aqui!

Força que desta vez o intercâmbio não dura só um ano! E para terminar, um vídeo mostrando o centro de Oulu. 🙂

 

O dia que dei aula numa escola finlandesa

Quando conheci minha kummi family, contei que levei um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Eu notei que eles realmente gostaram, mas não havia notado que o sucesso tinha sido tão grande. Explico.

L., a mais velha, além de suas aulas de inglês, cursa Home Economics em inglês. Nada mais que é que uma aula de culinária que faz parte do currículo das escolas finlandesas com o único diferencial que esta disciplina, no caso dela, é dada em inglês e eles aprendem a fazer comidas tipicamente americanas. L. ficou muito empolgada em poder falar inglês comigo e comentou com sua professora. Ela, então, perguntou a L. se eu estaria disposta a dar uma aula e ensinar um pouco sobre culinária brasileira. Por uma feliz coincidência, as aulas da L. são às quartas de manhã, horário que eu normalmente tenho aula, mas naquela semana não teria e então, confirmei que poderia ir. Eu estava pensando qual prato brasileiro eu poderia fazer levando-se em consideração que nem todos os ingredientes são facilmente achados por aqui, quando a L. me envia uma mensagem dizendo que o bolo de cenoura seria ótimo, pois todos na casa dela comeram e gostaram muito. Bolo de cenoura it is.

Eles moram a 40km da minha casa e como a aula começaria às 8h30, decidimos que eu iria dormir na casa deles. Vieram me buscar na terça à noite e fizemos um lanche com o pão de queijo finlandês, que nada lembra o nosso. O juustoleipa é outro item tipicamente finlandês e lembra a textura do queijo coalho, mas ele é levemente adocicado e o que me serviram, pelo menos, tinha um creme também adocicado. É gostoso, mas eu ainda prefiro o nosso pão de queijo mineiro.

É tipo isso - foto do Google
É tipo isso – foto do Google

No dia seguinte, a E. deixou os dois meninos e a L., de 12 anos, sozinhos em casa, deixou a A. na creche e levou L. e eu para escola de carro. Ela trabalha na escola ao lado de onde L. estuda. O que me surpreendeu? Que os meninos de 6 e 8 anos iriam terminar de se arrumar e pegar o ônibus para escola sozinhos às 8h da manhã. Outra coisa muito comum por aqui, ou em Oulu e região, pelo menos, é que as crianças são muito independentes desde cedo e elas realmente são ensinadas e motivadas a se virarem sozinhas desde muito pequenas.

A aula

Conheci a professora, que foi muito simpática e me deixou muito à vontade. Ela me fez algumas perguntas sobre a receita, me deu um avental e recebemos os alunos do 9º ano, na faixa dos 15 anos de idade. Eu me apresentei, expliquei a receita e eles fizeram todo o restante sozinhos com pouquíssima supervisão da professora. O interessante é que meninos e meninas dividiam as tarefas igualmente, apesar de numa turma de 16 alunos, 6 eram meninos.

Mãos na massa
Mãos na massa

Enquanto os bolos assavam, eu falei um pouco sobre a vida de um adolescente de 15 anos no Brasil, ou melhor, de um adolescente da minha época, porque hoje em dia está um tanto diferente. Depois mostrei fotos de comidas tipicamente brasileiras e expliquei um pouco. Mostrei o prato mais brasileiro de todos: feijão, arroz, bife, batata frita e salada e eles ficaram um pouco surpresos em ver arroz e batatas na mesma refeição: o resto do mundo vê isso como excesso de carboidrato, a gente só vê que batata é legume e vive feliz. Mostrei feijoada e alguns lanches, como coxinha e pastel (que eles fizeram cara feia por ser fritura) e docinhos, como brigadeiro e beijinho.

Quando o bolo já estava assado, eles fizeram a cobertura e vou confessar que os bolos ficaram bons! Como eles praticamente comeram tudo, vou concluir que adoraram!

Yummy!
Yummy!

Conclusão

Gostei muito da experiência, apesar de a aula ter sido apenas ensinar como fazer um bolo de cenoura.

Eu já havia visitado outras escolas finlandesas, mas foi a primeira vez que tive a chance de participar de uma aula do início ao fim e algumas coisas me chamaram a atenção.

  • Alunos finlandeses, em geral, são mais introvertidos que brasileiros e não costumam conversar muito entre si nas aulas ou interagir com os professores. Observei isso em todas as outras aulas em que participei em outras ocasiões.
  • As escolas finlandesas dão muita liberdade. Não tem uniforme, o aluno não é massacrado se chegar alguns minutos atrasados, eles podem ficar descalços na aula se assim desejarem, o celular não é proibido e vi até alunos com fone de ouvido enquanto cozinhavam, as portas da escola não são trancadas e, nesta escola onde a L. estuda, entre uma aula e outra os alunos ficam do lado de fora do prédio.
  • Aliás, os alunos nunca saem de uma aula e vão diretamente para outra, há sempre alguns minutos de intervalo em que eles podem conversar, sair um pouco da escola e preparar a mente para a próxima aula.

Foi uma ótima experiência e espero que tenha outras oportunidades logo. 🙂

Hello, darkness

My close friend, I’ve come to talk to you again!

No último post eu falei sobre kaamos, a deprê que bate no inverno. Acredita-se que há relação direta entre a falta de exposição à luz solar e o transtorno e por isso, ele é muito mais comum no inverno. No Brasil mal se sente a diferença entre as estações e apesar de no verão os dias serem mesmo mais longos, não é um absurdo de diferença. Em São Paulo, pelo menos, mesmo no verão o sol se põe pouco depois das 19h enquanto que no inverno isso acontece pouco depois das 17h. Aqui, segundo o que me contaram, o sol não se põe completamente no verão – ele fica escondidinho no horizonte por cerca de 2h durante a madrugada – e no inverno, como eu sei por experiência própria, ele aparece muito acanhado por cerca de 4h. É realmente bem extremo!

Por este motivo, o tema do post é escuridão! Como é a viver num lugar com tão pouca luz solar por alguns meses do ano?

Spoiler
Spoiler

Como eu já falei mil vezes aqui no blog, o essencial é tomar vitamina D! Parece que estou exagerando, mas é tão importante que acho que para garantir que até mesmo quem resolve que não vai tomar os comprimidos tenha uma dosagem mínima consumida diariamente, muitos alimentos tem a vitamina adicionada. Além disso, em qualquer mercado se encontra diversas marcas e dosagens e o preço, por incrível que pareça e mesmo convertido de um euro que tá valendo mais de 4 reais no momento, ainda é menor aqui do que no Brasil.

Eu não sou uma morning person e sou daquelas que quer aproveitar até o último minuto do sono da manhã – e por essas e outras que prefiro tomar banho à noite, já que banho de manhã significa ter de acordar mais cedo. Multiplique minha falta de disposição para acordar cedo por cem quando são 9h da manhã e ainda está completamente escuro. Agora imagina minha falta de motivação para acordar às 7h da madrugada quando está tão escuro quanto se fosse 4h da manhã? Minha sorte é que no último mês do semestre anterior eu tinha apenas uma aula na semana que começava às 8h15. Todas as quartas-ferias eu travava uma batalha interna discutindo comigo sobre as implicâncias e consequências de não ir à aula e sobre como estava gostoso estar embaixo da coberta. E olha que nem frio estava, já que até então a temperatura estava por volta de 0 grau aqui. O triste é que quando a aula terminava, às 9h45, ainda estava escuro. Então, acordar antes das 1oh e não ver um raio de sol ou uma claridade de um céu nublado é muito desmotivador.

Superada a manhã, você sabe que tem apenas 4h de claridade no seu dia. Durante a semana e com aulas isto significa que praticamente toda esta claridade será desperdiçada, pois ou você estará tendo aulas ou dentro da biblioteca estudando – eu, no caso, prefiro o conforto do meu quarto para estudar. No final de semana, você precisa calcular bem seu dia dependendo da atividade que quer fazer, nem que essa atividade seja ir ao mercado – melhor ir enquanto estiver claro para pegar um pouco de ar fresco e luz do que depois que escurecer. Lembrando que nos meses de inverno aqui, o índice UV (aqueles raios solares que a gente sempre ouve falar que dá câncer, mas na medida certa, fazem bem ao organismo) é constantemente 0 – o sol até vem dar um ‘oi’, mas ele não tem efeito nenhum: não bronzeia, não ajuda a produzir vitamina D, não esquenta, não dá câncer.

E eu acho curiosíssimo que o sol não fica a pino! Ele não nasce no leste, “dá a volta” no céu e se põe no oeste. Ele aparece menos ao leste do que no verão, “desliza” e se põe pouco depois. Claro que estou falando da nossa percepção, eu sei que o sol está parado no mesmo lugar e é a posição da Terra em relação a ele que causa esse efeito, mas de qualquer forma, é curioso e eu nunca tinha visto isso antes de chegar aqui.

Foto tirada perto das 13h no início de dezembro
Foto tirada perto das 13h no início de dezembro

Se assim como eu você é daqueles que almoça tarde quando não tem compromisso nenhum com a vida, como nos finais de semana (porque se você acorda às 11h, né, não existe almoço às 12h), vai achar muito estranho sentar para comer lá pelas 14h30-15h e estar escuro. Às vezes eu até me perguntava se era almoço ou janta e é a parte do dia que mais me confunde. Ou num dia comum, que tenho aula e chego em casa às 16h, já escuríssimo, bate aquela sensação que é hora do jantar e você come aquele pratão às 16h30. Se eu contar que eu já fiz isso sem perceber que era tão cedo para jantar, vocês acreditam em mim? O problema disso é até eu ir pra cama (o que nunca acontece antes da meia-noite), vai me dar fome… aí eu já jantei, faço o que? Fico beliscando com a balança me olhando com deboche.

E este é o sol se pondo às 14h, também no início de dezembro
E este é o sol se pondo às 14h, também no início de dezembro

Como a maior parte do tempo está escuro, precisamos tomar algumas precauções também. É essencial andar de bicicleta com lanterna e quem desobedece pode ganhar uma multa de 50 euros. O que não significa que eu sempre use a minha! Não é que eu sou a desafiadora da lei, vida loca, a iluminada, rebelde! Mas quase todas as ciclovias têm iluminação pública, então o caminho é bem visível e eu acabo esquecendo de ligar a lanterna e eu sei que preciso ficar mas atenta, pois ela não serve apenas para que eu enxergue o caminho, mas para que outros ciclistas e até carros possam me ver de longe. Outro item que todo mundo usa (até eu) são os refletores. Sabe aquele material que reflete quando bate a luz? Então. Muitas roupas de inverno tem refletores, mas mesmo assim é muito normal ver pessoas andando com um chaveiro-refletor grudado na roupa ou na mochila. Isso é para evitar acidentes, principalmente se a pessoa estiver caminhando, pois se um carro se aproximar ou uma bicicleta (com uma pessoa que use uma lanterna, no caso, eu a partir de hoje), a luz vai fazer os refletores ficarem visíveis e a pessoa não vai ser atropelada.

Eu ganhei esse refletor quando fui numa Feira de Intercâmbio no Brasil e passei no stand do Study in FInland. No começo achei que era só um chaveiro, só chegando aqui que notei que era item de segurança!
Eu ganhei esse refletor (super potente) quando fui numa Feira de Intercâmbio no Brasil e passei no stand do Study in Finland. No começo achei que era só um chaveiro, só chegando aqui que notei que era item de segurança!

E para terminar, as vantagens – porque tudo na vida deveria ter precisa ter um lado bom, né? DORMIR. Eu não consigo dormir com luz na minha cara a menos que tenha batido uma laje no dia anterior e esteja super cansada. As janelas aqui não são como as do Brasil com aquela parte escura que você fecha e cria seu escurinho particular, aqui é uma janela enorme com três camadas de vidro para te proteger do frio, mas sem uma camada para bloquear a luz. Cheguei quase no fim do verão quando ainda amanhecia antes das 6h da manhã e era uma luta para dormir, pois mesmo com uma boa venda nos olhos, meu corpo sentia que estava claro e não me deixava dormir (eu não sabia que isso era possível, mas como não entrava nem um pouco de luminosidade pela venda e mesmo assim eu acordava por volta de 6h e pouco sozinha todo dia, só pude concluir isso). Já agora eu posso dormir até 11h da manhã tranquilamente, porque mesmo que esteja ensolarado, o sol nem se mete a besta de conseguir entrar pela janela. Aliás, como você viram, o sol mal sai do horizonte!

 E assim vou vivendo aqui no escurinho de Oulu, que ainda é charmosa nas 4h diárias que fica às claras. 😉