Cinco meses em Oulu

Pausa na série de posts sobre minha última viagem para celebrar os 5 meses morando na pacatamente charmosa Oulu. Se eu estivesse aqui apenas para um ano letivo, já estaria na metade da minha estadia e pensar isso me dá um apertinho no coração, porque mesmo que às vezes bata uma saudade da minha terra de São Paulo, eu gosto tanto da vidinha pacata daqui. 🙂

Cinco meses e…

… nunca vi barata! Nem formiga nem insetos voadores assassinos! Aqui eu posso deixar um saco de açúcar aberto na cozinha sem medo de ser feliz. Uma vez ou outra eu vi aranhas e acho que esta é minha experiência com insetos e aracnídeos em geral. Talvez no auge do verão, em julho, tenha algo, mas do fim do verão pra cá, nada.

… bati meu record de frio! Até então, a temperatura mais baixa que havia pegado e sobrevivido foi -27 graus em Denver, nos EUA, em 2008. Oulu me deu a honra de saber por experiência própria o que é -30 graus. Não é legal, só pra avisar.

Tá aí o app que não me deixa mentir.
Tá aí o app que não me deixa mentir.

… desisti do finlandês, pelo menos por ora. Eu já sei o básico do básico para não morrer de fome (tipos, sei todas as comidas… haha) e no momento preciso me dedicar a muitas coisas e essa língua tão única vai ficar de lado.

… fiz churrasco no mar. Sim, no mar. Aguardem os próximos posts!

… não me canso de olhar para o céu! Certamente sentirei falta de olhar para um céu tão lindo quando voltar pro Brasil. E fotos falam mais que palavras.

O céu de Oulu - todas as fotos são minhas
O céu de Oulu – todas as fotos são minhas

… apesar dos -30, eu ainda digo que nunca passei o frio que passava em Dublin aqui. Com certeza o fato de Oulu ter clima seco e não ventar muito faz toda a diferença. Mesmo com -30, eu saía na rua e não sentia frio nem ficava com os músculos das costas tensos (meu maior medidor de frio). É óbvio que o rosto doía de frio e o pé, depois de um tempo, ficava dormente, mas frio? Não passei. Só dor. 🙂

… numa dessas noites que fez -28, fui para a sauna e sai na rua. Nos primeiros 30 segundos não dá mesmo para sentir que está frio. É engraçado, porque está tão frio e o corpo tão quente que sai “fumaça”. Na mesma noite, experimentei o que é ter o cabelo congelado: não tinha tomada na sauna para eu usar meu secador de cabelo, precisei sair com ele molhado e ficou duro de tão congelado. Não façam isso em casa.

… pedalei com temperaturas muitos baixas (menos que -18) e descobri que cabelo e cílios congelam mesmo que estejam secos.

… por causa desse frio, já cheguei em casa com o pé doendo de dor e precisei usar o secador para aquecê-los logo! Mas sim, eu fiquei muito tempo exposta ao frio.

… e, para terminar, vamos parar de falar do frio e contar que virei colunista no Brasileiras pelo Mundo, um site que reúne artigos de brasileiras que moram em todas as partes do mundo. Todo mês terei um artigo meu publicado falando aqui de Oulu e o primeiro é sobre o processo de inscrição a uma vaga no mestrado. Lê lá! 😉

Três meses em Oulu

Três meses morando em Oulu e apesar de ser pouco tempo, já fiz, aprendi e conheci tanta coisa que parece que moro aqui há muito mais tempo. Quase todo dia é uma descoberta, um aprendizado e um mundo de coisas ainda estão por aí para serem descobertas!

E nesse tempo…

… ir ao mercado já não me assusta mais. Como comida é algo muito significativo pra mim (sem piadinhas, todos comemos, certo?), então já aprendi o nome de quase tudo que como e mesmo que eu não saiba pronunciar ou dizer a tradução de imediato, já reconheço muito bem todo o vocabulário que sei.

… sigo no curso de finlandês e ao mesmo tempo em que vejo evolução, já que consigo montar frases simples, me desanimo ao notar como a língua é complexa e como não devo ter como objetivo ser fluente – finlandês jamais será útil pra mim fora daqui e estou aprendendo por questões de “sobrevivência”. No fim, é divertido também.

… estou me sentindo como nos tempos de faculdade com mil trabalhos pra entregar e finais de semana sacrificados para eles. Não é nada absurdo ou que eu já não esteja acostumada – afinal, no Brasil eu trabalhava também -, mas vejo colegas meus agindo como se isso fosse além do aceitável e acho meio mimimi deles.

… já experimentei pizza finlandesa. Pizza de São Paulo, eu te amo cada vez mais!

… o frio não me assustou ainda. A temperatura mais baixa até agora foi -7, que foi totalmente suportável.

… já nevou de verdade e a neve chegou a ficar 5 dias pelas ruas, mas aí veio a chuva e derreteu tudo. Estou realmente curiosa pra ver toda a neve que o pessoal comenta que cai e acumula a partir de janeiro.

Amostra grátis do inverno
Amostra grátis do inverno

… já caí de bicicleta pedalando na chuva em todas as posições possíveis para não quebrar os ossos nem os dentes. Tão importante quanto evitar cair é saber cair – e essa arte eu já domino.

… já pedalei na neve e até agora sobrevivi sem quedas. Mas o inverno nem começou, né, gente?

… ao mesmo tempo em que sinto uma saudadezinha bem de leve do Brasil (ou seria das coisas que gostava somente? uhn), eu fico tentando me imaginar morando num cidade gigante e louca como São Paulo depois de conhecer a pacata, charmosa e tranquila Oulu. Sempre vejo uma Bia caipira chegando na cidade pela primeira vez.

… e a escuridão já está me deixando meio meh. Amanhece depois das 9h e começa a escurecer às 15h. E tem dia que o sol nem aparece.

… às vezes me pergunto se o inve$timento nesse mestrado está valendo a pena e logo me vem Fernando Pessoa na cabeça. E acho que minha alma não é pequena, não, e de tudo na vida tiramos uma lição. Se nada der certo, pelo menos volto mestre pro Brasil. 🙂

… sauna já é parte da minha vida.

… já ganhei em euros (Ravintolapäivä e outros trabalitos) e isso consola muito meu pigbank.

… já tenho viagem marcada! Bia, the explorer.

… fico feliz de saber que isso é mesmo só o começo!

Coisas de Finlândia #2

Mais um post falando das diferenças culturais, hábitos e peculiaridades da Finlândia. O #1 está aqui.

  • Aqui o costume é chegar em casa e tirar o calçado na porta. Todas as casas têm um cabideiro logo na entrada para pendurar os casacos mais pesados e deixar os sapatos. Finlandeses andam de meia na casa deles, na casa dos outros e em qualquer outro lugar que seja possível e noto que os estrangeiros acabam adotando este hábito também, mas eu detesto! E eu acho quando chego na casa de alguém e estou “só de passagem” e a pessoa pede pra eu tirar o sapato. Sério, gente, não gosto. Sabe aquela pessoa que vive andando em casa descalça? Pois não sou eu. Andar de meia em casa, pra mim, só com “as meionas velhas”, me incomoda aquela sensação de que estou encardindo minhas “meias de sair” andando sem sapato na casa alheia. Ou mesmo na minha.
  • Todas as culturas, ou pelo menos as mais populares, têm seu estereótipo, o que obviamente não corresponde a 100% da população, mas certamente onde há fumaça, há fogo. A fama dos finlandeses é de serem tímidos, reservados, de falarem pouco e evitar contato desnecessário. Ou seja, se um finlandês não puxar papo com você, não leve para o pessoal – ele só tem medo de estar te incomodando. Esse estereótipo é tão forte que, recentemente, surgiu o Finnish nightmares, brincando com todos os problemas de interação social dos finlandeses. Eu morro de rir!
finnish
Eu já fiz contato visual com uma finlandesa conhecida e quando fui sorrir, ela baixou a cabeça. Testado e comprovado.
  • Não existe a palavra “por favor” em finlandês e é a construção da frase que vai dar o tom educado. Eles também não costumam dizer kiitos (obrigado) em situações que nós falamos, como quando você segura a porta para alguém, por exemplo.
  • Nudez não é tabu, como ficou claro no post sobre a sauna. Todo mundo está acostumado a ver todo mundo pelado na sauna e encara com a maior naturalidade. Como deveria ser.
  • O térreo é o primeiro andar. Então, pra eles eu moro no segundo andar, mas na verdade, é o primeiro. Os números dos apartamentos não têm a ver com o andar. Em São Paulo, pelo menos, se você mora no 71, isso significa que é o 7º andar, mas aqui eles só seguem a ordem mesmo. Só por curiosidade, escada em finlandês é porras. 🙂
  • Em todos os países da Europa que visitei, que me lembre, o troco sempre era exato. Tipo, deu 5,98 euros, você recebe 2 centavos de troco. No meu primeiro dia aqui fui ao mercado, paguei com dinheiro e fiquei esperando o troco certinho, mas ele não veio. Assim como no Brasil, os finlandeses arredondam e moedas de 1 e 2 centavos não circulam por aqui.
  • Uma coisa que achei bem interessante quando cheguei é que o escorredor de louça é um armário! Ao invés de ficar ocupando espaço na pia, você abre as portas e está tudo lá. Achei bem criativo.
Não reparem na bagunça
Não reparem na bagunça
  • Praticamente todas as frutas e legumes no mercado são vendidos por kilo, até banana!
  • E assim como na Irlanda, todo produto no mercado além da etiqueta com o preço, também tem o valor por kilo, ou seja, é muito fácil saber qual produto está mais barato sem precisar ficar fazendo conta.
Tuorejuusto - cream chesse
Tuorejuusto – cream chesse
  • Eu nunca vi por aqui, pelo menos em Oulu, nenhum um tipo de prioridade para idosos, gestantes etc, algo que estamos muito acostumados a ver (mas nem sempre respeitar) no Brasil. Seja no mercado, no banco ou no transporte público, ninguém é preferencial. Mas como aqui é uma cidade do tamanho de um ovo (finlandeses dirão que é uma cidade grande), nunca vi nenhum lugar tão cheio a ponto de ter filas enormes ou o transporte tão cheio que tenha gente em pé.

 

 

O finlandês e eu

E por “finlandês” eu quero dizer o idioma, ok? 🙂

Quando fiquei sabendo que vinha para Oulu fiquei me perguntando se deveria aprender finlandês e todos me diziam que não era necessário, pois eu poderia me virar muito bem falando apenas inglês aqui – o que não é mentira.

Eu diria que a população com menos de 35 anos, em geral, é fluente em inglês, pelo menos nas cidades grandes, então não falar finlandês realmente não atrapalha sua vida por aqui – a caixa do mercado fala inglês, o zelador do prédio fala, o porteiro da escola fala, o funcionário do banco fala. Já não é verdade que a comunicação escrita é assim também. Tudo em todo lugar está apenas escrito em finlandês, ou seja, se vira! E confesso que dá um desespero quando recebo algo escrito só nesse idioma único e preciso 1- tentar deduzir o que está escrito pelo contexto ou 2- pedir pra um finlandês me ajudar.

Bate um desespero!
Bate um desespero! Carta do correio que foi traduzida pela flatmate. 🙂

E não adianta usar o Google Tradutor, porque a tradução é muito ruim, muito mais por culpa da complexidade da língua do que do Google em si. :/

Uma matéria obrigatória no mestrado é o Survival Finnish, que como o nome já diz, é o basicão da língua pra gente conseguir sobreviver. Eu aprendi a me apresentar, cumprimentos, números, falar a hora, alguns verbos e suas conjugações,  frases-chave, dar direção, comidas e bebidas, frases para usar em em algumas situações como restaurantes e cafés, e um dos casos da língua, o partitivo.

Falando assim parece muito, né? Mas isso é o suficiente para eu conseguir ir ao mercado e não comprar batata achando que estou comprando carvão (o que de fato eu já fiz – a embalagem era muito igual)! Bem, o curso terminou e eu tinha duas opções: parar por aí e deixar a vida me ensinar – ou seja, não ia aprender mais nada- ou me matricular no Finnish Beginner 1, uma disciplina oferecida pela universidade gratuitamente.

Eu tive várias discussões mentais entre eu e eu mesma para decidir se ia ou não continuar tentando a aprender esse língua tão peculiar. A discussão:

– Vou morar aqui quase 2 anos, seria no mínimo educado aprender a língua local.
– Mas só se fala finlandês aqui! E só tem uns 5 milhões de finlandeses no mundo… ou seja, uma língua completamente inútil quando não estiver mais morando por estes lados.
– Talvez, mas não deixa de ser interessante a ideia de poder entender o básico ao ler anúncios, ir ao mercado ou falar com alguém.
– Bem, mesmo que tudo esteja escrito em finlandês, eu sempre vou achar alguém que fale inglês em todos os lugares que precisar ir, desde que fique nas cidades grandes.
– Eh, mas ainda acho uma afronta morar num lugar 2 anos e não ser capaz de entender o básico…
– Porém também sei que mesmo que saiba o básico, em todos os lugares públicos vou poder continuar falando inglês.
– O curso na universidade é gratuito! Já imaginou o privilégio de aprender uma língua sem pagar nada?
– Fato! Mas vim aqui fazer mestrado, estarei desperdiçando meu tempo aprendendo algo sem utilidade prática enquanto poderia estar focando em coisas mais importantes.
– Quem vê pensa que não passo horas no Youtube, Facebook… Pelo menos o curso me dá 3 créditos de disciplinas eletivas.
– Uhnn… 

E no fim, eu me convenci que deveria fazer o curso. São 7 semanas, 3h de aula por semana. Não estou super mega empolgada para aprender finlandês, mas conforme vou aprendendo algumas regras fico feliz em ver que a língua tem sua lógica, apesar de isso não a fazer parecer mais fácil.

Alguns fatos:

  • Não tem preposição nem artigo;
  • Não tem masculino e feminino at all! Só existe um pronome para ele/ela (hän/se) e só se sabe se a pessoa sobre quem se fala é homem ou mulher pelo contexto;
  • Não existe o tempo futuro e é o contexto também que indica o tempo verbal;
  • A fonética é muito simples (e só a fonética). Podemos ler uma palavra em finlandês quase do mesmo jeito que lemos em português;
  • Tem duas vogais a mais: ä e ö;
  • O ä tem som tipo “É”, o ö se faz fazendo boca de O, mas falando E; o y se pronuncia fazendo boca de I e falando U; o J também tem som de I;
  • Há vogais e consoantes duplas em muitas palavras e todas as letras devem ser pronunciadas, do contrário você pode estar falando uma palavra completamente diferente;
  • Tem 14 casos na língua e, oficialmente, só aprendi um até agora, o partitivo;
  • Para formar palavras novas, se junta palavras. Exemplo: jää – gelo, kappi – armário > jääkappi – geladeira;
  • Há muitos e muitos sufixos que são adicionados na palavra e às vezes fica até difícil reconhecer a palavra original;
  • E como se não bastasse ser difícil por natureza, há duas versões da língua: a coloquial e a formal e elas podem ser muito diferentes – e não, não estou falando dialetos, que também existem.

E assim sigo. Às vezes acho que será mais fácil assoviar chupando cana do que aprender esta língua – e eu não sei assoviar -, mas se tudo der certo, até o fim do ano terei um nível de finlandês A1.1. Aguardem os próximos posts.

E para terminar, deixo vocês com esta mensagem motivacional para quem deseja aprender este idioma tão único!

finnish

 

Dois meses em Oulu

Dia 26 eu completo aniversário de partida do Brasil, dia 27 é o de chegada na Finlândia, mas o que conta mesmo é que cheguei na pequena Oulu dia 28! Hoje faz dois meses que moro aqui e…

… ir ao mercado ainda é assim uma tarefa meio complicada, mas achei um dicionário offline de finlandês-inglês e isso tem facilitado minha vida. Tem um mercado com sinal wi-fi também e isso ajuda tanto!

… o finlandês já não me assusta tanto e estou na fase de reconhecer palavras quando as vejo escritas, mas ainda não consigo falar o pouco que aprendi. Acho divertido ver anúncios em finlandês no meu laptop (porque agora tudo no Youtube, Spotify, Facebook e afins aparece nessa língua pra mim) e conseguir, pelo menos, reconhecer algumas palavras e compreender o contexto algumas vezes.

… mas eu ainda travo quando sou abordada em finlandês na rua e preciso de um tempo pra processar e emitir a frase-chave: en puhu suomea! E o interlocutor passa a falar inglês comigo em 99% das vezes.

… a vida aqui já está virando uma rotina, mas no bom sentido. O lugar ainda traz um ar de novidade pra mim, mas agora estou habituada com aulas e tal.

… ainda me surpreendo por estar morando numa das grandes cidades do país, mas ainda assim ver esquilinhos e coelhos pulando livremente por aí felizes.

… estou lidando bem com a temperatura de outono (já não passa mais dos 10 graus) e o frio ainda é muito suportável pra mim. Estou sempre tentando usar a menor quantidade de roupas possível para me manter aquecida e estou indo bem.

… mas não estou sabendo lidar com o suor ao pedalar. Não posso tirar o casaco porque está frio, mas se não tiro, chego no destino encharcada!

… pedalo pra todo lugar e em qualquer tempo. Já sei que pedalar na chuva não é legal porque chego toda suja de terra (a prefeitura joga terra na ciclovia pra evitar acidentes: chuva + frio > água vira gelinho > escorrega). Agora é esperar para pedalar na neve.

… já bateu uma saudadezinha bem de leve do Brasil, mas só quando lembro de lugares que frequentava. No geral, a saudade não aparece muito.

… descobri que há muito mais brasileiros aqui do que pensava e acho isso muito bom! A quantidade ainda é muito pequena pra ser “estressante” como em Dublin e como meu contato diário ainda é basicamente só com estrangeiros, é gostoso encontrar um brasileiro vez ou outra pra falar um bom português e fazer brasileirices.

… aliás, já ouvi português do Brasil em duas ocasiões dentro de lojas. Até me assustei.

… já me estressei com flatmate e me mudei de casa (aguardem os próximos posts).

… já odeio bancos finlandeses (vai virar post também).

… às vezes penso nas disciplinas que sou obrigada a cursar no mestrado e me dá mais vontade de ficar na cama dormindo do que ir pra aula. :p

… ainda me encanto com a beleza da cidade.

… e continuo adorando Oulu!

Vamos dar um rolês de bike aqui no meio do mato?
Vamos dar uns rolês de bike aqui no meio do mato?