Os países bálticos

Este post é um wrap-up da viagem aos países bálticos, já que os três países têm muitas coisas em comum e achei que seria interessante reuni-las em uma postagem só.

A região onde hoje ficam a Estônia, Letônia e Lituânia já fez parte de alguns outros estados até que foi completamente conquistada pelo Império Russo e depois se tornaram independentes em 1920. O período independente nãos durou muito e em 1940 a União Soviética reanexou os 3 países que só voltaram a ser estados independentes novamente em 1991. Atualmente, a população é de cerca de 6.7 milhões de pessoas, sendo que quase a metade está na Lituânia.

Os 3 já estão na zona do euro (Estônia desde 2011, Letônia desde 2014 e Lituânia desde 2015), o que facilita viajar aos países como turista, mas segundo os locais, isso fez os preços aumentarem muito. Eu não achei os bálticos absurdamente baratos, mas com certeza são muito mais baratos que outras regiões da Europa (especialmente se a comparação for feita com os nórdicos).

Tallinn, Estônia
Tallinn, Estônia

Curiosidades

  • Eu já estava bem acostumada a arredondar o troco como fazemos no Brasil, pois na Finlândia não circulam moedas de 1 e 2 centavos de euro. Num supermercado, ao fazer o pagamento em dinheiro e arredondar para menos, me deparei com a funcionária ainda me olhando com cara de paisagem. Não se arredonda o troco por lá!
  • Aliás, não se entrega o dinheiro diretamente ao funcionário do caixa e nem dele ao consumidor. Você coloca o dinheiro num suporte de vidro, o funcionário pega e devolve o troco lá também.
  • Talvez por terem feito parte da União Soviética, há muitos russos morando na região. Na Estônia, por exemplo, quase 1/4 da população é de origem russa e em Riga, praticamente em todo lugar há tradução em russo.
  • Assim como na Finlândia, boa parte da população tem boa fluência em inglês.
  • Um detalhe que não passou despercebido aos meus olhos é que vi muitas mulheres trabalhando como motoristas de ônibus, especialmente em Vilnius.
  • Na Letônia, a bebida típica é o Black Balsam. É uma bebida feita a partir de ervas e misturada com vodka. Eu achei interessante e entrei numa das muitas lojas de bebiba alcoolica que tem pela cidade e acabei comprando 3 garrafinhas pequenas da bebida, mas cada uma com sua especificidade. A vendedora me explicou que uma delas, a original, é usada como um “tônico”, pois dizem fazer bem ao estômago e que, tradicionalmente, algumas pessoas tomam 50ml por dia misturado em chás ou sucos. A segunda versão, que é mais forte, é indicada para se socializar e a terceira, que é mais suave um pouco, seria para “equilibrar a alma”. Assim, as 3 bebidas juntas fariam bem ao corpo (a original), a alma (a mais suave) e  a mente (a mais forte). Eu experimentei a bebida e é bem forte!
  • Em todas as capitais ouvi dos guias do walking tour que o país em questão detinha o primeiro lugar em internet rápida e acesso à rede. Todos se gabaram de terem wifi em todo lugar, serem um país high tech e internet mega rápida. Minha experiência? No hostel em Tallinn a internet mal funcionava e o wifi da rua era apenas normal. Em Riga e Vilnius, internet completamente ok. Voltei sem entender.

Dicas

  • Se você viaja on a budget como eu (acho que eu nem sei mais o que é viajar sem estar com o dinheiro contado… haha), uma ótima dica é começar o dia comprando seu café da manhã no mercado. Os mais comuns nos países são o Rimi e o Iki. Em praticamente todos eles você pode comprar salgados, como croissant, e máquinas de café que você pode comprar para levar. Em Tallinn, por exemplo, o RIMI até tinha promoção de café-da-manhã: uma bebida quente de sua preferência (café, chocolate quente, chá etc) e um croissant recheado por 1.80 euros.
  • Em todos os lugares que visitei aceitaram meu cartão de estudante, com exceção do Museu da KGB em Vilnius. Muitos países da Europa costumam aceitar apenas a carteirinha da ISIC (que eu não tenho), mas apenas com minha carteirinha da Finlândia eles aceitaram. Acho possível que também aceitem carteirinhas do Brasil.
  • Quando eu me hospedo em hostel, costumo começar a seleção partindo do preço e localização. Como as 3 capitais são relativamente pequenas, vale a pena pegar um hostel um pouco mais em conta que não esteja exatamente no centro da cidade. Em Riga, o hostel que me hospedei pro 7 euros/diária, não ficava no centrão, mas ficava a pouco menos de 1.5km de lá – uma distância muito tranquila de caminhar para mim.

Eu acho que não teria viajado aos 3 países bálticos se não estivesse morando na Finlândia, já que sua localização não é tão central na Europa. Para mim valeu muito a pena e foi uma viagem muito barata, pois pude fazer tudo de ônibus e balsa pagando bem pouco pelas passagens (o mais caro foi a balsa, 19 euros cada trecho). Não é nada barato viajar pela Europa quando você mora no norte da Finlândia! A quem se aventurar pela região, recomendo tentar passar pelos 3 países e talvez escolher uma época do ano “menos ruim”, pois o tempo cinza e frio me desanimou um pouco em alguns dias. No fim, mais uma “viagem para a coleção”. 🙂

Vilnius, Lituânia
Vilnius, Lituânia

Tallinn, uma capital medieval

Tallinn é a capital da pequena Estônia, um país de apenas 1 milhão e 300 mil habitantes, sendo que 1/4 são de origem russa, que teve sua independência conquistada apenas em 1991, após anos sob o domínio da União Soviética, um período que deixou marcas e ainda é lembrado pelos locais.

Resolvemos fazer o walking tour em Tallinn, mas como começava só ao meio-dia, pegamos o mapa da cidade e andamos um pouco por alguns pontos turísticos antes de ir para o tour. O que a gente não esperava é que em 2h30 conseguiríamos ver quase metade das atrações, passar no Hotel Viru para agendar o tour no museu da KGB e ainda ter tempo de voltar ao hostel e tomar um chá para aquecer, já que estava fazendo muito mais frio do que a gente esperava.

O Parlamento
O Parlamento

A impressão que dava era que o mapa era quase “em escala real”, pois dávamos “dois passos” e já estávamos no próximo local. Começamos pelo Parlamento da Estônia, o prédio rosa da foto, onde fica o Castelo de Toompea. O castelo, que fica na parte de trás do Parlamento, foi construído entre os séculos 13 e 14 e a faixada bem depois, no século 18. É possível visitar o local, mas apenas de segunda a sexta (eu passei o final de semana na cidade) e é preciso agendar previamente aqui. Acabamos voltando lá com o walking tour mais tarde, claro, e a guia nos deu algumas informações sobre o país e sua política, como o fato de terem uma mulher como presidente no momento.

Em frente ao parlamento fica a Catedral Alexandre Nevsky, uma igreja ortodoxa, ainda influência do período de dominação russa no final do século 19. Por fora é uma igreja muito bonita e se você nunca foi à Rússia, é uma ótima oportunidade para conhecer um pouco o estilo. A entrada é gratuita, mas não é permitido tirar fotos dentro da catedral. Aliás, há várias igrejas na cidade, apesar de, segundo nossa guia, o país ser um dos mais ateus do mundo.

Alexandre Nevsky num dia cinza
Alexandre Nevsky num dia cinza

Seguimos andando, passamos por pedaços de muralhas que ainda estão espalhados pelo centro da cidade e chegamos no Kiek in de Kök, uma torre construída em 1475 e tem sua história contada (em inglês) aqui. O nome tem origem em alemão e seria algo como “espiar a cozinha”, pois segundo nossa guia do tour, já que em determinada época os soldados que lá ficavam não tinham muito o que fazer e ficavam apenas espiando do alto da torre o que as pessoas faziam na cozinha. O local hoje é um museu que também dá acesso a passagens subterrâneas. O ticket custa 9 euros ou 6 para estudantes e você encontra mais informações aqui, mas eu acabei não visitando o local.

Kiek in de Kök e esse dia cinza
Kiek in de Kök e esse dia cinza

Quase em frente a torre há um parque, que nesta época do ano estava coberto de folhas amarelas. O parque em si não tem nada de especial e talvez mereça uma visita quando o tempo está mais quente, mas a guia nos contou que na época de domínio soviético era proibido comercializar vinis de bandas do Oeste (Western Music), mas a gente sabe que não é porque é proibido que as pessoas não fazem, ainda mais se tratando disso. Então, muitas pessoas vendiam ilegalmente vinis e outros artigos que eram proibidos na época da União Soviética e o parque é estratégico porque está numa colina e os vendedores podiam ver quando a polícia se aproximava. E era um jogo de gato e rato, meio que de “faz de conta”, já que todos sabiam o que rolava lá e faziam vistas grossas – quando a polícia chegava, eles escondiam os vinis e passavam a vender coisas como selos e mesmo os policiais, quando não estavam em serviço, iam ao local fazer “umas comprinhas”.

O parque
O parque

De lá seguimos para a Praça da Liberdade, onde também está o Monumento a Guerra de Independência que, segundo nossa guia, foi superfaturado, os locais, em geral, desaprovam e mesmo tendo custado alguns milhões de euros, as placas de vidros quebraram e nem todas as luzes acendem à noite. Porém, o material utilizado suportaria um ataque nuclear – fica a dúvida: se todos morrem num ataque nuclear, pra que a necessidade de um monumento continuar erguido?

A praça com o Monumento e a igreja de St. John ao fundo
A praça com o Monumento e a igreja de St. John ao fundo (num dia horroroso)

Passamos por outros pontos, como Danish King’s Garden (mais informações aqui, em inglês), onde ficam as estátuas de 3 monges.

Bizarro?
Bizarro?

No mesmo local, é possível subir na parte da muralha ainda em pé, onde há um café. Eu recomendo subir, apesar de as escadas serem muito íngremes e os degraus muito altos, pois neste a visita é gratuita – há outro pedaço de muralha, o mais longo ainda em pé, próximo a entrada da cidade histórica, mas o ticket custa 3 euros apenas para subir – mas eu não recomendo o café porque é super caro! Para se ter uma ideia, um chocolate quente custava 6 euros lá. Uma coisa meio boba e engraçada, é que pela cidade há vários quiosques vendendo docinhos, bebidas quentes e castanhas. Estes quiosques têm um estilo meio medieval e cada um tem um nome. O que estava no Danish King’s Garden era meio engraçado:

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O walking tour seguiu por mais alguns pontos, paramos num mirante, a guia nos ensinou uma dança típica da Estônia e foi isso. Gostei muito do tour e a guia tinha um humor bem peculiar e contou várias piadas, além de ter dado um bom panorama histórico do país e contado algumas histórias interessantes e engraçadas da vida na Estônia quando esta fazia parte da União Soviética.

Almoçamos no McDonlad’s mesmo (né?) e voltamos ao hostel para outra xícara de chá. Pode parecer meio ridículo isso, mas o hostel fica a basicamente 5-10 minutos de qualquer atração, então faz muito sentido retornar lá. Estava muito frio mesmo no dia (em torno de 1 grau, mas ventando muito e sensação térmica de até -7), então o tempo que ficamos na rua para o walking tour (cerca de 2 horas e meia) foi o suficiente para precisarmos parar num lugar quentinho. Logo depois, visitamos a farmácia mais antiga do mundo! Ela fica na Praça da Prefeitura e a entrada é gratuita, mas não abre aos domingos.

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Não se sabe exatamente quando ela foi inaugurada, mas os registros dão conta que seu terceiro dono a comprou em 1422. Desde então, o local nunca fechou e ainda hoje é possível comprar medicamentos lá, embora eu tenha certeza que a maioria das pessoas que entram é para visitar o local, que tem alguns objetos bem antigos e até animais em formol.

Terminamos o dia indo mais uma vez ao III Dragon para mais uma sopa de alce e depois fomos a uma panquecaria, porque a sopa só dá pra ser uma entrada. A panquecaria se chama Kompressor (Rastaskaevu 3) e gostamos muito. Eles servem panquecas doces e salgadas, que são muito bem servidas e custam, em média, 5 euros. A decoração do local é interessante também.

Aprovada!
Aprovada!

Tallinn é conhecida por ser a cidade medieval mais bem conservada da Europa e, de fato, andando pela cidade no primeiro dia vimos diversas construções e muros que realmente lembram o período. Fora isso, há diversos restaurantes que tentam reproduzir a época de alguma forma e com seus funcionários vestidos à caráter, o que faz o clima ficar ainda mais característico.

Viagem aos Países Bálticos – uma introdução

Na Europa, o calendário escolar é um pouco diferente do do Brasil e sempre tem uma semana de férias em cada semestre. A de outubro é conhecida como Fall Break e a de março, Spring Break na Europa toda, menos na Finlândia, que é Winter Break (e isso diz muito sobre o inverno daqui, não é?).

No ano passado não viajei no meu Fall Break por alguns motivos: eu havia acabado de chegar na Finlândia, era muita informação rolando o tempo todo e eu não tinha cabeça para planejar uma viagem (o break é em outubro, mas teria que ter planejado pelo menos um mês antes). O euro estava absurdamente alto, chegando a quase 4,60 na época, eu ainda estava com receio de não ter fundos suficientes para morar quase 2 anos na Europa com economias do Brasil e com certeza fazer uma viagem logo de cara não iria ajudar, além de que não havia nenhuma expectativa de fazer “uma grana extra” aqui na época, mesmo eu tendo direito a trabalhar meio período com meu visto. E, por último, e menos importante mesmo, os professores nos lembram o tempo todo que estas duas semanas de break do ano não são férias, são duas semanas “sem aulas presenciais” e que a ideia é que estudemos sozinhos. Ahan.

Mas este ano já voltei para a Finlândia com a ideia na cabeça de conhecer os três Países Bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia. “Mas que diferente, por que você quis conhecer estes países?”, você deve estar se perguntando. Eu estou na Finlândia, que sim, faz parte da Europa, mas não está assim exatamente bem localizada. Se você não sabe muito bem onde fica o país ou não tem muita noção como fica situada na Europa, o mapa abaixo dá uma luz:

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Ou seja, o país só faz fronteira com Noruega e Suécia no lado europeu e o Mar Báltico separa os países nórdicos do resto da Europa. Eu diria que pior que estar na Finlândia, só mesmo a Islândia, que é uma ilha lá em cima. E quais são as implicâncias desta localização quando se pensa em viajar? Se quando eu morava em Dublin, qualquer voo barato da Ryanair me levava para quase qualquer lugar da Europa, a realidade não é a mesma morando em Oulu. Primeiro, tem a parte que eu moro em Oulu, que fica a 600km de Helsinki e qualquer viagem de avião daqui até a capital é mais cara que muito voo da Ryanair de um país a outro. A opção mais barata é ir de ônibus e encarar 8 horas de viagem. Superado isso e chegando a capital, a Ryanair não voa para Finlândia o ano todo! Aliás,  voa apenas de maio a setembro, saindo apenas de Tampere (que fica a umas 2 horas de Helsinki) e apenas para Budapeste e algum lugar da Alemanha. Tem a Norwegian, a low cost local, mas estamos falando de Escandinávia e low cost neste contexto não significa muito barato, apenas mais barato um pouco que o restante das companhias áreas. Para vocês terem uma noção, o lugar mais em conta para ir a partir daqui e saindo da região da Escandinávia, é Londres – e com alguma antecedência você consegue ida e volta por 110 euros. E eu achava caro pagar 50 euros quando viajava de Ryanair!

Saudades Ryanair
Saudades Ryanair

E toda essa explicação pra que? Para deixar claro que estar na Europa, mas na Finlândia, em termos de facilidade em viajar, não é a mesma coisa de estar na Irlanda, por exemplo. Se você tem dinheiro e o céu é o limite, aí tudo bem, mas este não é meu caso, portanto, qualquer viagem precisa ser bem planejada e pensada para “minimizar custos”. Um final de semana em outro país não é exatamente o que todo mundo faz por aqui, simplesmente porque não é economicamente viável.

Pensando em tudo isso e na proximidade dos Países Bálticos, achei que era o momento certo de ir viajar. Estou bem mais tranquila financeiramente no momento, o mestrado ainda exige muito, mas a situação está sob controle (está?) e todos sabem que esta história de ser uma semana para estudos individuais é balela! 🙂

Além disso, chegar aos Países Bálticos a partir de Oulu não é tão caro e, apesar de os preços terem subido desde que os 3 aderiram ao euro, Estônia, Letônia e Lituânica ainda são relativamente baratos. Soma-se a isso que o destino não é o mais comum para os brasileiros que vem a Europa, já que quem vem prefere conhecer países mais “populares”, como França, Inglaterra ou Itália, e também por sua localização. Unindo o útil ao agradável – perto da Finlândia, relativamente barato e uma parte da Europa que ainda não conheci – resolvi por a mochila nas costas novamente e adicionar outros 3 países a minha listinha. 😉