Conversando com o diretor – Parte 1

Como parte do meu estágio na escola primária finlandesa, tive a oportunidade de conversar com o diretor. Conversamos por aproximadamente 2 horas e ele respondeu todas as minhas perguntas e com toda a paciência e boa vontade do mundo me ajudou a entender um pouco mais como funciona o sistema de educação do país, agora de uma perspectiva de quem precisa lidar não só com a educação em sala de aula, mas com orçamento e outras burocracias.

O diretor trabalha na área de educação há quase 25 anos e ele também dá aulas. Segundo ele, ser diretor não é uma função exclusiva e a única diferença entre ele e os os outros professores da escola é que ele fez cursos para poder exercer a função. A conversa foi bem longa e não teria como detalhar tudo que conversamos em um post, então vou destacar e resumir os assuntos mais relevantes a seguir.

Currículo

Assim como muitos países, a Finlândia tem um currículo nacional que deve ser seguido no país todo. Porém, de acordo com o diretor, ele é uma referência do que deve ser feito, mas não deve ser seguido à risca, pois há também um currículo local que leva em conta as peculiaridades e necessidades de cada região e, por fim, um currículo da própria escola. Trocando em miúdos, isto significa que sim, eles seguem o currículo nacional, mas têm a liberdade de adicionar ou adaptar o que for necessário para que este currículo fique o mais “customizado” possível para atender às necessidades dos alunos daquela região. Portanto, escolas de regiões diferentes não vão, necessariamente, ensinar exatamente as mesmas coisas. A filosofia por trás disso é de que igualdade não é oferecer a mesma coisa a todos, mas oferecer a cada um o que ele precisa. E eu, particularmente, concordo muito com esta visão de mundo.

Profissão: professor

Um diferencial na educação finlandesa que eu nunca vejo ser citado em nenhuma reportagem ou artigo (publicado no Brasil) sobre o tema é o prestígio da profissão: ser professor na Finlândia é ter o respeito da sociedade pela importância da sua função na comunidade. O professor tem prestígio, respeito dos alunos, dos pais e da população. Apesar de o salário dos professores não estar entre os mais altos, ainda é uma profissão muito procurada e concorrida. Na Faculdade de Educação da Universidade de Oulu, por exemplo, apenas 10% dos inscritos são selecionados e isto não é apenas um número, isto traz algumas implicações. Por ser uma carreira muito procurada, a concorrência é grande e, assim, os 10% mais preparados são selecionados – lá no comecinho, então, “os melhores” já começam na carreira. Junte-se a isso o fato de que todo o curso de graduação é composto por 3 anos de bacharelado seguidos por 2 anos de mestrado. No começo, eu não entendia direito porque era um diferencial tão grande ter mestrado, já que no fim das contas eles teriam estudado 5 anos, o que é menos tempo do que eu estudei para ser bacharel e licenciada em Letras, mas com o tempo a relação ficou clara: no mestrado aprendemos a fazer pesquisa, ou seja, a nos virar para estudar e aprender como achar a informação confiável e relevante. Um professor que sabe se preparar, sabe como pesquisar, como encontrar o que precisa, certamente saberá como planejar sua aulas. E isto tem um impacto enorme no trabalho de professor.

O professor fora da sala de aula

Além de falarmos do que é ser um professor na Finlândia, também conversamos sobre outros aspectos da profissão. Como já ficou claro no post, o professor é muito respeitado na comunidade e a consequência é que há uma relação de confiança muito grande. O diretor confia que seus professores sabem o que estão fazendo e, consequentemente, estão fazendo seu melhor. Logo, não há qualquer tipo de fiscalização, por assim dizer, do trabalho do professor. O diretor não faz avaliações, observações de aula ou checa planejamento – cada professor tem a liberdade de planejar suas aulas como achar melhor e ninguém questiona sua decisões. Os pais, por confiarem no trabalho, agem da mesma forma e cooperam com o professor ao invés de questioná-lo. E, como já citado, o professor sai da faculdade mestre e com uma boa formação na área, isto não significa que cada um faz o que quer, mas que fazem o que sabem que será o melhor para seus alunos.

Por outro lado, como os professores não trabalham no verão – junho e julho – e nem nos breaks – inverno, outono e Natal/Ano Novo -, para não ficarem sem salário, é calculado o valor mensal do pagamento baseado no número de aulas. Este total é multiplicado pelos 9 meses que eles efetivamente trabalham e, então, dividido por 12 meses para que recebam salários todos os meses. Pois é, nem tudo é tão maravilhoso, nem na Finlândia!

No próximo post continuo contando sobre a conversa com o diretor.

 

Estágio – Peculiaridades do ensino finlandês

No post anterior comecei a contar sobre meu estágio na escola finlandesa. Este estágio surgiu por acaso, já que eu estava mesmo tentando achar algo em alguma ONG brasileira, mas no fim das contas, fiquei satisfeita de não ter obtido resposta de nenhuma das ONGs e acabar estagiando numa escola local. Como professora, posso dizer que a experiência foi excelente e pude ver na prática o que já havia lido na teoria em vários artigos sobre a educação no país. Neste post vou contar mais um pouco sobre esta experiência e o sistema de ensino.

Aulas de inglês

Até 2015, os alunos começavam a ter aula de inglês no 3º ano (com 9 anos de idade), mas com a implementação do novo currículo em 2016, as aulas de inglês começam no 2º ano. Eu pude observar algumas aulas do 2º ano e também dar algumas aulas. Os professores ainda estão “testando” o novo currículo e deixam bem claro que tudo ainda é uma experiência.

De modo geral, nas aulas os professores e os alunos recorrem muito a primeira língua (finlandês) para ensinar inglês. Quando estava trabalhando com os 6ºs anos, por exemplo, todos os textos que entregava os alunos, literalmente, traduziam em finlandês no caderno e eu observei que era uma atitude natural, ou seja, algo que já estavam habituados a fazer em aula. O material didático também recorre a tradução o tempo todo para ensinar inglês.

Conversando com os professores, perguntei se existia algum tipo de escola de idiomas particular (como as que temos no Brasil) ou se os alunos aprendiam inglês apenas na escola. Eu fiquei muito surpresa quando a professora falou que todo o inglês dos alunos é aprendido apenas na escola. No 6º ano, os alunos já dominam o idioma suficientemente bem para se comunicarem em situações do dia a dia e o ensino continua até o fim do ensino médio. Além disso, os alunos tinham 2 aulas semanais de inglês, sendo que em uma delas a turma sempre era separada em duas e fazia a aula em horários diferentes. Segundo a professora, isso acontecia para dar mais oportunidade aos alunos, já que a atenção da professora não era dividida com uma turma inteira.

Porém, de modo geral, os finlandeses são muito tímidos e humildes para reconhecerem que falam inglês bem, então uma situação muito comum é um finlandês ter vergonha de conversar em inglês e se desculpar muito pelo “péssimo inglês”, o que não é verdade. Minha experiência morando em Oulu é que qualquer finlandês com menos de 40 anos tem um nível de proficiência suficiente para se comunicar, mesmo que cometa erros ou tenha um sotaque muito forte, o que prova como o ensino de idiomas no sistema público de educação é bom. Claro que algumas pessoas têm mais facilidade/interesse que outras e falam melhor, mas isto se aplica a tudo, né? Matemática, Biologia, Física etc.

Outros idiomas

Além do inglês, sueco também é obrigatório, pois é a segunda língua oficial do país. Eles só começam a aprender sueco lá pelo 5º ano e, pelo o que notei, não são tão fluentes no idioma como em inglês, talvez até porque não necessitem tanto usar no dia a dia quanto o inglês. Além dos dois idiomas obrigatórios, as escolas costumam oferecer outros idiomas como aulas extras após o período de aula – geralmente espanhol ou alemão. Os alunos que optarem por fazer mais um idioma, não pagam nada a mais, já que o ensino é completamente gratuito.

Aulas optativas

Os alunos da escola primária têm o professor de sala e o professor de inglês/sueco. Na escola onde fiz estágio, eles também poderiam escolher entre fazer aula de trabalhos manuais voltada para artesanato ou marcenaria e afins. Apesar de toda a fama de ser um país com mais igualdade de gênero, alguns estereótipos são os mesmos: eu só vi meninas na aula de artesanato e os meninos todos na aula de marcenaria. Não acompanhei nenhuma aula de marcenaria, mas na de artesanato a professora ensinava a fazer decoração de Natal. Eu gosto muito de trabalhos manuais e acho que teria adorado ter uma aula dessas na escola, ainda mais porque tudo que os alunos fazem tem alguma ligação com a vida fora da escola – quando visitei a escola no verão, as meninas estavam aprendendo corte e costura fazendo saias, por exemplo. Notei que todas as mulheres finlandesas sabem tricotar e todas aprenderam na escola – e saber tricotar uma boa meia ou cachecol na Finlândia é realmente uma habilidade necessária! 🙂

Alunos especiais

 Há um imaginário que no sistema finlandês há a inclusão total. Na verdade, é o que vendem: “nenhum aluno é deixado de fora”. Por um lado, como o sistema é público e trabalha de acordo com a necessidade dos alunos, isto é verdade, mas por outro, não significa que todos os alunos estarão juntos em sala de aula sem qualquer tipo de “segregação”. Os alunos com dificuldades são separados da turma para aula de reforço. Numa turma de 6º ano, duas irmãs gêmeas que tinham muita dificuldade com inglês não participavam das aulas com os demais alunos e faziam exercícios extras em outra sala. As mesmas irmãs e uma outra aluna tinham dificuldade com as aulas de finlandês e as 3 iam para outra turma ter aula com uma professora especial. Nesta aula, com menos alunos, elas podiam ir no próprio ritmo e, assim, ter a oportunidade de aprender também.

Religião

A maioria da população finlandesa é luterana e a aula de religião “padrão”, então, é luterana. Mas o sistema impõe que a religião de cada aluno seja respeitada, portanto, caso o aluno professe outra fé, a escola é obrigada a contratar um professor para dar aulas daquela religião para o aluno. Descobri isso um dia, depois do horário de aula, quando vi uma aluna sozinha com uma professora em uma sala e perguntei a A., a professora de idiomas, o que estava acontecendo. Foi quando ela me explicou que a aluna era católica ortodoxa e como não participava da aula de religião com os demais alunos e era a única na escola, ela ficava depois do horários para ter estas aulas. A A. também me explicou que se a família não tem nenhuma religião, a criança tem aula de ética. Já perguntaram o que aconteceria se a criança fosse do candomblé ou umbanda, ou até mesmo espiritismo… bem, primeiro que eu acredito que não tenha essas religiões por lá ainda, já que são “brasileiras”. Caso isso acontecesse, eu não sei se a escola poderia prover uma aula especial a estes alunos, pois precisariam de professores capacitados. Meu “chute” é que talvez a criança participasse da aula de ética, mas eu realmente não tenho uma resposta final para esta pergunta.

Continua… 😉

Como é fazer estágio numa escola finlandesa?

Antes de começar meu estágio, a A., professora de idiomas, e eu tivemos uma reunião para discutir como aconteceria tudo. Ela me perguntou o que eu gostaria de fazer na escola e me deu sugestões também. Foram 6 semanas consecutivas de estágio e eu ia para a escola 3 vezes por semana em média. A cada 2 semanas nós fazíamos outra reunião para discutir o planejamento das semanas seguintes. Além de acompanhar a professora A., que dá aulas do 4º ao 6º ano, também pude acompanhar aulas com o professor da turma de um 5º  ano e de uma professora de um 2º ano.

Bia, a estagiária

Com a professora A., eu desenvolvi um projeto sobre desenvolvimento sustentável, desta forma, eu não estava ensinando inglês, mas ensinando algo em inglês. Os 6ºs anos fizeram cartazes após finalizarmos o projeto. Com o 5º ano, eu planejei aulas de diversos temas e também falei um pouco da cultura brasileira. Com o 4º ano, a professora dividia a turma em duas e enquanto eu desenvolvia as atividades com metade da turma, a professora trabalhava com a outra. Elaborei também revisões de conteúdo utilizando recursos tecnológicos para engajar mais os alunos e foi muito legal. Tive a oportunidade de dar várias aulas sozinha e isso foi muito legal também.

Os alunos

 A escola fica num bairro de classe mais alta da cidade e os alunos são quase todos apenas de origem finlandesa. Não vi nenhum aluno negro ou latino, por exemplo, vi apenas um muçulmano e um ou outro aluno era possível notar que um dos pais vinha de algum outro país europeu, como Grécia ou Inglaterra, então diversidade não era exatamente o que eu via em sala de aula.

Em geral, não havia problemas de comportamento entre os alunos, mas isso não significa que eram anjos. Como a escola tem um foco maior em artes, algumas turmas dos 5ºs e 6ºs anos têm aulas extras de arte e, normalmente, as turmas de arte têm mais meninas e as turmas “normais”, mais meninos. As turmas de arte, com mais meninas, eram muito mais tranquilas que as turmas que tinham mais meninos. Não que os meninos não respeitassem a professora, mas ficavam mais dispersos.

De modo geral, os alunos demonstraram curiosidade em ter uma estagiária estrangeira em aula, mas tímidos em conversar comigo, pois só poderiam se comunicar em inglês. Como em qualquer sala de aula, algumas crianças são mais extrovertidas que outras e muitos alunos faziam perguntas em inglês e se comunicavam sem maiores problemas, mas outras crianças simplesmente se recusavam a falar comigo porque não queriam de jeito nenhum falar em inglês. Nestas situações, recorriam a professora A., com quem poderiam falar finlandês.

Alunos brincando na troca de aulas
Alunos brincando na troca de aulas

Tive algumas situações engraçadinhas/fofas com alguns alunos. Um aluno do 4º ano, por algum motivo, gostou muito de mim e sempre vinha falar comigo e perguntava de mim para a professora quando eu não ia para a escola. Um dia, na saída da aula ele olhou para mim e disse “I like you very much” e saiu correndo. Gente, é um finlandês expressando seus sentimentos, indo completamente contra o estereótipo dos finlandeses! haha… brincadeiras à parte, foi engraçadinho. Numa outra aula, também num 4º ano, eu estava explicando adjetivos e pedia que as crianças me dessem exemplos para checar se elas realmente haviam entendido. Por exemplo, o adjetivo “big” – explicava e pedia que elas dessem exemplos de coisa/animais/objetos que eram “big“. Prosseguindo a aula, chegamos em beautiful e eu pedi exemplos. As crianças diziam butterfly, cat, flowers… até que um menino levantou a mão, me olhou e disse “you“. Jamais esperaria isso de um aluno finlandês! hahaha…

De modo geral, tive uma experiência positiva com os alunos e gostei muito de ver como eles são extremamente independentes porque nenhum adulto os trata como se não fossem. Um exemplo é que eles têm computadores à disposição e acesso a impressora, que é desbloqueada para impressão. Ninguém precisa autorizar/aprovar a impressão que eles enviam e, algumas vezes, os professores nem estão próximos para ver o que eles estão imprimindo e o mais impressionante é que eles realmente imprimem somente o necessário. Num mundo ideal, este meu exemplo é muito bobo, mas no mundo real (pelo menos no Brasil), eu não imagino alunos pré-adolescentes usando um laboratório de informática com essa maturidade. Basta lembrar dos tempos que dava aula e levava meus alunos para usar o computador para praticar inglês e precisa ficar de olho para ter certeza que não estavam entrando em sites que não deviam ou acessando o Youtube. Sim, eu tinha que ter um par de olhos para cada aluno e isso era muito desgastante – não é como se eles não tivessem um celular com planos de dados para acessar o que eles quisessem fora do horário de aula. E falando em celular, a relação dos alunos com o aparelho era algo a ser notado. Não havia nenhuma política de uso de celular em sala de aula e eu não vi nenhum aluno, durante a aula, usando o aparelho, sendo que muitos deles nem traziam para sala e deixavam dentro da mochila no corredor. Quando o uso era permitido, para usar dicionários online, por exemplo, as crianças se limitavam a usar de acordo com a proposta da aula. Ou quando os professores utilizavam tablets, eles também se limitavam a acessar o site indicado para a aula. Mais uma vez, este deveria ser o comportamento normal, mas como não é o que eu vivia dando aula no Brasil, eu realmente encarei com surpresa.

Uso de tecnologia em aula

 Eu acredito que um bom professor é bom com ou sem tecnologia para ajudar na aula, mas tecnologia nenhuma vai transformar uma aula ruim numa aula boa. Porém, já estamos em 2017 e tecnologia faz e muito parte das nossas vidas e hoje em dia a escolha não é mais se a usamos ou não, mas como a usamos (Black Mirror feelings) e é claro que uma aula que já seria boa sem seu auxílio, pode ficar ainda melhor. A escola dá todo o suporte que o professor precisa para não perder tempo em aula, tirando o máximo da tecnologia. Em todas as salas de aula tem um computador, data show e lousa inteligente e isso facilita muito! Sem contar que em Oulu, todo o prédio público tem wifi gratuito e liberado. Os livros usados pela turma estão todos online, então o professor só precisa acessar o capítulo do dia e projetar na lousa. Os exercícios do livro são corrigidos de forma interativa na lousa também – eu fiquei com invejinha boa, porque mesmo dando aula numa escola caríssima de São Paulo, a gente estava muuuuito longe de ter toda essa tecnologia em sala – o que é muito vergonhoso! Além disso, a escola tem muitos tablets e qualquer atividade que o professor planejar e precisar de um por aluno, ele terá. Com toda essa facilidade, eu pude usar algumas plataformas online para praticar vocabulário e fazer revisão com alunos com toda a facilidade. É muito legal porque eles já nasceram nessa era touch screen, então se sentem muito à vontade com tudo isso e tiram muito proveito.

Sobre o inverno: você chega para a aula às 9h e ainda está escuro!
Sobre o inverno: você chega para a aula às 9h e ainda está escuro!

No próximo post continuarei falando do estágio… 🙂

Procurando um estágio

O meu mestrado tem estágio obrigatório e pode ser feito em qualquer instituição ou organização que tem minimamente a ver com educação, ou seja, as possibilidades são infinitas e cada um é livre para escolher uma área que que tiver mais afinidade. Além disso, dependendo das circunstâncias, a universidade dá bolsa. Por exemplo, se o estágio for feito fora da Europa e durar pelo menos 3 meses, o aluno recebe uma bolsa (que seria mais uma ajuda de custo) de 2000 euros.

Pensando nisso, eu tentei procurar estágio em ONGs do Brasil para juntar o útil ao agradável, mas quem disse que as ONGs me respondiam? Eu entrei em contato com mais de 10 organizações brasileiras por e-mail, me apresentando e anexando carta de recomendação da universidade e jamais me responderam, mesmo eu deixando claro que o estágio era não-remunerado. Ok, vida que segue e acabei aceitando um estágio aqui em Oulu mesmo.

Primeira tentativa de estágio

A coordenadora do curso nos enviou um e-mail sobre uma empresa que exportava o sistema de ensino finlandês para outros países e que procurava estagiários. A promessa era que, dependendo do desempenho, o estagiário poderia ser contratado para trabalhar meio-período após as férias de verão. Meus olhos cresceram e resolvi aceitar o estágio. Minha função? Criar apostilas de treinamento para professores numa linguagem simples abordando diferente metodologias. A suposta vantagem é que eu trabalharia em casa, no horário que achasse melhor, e teria que cumprir 125 horas, pois segundo o dono da empresa “125 horas equivalem aos 5 créditos” que eu ganharia pelo estágio.

Eu faço trabalhos freelance de casa e estou acostumada a trabalhar por conta, mas meu problema começa quando eu não tenho data de entrega e, no caso deste estágio, eu não tinha datas, só precisa ir elaborando os textos. Após completar cerca de 25 horas eu já estava bem infeliz com o estágio por motivos de:

1. A ideia de um estágio é aprender e/ou ganhar mais experiência e eu não estava tendo nenhum nem outro, pois não tinha ninguém pra me ensinar nada e a suposta experiência que estava acumulando não era conhecimento útil;
2. O trabalho era muito chato, pois eu basicamente escrevia um essay por semana, já que precisava procurar conteúdo, ler tudo e mastigar a informação numa linguagem mais do cotidiano num texto de 5 a 6 páginas;
3. Passei a me sentir explorada, pois obviamente estava criando conteúdo que traria retorno financeiro a instituição sem receber nada por isso e nem me beneficiar de outra forma;
4. Descobri que uma das estagiárias contratadas receberia pagamento e achei muito cara de pau da parte da empresa negar pagamento quando eu pedi alegando que não tinha dinheiro – a história ficou estranha.

Como eu jamais havia entregue meu acordo de estágio assinado para a coordenação, eu simplesmente informei o dono da empresa que o estágio não estava de acordo com minhas expectativas e que, portanto, eu estava saindo. Melhor decisão de 2016.

Segunda tentativa de estágio

Voltei das férias de verão sem um estágio para chamar de meu e continuei tentando achar algo no Brasil e olha, fico realmente surpresa que ONGs não respondam pessoas que se oferecem para trabalhar de graça para elas. Enfim, aí um dia tive uma ideia. Em maio do ano passado, visitei uma escola primária a convite da professora de idiomas – ela queria uma troca em que os alunos estrangeiros tivessem a oportunidade de conhecer um pouco do dia de uma escola finlandesa e os alunos pudessem conversar com estrangeiros para praticar inglês. Contei sobre a visita aqui. Sem muita expectativa depois do vácuo de ser ignorada por ONGs brasileiras, mandei um e-mail para a professora explicando que eu precisava de um estágio e se ela estaria disposta a me receber em suas aulas. Para minha surpresa, ela não só respondeu, mas aceitou meu pedido e já marcou uma reunião para discutir os detalhes.

O estágio

O estágio precisa ter a duração mínima de 6 semanas ou 125 horas se for um projeto. No caso de o estágio ser feito em escola, é necessário pelo menos 40 horas em sala de aula e o restante das horas entram para planejamento das aulas e elaboração de relatórios. Como foi realizado em Oulu, não tive direito a nenhuma bolsa ou ajuda de custo da universidade. Por outro lado, também não tive nenhum custo, pois ia para o estágio de bicicleta (ótima motivação para fazer exercício) e levava meu próprio almoço (já que eu não curto muito comida finlandesa da universidade e a da escola é igual).

Além disso, ter a oportunidade de estar numa escola finlandesa quase diariamente por 6 semanas é uma experiência muito relevante para o meu currículo de professora e a ideia de pode estar em contato com alunos finlandeses e conversar com os professores realmente me deixou bem empolgada. Felizmente, não me decepcionei.

Nos posts seguintes vou contar como foi esta experiência super bacana e enriquecedora. 🙂

O dia que dei aula numa escola finlandesa

Quando conheci minha kummi family, contei que levei um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Eu notei que eles realmente gostaram, mas não havia notado que o sucesso tinha sido tão grande. Explico.

L., a mais velha, além de suas aulas de inglês, cursa Home Economics em inglês. Nada mais que é que uma aula de culinária que faz parte do currículo das escolas finlandesas com o único diferencial que esta disciplina, no caso dela, é dada em inglês e eles aprendem a fazer comidas tipicamente americanas. L. ficou muito empolgada em poder falar inglês comigo e comentou com sua professora. Ela, então, perguntou a L. se eu estaria disposta a dar uma aula e ensinar um pouco sobre culinária brasileira. Por uma feliz coincidência, as aulas da L. são às quartas de manhã, horário que eu normalmente tenho aula, mas naquela semana não teria e então, confirmei que poderia ir. Eu estava pensando qual prato brasileiro eu poderia fazer levando-se em consideração que nem todos os ingredientes são facilmente achados por aqui, quando a L. me envia uma mensagem dizendo que o bolo de cenoura seria ótimo, pois todos na casa dela comeram e gostaram muito. Bolo de cenoura it is.

Eles moram a 40km da minha casa e como a aula começaria às 8h30, decidimos que eu iria dormir na casa deles. Vieram me buscar na terça à noite e fizemos um lanche com o pão de queijo finlandês, que nada lembra o nosso. O juustoleipa é outro item tipicamente finlandês e lembra a textura do queijo coalho, mas ele é levemente adocicado e o que me serviram, pelo menos, tinha um creme também adocicado. É gostoso, mas eu ainda prefiro o nosso pão de queijo mineiro.

É tipo isso - foto do Google
É tipo isso – foto do Google

No dia seguinte, a E. deixou os dois meninos e a L., de 12 anos, sozinhos em casa, deixou a A. na creche e levou L. e eu para escola de carro. Ela trabalha na escola ao lado de onde L. estuda. O que me surpreendeu? Que os meninos de 6 e 8 anos iriam terminar de se arrumar e pegar o ônibus para escola sozinhos às 8h da manhã. Outra coisa muito comum por aqui, ou em Oulu e região, pelo menos, é que as crianças são muito independentes desde cedo e elas realmente são ensinadas e motivadas a se virarem sozinhas desde muito pequenas.

A aula

Conheci a professora, que foi muito simpática e me deixou muito à vontade. Ela me fez algumas perguntas sobre a receita, me deu um avental e recebemos os alunos do 9º ano, na faixa dos 15 anos de idade. Eu me apresentei, expliquei a receita e eles fizeram todo o restante sozinhos com pouquíssima supervisão da professora. O interessante é que meninos e meninas dividiam as tarefas igualmente, apesar de numa turma de 16 alunos, 6 eram meninos.

Mãos na massa
Mãos na massa

Enquanto os bolos assavam, eu falei um pouco sobre a vida de um adolescente de 15 anos no Brasil, ou melhor, de um adolescente da minha época, porque hoje em dia está um tanto diferente. Depois mostrei fotos de comidas tipicamente brasileiras e expliquei um pouco. Mostrei o prato mais brasileiro de todos: feijão, arroz, bife, batata frita e salada e eles ficaram um pouco surpresos em ver arroz e batatas na mesma refeição: o resto do mundo vê isso como excesso de carboidrato, a gente só vê que batata é legume e vive feliz. Mostrei feijoada e alguns lanches, como coxinha e pastel (que eles fizeram cara feia por ser fritura) e docinhos, como brigadeiro e beijinho.

Quando o bolo já estava assado, eles fizeram a cobertura e vou confessar que os bolos ficaram bons! Como eles praticamente comeram tudo, vou concluir que adoraram!

Yummy!
Yummy!

Conclusão

Gostei muito da experiência, apesar de a aula ter sido apenas ensinar como fazer um bolo de cenoura.

Eu já havia visitado outras escolas finlandesas, mas foi a primeira vez que tive a chance de participar de uma aula do início ao fim e algumas coisas me chamaram a atenção.

  • Alunos finlandeses, em geral, são mais introvertidos que brasileiros e não costumam conversar muito entre si nas aulas ou interagir com os professores. Observei isso em todas as outras aulas em que participei em outras ocasiões.
  • As escolas finlandesas dão muita liberdade. Não tem uniforme, o aluno não é massacrado se chegar alguns minutos atrasados, eles podem ficar descalços na aula se assim desejarem, o celular não é proibido e vi até alunos com fone de ouvido enquanto cozinhavam, as portas da escola não são trancadas e, nesta escola onde a L. estuda, entre uma aula e outra os alunos ficam do lado de fora do prédio.
  • Aliás, os alunos nunca saem de uma aula e vão diretamente para outra, há sempre alguns minutos de intervalo em que eles podem conversar, sair um pouco da escola e preparar a mente para a próxima aula.

Foi uma ótima experiência e espero que tenha outras oportunidades logo. 🙂