Conversando com o diretor – Parte 1

Como parte do meu estágio na escola primária finlandesa, tive a oportunidade de conversar com o diretor. Conversamos por aproximadamente 2 horas e ele respondeu todas as minhas perguntas e com toda a paciência e boa vontade do mundo me ajudou a entender um pouco mais como funciona o sistema de educação do país, agora de uma perspectiva de quem precisa lidar não só com a educação em sala de aula, mas com orçamento e outras burocracias.

O diretor trabalha na área de educação há quase 25 anos e ele também dá aulas. Segundo ele, ser diretor não é uma função exclusiva e a única diferença entre ele e os os outros professores da escola é que ele fez cursos para poder exercer a função. A conversa foi bem longa e não teria como detalhar tudo que conversamos em um post, então vou destacar e resumir os assuntos mais relevantes a seguir.

Currículo

Assim como muitos países, a Finlândia tem um currículo nacional que deve ser seguido no país todo. Porém, de acordo com o diretor, ele é uma referência do que deve ser feito, mas não deve ser seguido à risca, pois há também um currículo local que leva em conta as peculiaridades e necessidades de cada região e, por fim, um currículo da própria escola. Trocando em miúdos, isto significa que sim, eles seguem o currículo nacional, mas têm a liberdade de adicionar ou adaptar o que for necessário para que este currículo fique o mais “customizado” possível para atender às necessidades dos alunos daquela região. Portanto, escolas de regiões diferentes não vão, necessariamente, ensinar exatamente as mesmas coisas. A filosofia por trás disso é de que igualdade não é oferecer a mesma coisa a todos, mas oferecer a cada um o que ele precisa. E eu, particularmente, concordo muito com esta visão de mundo.

Profissão: professor

Um diferencial na educação finlandesa que eu nunca vejo ser citado em nenhuma reportagem ou artigo (publicado no Brasil) sobre o tema é o prestígio da profissão: ser professor na Finlândia é ter o respeito da sociedade pela importância da sua função na comunidade. O professor tem prestígio, respeito dos alunos, dos pais e da população. Apesar de o salário dos professores não estar entre os mais altos, ainda é uma profissão muito procurada e concorrida. Na Faculdade de Educação da Universidade de Oulu, por exemplo, apenas 10% dos inscritos são selecionados e isto não é apenas um número, isto traz algumas implicações. Por ser uma carreira muito procurada, a concorrência é grande e, assim, os 10% mais preparados são selecionados – lá no comecinho, então, “os melhores” já começam na carreira. Junte-se a isso o fato de que todo o curso de graduação é composto por 3 anos de bacharelado seguidos por 2 anos de mestrado. No começo, eu não entendia direito porque era um diferencial tão grande ter mestrado, já que no fim das contas eles teriam estudado 5 anos, o que é menos tempo do que eu estudei para ser bacharel e licenciada em Letras, mas com o tempo a relação ficou clara: no mestrado aprendemos a fazer pesquisa, ou seja, a nos virar para estudar e aprender como achar a informação confiável e relevante. Um professor que sabe se preparar, sabe como pesquisar, como encontrar o que precisa, certamente saberá como planejar sua aulas. E isto tem um impacto enorme no trabalho de professor.

O professor fora da sala de aula

Além de falarmos do que é ser um professor na Finlândia, também conversamos sobre outros aspectos da profissão. Como já ficou claro no post, o professor é muito respeitado na comunidade e a consequência é que há uma relação de confiança muito grande. O diretor confia que seus professores sabem o que estão fazendo e, consequentemente, estão fazendo seu melhor. Logo, não há qualquer tipo de fiscalização, por assim dizer, do trabalho do professor. O diretor não faz avaliações, observações de aula ou checa planejamento – cada professor tem a liberdade de planejar suas aulas como achar melhor e ninguém questiona sua decisões. Os pais, por confiarem no trabalho, agem da mesma forma e cooperam com o professor ao invés de questioná-lo. E, como já citado, o professor sai da faculdade mestre e com uma boa formação na área, isto não significa que cada um faz o que quer, mas que fazem o que sabem que será o melhor para seus alunos.

Por outro lado, como os professores não trabalham no verão – junho e julho – e nem nos breaks – inverno, outono e Natal/Ano Novo -, para não ficarem sem salário, é calculado o valor mensal do pagamento baseado no número de aulas. Este total é multiplicado pelos 9 meses que eles efetivamente trabalham e, então, dividido por 12 meses para que recebam salários todos os meses. Pois é, nem tudo é tão maravilhoso, nem na Finlândia!

No próximo post continuo contando sobre a conversa com o diretor.

 

Procurando um estágio

O meu mestrado tem estágio obrigatório e pode ser feito em qualquer instituição ou organização que tem minimamente a ver com educação, ou seja, as possibilidades são infinitas e cada um é livre para escolher uma área que que tiver mais afinidade. Além disso, dependendo das circunstâncias, a universidade dá bolsa. Por exemplo, se o estágio for feito fora da Europa e durar pelo menos 3 meses, o aluno recebe uma bolsa (que seria mais uma ajuda de custo) de 2000 euros.

Pensando nisso, eu tentei procurar estágio em ONGs do Brasil para juntar o útil ao agradável, mas quem disse que as ONGs me respondiam? Eu entrei em contato com mais de 10 organizações brasileiras por e-mail, me apresentando e anexando carta de recomendação da universidade e jamais me responderam, mesmo eu deixando claro que o estágio era não-remunerado. Ok, vida que segue e acabei aceitando um estágio aqui em Oulu mesmo.

Primeira tentativa de estágio

A coordenadora do curso nos enviou um e-mail sobre uma empresa que exportava o sistema de ensino finlandês para outros países e que procurava estagiários. A promessa era que, dependendo do desempenho, o estagiário poderia ser contratado para trabalhar meio-período após as férias de verão. Meus olhos cresceram e resolvi aceitar o estágio. Minha função? Criar apostilas de treinamento para professores numa linguagem simples abordando diferente metodologias. A suposta vantagem é que eu trabalharia em casa, no horário que achasse melhor, e teria que cumprir 125 horas, pois segundo o dono da empresa “125 horas equivalem aos 5 créditos” que eu ganharia pelo estágio.

Eu faço trabalhos freelance de casa e estou acostumada a trabalhar por conta, mas meu problema começa quando eu não tenho data de entrega e, no caso deste estágio, eu não tinha datas, só precisa ir elaborando os textos. Após completar cerca de 25 horas eu já estava bem infeliz com o estágio por motivos de:

1. A ideia de um estágio é aprender e/ou ganhar mais experiência e eu não estava tendo nenhum nem outro, pois não tinha ninguém pra me ensinar nada e a suposta experiência que estava acumulando não era conhecimento útil;
2. O trabalho era muito chato, pois eu basicamente escrevia um essay por semana, já que precisava procurar conteúdo, ler tudo e mastigar a informação numa linguagem mais do cotidiano num texto de 5 a 6 páginas;
3. Passei a me sentir explorada, pois obviamente estava criando conteúdo que traria retorno financeiro a instituição sem receber nada por isso e nem me beneficiar de outra forma;
4. Descobri que uma das estagiárias contratadas receberia pagamento e achei muito cara de pau da parte da empresa negar pagamento quando eu pedi alegando que não tinha dinheiro – a história ficou estranha.

Como eu jamais havia entregue meu acordo de estágio assinado para a coordenação, eu simplesmente informei o dono da empresa que o estágio não estava de acordo com minhas expectativas e que, portanto, eu estava saindo. Melhor decisão de 2016.

Segunda tentativa de estágio

Voltei das férias de verão sem um estágio para chamar de meu e continuei tentando achar algo no Brasil e olha, fico realmente surpresa que ONGs não respondam pessoas que se oferecem para trabalhar de graça para elas. Enfim, aí um dia tive uma ideia. Em maio do ano passado, visitei uma escola primária a convite da professora de idiomas – ela queria uma troca em que os alunos estrangeiros tivessem a oportunidade de conhecer um pouco do dia de uma escola finlandesa e os alunos pudessem conversar com estrangeiros para praticar inglês. Contei sobre a visita aqui. Sem muita expectativa depois do vácuo de ser ignorada por ONGs brasileiras, mandei um e-mail para a professora explicando que eu precisava de um estágio e se ela estaria disposta a me receber em suas aulas. Para minha surpresa, ela não só respondeu, mas aceitou meu pedido e já marcou uma reunião para discutir os detalhes.

O estágio

O estágio precisa ter a duração mínima de 6 semanas ou 125 horas se for um projeto. No caso de o estágio ser feito em escola, é necessário pelo menos 40 horas em sala de aula e o restante das horas entram para planejamento das aulas e elaboração de relatórios. Como foi realizado em Oulu, não tive direito a nenhuma bolsa ou ajuda de custo da universidade. Por outro lado, também não tive nenhum custo, pois ia para o estágio de bicicleta (ótima motivação para fazer exercício) e levava meu próprio almoço (já que eu não curto muito comida finlandesa da universidade e a da escola é igual).

Além disso, ter a oportunidade de estar numa escola finlandesa quase diariamente por 6 semanas é uma experiência muito relevante para o meu currículo de professora e a ideia de pode estar em contato com alunos finlandeses e conversar com os professores realmente me deixou bem empolgada. Felizmente, não me decepcionei.

Nos posts seguintes vou contar como foi esta experiência super bacana e enriquecedora. 🙂

Primeiro ano de mestrado – Parte 2

O post anterior deve ter dado uma impressão que eu estou meio entediada com o mestrado. Seria ótimo dizer que foi só uma impressão.

A universidade e as aulas

As pessoas idolatram e idealizam a Finlândia como o país do milagre da educação. Eu não vou nem entrar no mérito dos exames usados para gerar os rankings – ou vocês acham super normal e justo usar um exame padrão para avaliar países tão distintos como Brasil e Finlândia, por exemplo? -, mas o que as pessoas talvez não notem é que isso se aplica ao ensino básico. Não estou dizendo que as universidades finlandesas não são boas, mas que quando pensamos no tal milagre da educação, isto não inclui o ensino superior. Não vou aqui citar posições em rankings das universidades, porque a colocação pode variar muito dependendo de qual ranking você escolhe, o que é avaliado e quantos países estão inclusos – nada nessa vida é preto no branco.

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A Universidade de Oulu tem uma estrutura incrível e nem poderia ser diferente, já que a cidade é considerada o “vale do silício finlandês”. Não faltam computadores para uso dos alunos, a biblioteca é muito boa e com muitos espaços para estudos individuais ou em grupo, as instalações são ótimas, tem wifi no prédio inteiro, todas as salas de aula têm computador, projetor, aquecimento, ventilação, enfim, tudo necessário para dar condições adequadas a alunos e professores de aprenderem e ensinarem. Mas como a gente sabe, o protagonista ainda é o professor. E aí a coisa pode complicar um pouco.

Eu tive diversos professores enquanto cursava Letras e Licenciatura na USP e 99,9% deles tinha algo em comum: doutorado. É claro que eu sei que a USP não corresponde a realidade do país, mas esta é a realidade de onde eu saí para ir me meter na Finlândia… Para chegar e notar poucos meses depois que a Faculdade de Educação está um tanto sucateada. Cerca de metade dos meus professores são doutorandos e muitos deles ensinam disciplinas não relacionadas com sua área de pesquisa. Veja, eu não estou desmerecendo os professores, até porque admito que alguns deles são realmente muito bons e vão bem preparados para a aula, mas não faz sentido nenhum você colocar para ensinar no mestrado alguém que o maior título “conquistado” é o de mestre. Ou então, pense assim: uma escola de inglês, por menor que seja, jamais vai colocar uma pessoa que acabou de sair do curso avançado ou que ainda não tem experiência como professor para dar aula para a turma avançada. Esta pessoa vai começar com os níveis mais básicos, porque ela não vai dar aula para uma turma que vai ganhar o mesmo certificado que ela acabou de receber. A comparação pode parecer besta, mas é para deixar meu ponto de vista mais claro. E aí eu penso “Poxa, saí do Brasil para ter minhas aulas de mestrado com pessoas que são mestres, enquanto no Brasil eu tinha aula na graduação com doutores. Oi?”

Eu tive professores doutores terríveis na USP, aliás, alguns para serem chamados de terríveis ainda precisariam melhorar muito, mas eram todos pesquisadores que dominavam muito o assunto que lecionavam e nunca deixavam uma pergunta sem resposta. Eu já saí de aulas do mestrado onde perguntas foram feitas e respostas não foram exatamente dadas. Além disso, já foi dito abertamente que porque um professor titular que ministrava as principais disciplinas do curso se demitiu, mestrandos foram escolhidos às pressas para ocupar seu lugar – para lecionar as principais disciplinas do curso. Tirem suas conclusões. Enfim, resumindo: como diz o ditado “diploma não encurta a orelha de ninguém”, mas nem por isso eu acho que é aceitável termos professores no mestrado que são mestres e, visivelmente, estudaram o tema da aula para estar lá lecionando e não dominam o assunto. Não dá para nivelar por baixo. Assim como eu não posso dar aula no ensino regular no Brasil sem ter meu diploma de licenciatura por mais talentosa que eu seja como professora, certas regras deveriam ser seguidas no corpo docente de qualquer curso de mestrado que se preze. E eu não culpo os professores, eu culpo a Faculdade mesmo.

Outro ponto é que o formato de aula da USP é um tanto parecido com o da universidade, o que por um lado é bom, pois não tive dificuldades em me adaptar, mas por outro me faz sentir entendiada. Assim como na USP, a maioria das aulas pressupõe que o aluno tenha lido o artigo escolhido para que haja discussão em sala de aula que é mediada ou guiada pelo professor. O que difere um pouco é que na Finlândia muitas vezes os professores nos separam em grupos para propor estas discussões. Muitos colegas meus ficam admirados que o “aluno tem voz e participa das aulas e que os professores não são os donos absolutos da verdade”. Ehhh… mais ou menos, né, gente?

Há muitas discussões em aula, o que é ótimo mesmo, mas são discussões que, pra mim, soam como mais do mesmo, senso comum, algo lógico e óbvio pra cabeça de uma pessoa que já estudou educação formalmente. Enquanto meus colegas parecem ter insights e epifanias, eu fico pensando no que vou fazer pro jantar, porque não me sinto interessada, desafiada e tampouco na vibe de entrar na discussão. É lógico que eu não sou expert em educação, não sei tudo, não li tudo e tenho muito a aprender (a vida seria muito chata se a gente não aprendesse algo todo dia, não é?), mas é que, no máximo, vejo que as discussões apresentam um outro ponto de vista de um assunto que pra mim já é claro. Nestes casos, me interesso nos primeiros 5 minutos e depois minha mente voa… Finalmente, algumas disciplinas simplesmente não me interessam ou do jeito que são expostas, se fazem desinteressantes.

Nos últimos meses, me perguntei diversas vezes qual era o problema. Eu não tinha a menor vontade de ir a maioria das aulas, os assuntos não me interessavam e eu sentia que nada acrescentava muito à minha formação pelos motivos que eu já citei. Mas ao mesmo tempo, notava que a maioria dos meus colegas de turma pareciam estar tirando proveito da experiência.

Continua…

Primeiro ano de mestrado – Parte 1

É com muita alegria que escrevo um post sobre o fim do meu primeiro ano de mestrado! A sensação que dá é que estou jogando Super Mario (minha referência de video game é só essa – not a gamer at all) e que vou desbravando os mundos. Agora estou no mundo “mestrado” e cada “telinha” é uma parte do curso que eu começo, passo pelos obstáculos – às vezes perco o Yoshi, às vezes sou um mini Mario vulnerável, às vezes tenho a capinha de voar e passo rápido pela tela – e finalmente, vou chegar no grande desafio – entregar a tese – e passar para o mundo seguinte, que eu ainda não sei como ou qual será. O bom de não ter decidido o que fazer depois é que renúncias ainda não foram feitas e há um mundo de possibilidades.

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Com metade do caminho percorrido, esta é uma boa hora para fazer um balanço, refletir e renovar as energias para seguir pelo segundo ano. Eu pouco tenho falado do meu mestrado no blog, então esta é a hora de tirar o atraso e jogar a real.

O sonho do mestrado começou no início de 2014 quando eu fiquei sabendo do curso em Oulu. O ano de 2014 inteiro foi basicamente me preparando para a possibilidade de entrar no programa: juntei dinheiro, pesquisei bastante sobre o curso e preparei minha inscrição. Em 2015, já aprovada, me preparei para embarcar nessa nova aventura, sem saber muito bem como seria, mas muito empolgada por estar indo cursar o mestrado que eu meio que idealizei por tantos meses. O meu primeiro mês na Finlândia foi muito intenso! Muita informação, muitas coisas novas, muitas coisas para aprender, entender, saber lidar e conhecendo gente nova de todas as partes do mundo todos os dias! Eu jamais havia me sentido assim antes e foi bem overwhelming, confesso! Depois tudo entrou numa rotina e pela primeira vez na vida adulta toda, eu me tornei apenas uma estudante (eu fiz USP, mas eu trabalhei praticamente durante minha graduação inteira).

O fator novidade acabou e a adaptação já não era um problema. O que me restou foi uma rotina de semana com aulas e muitas leituras, preparação de apresentações e trabalhos. E aí eu comecei a notar que  o mestrado não era assim exatamente aquela última Trakinas de morango do pacote. É muito simplista resumir minha impressão do mestrado dessa forma, eu sei, mas vou tentar explicar minha percepção deste quase um ano morando em Oulu exclusivamente para me formar mestranda.

O programa

Eu faço mestrado em Educação e Globalização. Isso significa que o tema educação é abordado de um ponto de vista, teoricamente, mais global. Ou, resumindo a descrição do site oficial, o programa foca em ética, currículos, planejamento, avaliação e estudos comparativos em educação, visando capacitar os mestrandos a serem líderes com responsabilidade social nos mais diversos contextos, enfatizando o diálogo entre os 4 cantos do mundo e como a globalização afeta vários setores da educação. Lindo, não? Trocando em miúdos, é um mestrado para quem deseja trabalhar nos “bastidores” da educação, não necessariamente em sala de aula, que é o palco. Eu fiquei encantada, afinal, sempre acreditei que a educação é uma forma de mudar o mundo e fazer a diferença na vida das pessoas e era exatamente assim que eu me via enquanto dava aula – não era uma transmissora de conteúdo, era alguém que poderia, de uma forma ou de outra, fazer a diferença na vida dos alunos. Este mestrado, então, me ajudaria nesta “tarefa”.

O programa na real

Talvez eu tenha ignorado uma informação muito importante: o programa não é exclusivo para graduados na área de educação. Soa meio irônico, sem sentido, mas a realidade é que na minha turma de 15 alunos, tem uma arquiteta, 2 linguistas, uma contadora, um psicólogo, uma tradutora, 2 formadas em administração, 2 formados em literatura e 1 formado em filologia. Fez as contas? De 15, apenas 4 tem estudos formais em educação, eu inclusa. Dentre os 11 de outras áreas, 6 têm alguma experiência em sala de aula, a maioria ensinando inglês a estrangeiros e/ou por pouco tempo apenas. Eu sou licenciada em Letras e professora há quase 6 anos. O que aprendemos com este parágrafo? Que muito ironicamente, meu perfil é bem diferente do restante da turma e sou basicamente a única com formação e experiência na área de educação.

O curso é dividido em major e minor. Major são aquelas disciplinas obrigatórias e o minor pode ser escolhido livremente, mas o minor padrão do curso é em Educação. Eu queria fazer este minor? Não. Eu precisaria fazer este minor? Não. Eu tive outra opção a não ser fazê-lo? Não. Sim, eu poderia ter escolhido outro minor desde que eu falasse finlandês, pois não havia realmente nenhuma outra opção minimamente ligada ao meu mestrado ministrada em inglês. Levei esta questão a coordenadora esperando que ela me ajudasse a achar alguma solução para que eu não ficasse eternamente entediada, mas a resposta não foi muito diferente de “eh, infelizmente, são poucas opções em inglês… eh, você vai ter que procurar algo que te interesse e seja em inglês… eh eh”. Eh, eu estou fazendo o minor em educação. Mas vamos olhar o lado positivo: teria sido muito pior se eu fosse formada em Pedagogia, não é mesmo?

 Continua…

Mais sobre a educação finlandesa

Sendo mestranda em educação na Finlândia, no famoso país do milagre educacional, eu não perco uma oportunidade de visitar escolas. Recentemente falei sobre meu estágio numa creche, já escrevi sobre a vez que dei aula numa escola da região e também já fiz outras visitas em escolas neste período que acabei não postando no blog. Há alguns dias, a diretora de uma escola convidou os alunos do meu curso para conhecer um pouco o local e conversar com os alunos, e é claro que eu aceitei o convite. As outras escolas que visitei, eu só conversei com os diretores e fiquei por apenas 2 horas “pulando de galho em galho” observando um pouco de uma ou outra aula. Desta vez, tínhamos a chance de observar toda a rotina durante um dia  e foi muito interessante.

A escola

O público da escola são alunos de 7 a 12 anos, do 1º ao 6º ano – é uma escola primária e fica num bairro um pouco mais elitizado da cidade (sim, a Finlândia é um país com menos desigualdade social, mas ainda existem pessoas que são mais ricas que outras). Cada turma tem cerca de 24 alunos, sendo que em algumas aulas os alunos são divididos em grupos menores para facilitar o aprendizado – é o caso das aulas de inglês, por exemplo. Os alunos têm suas matérias obrigatórias, mas também podem fazer aulas extras, como línguas depois do horário de aulas (normalmente, espanhol ou alemão) ou corte e costura no horário normal, por exemplo.

Os alunos das séries iniciais têm pelo menos 20 aulas semanais, podendo chegar até 27 aulas nos últimos anos. Cada aula consiste em 45 minutos de aula mesmo e 15 minutos de intervalo, ou seja, as crianças sempre têm 15 minutos para “espairecer” entre uma aula e outra. Nestes 15 minutos, elas podem sair da escola.

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As aulas

Acompanhei algumas aulas. Em uma delas, de marcenaria, as crianças haviam projetado um amplificador de som para celular e estavam trabalhando no projeto. Achei genial conectar a aula com algo muito relevante na vida de um adolescente!

Em outra aula, as crianças haviam desenhado saias e shorts e estavam cortando o tecido para costurá-lo. Achei muito relevante o tema também, já que o verão está chegando e poderão usar algo que fizeram. O lado negativo é que só vi meninas nesta aula, que é optativa.

Na aula de matemática, as crianças do 3º ano estavam aprendendo a olhar a hora. Não vi absolutamente nada revolucionário: a professora checou a lição de casa, fez a correção na lousa e pedia a participação dos alunos. O que era muito diferente era a estrutura da sala de aula: lousa interativa e todos os materiais possíveis e imagináveis para facilitar o trabalho do professor. O comportamento dos alunos também era peculiar: prestavam atenção sem interromper e participavam ativamente da aula.

Aula de matemática
Aula de matemática

Na aula de física, o professor explicava dobre fricção, novamente associando o tópico a vida dos alunos usando como exemplo o cascalho que fica acumulado na ciclovia depois que a neve derrete – muitos alunos vão para a aula de bicicleta.

Finalmente, na aula de inglês, a professora usou a oportunidade de ter estrangeiros em aula para pedir aos alunos que nos entrevistassem e escrevessem uma redação. Achei uma ótima ideia para praticar o idioma e os alunos, que já estavam no 6º ano, tinham um nível de inglês muito bom e se comunicaram sem problemas.

Detalhes

Todo aluno tem direito a almoçar na escola e, por lei, os professores devem almoçar a mesma comida e no mesmo local que os alunos. O que é interessante é que os professores não estão lá para monitorar as crianças, pois elas já são independentes e responsáveis para saber como se portar num refeitório e, acreditem, elas se comportam! Eles estão lá apenas para almoçar e, talvez, conversar com os alunos e estreitar a relação. Eu também almocei no local e, enfim, um típico almoço finlandês de refeitório – com leite e pão, como sempre.

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Naqueles 15 minutos que as crianças têm entre uma aula e outra, elas podem ficar em qualquer local da escola, exceto dentro das salas de aula. A escola não tem muros, nem portões, nem grades e as crianças respeitam os limites. Quando o sinal bate, elas sem enrolação voltam para dentro da escola. Tenho certeza que estes intervalos entre uma aula e outra são essenciais no processo de aprendizado delas, que podem brincar, conversar, usar o banheiro ou apenas “esvaziar a mente” para a aula seguinte.

Por tabela, os professores também têm 15 minutos de intervalo entre uma aula e outra e eu, falando como professora, não tenho dúvidas que isto torna o dia deles menos estressante. Eu tinha 15 minutos de intervalo a cada 2h15 de aula, sendo que estes eram usados para pegar o material da aula seguinte. Eu não preciso nem dizer que nas primeiras semanas depois das férias, eu chegava em casa com o corpo destruído e extremamente cansada. Com o tempo, o corpo acostuma e não reclama tanto, mas não significa que está tudo bem, não é?

Sala dos professores
Sala dos professores

Talvez vocês já tenham ouvido dizer que na Finlândia as crianças não têm lição de casa. Isto é um mito! Elas têm lição todos os dias, sim. Elas até podem ter uma carga horária de aulas menor em relação a outros países desenvolvidos, mas sempre tem lição para fazer em casa.

Finalmente, elas não precisam usar uniforme, podem andar de meia dentro da escola se assim desejarem e chamam o professor pelo primeiro nome. O ambiente escolar é bem acolhedor e tenho certeza que as crianças se sentem muito confortáveis.

Conclusão

 Eu sou apenas uma outsider que visitou algumas escolas e leu artigos sobre o sistema educacional finlandês e de modo algum quero fazer parecer que minha opinião é a última palavra no assunto, mas pelo o que pude observar até o momento, não há nenhum método revolucionário de ensino aplicado em sala de aula e, por muitas vezes, vi métodos bem tradicionais: o professor fala e explica, os alunos tiram dúvidas e fazem exercícios. O que vi, por outro lado, são detalhes que juntos fazem toda a diferença. As escolas têm uma super estrutura que facilita e ajuda o trabalho do professor em aula; as crianças finlandesas têm um comportamento bem diferente das crianças brasileiras e eu, sinceramente, não sei explicar o motivo disso – o fato é que elas respeitam o professor, não interrompem as aulas, não desviam o foco e o professor efetivamente consegue dar uma aula. A escola não têm aquele aspecto de “prisão” das escolas brasileiras, sejam elas públicas ou particulares, com todos os seus muros e grades, com funcionários vigiando os alunos o tempo todo, com regras rígidas para se vestir (na maioria das vezes, com uniforme) etc. Os professores, apesar de não receberem os salários mais altos, são extremamente respeitados e é uma profissão com muito prestígio no país. Finalmente, os pais colaboram na educação e confiam nos professores que, por serem bem treinados, têm condições de aplicar em sala de aula tudo que aprenderam na faculdade.

Pois é, talvez o tal milagre da educação finlandesa não esteja num método inovador e revolucionário e sim na combinação de pequenos detalhes.