Rolezinho na Europa: uma introdução

Julho de 2014, véspera da viagem à Argentina.

Chego em casa e checo meus emails. Sempre tem um do Melhores Destinos e eu sempre abro e bato o olho para ver se tem algo interessante. Sempre tem algo interessante, mas nunca num mês interessante pra mim – ossos do ofício, só posso viajar nos meses de férias, quando tudo está, via de regra, mais caro e quase não tem promoção. Mas neste dia tinha.

Eu já estava com as malas prontas para ir a Buenos Aires no dia seguinte, mas o preço estava ótimo, a Bárbara e o Rick me convenceram que eu não poderia deixar essa chance passar (ai, como sou influenciável) e resolvi que iria me endividar com outra viagem sem nem mesmo ter desfrutado da dívida feita para a primeira. Esse negócio de sofrer de wanderlust pode ser um caso sério, juro. E assim comprei minhas passagens para passar férias na Europa, passar 19 dias dando altos rolês no hemisfério norte, mesmo sabendo que deixaria para trás um baita verão para passar frio. Sério, sofrer de wanderlust te faz fazer coisas que você não faria em CNTP (condições normais de temperatura e pressão).

Fui e voltei de Buenos Aires. Trabalhei. Andei de bicicleta. Tive encrencas com a USP. Trabalhei muito mais. Comi muito doce. Fui ao cinema. Dormi às vezes. Passei umas 2 faixas no kung fu. Zoei meu joelho. Passei finais de semana corrigindo provas. Trabalhei um tico mais. E assim, seis meses se passaram até que o dia 30/12 chegou e eu, ainda meio desorganizada, fui ao aeroporto suando horrores (eita, verão paulistano!) e com um casacão enorme na mão para pegar meu voo rumo a… Dublin!

Primeiro que meu voo saía do Terminal 3, o terminal novo e super moderno do aeroporto de Guarulhos. Eu já passei por alguns aeroportos mundo à fora, mas nunca vi nada tão moderno! O check in é apenas pela máquina e a gente só pega a fila do guichê para despachar a mala. O controle de passaporte é todo automatizado (é essa a palavra?) – eu coloquei meu passaporte no leitor, a primeira catraca se abriu, aí me posicionei em frente a câmera que se abaixou até ficar da minha altura (né?), bateu uma foto minha e me identificou como menina e liberou a segunda catraca para eu passar. Ou eu sou muito caipira ou isso é realmente muito moderno!

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Viajei de AirFrance e gostei muito do serviço e tal. O voo foi bem tranquilo e pela primeira vez uma refeição de avião me deixou satisfeita, sem contar que deram sorvete – a Lufthansa não me deu sorvete! Eu dei muita sorte porque consegui ficar na primeira fileira de poltronas, aquela com espaço extra para as pernas – não que eu precise de espaço extra, afinal, mal cheguei ao 1,60 de altura, mas enfim, foi um voo muito confortável e 10h30 depois, cheguei em Paris com temperatura de 3 graus. Cho-que. Lá precisei passar pela segurança novamente e que lerdeza! Peguei um voo da CityJet e 1h20 depois desembarquei em Dublin!

Quando cheguei lá em 2012, tudo era festa! A imigração era festa! Era.

“Hi.”
“Hi. What’s the purpose of you visit?”
“Tourism.”
“How long are you staying?”
“I’m leaving on the 16th.”
“Can I see your tickets?”
Mostrei a reserva de passagem de volta para minha terra.
“Oh, you’ve been here before.” – ele viu meus carimbos de entrada no país de 2013.
“Yes, I had a student visa.”
“Where’s your old passport?” – err… lembram que eu “perdi” meu passaporte? Aquele que tinha meu primeiro visto de estudante?
“Well, I lost my passport… but I have my GNIB here.”
Entreguei para ele, ele jogou meus dados no sistema e eu vi minha foto feia do dia que cheguei na Irlanda pela primeira vez aparecendo na tela do computador dele.
“What are you doing here?”
“I’m visiting friends and traveling to some other countries.”
“And where are you staying?”
“I’m staying with a friend.” – e entreguei a carta do R., um irlandês.
“Uhnn… is R. your boyfriend?” – danado, querendo me pegar no pulo!
“No, he is not.”
“How did you meet him?”
“He dates a friend of mine.”
“Uhn. Did you work when you lived here?”
“No, I just studied.” – eu jamais tive um trabalho formal na Irlanda, não tinha motivo nenhum de contar que eu trabalhei como babá, porque ele poderia me fazer mais perguntas e eu poderia me enrolar. Preferi bancar a ryca que foi para Europa só estudar.

Depois de todo o interrogatório, carimbou meu passaporte me dando exatamente a quantidade de dias que eu ficaria lá como prazo para sair do país. Ah, e disse que ficaria com meu GNIB. Eu, corajosa demais, resolvi perguntar porque ele não ia me devolver o GNIB. “It’s expired and we usually keep it.” Perdi, playboy.

A fila para a imigração levou uns 20 minutos, porque eu não era a única respondendo mil perguntas e vi gente sendo levado para a salinha. Eh, a Irlanda está mesmo fechando as pernas.

Quando saí do aeroporto, vi aquele lindo dia irlandês me esperando: céu cinza e frio. Eu estava tão cansada da viagem (que eu mal dormi), que me sentia anestesiada vendo as ruas de Dublin pela janela do ônibus. Não sentia saudade, nostalgia, alegria, nada! Eu reconhecia as ruas e só. Parecia apenas que eu havia viajado de férias e estava voltando para “casa”.

Quando cheguei na casa da Bárbara, minha ex-casa, tudo pareceu muito familiar, mas ainda assim, não estava sentindo nada. O fato de anoitecer por volta das 16h30 me deixou muito confusa também. Fui ao mercado e tentei comprar uma Kopparberg – guess what? Não havia levado meu ID e o cara não me deixou levar.

Tomei um banho, tirei um cochilo de 2h que pareceram apenas 5 minutos e fizemos a ceia de Ano Novo. Fomos para um pub no centro e, tipo, já tive Reveillons xoxos, mas o de Dublin certamente estará no topo da lista por muito tempo: sem fogos, sem festa, apenas uma contagem regressiva no pub e nothing else to do. Voltamos para casa e é óbvio que o sono não veio até quase 5 da manhã, né?

Eu fiquei mais 2 dias em Dublin, mas isso fica para o próximo post.

Neuras e Manias

O tema desta semana são neuras e manias. Eu posso falar de manias que tinha na Irlanda, porque é possível que lá eu tenha tido manias que aqui não tenho por conta de n motivos, já neuras é um pouco diferente: neura é neura e você tem em todo lugar, o que pode mudar é a intensidade. Mas vamos lá.

Semana 28 – Minhas neuras e manias

1- Acordar muito tarde aos domingos e fazer um “lundinner

Via de regra, eu não saía da cama antes das 13h aos domingos. Ou porque eu tinha saído na noite anterior ou porque havia ficado até tarde vendo filmes ou just because. Confesso que às vezes me arrependia porque é muito difícil aproveitar bem um domingo acordando tão tarde, mas para mim dormir é umas das melhores coisas da vida… haha! E acordando tarde assim e tomando café (porque eu nunca pulo o café-da-manhã), acabava fazendo um almoço-janta por volta das 17h e terminava o dia com um lanchinho. No frio era gostoso, no verão batia a vontade de dar uma volta a tarde.

2- Dar de cara com aranhas

Era uma neura que aqui eu não tenho por motivos de: no Brasil não temos tantas aranhas e tão gigantes como as irlandesas. Sempre tinha aquele medinho de ter uma aranha embaixo do edredom ou de ter uma passeando perto de mim enquanto eu dormia. Quando eu morava nos EUA, meu quarto era no porão, que apesar de ser super arrumadinho e limpo, tinha muitas aranhas que vinham de um storage room (eu tenho certeza absoluta que havia um ninho em algum lugar daquele quartinho). O carpete era claro e quantas e quantas vezes eu quase enfartei ao estar sentada na cama de boa e ver um ser razoavelmente grande preto de 8 patas (ou seriam pernas?) passando por debaixo da porta quarto adentro? Quantas aranhas não matei afogadas ao me surpreenderem durante o banho na cortina? Mas o terror mesmo foi no dia que eu acordei e havia uma teia de aranha entre o teto e a luminária que ficava no criado-mudo. Ah, a teia não estava lá quando fui dormir. É uma neura que aflora de acordo com as condições aracnídeas do lugar.

3- Separar os brasileiros dos europeus

Eu andava na rua observando as pessoas e tentando adivinhar, só de olhar, quem era brasileiro ou europeu. Brasileiros se vestem sim de forma muito diferente dos europeus, cortam o cabelo diferente, brasileiras têm cabelos e maquiagem diferente, sim, e acho que por mais que a pessoa tenha se “misturado” com a cultura local, vai acabar tendo algum sinal que denuncia, nem que seja uma característica física. Eu acertava na maioria das vezes que conseguia checar, tipo, ouvindo a pessoa falando português.

4- Hidratantes

Em Dublin venta muito e a longo prazo, é evidente o efeito de todo esse vento na nossa cara e cabelo. Até lembro uma vez que me meti a besta e fui na Debenhams testar cremes. A moça da Clinique fez um teste de pele comigo e disse que minha pele era muito boa, muito diferente da das irlandesas que sempre têm problema com ressecamento por conta do vento. E assim criei a mania de sempre passar hidratante no rosto de manhã e à noite, porque tomava banho quente e isso também resseca a pele. Um hábito bom adquirido por lá que mantenho aqui.

5- Me preocupar menos com minha aparência

Sério, em Dublin você pode sair na rua com metade do cabelo rosa e outra metade azul, calça de palhaço e camisa de turista cheia de flores que ninguém vai ficar te olhando. Brasileiras são infinitamente mais preocupadas com aparência, falando de modo geral, claro. Eu confesso que já fui ao mercado de pijamas algumas vezes e ninguém me olhou. Eu não usava maquiagem para ir cuidar das crianças (e olha que tenho um tremendo complexo por causa das minhas olheiras) e não me preocupava com isso. Bem, aqui no Brasil eu não consigo nem ir ao mercado sem passar um corretivo para dar uma disfarçada nos meus olhos de panda. Na verdade, a neura é daqui e lá eu consegui deixar pra lá. Pois é.

Três anos!

Hoje o blog completa 3 anos e eu 20 e muitos!

O blog tem andado bem paradão ultimamente. Confesso que pensei em abandoná-lo (não em tirá-lo do ar, mas parar de postar em definitivo), mas como acredito que num futuro não muito distante eu possa voltar a ter assunto para escrever mais posts, vou mantendo o Fabuloso Destino, nem que seja com a postagem semanal do desafio de 52 semanas.

E nestes 3 anos, o blog:

*Recebeu mais de 77 mil visitas;
*1073 comentários;
*Tem 266 postagens;
*Média diária de 100 visitas por dia (é, gente, não estou mais na Irlanda há um tempão, o blog caiu no esquecimento!);
*Recebeu a maioria de suas visitas do Brasil, Irlanda, Estados Unidos, Portugal e Reino Unido;
*O post mais popular continua sendo sobre um dos meus primeiros dias Irlanda, seguido de um sobre viagem e outro sobre depressão;
*O termo de busca mais utilizado no Google até hoje é “Um fabuloso destino”, seguido de “moda irlandesa” e ” na irlanda neva”;

Comecei este singelo blog como um diário para mim, para eu ler no futuro e me sentir nostálgica. Divulguei para poucos amigos apenas e o restante das visitas conquistei só com o Google, já que nunca divulguei o blog em lugar nenhum. Fico feliz por ter conhecido algumas pessoas pessoalmente através do blog (e oh, tudo gente boa) e ter feitos alguns amigos online. Sei ainda que sou a amiga imaginária de vários leitores que passavam e talvez ainda passem aqui frequentemente, acompanharam minhas histórias em terras irlandesas e sentiram um pouco meus amigos. Vocês podiam comentar de vez em quando, viu? 😉

A ideia é continuar com o blog como está e sempre que minha louca rotina permitir, continuar escrevendo. Ainda tenho ideias para alguns posts e apesar de nem tudo mais estar relacionado a Irlanda, tudo que posto acredito que seja relevante de alguma forma: ou sobre alguma viagem ou sobre algo culturalmente interessante ou algum detalhe sobre minha vida em São Paulo. Entendo que o blog perdeu seu interesse depois que voltei da Irlanda, mas os posts que escrevi enquanto estava lá ainda são bem atuais e acredito que ajudem muita gente.

Obrigada a todos os leitores, os que comentam e os que só leem. E se tudo der certo, no aniversário de 4 anos do blog e de quase 20 e todos da autora, o blog estará bem mais interessante! 😉

Tinha aflição

Já cheguei quase na metade do desafio das 52 semanas! Ufa! E hoje o top 5 do que me deixava aflita em Dublin.

Semana 25 – Tinha aflição

1- Aranhas

A-ra-nhas! Quantas delas me surpreenderam naquele um ano? Quantas vezes me senti no filme Psicose ao tomar banho e achar uma olhando pra mim? E quando achei uma em cima da minha cama? E quando notei que os irlandeses nem ligam pra elas, tamanha a quantidade de teias que eu já em vi suas casas? Tenso!

2- Sair da cama

Frio, aquele edredom pesado e quentinho em cima de você. O normal é desligar o aquecedor à noite depois que a casa já está aquecida, até por uma questão de economia. Como lidar com o choque térmico de sair da cama? Aquela aflição de entrar num banheiro frio para lavar o rosto! Aaai!

3- Irlandesas

Algumas coisas nelas me davam aflição. E quando digo “elas”, não quero dizer que toda mulher irlandesa faça isso ou aquilo, mas que, de modo geral, a gente as vê por aí assim. O rosto laranja de loção bronzeadora, por exemplo. Ou o rosto tão maquiado que se colocar o dedo em cima, afunda. Aflição.

4- Pé molhado

Sair num dia de chuva com um calçado não apropriado ao clima úmido – sim, porque às vezes nem estava chovendo, mas como o chão estava úmido da última chuva, o efeito no pé era o mesmo. Por essas e outras, ainda no primeiro mês de Irlanda eu comprei uma galocha e pouco tempo depois, um tênis impermeável para não precisar ficar com essa agonia de pés molhados.

5- Irlandesas na balada

Elas novamente. Frio congelante, 3h da matina e elas na porta da balada de microvestido sem meia-calça. Aquele sensação de sentir frio só de olhar e a aflição de querer jogar um casaco em cima daqueles corpos vestidos para um clima, no mínimo, 30 graus mais quente. Mas de qualquer forma, elas sempre estavam lindas e exuberantes na boate, né?!

Mau humor

 Vivendo na Irlanda, o que me deixava de mau humor?

Semana 20 – Ficava de mau humor por causa de…

1 – Frio

Sei que estou super repetitiva com esta história de frio, mas é verdade… depois de dias de frio e céu cinza, meu humor não era mais o mesmo.

2 – Chuva

Não chuva de verdade porque em Dublin o mais comum é aquela chuva fraca e constante, não tempestade… mas sair e ficar com aquela chuva batendo na cara certamente me deixava mal humorada.

3 – Flatmate folgado

Aquele cara que usa a panela e não lava pro próximo usar, que esquenta uma lasanha no micro-ondas e depois não limpa os respingos, que não pergunta se tem alguém na fila do banho e já vai entrando no banheiro, que na vez dele de limpar a casa faz tudo de qualquer jeito, que pega sua comida sem nem mesmo te perguntar, que faz barulho até altas horas…. ah, preciso dar mais exemplos? Pior que convivi com gente que fazia tudo isso (não tantas “qualidades” na mesma pessoa, né, aí seria demais).

4 – F. me desafiando

Tinha dia que o loirinho mais velho resolvia medir força comigo. Eu ficava tão irritada com ele que o deixava sem dó de castigo no degrau da escada até ele pedir desculpa ou aceitar fazer a obrigação dele (como guardar os brinquedos). Tinha dia que ele custava tanto a engolir o orgulho que acabava dormindo no degrau. Eu nunca fiquei com dó dele, não.

5 – Perder o DART

Quando trabalhava pra primeira família, pegava o DART pra trabalhar. Eu saía às 17h30 e se eles chegassem na hora, eu conseguia correr até a estação (que era bem perto da casa) e pegar o DART das 17h37, mas era só eles se atrasarem 2 ou 3 minutos que eu perdia o bendito e precisava esperar mais de meia hora pelo seguinte. No frio. Numa estação completamente aberta e sem abrigos. E ainda me pergunto qual é o critério das pessoas que classificam o transporte público de Dublin como “eficiente”, certamente não aquelas que pegam o DART todos os dias.