FAQ

Depois de dois intercâmbios e algumas viagens por aí (dentro e fora do Brasil), as pessoas à sua volta começam a fazer perguntas. Algumas perguntas eu já perdi as contas de quantas vezes respondi, sem contar que alguns amigos me tacham de doida, porque, né, só pode ter uns parafusos a menos para morar fora do Brasil duas vezes e ter um fogo no rabo siricutico desses de viajar. Confesso que não acho ruim as perguntas, mas às vezes me admiro porque as pessoas se admiram comigo. Oras, eu só juntei minhas tralhas e viajei. Algumas vezes.

E as frequently asked questions (FAQ) são:

Você vai sossegar no Brasil agora?
Sim, gente, estou sossegada no Brasil há 6 meses, embora já tenha andado por ele (ai, Guarda do Embaú, sua linda, saudade!). O que não significa que eu sossegue por aqui for good. Daqui 1 ano ou 2, eu posso estar entediada e tá dáááá: passaporte em mãos e see you soon, Brazil!

Você pretende viajar de novo?
Viajar? Mas é ÓBVIO! Só não viaja quem não sabe o bem que uma viagem pode fazer! Ninguém volta igual de uma viagem! Ninguém! Nunca! Jamais! Citando uma frase clichê de internet “A vida é um livro e quem não viaja, só lê a primeira página.” I couldn’t agree more.

Você pensa em voltar para a Irlanda?
Sim, penso quase todos os dias. Eu sei que reclamo do frio de lá que nem uma velha chata, mas eu sinto muita saudade de morar na Irlanda. Queria ter voltado para lá agora em janeiro (turismo), mas não deu por motivos profissionais (na verdade, eu que tenho uma certa tendência a ser workaholic– poderia ter dito ‘não’), mas penso em voltar assim que possível para visitar e fazer outro mochilão pela Europa. E se você me perguntar se eu penso em morar lá novamente, só o que posso dizer é que não descarto a possibilidade.

Praia de pedra na Irlanda
Saudade de ir para a praia de roupa, né, gente?

Você ainda pensa em morar no exterior?
Sim e já tenho esboço de planos para um futuro nem tão distante assim. Nada muito definido, mas o que me separa dos meus planos é apenas minha vontade de concretizá-los. E vocês sabem que quando eu coloco algo na cabeça

Você trocaria o Brasil pela Irlanda/Estados Unidos/Gringolândia definitivamente?
Não, não trocaria. Eu saio, mas eu sempre volto para a pátria amada e idolatrada cá. Eu gosto muito da descoberta, sabe? De me sentir viva aprendendo coisas novas todos os dias, observando outros costumes e modos de vida e ver o mundo, mas chega uma hora que eu sinto falta do que me faz lembrar minha infância e quem eu sou. Sem contar a falta que faz a coxinha, o pastel e o arroz com feijão da mamãe.

Você gostou mais dos Estados Unidos ou da Irlanda?
Difícil responder. Até um tempo atrás eu dizia “Estados Unidos”, mas não tenho mais tanta convicção de que minha experiência americana tenha sido melhor que a irlandesa. Aliás, só o que as duas têm em comum é que eu chamo ambas de “intercâmbio”, mas foram experiências muito distintas em vários aspectos, então, não é fácil comparar. Começando pelo fato de eu ter ido para os EUA aos 20 anos toda deslumbrada da vida e ter chegado na Irlanda com 24, já com os pés bem fincados no chão. São duas culturas distintas com as quais aprendi muito. Foram dois momentos distintos da minha vida e eu buscava coisas diferentes, minhas motivações não eram as mesmas. Comparar e escolher, então, fica difícil.

Você sente saudade das crianças que você cuidava?
*suspiros*
Se pudesse, teria colocado todas na mala e trago para o Brasil. A ciência ainda há de explicar como que uma pessoa que não sonha em ser mãe pode gostar tanto dos filhos dos outros. A., S., F. e O. serão sempre meus amorzinhos e sempre me alegro ao receber notícias deles, como ontem, que recebi um cartão de feliz ano novo da família americana, os W. 🙂

Como é o inglês da Irlanda?
É “peculiar”. Eles têm muitas expressões e gírias que só eles mesmo falam. Além disso, o sotaque pode ser bem chatinho de pegar no começo, eu não entendia tudo que me falavam quando cheguei. Porém, apesar de ser uma pequena ilha com pouco mais de 4 milhões de habitantes, a Irlanda tem muitos e muitos sotaques diferentes e até mesmo em Dublin há diversos sotaques. Então, sempre vai ter aquele irlandês que abre a boca e você acha que ele não terminou de engolir a batata porque não está entendendo bulhufas, mas também vai ter aquele com um sotaque mais light que não te faz se sentir um analfabeto em inglês. Deus abençoe os últimos. Amém.

Você já está adaptada à vida no Brasil?
Depois do baque do primeiro mês, eu me readaptei completamente a viver no Brasil. Sem crises, sem deprês. Isso só aconteceu na minha volta do primeiro intercâmbio, a famosa depressão pós-intercâmbio. Tô bem e feliz aqui.

Você é rica?
Sim, sou… de berço. Assim como todos os intercambistas.

Não arranjou nenhum namoradinho gringo?
Ai, gente. Jura?  Tanta coisa pra perguntar e me vem com essa? Dá vontade de retrucar: “Por que? Acha que só voltei porque não consegui um passaporte vinho? Quem disse que estava à procura de um, cara pálida?” Mas eu sou educada, sorrio e digo “Não, não viajei pensando nisso, anyway”… AFFFF…

Os irlandeses são bonitos?
Não fazem meu tipo. Mas sabe como são pessoas, né? Tem paulista lindo de morrer, tem paulista feio de matar. Na Irlanda, acredite, é assim também, então não posso colocar todos os irlandeses no mesmo saco e falar que são todos assim ou assado. Tem irlandês coisa linda de se ver, I’m sexy and I know it, mas tem irlandês ruivo, de olhos azuis, cheio de sarda e banguela que parece filhote de chupa-cabra. Acontece.

Você não teve medo de viajar sozinha?
Eu viajei sozinha pela Califórnia em 2008, ao 21 aninhos. Depois viajei all by myself para a Bélgica e a Holanda no ano passado (quando ainda tinha cara de 21). Não, não tive medo em momento algum. Planejei razoavelmente bem as viagens, não fiz trajetos obscuros em horários inoportunos e segui o senso comum. E não, não é deprimente viajar só. Acredito que seja um exercício de auto-conhecimento e de saber estar só na própria companhia. Nesta hora, alguns monstros podem surgir, então, se você não estiver bem consigo mesmo, pode ser um super desafio. Do contrário, enjoy your thoughts! A gente acaba pensando e refletindo muito sobre a vida também. O lado ruim de se viajar só é a) ninguém para comentar o que está conhecendo (mas dependendo da sua companhia, melhor estar só mesmo), b) ter que ficar pedindo para desconhecidos baterem fotos suas ou tirar mil selfies e c) se algo der errado, é sempre melhor se ferrar acompanhado – felizmente, não me ferrei em nenhuma viagem.

Viajando sozinha em San Francisco º 2008
Viajando sozinha em San Francisco, 2008

Você sentia falta do Brasil?
Sim, mas não ao ponto de ficar homesick e chorar. Sentir saudade é normal, mas a minha não era exacerbada. Sentia falta da comida, principalmente quando estava nos EUA – não é à toa que voltei da Terra do Tio Sam 5kg mais magra em 2009. Infelizmente, o feito não se repetiu em 2013.

E estas são algumas das perguntas que mais ouço das pessoas. Tem alguma pergunta faltando aí?

Depressão Pós Intercâmbio

Fato ou frescura?

Apesar da sua família e amigos acharem uma baita frescura da sua parte você dizer que está achando tudo estranho (“Mas tu morou aqui a vida toda e com só um ano fora tá assim, moleque?”), há estudos que compravam que sim, a tal depressão existe mesmo, e também é chamada de síndrome do regresso (e eu não sou psicóloga nem entendida no assunto e não sei explicar a diferença de uma síndrome para uma deprê- tudo que sei é que a gente fica estranho mesmo)!

Há quase dois meses no Brasil, já consigo comparar os meus retornos à pátria amada e idolatrada ao país. E eles foram muito diferentes.

Há 4 anos eu retornava depois de pouco mais de um ano morando na Obamaland nos EUA. Eu tinha 21 anos, aquela havia sido minha primeira viagem internacional e claro, meu primeiro intercâmbio. No período em que estive fora, eu viajei muito mais do que já havia viajado até então. Fui a Los Angeles, San Francisco, Las Vegas, Grand Canyon, New York, New Jersey, Connecticut, Aspen, além de ter ido pela primeira vez a Europa: Inglaterra, França e Itália. Vi neve pela primeira vez, esquiei pela primeira vez, viajei sozinha pela primeira vez, cuidei de crianças (e me apaixonei) pela primeira vez. Experimentei comida mexicana, tofu, corndog, refrigerante de creme e blueberry. Vivenciei toda a cultura dos judeus americanos e entrei numa dieta kosher. Conheci um mundo completamente novo! Foi muita informação, muitas descobertas e muito aprendizado e aí… puff! Voltei para a vida que havia deixado um ano antes. E que continuava exatamente como eu a havia deixado. Só que eu estava diferente. Não só porque então eu já falava inglês com segurança ou havia viajado. Havia algo completamente novo dentro de mim e veio o choque: parecia que tudo aquilo que eu havia vivido no último ano da minha vida havia sido um sonho, que nada era real. E eu não falo metaforicamente, eu realmente me perguntava se eu havia feito tudo aquilo, mas eu via as fotos e tudo indicava que sim, foi real. Eu estava de volta ao Brasil, sem emprego, sem viver nada novo, numa rotina de acordar ao meio-dia, ficar na internet, ir para a faculdade, voltar e ficar até altas horas da madrugada online. Eu me sentia só, incompreendida e não havia com quem falar.

...

Entendam que meu problema não foi me arrepender de ter voltado-  eu gostaria de ter ficado mais tempo nos EUA, mas não queria necessariamente voltar. Não foi achar que o Brasil é uma droga e os EUA são tudo de bom e maravilhoso- não sou dessas. NÃO! O problema foi me sentir deslocada por ter tido tantas experiências e ter voltado com uma bagagem cultural gigante e tudo continuar extamente como estava.

Isto durou alguns meses. Aproveitei que não estava trabalhando e me dediquei a faculdade para ocupar a mente (depois de superar uma crise existencial em relação ao curso de Letras- o que até merece um post futuramente) e lembro até hoje que mesmo cursando 10 matérias (o que é muito pesado) eu consegui média 9,1 naquele semestre (não sou apenas um rostinho bonito, gentchi). Esta depressão pós intercâmbio passou, definitivamente, quando comecei a trabalhar, conheci outras pessoas, voltei à realidade e ocupei minha mente. Só digo uma coisa: foi TENSO!

Aí, em 2013, eu volto da ilha dos leprechauns. Foi tudo completamente diferente! Confesso que um dia ou outro bateu uma tristeza e como já escrevi em outro post, achei as coisas por aqui meio estranhas. Mas a tristeza durou muito pouco e o estranhamento passou rapidinho. Em partes porque nos meus primeiros dias, eu mal parei em casa saindo para ver amigos (coisa que não fiz quando voltei dos EUA). Já coloquei os pés aqui com emprego, matriculada na faculdade e por último, mas não menos importante, sabendo que eu não iria mais passar taaaaanto frio! Em outras palavras, o bichinho da deprê não me pegou desta vez!
[Estudos comprovam que cerca de 70% dos leitores já pararam de ler este post ou pularam para o parágrafo final].

Como assim, Bia? Conta aê!

No meu ano na Irlanda eu conheci outros 8 países, experimentei Kopparberg *suspiros*, cuidei de crianças (e me apaixonei outra vez) e enfim, tive muitas experiências também e sim, a sensação de deslocamento também bateu na porta de novo, como eu contei de forma muito confusa aqui. Mas além de eu já ter tido a experiência e, consequentemente, ter conseguido lidar melhor desta vez, alguns outros fatores foram muito relevantes:

Maturidade– Senta aqui, meu neto, vou te contar minha história. Ok, não sou tão velha assim, estou na flor dos meus meus vinte e alguns anos, mas vamos combinar que dos 21 para 25 anos a gente amadurece bastante e ter sido completamente independente durante o último ano te força a amadurecer ainda mais. E isto, claro, te faz encarar a vida de uma forma diferente.

Deslumbramento– Na verdade, a falta dele. Lembro-me bem até hoje quando cheguei no aeroporto de Washington DC, onde pegaria meu voo de conexão para Newark para fazer o treinamento de au pair. Fui ao banheiro e fiquei boquiaberta quando vi a descarga automática! Eu achei coisa de outro mundo! Isso é para ilustrar que tudo me deslumbrava. Eu mal conseguia acreditar que estava em solo americano quando desembarquei por lá. Já minha última viagem europeia foi tipo “Tô na Holanda. Será que o hostel serve café-da-manhã?“. Parece paradoxal, mas o novo se torna normal e conhecer outro país já não causa tanto furor. O fator deslumbramento sumiu. A Alemanha pode ser tão legal quanto o Brasil, dependendo do que estamos falando. Sacou?

Brasil versus o resto do mundo – Aquela história do fulaninho que conheceu as Zoropa e acha que tudo no Brasil é uma droga e tudo fora do Brasil (e da América Latina, de preferência) é o máximo! Brasil tem problemas? Tem. A Irlanda é perfeita, né? Vai abrir sua conta no banco e aí vem falar comigo, por exemplo. Eu abomino esse pensamento com todas as minhas forças. Eu sou de São Paulo, meo, e desde que voltei da Irlanda passo perto de ter surtos psicóticos pegando o transporte público, sofro com a poluição (rinite mandou lembranças) e passei a sentir muito mais medo de voltar sozinha para casa à noite. Mas amo a comida brasileira e a variedade de doces que temos (a balança que o diga, já engordei 2kg desde que cheguei), nosso clima não me dá deprê, nosso sistema bancário é o melhor do mundo e enfim, chega desse mimimi alienado de achar que Brasil não presta. A pessoa achar que tudo no país que morava era melhor não ajuda em nada no retorno.

!!!
!!!

Juntei tudo isso numa panela, levei ao fogo médio e mexi bem até dar ponto. Fiz brigadeiro e a vida aqui no Brasil vai muito bem, obrigada! Sinto saudade imensas da Irlanda, ou melhor, do que ficou por lá. E como saudade dói, eu tento simplesmente não pensar a respeito do que a desperta – soa frio e calculista, mas essa foi a forma que achei para lidar com ela há muito tempo!

Parabéns para você que leu o texto inteiro sem dormir! 🙂

Para terminar, tem um pouquinho de informação sobre a síndrome do regresso aqui, aqui e aqui. Mostre estes links para o povo que insiste em dizer que você está de frescura! 😉