Procurando um lugar ao Sol (no caso, na chuva)

[Senta, que o post é grande…]

Talvez uma das maiores preocupações quando se chega aqui na Irlanda seja achar um teto para se abrigar da chuva (que não tem hora para cair nesta terra). A maioria dos estudantes chega aqui com acomodação, casa de hostfamily ou hostel reservados, mas normalmente é por apenas uma ou duas semanas. E depois?

Eu sou um pouco acelerada, digamos assim, para algumas coisas. Cheguei nesta ilha na terça à noite e na quarta já fui visitar dois apartamentos. Gostei muito do primeiro, mas resolvi fazer a segunda visita porque já tinha agendado e era perto mesmo. Mas o outro apartamento não era legal. Primeiro, moravam 6 pessoas no lugar, mas o landlord (dono da casa) só sabia de 3 (possível sinal de problemas à vista). Os quartos eram muito pequenos, a casa toda era pequena, na verdade, e não me pareceram muito organizados. Descartei.

Voltei para a acomodação pensando na primeira casa. O quarto era grande, eu teria muito espaço para as minhas coisas (que não eram poucas) e a organização das meninas da casa parecia muito boa. No dia seguinte, procurei na internet mais alguns apartamentos, mas como não achei nada interessante, decidi fechar a primeira casa. No mesmo dia, com dor no bolso e uma certa desconfiança normal de qualquer paulistano, entreguei o depósito (explico isso mais adiante) e combinei que faria minha mudança no domingo. No sábado peguei a chave (quase me senti no “minha casa, minha vida”) e no dia seguinte, vim de mala e cuia para meu lugar ao sol na chuva na Ilha Esmeralda.

Não é que se parece com a frente da minha casa?

Cheguei na Irlanda sem nenhum contato para ver apartamento e menos de 48h depois, já estava com meu lugar garantido. Claro, tem que se considerar que cheguei em julho, férias, e há muitas vagas.

Algumas coisas precisam ser consideradas quando se aluga uma casa:

– Quando digo “alugar casa/apartamento”, na verdade, quero dizer “vaga”. Você pode juntar 4 ou 5 pessoas e alugar um apartamento vazio, mas o comum mesmo é as pessoas passarem as vagas quando saem (como numa república de estudantes).

– Normalmente, existe um contrato de aluguel. Neste contrato, o landlord especifica as regras da casa. Pode ser que o contrato não permita que os moradores passem a vaga, por exemplo. E no caso de descumprimento de qualquer regra, o morador não tem direito a receber de volta seu depósito. No meu caso, não existe contrato formal, é tudo “de boca”. Segundo as meninas da casa, nosso landlord é um abastado dono de apartamentos e um velho fanfarrão. Desde que o aluguel esteja sendo pago, ele não se importa quem esteja morando na casa. E ele é um landlord bem “supimpa”, porque está sempre passando por aqui para ver se a casa precisa de algum reparo e, segundo as moradoras mais antigas, ele sempre arruma tudo que elas pedem.

– E o que é o tal do depósito? Bem, quando se aluga uma casa ou se pega uma vaga, além do aluguel, é necessário pagar o depósito que é uma garantia de que você devolverá a casa como achou. Se quebrar algo, desrepeitar alguma regra do contrato ou algo do tipo, adeus euricos! Quando você pega a vaga de outra pessoa, paga a ela o mesmo valor de depósito que ela pagou ao landlord ou ao antigo morador. Tá acompanhando o raciocínio? Acontece que é muito comum os moradores precisarem comprar itens para casa, como pratos, algum eletrodoméstico e afins. Neste caso, quando eles passam a vaga, repassam este custo ao próximo morador (porque, afinal, ninguém quer perder os preciosos euricos). Resumindo, o valor do depósito é o mesmo do aluguel, mas quando os moradores fazem alguma melhoria na casa, é comum ver depósitos acima do valor do aluguel. Meu depósito foi cerca de 55% maior que o valor de aluguel, mas aqui na casa tem até chapinha e secador. Não precisei comprar nem roupa de cama.

– Boiler X Chuveiro elétrico. Você sabe o que é um boiler? Muitas casas por aqui tem um sistema de aquecimento de água. A àgua  é aquecida dentro de uma “câmara”. Ou se aquece uma quantidade grande para ser usada durante todo o dia ou apenas um pouco para uso imediato. E para que serve essa água? Para seu banho quentinho! E qual é problema disso? Ou você vai ter que ser o mais ligeiro da casa a tomar banho (quente) ou toda vez que for tomar banho, vai precisar esperar a água esquentar. Já casas com chuveiro elétricos são como no Brasil. Portanto, é muito importante saber isso antes de lugar sua casa. Na minha, é chuveiro elétrico. Sou muito phyna.

O boiler das casas se parece com esse aí.

– É interessante também perguntar sobre a organização dos atuais moradores. Como se dividem para limpar as áreas comuns? Como pagam as contas? Quais serão seus espaços (de armário, na geladeira, freezer). Melhor não levar susto.

– Pergunte se tudo que está na casa vai continuar quando você se mudar. Vai saber se a pessoa não vai levar a torradeira que você bateu o olho e achou linda para seu café-da-manhã?

– Faça perguntas gerais. Pergunte se costumam fazer festas, se recebem amigos ou se você pode ter visitas, se há fumantes na casa e onde é permitido fumar e mais alguma coisa que seja de seu interesse.

Feito tudo isso, eu nem precisei da uma semana inteira de acomodação que contratei. Estou morando com 3 coreanas e outra brasileira, falando inglês quase o tempo todo que fico em casa e gostando muito do lugar. Apesar de dividir meu quarto com outras 2 meninas, acho que não poderia ter achado casa melhor para morar aqui na terra dos leprechauns!

Ideia fixa

“A minha ideia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se ideia fixa. Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho.” (MPBC, MA)

Não faço parte do time dos impulsivos. Não como, não compro, não falo, não faço (quase) nada por impulso. Há lá suas exceções, mas de modo geral é isso: sou partidária das ideias fixas.
Por cultivá-las, acabo sendo o tipo de pessoa que quando decide algo, dificilmente volta atrás. Não é teimosia – uma ideia não se torna fixa sem muita reflexão; ela aparece na sua mente como quem não quer nada, ganha forma, tamanho, nome e prazo.
Não falo de qualquer ideia, plano ou vontade. Falo das ideias fixas, aquelas que depois que grudam, ficam passeando pela cabeça e não te deixam em paz: precisa ser colocada em prática.

A terra dos leprechauns é a mais recente da coleção. Foi assim quando decidi ser au pair. E, caro leitor, uma vez que uma dessas ideias se instala, não tem mais como escapar, não tem volta.
A verdade é que a ideia do segundo intercâmbio existe desde quando voltei do primeiro. Mas até 3 meses atrás era  algo que poderia ser ignorado, esquecido, guardado na gaveta. Então, ganhou status e agora a declaro fixa.

Já pensei em desistir, adiar por tempo indeterminado. Tenho medos e receios, como qualquer pessoa teria ao planejar morar fora. Mas não posso mais voltar atrás.

E nessa ânsia de concretizar esta ideia, já visitei 5 agências de intercâmbio e entrei em contato com outras 2. Só mais algumas pesquisas e fecho com uma delas. Já li inúmeros sites e blogs e assisti vídeos de relatos da Ilha da Esmeralda. Estou expert no assunto. Viu? Não tem volta.

Vamos dar as mãos, leitor, e torcer para que minha ideia fixa se saia melhor que a do emplastro de Brás Cubas. Até porque não desejo acabar com a melancolia da humanidade, só com a minha mesmo.