Três meses em Oulu

Três meses morando em Oulu e apesar de ser pouco tempo, já fiz, aprendi e conheci tanta coisa que parece que moro aqui há muito mais tempo. Quase todo dia é uma descoberta, um aprendizado e um mundo de coisas ainda estão por aí para serem descobertas!

E nesse tempo…

… ir ao mercado já não me assusta mais. Como comida é algo muito significativo pra mim (sem piadinhas, todos comemos, certo?), então já aprendi o nome de quase tudo que como e mesmo que eu não saiba pronunciar ou dizer a tradução de imediato, já reconheço muito bem todo o vocabulário que sei.

… sigo no curso de finlandês e ao mesmo tempo em que vejo evolução, já que consigo montar frases simples, me desanimo ao notar como a língua é complexa e como não devo ter como objetivo ser fluente – finlandês jamais será útil pra mim fora daqui e estou aprendendo por questões de “sobrevivência”. No fim, é divertido também.

… estou me sentindo como nos tempos de faculdade com mil trabalhos pra entregar e finais de semana sacrificados para eles. Não é nada absurdo ou que eu já não esteja acostumada – afinal, no Brasil eu trabalhava também -, mas vejo colegas meus agindo como se isso fosse além do aceitável e acho meio mimimi deles.

… já experimentei pizza finlandesa. Pizza de São Paulo, eu te amo cada vez mais!

… o frio não me assustou ainda. A temperatura mais baixa até agora foi -7, que foi totalmente suportável.

… já nevou de verdade e a neve chegou a ficar 5 dias pelas ruas, mas aí veio a chuva e derreteu tudo. Estou realmente curiosa pra ver toda a neve que o pessoal comenta que cai e acumula a partir de janeiro.

Amostra grátis do inverno
Amostra grátis do inverno

… já caí de bicicleta pedalando na chuva em todas as posições possíveis para não quebrar os ossos nem os dentes. Tão importante quanto evitar cair é saber cair – e essa arte eu já domino.

… já pedalei na neve e até agora sobrevivi sem quedas. Mas o inverno nem começou, né, gente?

… ao mesmo tempo em que sinto uma saudadezinha bem de leve do Brasil (ou seria das coisas que gostava somente? uhn), eu fico tentando me imaginar morando num cidade gigante e louca como São Paulo depois de conhecer a pacata, charmosa e tranquila Oulu. Sempre vejo uma Bia caipira chegando na cidade pela primeira vez.

… e a escuridão já está me deixando meio meh. Amanhece depois das 9h e começa a escurecer às 15h. E tem dia que o sol nem aparece.

… às vezes me pergunto se o inve$timento nesse mestrado está valendo a pena e logo me vem Fernando Pessoa na cabeça. E acho que minha alma não é pequena, não, e de tudo na vida tiramos uma lição. Se nada der certo, pelo menos volto mestre pro Brasil. 🙂

… sauna já é parte da minha vida.

… já ganhei em euros (Ravintolapäivä e outros trabalitos) e isso consola muito meu pigbank.

… já tenho viagem marcada! Bia, the explorer.

… fico feliz de saber que isso é mesmo só o começo!

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Mau humor

 Vivendo na Irlanda, o que me deixava de mau humor?

Semana 20 – Ficava de mau humor por causa de…

1 – Frio

Sei que estou super repetitiva com esta história de frio, mas é verdade… depois de dias de frio e céu cinza, meu humor não era mais o mesmo.

2 – Chuva

Não chuva de verdade porque em Dublin o mais comum é aquela chuva fraca e constante, não tempestade… mas sair e ficar com aquela chuva batendo na cara certamente me deixava mal humorada.

3 – Flatmate folgado

Aquele cara que usa a panela e não lava pro próximo usar, que esquenta uma lasanha no micro-ondas e depois não limpa os respingos, que não pergunta se tem alguém na fila do banho e já vai entrando no banheiro, que na vez dele de limpar a casa faz tudo de qualquer jeito, que pega sua comida sem nem mesmo te perguntar, que faz barulho até altas horas…. ah, preciso dar mais exemplos? Pior que convivi com gente que fazia tudo isso (não tantas “qualidades” na mesma pessoa, né, aí seria demais).

4 – F. me desafiando

Tinha dia que o loirinho mais velho resolvia medir força comigo. Eu ficava tão irritada com ele que o deixava sem dó de castigo no degrau da escada até ele pedir desculpa ou aceitar fazer a obrigação dele (como guardar os brinquedos). Tinha dia que ele custava tanto a engolir o orgulho que acabava dormindo no degrau. Eu nunca fiquei com dó dele, não.

5 – Perder o DART

Quando trabalhava pra primeira família, pegava o DART pra trabalhar. Eu saía às 17h30 e se eles chegassem na hora, eu conseguia correr até a estação (que era bem perto da casa) e pegar o DART das 17h37, mas era só eles se atrasarem 2 ou 3 minutos que eu perdia o bendito e precisava esperar mais de meia hora pelo seguinte. No frio. Numa estação completamente aberta e sem abrigos. E ainda me pergunto qual é o critério das pessoas que classificam o transporte público de Dublin como “eficiente”, certamente não aquelas que pegam o DART todos os dias.

Um ano

Eu sinceramente esperava escrever o post de um ano falando sobre a Irlanda. Eu saí do Brasil sem saber quanto tempo iria ficar por lá. Seis meses? Bem, se tudo estiver dando certo, posso ficar um ano. E por que não dois? Fui para a terra dos leprechauns sem ter uma data para voltar. Faculdade terminada, emprego não era problema (alguém conhece algum professor de inglês que tenha ficado desatualizado porque morou fora muito tempo?) e nenhum forte vínculo com o Brasil. Sim, sou desapegada.

Aos seis meses eu ainda não sabia o que fazer. Aos oito ainda não havia me decidido. Tudo que me recordo é que um dia eu acordei virada:

“Que droga de frio! Não aguento mais tempo ruim!”
“Sol! Cadê o Sol? Não aguento mais ver o Sol 3 ou 4 vezes por mês! Nem marca de relógio no braço eu tenho mais.”
“Droga de colchão de mola! Não dormi num colchão decente desde que cheguei nessa cidade.”
“Roubaram meu laptop! Nunca arrombaram minha casa no Brasil!”
“Que vida! Só compro as marcas do mercado!”
“Ficar mais um ano sendo babá? Amo os loirinhos, mas no Brasil sou formada e tenho profissão.”
“Dividir casa com gente de todo canto é um estresse do caramba! Já deu!”
“Sotaque feio, hein?”

E tais pensamentos aleatórios me tomaram e não via mais sentido em morar em Dublin. Minha vida era no Brasil e ficar mais um ano parecia sandice! Não me arrependi nenhum dia de ter remarcado minhas passagens, muito pelo contrário, contava os dias pra voltar pro Brasil. Não me arrependo nem um ano depois. Mas e se tivesse ficado?

E hoje faço um ano de Brasil… sinto saudades de Dublin e da vida que levava por lá (irônico, não?) e me pergunto como seria se eu tivesse decidido ficar mais um ano. Ou o que teria me influenciado a ficar. Será que se o tempo não fosse tão frio, nublado e chato eu teria ficado mais? Será que se tivesse me deixado levar pela minha imensa vontade de viajar, teria ficado? Tinha emprego, uma vidinha nos eixos. Será?

Mas nada disso importa agora- os “ses” da vida não mudam nada. E hoje faço um ano de retorno ao Brasil…. e a ideia é que essa data não se repita muitas vezes ainda. 🙂

Hoje, 3 de julho, um ano depois de me despedir de Dublin, embarco em outra viagem! 🙂

Dez saudades

Deixei a Irlanda há quase 4 meses e já deu tempo de sentir muita saudade de lá (mas não do frio, deste eu nunca senti falta). Inspirada pelo post que o Rick escreveu esta semana, resolvi escrever minha própria lista de saudades.

10. Kopparberg Strawberry & Lime

Yummy!

A Kopparberg é tipo uma cidra, mas ao contrário daquelas que vêm na cesta de Natal, ela não tem gosto de cabo de guarda-chuva. Meu sabor preferido é a de morango com limão, embora a de frutinhas não seja ruim também. Também tem a Kopparberg de pera, mas não sou muito fã. O teor alcoólico é muito baixo e é tão docinha que parece refrigerante. Apesar da marca ser sueca, em todo e qualquer pub, mercado e off-licence de Dublin se encontra a bebida (e o irônico é que quando fui para a Suécia, não achei a Kopparberg em lugar nenhum). Era a bebida que eu pedia nos pubs e que tomava nas sextas em casa. 😉

9. O’Reillys
O’Reillys é um dos pubs que mais frequentei, especialmente aos sábados quando só tocava rock e tudo ficava bem mais barato. Gostei do lugar desde a primeira vez que fui, porque o pub tem uma decoração que lembra uma taverna antiga. O engraçado é que, segundo o site do local, o pub não é nada antigo- foi inaugurado em 2010. O O’Reillys fica embaixo da Tara Station (DART).

8. Book Market no Temple Bar
Que o Temple Bar é uma área turística da cidade cheia de pubs e com uma vida noturna bem agitada tenho certeza que você já sabe. Mas você sabia que aos sábados e domingos durante o dia rola uma feirinha de livros? Na verdade, não tem só livros, mas também antiquidades, vinis e outras coisinhas. Sempre que passava pelo Temple Bar no horário da feira, parava para dar uma olhada e acabava ficando um bom tempo olhando tudo. Foi lá que comprei um button super legal dos Smiths (que acabei perdendo quando fui para Londres).

7. Grafton Street
Uma das ruas mais famosas de Dublin com seu piso de pedras vermelhas e exclusiva para pedestres, suas lojas caríssimas (e outras nem tanto) e seus artistas de rua e buskers. Durante um tempo, morei bem perto da Grafton e passava muito por lá. Todas às sextas-feiras, por exemplo, quando recebia meu pagamento num envelope com uma carinha sorridente (sim!), passava na agência do AIB da rua, onde o auto-atendimento funcionava até tarde e aos finais de semana, e depositava o dinheiro na minha conta. É uma rua extremamente turística, mas para mim it felt like home. Já sabia os truques dos artistas de cor e salteado, mas quando eu achava que já tinha visto de tudo, já no meu último mês de Irlanda, vi isso:Grafton

6. Spire
Dublin não tem nenhum ponto turístico realmente famoso. Sabe quando alguém te fala uma cidade e logo te vem na cabeça uma atração? Londres, Big Ben. Paris, Torre Eiffel. New York, Estátua da Liberdade. Roma, Coliseu. Dublin….. Mas se você já morou na cidade, provavelmente é o Spire que aparece em sua mente. O Spire nada mais é que uma “agulha” na O’Connell Street e está lá há pouco mais de 10 anos. O interessante é que o Spire é o ponto de encontro de todo mundo que vai para o centro. Já na minha primeira semana na Irlanda, quando ainda estava na acomodação da escola, marquei meu primeiro encontro com conhecidos lá. Às vezes dá saudade de soltar um “Me encontra no Spire tal hora”.

Uma das muitas fotos que tirei da Agulha! hehe
Uma das muitas fotos que tirei da Agulha! hehe

5. Céu cinza e garoa
What? Você tá com saudade disso? Vamos com calma. Tenho a leve impressão de que já deixei bem claro neste blog que eu detestava o frio e, por tabela, os dias cinzentos e chuvosos de Dublin. Porém, desde que voltei para o Brasil, sempre que o céu fica cinza e/ou a temperatura cai e/ou chove fraco, eu lembro de Dublin e, de certa forma, sinto que estou lá. Obviamente, eu prefiro um bilhão de vezes um dia de sol com temperatura passando dos 30 graus (como a maioria dos últimos dias por aqui) do que o frio de quase 0 grau de Dublin com tempo feio, mas não posso deixar de sentir saudade sempre que o clima fica meio parecido. E claro, fico muito mais feliz por saber que em breve verei um céu azul, algo que era mais raro por lá.

4. A felicidade de um dia de Sol
Ainda falando do tempo, a sensação de abrir a janela e ver um belo dia de sol depois de dias e dias de céu cinza era a pura definição de felicidade. Se fosse um dia de sol com temperatura acima de 15 graus, então, era o paraíso na terra. Ver os irlandeses passeando felizes pela rua, levando as crianças ao parquinho, almoçando nos bancos da rua, lendo livros nos parques… O humor da cidade mudava com o clima. Na Irlanda eu aprendi a valorizar cada raio de sol, era simplesmente proibido ficar dentro de casa se estava ensolarado e mesmo aqui no Brasil, onde os dias de sol são bem mais comuns, às vezes ainda tenho essa sensação de precisar aproveitar cada raio. Só que aqui eu adquiri outro hábito: sol e calor é sinônimo de saia e vestido e só!

3. Meus loirinhos
Eu simplesmente morro de saudade do F. e do O., os meus loirinhos. Eu cuidei dessas belezuras por quase 6 meses e dar tchau para eles foi uma das partes mais difíceis de ir embora. A pessoa que está cuidando deles agora é indicação minha, então, às vezes ela me manda fotos deles e no meu aniversário, até fotografou um desenho que o F. fez para mim. Não preciso dizer que sinto um aperto no coração e uma vontade enorme de voltar e ver essas coisas loiras, né?

Os loirinhos me davam flores.
Os loirinhos me davam flores.

2. Dublin Bus
Calma, não é que eu sinto falta do ônibus de Dublin em si, mas quando comparo com os ônibus de São Paulo confesso que sinto uma super saudade dos de Dublin! Tirando a parte que a tarifa de ônibus da cidade é extremamente cara e que os knackers fumavam e bebiam dentro do transporte, todo o resto me faz sentir saudade. Ônibus com banco acolchoado, nunca tão cheio que eu não conseguisse me mexer, motoristas pacientes que esperavam até os bêbados sentarem antes de sair do ponto para evitar qualquer acidente, pontos de ônibus com letreiro informando quando o próximo ônibus chegaria e, claro, o aplicativo de celular para monitorar seu ônibus e não ficar meia hora em pé no ponto esperando. Já aqui em São Paulo é tudo isso ao contrário e todos os dias fico à beira de um surto psicótico utilizando o transporte público. Dublin Bus, seu lindo.

1. Mountjoy Square
Eu morei na Mountjoy Square nos meus primeiros 5 meses na Irlanda e mesmo quando ainda estava no país, sentia uma certa nostalgia quando passava por lá. A Mountjoy é composta por prédios de quase 200 anos e já foi o lugar onde ricos e influentes moravam, porém hoje em dia abriga irlandeses de baixa de renda, imigrantes e estudantes. Já apareceu no cinema, no filme Once, que adoro! Meu único arrependimento é nunca ter entrado no parque que ficava bem em frente de onde eu morava. A minha desculpa era sempre o tempo ruim, mas quando saía um solzinho, a preguiça falava mais alto e depois que me mudei de lá, dificilmente voltaria para passear.

Sinto falta de outras tantas coisas e várias vezes tenho flashbacks dos tempos que morei na terra dos leprechauns. Sinto muita saudade e tenho certeza que ainda volto para lá, nem que seja a passeio.

Onze meses de Irlanda

Longe de casa há 335 dias.

“Mas você já morou fora antes, já sabe como é, está acostumada”, todos dizem. A gente não se acostuma com a saudade e com a falta que faz viver longe de onde cresceu. Não eu. Eu me adapto muito fácil, foi assim nos EUA, está sendo assim aqui, mas eu sempre digo que eu só suporto estar longe do meu mundo porque sei que tem prazo de validade: um dia eu volto. Contraditório, eu sei.

No meu ano na Obamaland nos EUA eu percebi como era flexível e que eu, com 20 anos, já conseguia ser um tanto quanto responsável. Mas eu tinha casa, comida e roupa lavada (por mim, mas tinha) e minha preocupação era “só” cuidar das crianças (uma baita responsabilidade). Na Irlanda eu aprendi a pagar todas as minhas contas, a me preocupar com meu café-da-manhã, almoço e janta, a não me preocupar a que horas chegaria em casa, a cozinhar (não morri de fome nem emagreci, logo…). Eu não precisava sair do Brasil pra isso – era só ir morar sozinha- mas em terras tupiniquins eu teria tudo fácil (família, amigos, realidade que eu conheço) e aqui eu cheguei sem nada.

Foram onze meses bons e ruins ao mesmo tempo. As coisas ruins eu levo como aprendizado e algumas delas vão virar histórias engraçadas em roda de amigos em algum tempo. As coisas boas vou lembrar nostalgicamente no futuro.

Em onze meses eu perdi o medo da chuva (e matei minha vontade de ter galochas enquanto me desfiz do guarda-chuva- touca na cabeça é vida); controlei meu consumo de doces (o que não é nada fácil morando num país onde chocolate é barato demais e o Tesco vende mousse a 1 euro); troquei a Smirnoff Ice pela Kopparberg; não aprendi a beber cerveja; saquei que se a vida é minha e eu pago as minhas contas, ninguém tem nada a ver com a  roupa que eu uso (me deixa ir no mercado de pijama, ok?); que eu não nasci para passar frio; que eu não tenho mais desejo de ver neve; que a melhor comida do mundo é a do Brasil; que o motorista do ônibus ouve Beatles e Alanis; que roda de samba aqui é música celta com jeito de Senhor dos Anéis (filme que, aliás, eu nunca vi); que irlandês deve ser um pouco triste por achar que 20 graus é calor; que violência tem em todo lugar, até em Dublin (destruí seu mundo!); a valorizar imensamente um lindo dia de sol; que a marca do mercado é, na maioria das vezes, tão boa quanto a marca cara; a parar de converter do euro para o real; que se eu não fizer, ninguém vai fazer por mim; que eu gosto mesmo é de São Paulo, com todos os seus prós e contras.

Quem diria que eu poderia aprender tanta coisa em tão pouco tempo?