Verão em Oulu

O auge do verão já havia passado quando retornei a Oulu, mas ainda consegui pegar o finalzinho da estação e aproveitar para fazer algumas atividades que só acontecem nesta época.

Sauna no Rio

Já faz alguns anos que no verão funciona a sauna flutuante no Rio de Tuira, próximo ao centro da cidade. Fui apenas uma vez no ano passado e achei sensacional.

Sauna flutuante
Sauna flutuante

Este ano tive a oportunidade de ir duas vezes e eu não posso deixar de recomendar a experiência se alguém um dia resolver conhecer a Finlândia no verão. A sauna de Tuira tem capacidade para até 20 pessoas, a entrada custa 5 euros e não há limite de tempo de permanência.  A sauna é de madeira e a ideia é que após alguns minutos de sauna a pessoa saia e entre no rio, que mesmo sendo verão, já está bem gelado. Os mais corajosos pulam; os mais cautelosos descem as escadas e entram no rio; a Bia só observa. Eu não sei nadar muito bem, então é fora de cogitação mergulhar e descer as escadas aos poucos não encoraja muito, então só entrei a até a altura da cintura! De qualquer forma, é uma ótima experiência para entender um pouco mais da cultura finlandesa.

Campeonato de Air Guitar

Talvez você não saiba, mas Oulu sedia o Campeonato Mundial de Air Guitar há alguns anos. Bem, talvez você bem saiba o que é isso, então vou explicar: é um campeonato em que os participantes tocam guitarra sem ter uma guitarra! Basicamente, ficam no palco por um minuto fingindo tocar guitarra, portanto, a performance e o carisma são muito importantes. Normalmente, este tipo de evento não me chamaria a atenção – tanto é que não fui no ano passado -, mas como sou aluna tutora este este, resolvemos fazer um tour pelo centro da cidade com os novos alunos e terminar assistindo o evento.

Air Guitar Championship
Air Guitar Championship

O mais engraçado é que eu curti! O evento acontece na praça principal da cidade, Rotuaari, e é gratuito. A praça estava cheia, mas não é muito grande, então estamos falando de apenas alguns poucos milhares de pessoas assistindo – mas em Oulu isto significa muita gente. Como tudo aconteceu em inglês, ficou ainda mais fácil de entender o que estava rolando e, sinceramente, nunca tinha visto Oulu tão movimentada como naquele dia. E este é o tipo de evento que só pode acontecer mesmo nesta época do ano, afinal, quem iria aguentar ficar horas a céu aberto vendo um campeonato? Não que estivesse calor, mas as temperaturas ainda passam dos 10 graus nesta época. 🙂

Café no castelo de Oulu

Sim, Oulu tem um castelo. Ou tinha. O castelo de madeira foi construído no final do século 16 próximo ou Rio Oulu, no local onde muito provavelmente havia outro castelo no século 14. No século 18, o castelo foi destruído por um incêndio causado pelos russos. Aí o que você faz com as ruínas de um castelo? Constrói um café, claro. Hoje, no local, é possível visitar as ruínas de uma das torres do castelo original e em cima delas há uma café feito de madeira em forma de castelo.

Oulu castle

É um prédio bem interessante e aconchegante e do último andar há uma bela vista do parque. É um passeio de verão porque o local só abre nesta época, normalmente entre 1º de maio de 15 de setembro.

Uma representação de como era o castelo que havia no local
Uma representação de como era o castelo que havia no local

Parques

Sabendo como o inverno é escuro e frio por aqui, o melhor a se fazer é aproveitar sempre que possível para andar nos parques da cidade ou apenas abrir a porta de casa e sair andando, o que essencialmente é estar num parque – com exceção do centro, a cidade toda parece um grande parque com casas.

Este é o parque em frente ao castelo de Oulu.

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E este é um parque no centro da cidade, próximo da barragem do rio. À noite, há luzes no rio e é lindo.

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E isto pode parecer uma pista de corrida em um parque, mas é só a avenida da universidade mesmo. Como disse, a gente abre a porta de casa aqui e já está no parque.

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Quando se mora num país de extremos, ficamos impressionados como tudo pode ser muito diferente no verão ou no inverno. Apesar da alegria do tempo relativamente bom, eu não conseguia tirar da cabeça que em alguns poucos meses tudo estaria branco, frio e escuro e eu só estou no meu segundo ano aqui! Fico imaginando como ficam as pessoas que, de fato, moram por aqui desde que nasceram – é mais fácil ou mais difícil lidar com estes extremos?

De qualquer forma, posso dizer que aproveitei ao máximo o restinho de verão e já sinto saudade dele mesmo antes da primeira neve ter caído!

Arthur’s Day e Guinness

No começo de setembro, percebi que havia vários outdoors e anúncios nas laterais dos ônibus divulgando que no dia 27 de setembro a cidade estaria pintada de preto (“Paint the town black”). Pensei “What the hell?“. Descobri, então, que era o Arthur’s Day. Aí, pensei “Who is Arthur?” Foi quando comecei a ligar os pontos. Vamos por partes.

Arthur Guinness é o fundador da famosa cervejaria… adivinhem? Isso mesmo, da Guinness. Vocês sabem qual é a cor da cerveja? Não de qualquer cerveja, mas desta tradicional cerveja irlandesa. Vou dar uma dica:

Guinness, prazer!

Agora ficou fácil, né? Ela é preta e bem amarga, mas muito amarga! E tem um gostinho de café. Aí que eu venho para a Irlanda e não bebo cerveja e 2,5 meses depois eu ainda não comecei a beber. A isso, acrescente o fato de que eu sou professora, mas não, eu não bebo café. Juntou a cevada com a cafeína e você achou mesmo que eu iria gostar disso aí da Guinness só porque é famosa? Pffft… Falando sério agora, a Guinness não tem cafeína, mas como o malte é torrado acaba deixando um gostinho que, para meu humilde paladar, lembra o de café.

Voltando ao que interessa, “pintar a cidade de preto” fazia uma referência à comemoração dos 253 anos da fundação da cervejaria, fazendo parecer que o Arthur Guinness é um tipo de St. Patrick por aqui. Falando no Patrício, digo, Patrick, que país é esse que celebra tanto o santo responsável por trazer o cristianismo para esta terra de pagãos celtas leprechauns quanto o cara que roubou a receita inventou uma cerveja? Enfim.

Essa comemoração começou em 2009, quando a Guinness completou 250 anos e, ao que tudo indica, já faz parte do calendário irlandês. Obviamente, não passa de uma jogada de marketing, mas vamos deixar isso para lá.

Como vocês ainda não sabem, eu não bebo cerveja. Então, nem me animei muito para as tais comemorações, mesmo com a Guinness fazendo o maior mistério sobre os locais onde algumas bandas, como Fat Boy Slim, iriam se apresentar. Porém, acabei saindo para dar uma volta no Temple Bar para ver o que estava rolando. Ok que já era pra lá de 11 da noite, mas segue um resumo do que vi:

– Pessoas bêbadas;
– Copos quebrados na rua;
– Pessoas muito bêbadas;
– Latas e garrafas de bebidas aos montes nas ruas;
– Irlandesas vestidas como se aqui fosse Rio 40 graus mostrando tudo que não têm. Ah, e bêbadas;
– Pubs lotados numa quinta-feira;
– E já mencionei que vi pessoas bêbadas?

Para os apreciadores de Guinness ou àqueles que só precisam de um motivo qualquer para beber, torçam para que o Arthur’s Day se repita em 2013 (o que acho quase certo de acontecer).

Curiosidades

Arthur Guinness faleceu em 1803 no local onde esta blogueira reside atualmente. Não me refiro a casa, mas ao “quarteirão”. Moro numa praça cercada por prédios em estilo gregoriano que datam do início do século 19. À época, apenas pessoas ricas e influentes residiam aqui (o que explica o porquê de o Arthur resolver bater as botas nesta região). Hoje em dia, porém, a área é mais frequentada por estrangeiros, irlandeses de classe média baixa e uns tais de knackers.

Eu insinuei aí em cima que a receita foi roubada. No final de semana passado, conhecemos um britânico que, pasmém, falava português! Papo vai, papo vem naquela mistura linda de português e inglês de todas as partes envolvidas, o rapaz conta que o Arthur não inventou nada, apenas comprou a receita de um britânico qualquer. Se isso é verdade, eu não sei (nem perguntei para o Google), mas que a investida do senhor Guinness deu certo, ah deu!