Ravintolapäivä

O nome do post está em finlandês, mas não se assustem! Ravintolapäivä é o nome do evento que participei no último final de semana e quer dizer apenas Dia do Restaurante.

Este evento acontece em várias partes do mundo e a ideia é muito simples: pessoas comuns podem ter seu restaurante por um dia e vender o que fazem de melhor, com o diferencial que em Oulu, pelo menos, a ênfase é em comidas típicas dos países participantes. Eu achei a ideia muito interessante e gostei ainda mais da parte que isso poderia me render alguns euros, porque mesmo com tudo se ajeitando e a moeda baixando no Brasil, ainda não tá fácil gastar em euros o que eu juntei em reais. :/

Eu me inscrevi junto com aquelas duas amigas de sempre, a A. e a V., e apesar de cada uma participar com comidas do próprio país, elaboramos o cardápio, fizemos as compras e cozinhamos juntas.

Eu obviamente apelei pro forte do Brasil: os doces! Apesar de leite condensado ser algo muito caro e nem tão simples de se achar por essas terras, eu fiz brigadeiro, beijinho e bolo de cenoura com e sem cobertura de chocolate. Bolo de cenoura pode soar como algo bem comum, mas eu só vejo bolo de cenoura laranjão e com cobertura de chocolate no Brasil, em todos os outros lugares o bolo costuma ser meio marrom e tem um cobertura X nada a ver.

E passei um dia inteiro fazendo bolos, enrolando beijinhos e brigadeiros e no fim, tá dáááá:

Ficaram ótimos, modéstia à parte!
Ficaram ótimos, modéstia à parte!

No dia seguinte, saímos bem cedo debaixo de neve e cheias de comidinhas. O evento começou às 11h e no começo estava devagar quase parando e eu só fazendo cara de paisagem.

Brasilia é Brasil em finlandês
Brasilia é Brasil em finlandês

Mas quando comecei a vender, aí foi tudo! O bolo de cenoura e o brigadeiro esgotaram antes do fim do evento, mas os beijinhos não fizeram tanto sucesso quanto e precisei comer os poucos que sobraram.

Aliás, ficava muito feliz toda vez que alguém comprava um pedaço de bolo ou docinho e depois que comia, voltava para elogiar e comprar mais pra levar! Uma senhorinha comeu o bolo na minha frente e antes mesmo de terminar seu pedaço, já pediu mais dois pra viagem. Um casal de idosos levou um brigadeiro e um beijinho, comeram e voltaram pra levar mais pra viagem e me encher de elogios. 🙂

Foi nossa primeira vez num evento como este e acabamos cometendo alguns erros. Como na reunião pré-evento a organizadora não parava de falar que na última vez haviam recebido 2000 pessoas, logo pensamos que deveríamos fazer bastante comida. Não vendemos tudo e acabamos ficando muito mais tempo cozinhando do que o previsto e confesso que isso foi extremamente cansativo. Mas no fim, valeu muito a pena, pois foi algo completamente diferente, fiquei muito feliz com as boas vendas dos docinhos e a comida que sobrou, bem, comemos!

Que venha o próximo ravintolapäivä! 🙂

Publicidade

You won’t be ready to kiss… goodbye

Eu trabalho para a família M. desde janeiro. Já falei deles aqui e de como eles são pessoas muito bacanas. A B., mãe das crianças, é professora e as férias aqui vão de fim de junho a fim de agosto e quando ela está de férias não precisa de ninguém para ficar com os meninos, ou seja, hoje foi meu último dia com eles.

Trabalhar com criança é um negócio que não tem meio-termo: ou você ama ou você detesta. Criança dá trabalho, tem dia que é estressante, mas a gente acaba se apegando aos pequenos e eu, claro, me apeguei aos loirinhos.

Até aí nenhuma novidade, não é difícil se apegar a duas coisinhas loiras fofas e elétricas. Só que os pais, B, e K., sempre foram muito atenciosos e legais demais. Eles sempre me perguntavam se eu precisava de algo, se eu queria que eles comprassem algo para eu comer lá e coisas assim. Além disso, me deram um passeio de barco pelo Rio Liffey; quando perdi meu passaporte e comentei com eles, me deram quase metade do valor da taxa de emissão para me ajudar a pagar (e eles não tinham absolutamente nada a ver com isso); quando arrombaram a casa e levaram meu laptop, se ofereceram para ir me buscar para eu passar a noite na casa deles (o que não aceitei), além de me emprestarem o iPad e me deixarem usar o laptop deles na casa; já foram me buscar no ponto de ônibus de manhã em dia de chuva mais forte e enfim, são pessoas lindas.

Isso tudo é muito bom, o ruim é na hora de dizer tchau pela última vez. Resolvi agradar os meninos e ontem à noite, pela primeira vez na vida, fiz brigadeiro e modéstia à parte, ficou muito bom. Eles, obviamente, adoraram o “brigadeirrrou” e fiquei feliz por deixar a vida de dois irlandesinhos um pouco mais doce num dia chuvoso. O O. só tem 2 anos e não faz ideia do que está acontecendo, mas o F. já tem 3,5 anos e achei que devia dar uma explicação para ele. Peguei o globo terrestre, mostrei a Irlanda e o Brasil para ele e disse que eu estava voltando para casa num grande avião. Ele não entendeu muito bem. Depois, disse para ele que eu iria para o Brasil e não voltaria mais. Ele me olhou intrigado e perguntou por que, desconversei um pouco e ele disse que iria me visitar no Brasil, só que ele ia ter que voltar para casa depois para ficar com mummy e daddy. Resumindo, ele não sacou que eu não vou voltar mais lá. Finalmente, a B. chegou em casa com uma sacolinha. Dentro tinha uma St Brigid’s Cross de prata.

St. Brigid's Cross
St. Brigid’s Cross

Ela me disse que é um símbolo da Irlanda e do cristianismo e eu já havia visto uma dessas na casa deles. Também disse que estava me dando para eu ter algo para lembrar sempre do tempo que vivi na Irlanda. Depois li no livrinho que veio com ela, que ela representa esperança e novos começos. 😉

Até este momento estava tudo sob controle. Aí ela me dá um cartão homemade com uma foto minha junto com ela e dos loirinhos e dentro, o contorno das mãozinhas dos dois e um desenho de cada um que, teoricamente, sou eu. Eu nem li o que estava escrito e lágrimas rolaram (não muitas, tá?). A B. me agradeceu, disse que os meninos gostavam demais de mim, que eles serão eternamente gratos por eu ter cuidado tão bem deles, que sentiriam minha falta e que eles viam que eu realmente tinha jeito com crianças. Pediu para mantermos contato e trocarmos fotos. Ai, fiquei triste. 😦

Voltei para casa refletindo sobre tudo. Peguei o cartão e li a mensagem:

“We will be forever grateful for the great care you gave to F. and O. You are so kind and gentle and they love you so much. We wish you a bright and happy future wherever it lies!”
Lots of love,”

Quando termino de ler, no iPod está tocando a música The Game do Echo and the bunnymen, justamente no trecho que dá título a este post: “You won’t be ready to kiss… goodbye”. Talvez uma outra lágrima tenha rolado.

Ehhh… vou sentir saudades imensas desses loirinhos ligados no 220.

Comprovado: o brigadeiro ganhou o mundo

Depois daquele pedido discreto por um pouco de brrigadeirrrow, os desejos da Ella foram atendidos. Providenciei brigadeiro caseiro e também um pouco de beijinho. Não, não fui quem fiz.

Quando as encontrei na porta da escola, depois de felicitar a pequena aniversariante, as meninas só pensavam em uma coisa: cadê o brigadeiro? Elas não saberiam dizer meu nome se perguntassem, mas do brigadeiro elas não esqueceram. Fiz um mistério meio bobo e quando chegamos em casa, mandei todo mundo para cozinha e tirei o doce mágico da mochila.

Os olhos das pequenas irlandesas brilhavam. Acabaram com todo o brigadeiro em minutos. Estava muito bom, obrigada. Apresentei, então, o beijinho e expliquei como havia sido feito. Aí a história mudou um pouco. Passaram do olhar brigadeiramente alegre a desconfiança em poucos segundos ao verem o creme branco sobre a mesa. A mais velha, querendo ser a desbravadora de novos sabores, pediu que eu colocasse um pouco de beijinhow em seu prato. Experimentou sob o olhar curioso da irmã mais nova. Alguns momentos de tensão…

“Você gostou, Sophie?”
“Ah, não é tão ruim.”
“Beatriz, posso experimentar só um pouquinho do prato da Sophie?”

Com a falta de aprovação total da irmã mais velha, obviamente que a mais nova não aprovaria. O beijinho foi friamente rejeitado pelo paladar irlandês. Talvez o coco, matéria prima do doce, seja muito tropical para o gosto dos leprechauns.

Contudo, algo é certo: o brigadeiro ganhou o mundo.

Não foi a vez do beijinho

Irlandês come brigadeiro

Hoje, de volta ao trabalho depois de uma semana de folga por causa das mini férias de meio de semestre, a Ella me dá oi e já me lasca uma pergunta:

“Você sabe que dia é amanhã?”
“Claro, é seu aniversário!”
“Ehhh! Você vai me dar presente?”
“Err… presente?”
“Tô brincando, Beatriz*. Não precisa me dar presente. Mas sabe, uma das nossas minders que era brasileira fez brigadeiro [pense num sotaque muito forte ao dizer “brigadeiro”] pra mim… e faz tanto tempo que eu não como!”
“É mesmo?”
“Ehhh… e brigadeiro é tão gostoso!”

Irlandesa safadinha essa, hein? Prometi o tal brigadeiro pra ela… quero ver essa gringuinha se acabar num docinho tipicamente brasileiro! Volto para contar o resultado. 😉

Brrrigadeirrrro, please!

*Eu tinha a intenção de ensiná-las a me chamar de Bia. Mas aí elas me contaram que ‘bia’ em irlandês significa ‘comida’ e achei melhor deixar pra lá. Sabe como é, né?