Auschwitz-Birkenau III

De um campo a outro são cerca de 3km. A mesma van que nos pegou no hostel, nos levou a Birkenau.

Cercas de Birkenau
Cercas de Birkenau

Os trilhos do trem vão até dentro do campo e na própria “plataforma” era feita a seleção. Após explicar detalhes dos trilhos, trens e seleção, a guia nos disse que faríamos exatamente o mesmo caminho feito pelos recém-chegados que iam para a câmara de gás. Foi forte.

Câmara de gás destruída pelos alemães antes de abandonarem o campo
Câmara de gás destruída pelos alemães antes de abandonarem o campo

Em seguida, entramos nos prédios onde os prisioneiros dormiam e a guia reassaltou que o inverno polonês poderia ter temperaturas de até -20 graus e, mesmo assim, não havia qualquer tipo de aquecimento nos prédios e os prisioneiros não recebiam nenhuma roupa extra para aguentar o frio. Visitamos também o “banheiro”, local sem condição nenhuma de higiene e nenhuma privacidade.

Banheiros de uso comum
Banheiros de uso comum

E como praticamente tudo no campo era feito pelo próprios prisioneiros, eles deveriam limpar o banheiro também. Mas por incrível que pareça, este era um dos trabalhos “bons” de Auschwitz. Primeiro porque os prisioneiros só poderiam ir ao banheiro de manhã ao acordarem e à noite quando voltavam do trabalho e trabalhando com a limpeza, o acesso ao banheiro era livre (lembrando que diarréia era um sintoma comum entre os prisioneiros devido a várias doenças). Segundo, porque ficavam tão mal cheirosos que os guardas do campo não chegavam perto nem para bater.

Birkenau
Birkenau

Em Birkenau foi construído um memorial para as vítimas e há uma pedra de mármore com uma mensagem escrita em cada uma das línguas faladas pelos prisioneiros. Comovente.

Memorial
Memorial
"Que este lugar seja sempre um pranto de desespero e um aviso à humanidade, onde os nazistas assassinaram cerca de um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, principalmente judeus de vários países da Europa."Auschwitz-Birkenau 1940-1945
“Que este lugar seja sempre um pranto de desespero e um aviso à humanidade, onde os nazistas assassinaram cerca de um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, principalmente judeus de vários países da Europa.”
Auschwitz-Birkenau 1940-1945

Terminada a visita, saí dos campos refletindo muito e até agora às vezes me pego pensando nas coisas que vi ali. Uma cena muito forte em Auschwitz é da sala onde estão 2 toneladas de cabelos raspados dos prisioneiros. Não é permitido fotografá-los. Ver objetos pessoais de pessoas que foram tratadas de forma desumana choca, mas ver seus cabelos comove de uma forma que não consigo expressar com palavras. E por que os nazistas raspavam os cabelos? Retorno financeiro, como tudo que exploravam nos campos. Os cabelos eram vendidos para a indústria têxtil e as cinzas dos prisioneiros poderiam virar fertilizante.

Este memorial foi colocado em todos os lugares onde cinzas humanas foram encontradas
Este memorial foi colocado em todos os lugares onde cinzas humanas foram encontradas

Como contei no início do primeiro post sobre Auschwitz-Birkenau, sempre me interessei por esta parte da história. Já li alguns livros, reportagens e vi alguns flmes relacionados ao tema, então, achei que seria interessante indicar alguns.

1. A vida é bela

A vida é belaFilme italiano de 1997 com direção de Roberto Benigni e é um dos meus preferidos. Guido e seu filho são levados para um campo de concentração, mas o pai consegue fazer com que o filho acredite que estão participando de um grande jogo e o menino não percebe o meio em que está inserido. O final é comovente.

2. O menino do pijama listrado

Eu sempre digo que primeiro se deve ler o livro para em seguida ver sua adaptação ao cinema, mas neste caso, fiz o caminho inverso. Bruno é filho do comandante de Auschwitz e fica frustrado ao ser obrigado a deixar Berlin para viver ao lado do campo. Aos 8, 9 anos, ele não entende o que acontece à sua volta e adora sair para explorar. Conhece, então, um menino que está sempre vestindo “pijama” e viram amigos. A linguagem do livro é muito simples, pois a história é contada à partir do ponto de vista de uma criança.

3. Bastardos Inglórios

O filme mistura ficção e realidade e é bem para o gosto daqueles que adoram ver sangue. Um grupo de soldados judeus tem a missão de matar de forma cruel o maior número possível de nazistas e Shosanna é uma judia que conseguiu fugir de um massacre que matou toda a sua família e agora dirige, com um nome falso, um cinema em Paris. Eles se encontram e o final é interessante, eu diria.

4. A lista de Schindler

O filme foi rodado em Cracóvia e após visitar alguns locais que aparecem nas cenas, fiquei com muita vonta de assistí-lo (porque apesar de passar todos os dias no SBT desde que eu tinha uns 8 anos, eu nunca tinha visto!). São mais de 3h, mas o filme é maravilhoso! Conta (de forma romanceada, claro) a história de Oskar Schindler, um membro do partido nazista que se simpatizava com os judeus. Quando o gueto judeu foi extinto, gastou sua fortuna (conquistada com o trabalho escravo de judeus) salvando o maior número possível de pessoas exigindo que levassem todas para trabalhar em sua fábrica. Lá, os prisioneiros tinham condições mais dignas de vida e não sofriam nenhum tipo de punição ou tortura.

5. O diário de Anne Frank

Anne Frank
Anne Frank

Já li o livro 3 vezes, sendo que a primeira vez foi aos 14 anos. Anne Frank era uma alemã judia que havia se mudado para a Holanda com a família fugindo dos nazistas. Infelizmente, a Holanda também começou a deportar judeus e sua família se escondeu em um “anexo secreto” num prédio comercial que era de seu pai. A menina manteve o diário por mais de 2 anos, até que sua família foi denunciada e enviada a Auschwitz. Recentemente descobri que há uma adaptação para o cinema de 1959! Para quem se interessar, basta digitar “O diário de Anne Frank” no YouTube e encontrará o filme completo.

6. Auschwitz: The Nazis and the Final Solution

Excelente documentário da BBC de 6 episódios sobre a história do campo que assisti logo antes de viajar. Traz muitos relatos de sobreviventes e até de um guarda que trabalhava no campo. Sei que a BBC tem mais alguns documentários sobre o tema, é só dar uma pesquisada!

7. A queda – As últimas horas de Hitler

Filme alemão de 2004 que, enfim, o título é autoexplicativo. A secretária de Hitler conta como foram seus últimos dias escondido em seu esconderijo de segurança máxima. O filme tem 2h e meia e pode ser um pouco cansativo se você não estiver realmente interessado.

8. O pianista

Filme dirigido por Roman Polanski. O diretor é franco-polonês e viveu no gueto de Cracóvia, de onde conseguiu fugir antes de ser enviado a Auschwitz. O filme conta a história de um pianista judeu que consegue fugir dos soldados nazistas e se esconde em prédios abandonados até que a guerra acabe.

Sei que há muitos outros filmes, livros (ficcionais ou não) e documentários sobre esta parte da história e estas são apenas algumas sugestões. Vi nas livrarias aqui da Irlanda um livro chamado “The dark charisma of Adolf Hitler” da BBC e estou seriamente pensando em comprar. Ah, tem o documentário de mesmo nome.

A próxima parada da viagem também foi marcada pelas lembranças do horror nazista.

Auschwitz-Birkenau II

A visita seguiu e fomos aos prédios onde os prisioneiros ficavam. As instalações mudaram com o tempo: no começo dormiam em cima de palha, depois passaram para colchões bem finos também de palha até que começaram a dormir em “triliches” de madeira sem colchão nem conforto nenhum.

Colchões de palha
Colchões de palha

Nos corredores deste prédio estão fotos dos prisioneiros com dados como nome, nacionalidade, data de nascimento, data de chegada ao campo e data de óbito. Nota-se que a maioria faleceu poucos meses após a chegada e pouquíssimos sobreviveram mais que um ano. Dentre todas as fotos que vi, uma me chamou muita atenção:

Ela sorri...
Ela sorri…

Em sua maioria, já com a cabeça raspada no momento da foto, os prisioneiros não posam. O rosto mostra cansaço e o resultado das péssimas condições de vida. Mas esta moça da foto, por algum motivo, sorri. Um sorriso tímido, mas ainda, um sorriso. Fiquei imaginando o porquê. Será que ela ainda tinha esperança? Será que acreditava que poderia haver um final melhor? Ou simplesmente resolveu sorrir apesar de todos os pesares? Infelizmente, ela faleceu pouco mais de um mês depois de ter chegado, aos 25 anos.

O que também me chamou a atenção foram as fotos de duas irmãs gêmeas lado a lado. Josef Megele realizava diversas experiências com irmãos gêmeos, como tentar criar siameses, por exemplo, e aqueles que sobreviviam eram mortos para estudos (sem nenhum valor científico, diga-se de passagem).

Teriam sido vítimas do Anjo da Morte?
Teriam sido vítimas do Anjo da Morte?

As condições nos campos eram muito precárias. Os primeiros prédios foram construídos pelos próprios prisioneiros com tijolos retirados da casas dos vilarejos próximos ao campo depois que os alemães expulsaram os moradores da região. Em seguida, começaram a usar madeira usada em estábulos e em cada prédio até 700 prisioneiros tinham que dormir juntos, sendo que entre 4 e 5 dividiam cada parte de uma “triliche”.

"Triliches"
“Triliches”

A guia relatou diversas formas de tortura e punição aplicadas aos prisioneiros. Duas me impressionaram bastante. Na primeira, o prisioneiro tinha os braços amarrados nas costas e era pendurado pelas mãos a uma altura que não poderia tocar o chão. Sobrevivendo à tortura, quase sempre se tornava inútil para o trabalho devido aos danos físicos causados e, invariavelmente, era encaminhado para a câmara de gás. Na segunda, até quatro prisioneiros eram colocados numa pequena sala onde mal poderiam de movimentar e havia apenas um pequeno buraco na parede; passavam a noite assim e no dia seguinte eram obrigados a trabalhar. Alguns morriam sufocados.

Utilizado na primeira tortura descrita
Utilizado na primeira tortura descrita

Para encerrar a visita a Auschwitz e antes de partir para Birkenau, entramos numa das câmaras de gás e no crematório. Indescritível.

Abertura por onde o gás entrava
Abertura por onde o gás entrava
Crematório
Crematório

E ao lado deles ficava a casa onde o comandante do campo vivia tranquilamente com sua família.

[continua]

Auschwitz-Birkenau I

Sempre me interessei por esta parte (infeliz) da história. Lembro que quando era adolescente, a revista Superinteressante de tempos em tempos publicava alguma matéria sobre o Holocausto e eu devorava as páginas. Foi assim que conheci a história de Joseph Mengele, por exemplo, conhecido como o Anjo da Morte. Acho que minha incapacidade de compreender como tais atrocidades puderam acontecer e como ideias insanas conseguiram convencer uma nação inteira de que era normal matar porque (mas não só) era diferente me fizeram tão curiosa sobre o tema.

Planejando a viagem pela Polônia, não tinha como deixar de lado uma visita aos campos de concentração de Auschwitz e Birkenau. Uma coisa é certa: ninguém sai indiferente de um lugar desses.

O nome da cidade é Oświęcim, mas virou Auschwitz em alemão. Apesar de ser possível chegar até lá de trem, decidimos pagar um tour pela comodidade. Uma van nos pegou no hostel e durante a 1h de viagem, assistimos um documentário sobre os principais fatos dos campos de concentração. No tour já estava incluso a visita com guia, o que torna tudo ainda mais real, por assim dizer.

O portão de entrada com os dizeres “Arbeit macht frei” (ironicamente, “O trabalho liberta”) ainda está lá. Não é o original, já que este foi roubado.

"O trabalho liberta"
“O trabalho liberta”

A parte externa de todos os prédios ainda é original, mas o interior da maioria foi restaurado e transformado em museu. Os poucos prédios que preservam o interior original nos mostram a realidade que milhares de inocentes foram obrigados a suportar.

Na foto abaixo está o prédio onde, em frente, a banda tocava. Sim, pois para coordenar a marcha dos prisioneiros que voltavam para o campo depois de um dia de trabalho pesado utilizavam música. E eles deveriam marchar no ritmo. Isto também facilitava o trabalho de contá-los.

Música
Música

O que impressiona é a forma como estas pessoas eram levadas até os campos. Muitos foram enganados com promessas de uma “nova vida”: os alemães vendiam terras e comércios que nunca existiram e alguns até tinham que pagar sua passagem para chegar a Auschwitz. O trem que levava os “passageiros” era utilizado para transporte de gado e a viagem que poderia durar dias era exaustiva, sem água ou comida e condições mínimas de higiene: o banheiro era um balde. Alguns não sobreviviam nem à viagem.

Judeus húngaros desembarcando em Birkenau - notem que a maioria está carregando malas
Judeus húngaros desembarcando em Birkenau – notem que a maioria está carregando malas

Ao chegarem ao campo, homens eram separados de mulheres e crianças. Em seguida, passavam por um médico que determinava quem estava apto ou não para o trabalho apenas analisando a aparência. Aqueles que poderiam trabalhar eram direcionados para o campo de concentração e os demais (incluindo todos os idosos, mulheres grávidas e crianças) iam para as câmaras de gás. Para não gerar pânico, diziam aos condenados à morte que estavam indo para o banho. Alguns trens nem passavam por seleção e todos eram encaminhados diretamente para a morte.

Mulheres e crianças indo para a câmara de gás. Notem sua tranquilidade por pensar que estavam indo apenas para um banho
Mulheres e crianças indo para a câmara de gás. Notem sua tranquilidade por pensar que estavam indo apenas para um banho.

Os alemães criaram uma indústria do extermínio e no auge do campo, era possível matar e incinerar até 2 mil pessoas por dia. A câmara ficava no subsolo: as pessoas desciam e deveriam se despir no vestiário e, em seguida, entravam para o “banho”. Portas trancadas, por buracos no teto jogavam o gás venenoso, Zyklon B.

Latas originais de Zyclon B
Latas originais de Zyklon B

A parte mais forte da visita, sem dúvida, são as salas onde estão os pertences das vítimas achados no campo depois da libertação. Emociona e choca. Milhares de pertences pessoais como óculos, sapatos e pentes de pessoas que acreditavam que estavam recomeçando.

Cada sapato uma história... interrompida.
Cada sapato uma história… interrompida.

Ainda mais tocante é ver as pilhas de panelas, latas de cosméticos e graxas trazidos pelos passageiros. Neste instante que se percebe como todos queriam acreditar na grande mentira do recomeço, como precisavam ter fé que tudo era verdade. Quem não crê nisso não traz consigo itens de cozinha. Quem embarca para a morte não leva coméstico para manter o corpo bonito ou graxa para polir o sapato.

Panelas e outros itens de cozinha para "começar tudo de novo".
Panelas e outros itens de cozinha para “começar tudo de novo”.

E as malas. Malas com nome, sobrenome e cidade natal. Malas que foram identificadas para serem facilmente encontradas quando chegassem ao destino. Malas que nunca mais voltaram para as mãos de seus donos. Malas que foram roubadas pelos alemães, reviradas e delas separado tudo que pudesse ter algum valor.

...

Crianças também embarcavam rumo a Auschwitz e seus maiores pertences não voltavam para suas mãos.

De partir o coração.
De partir o coração.

[continua]