Um ano

Eu sinceramente esperava escrever o post de um ano falando sobre a Irlanda. Eu saí do Brasil sem saber quanto tempo iria ficar por lá. Seis meses? Bem, se tudo estiver dando certo, posso ficar um ano. E por que não dois? Fui para a terra dos leprechauns sem ter uma data para voltar. Faculdade terminada, emprego não era problema (alguém conhece algum professor de inglês que tenha ficado desatualizado porque morou fora muito tempo?) e nenhum forte vínculo com o Brasil. Sim, sou desapegada.

Aos seis meses eu ainda não sabia o que fazer. Aos oito ainda não havia me decidido. Tudo que me recordo é que um dia eu acordei virada:

“Que droga de frio! Não aguento mais tempo ruim!”
“Sol! Cadê o Sol? Não aguento mais ver o Sol 3 ou 4 vezes por mês! Nem marca de relógio no braço eu tenho mais.”
“Droga de colchão de mola! Não dormi num colchão decente desde que cheguei nessa cidade.”
“Roubaram meu laptop! Nunca arrombaram minha casa no Brasil!”
“Que vida! Só compro as marcas do mercado!”
“Ficar mais um ano sendo babá? Amo os loirinhos, mas no Brasil sou formada e tenho profissão.”
“Dividir casa com gente de todo canto é um estresse do caramba! Já deu!”
“Sotaque feio, hein?”

E tais pensamentos aleatórios me tomaram e não via mais sentido em morar em Dublin. Minha vida era no Brasil e ficar mais um ano parecia sandice! Não me arrependi nenhum dia de ter remarcado minhas passagens, muito pelo contrário, contava os dias pra voltar pro Brasil. Não me arrependo nem um ano depois. Mas e se tivesse ficado?

E hoje faço um ano de Brasil… sinto saudades de Dublin e da vida que levava por lá (irônico, não?) e me pergunto como seria se eu tivesse decidido ficar mais um ano. Ou o que teria me influenciado a ficar. Será que se o tempo não fosse tão frio, nublado e chato eu teria ficado mais? Será que se tivesse me deixado levar pela minha imensa vontade de viajar, teria ficado? Tinha emprego, uma vidinha nos eixos. Será?

Mas nada disso importa agora- os “ses” da vida não mudam nada. E hoje faço um ano de retorno ao Brasil…. e a ideia é que essa data não se repita muitas vezes ainda. 🙂

Hoje, 3 de julho, um ano depois de me despedir de Dublin, embarco em outra viagem! 🙂

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Voltou por que?

Por que a Irlanda atrai muitos brasileiros? Essa é fácil de responder: facilidade de visto, preço razoável e, claro, a possibilidade de poder morar no país por até 3 anos com o visto de estudante. Ao decidir renovar o visto por outro ano, tudo que o intercambista precisa fazer é se matricular novamente num curso de inglês de 26 semanas, comprovar 80% de frequência no curso anterior e pagar a taxa de emissão do GNIB na imigração. Tudo muito simples.

Eu já estava bem acomodada na Irlanda e tinha emprego que pagava o suficiente para eu pagar todas as minhas contas, fazer umas comprinhas de vez em quando e guardar para viajar. Por que, então, eu não renovei, oras?

Confesso que durante meses eu não sabia bem se ficaria um ano ou renovaria. Não tinha fortes motivos para voltar, mas também não tinha para ficar. Numa semana daquelas, eu decidi que iria mesmo voltar e comecei a contar os dia para ir embora. Um bom motivo que todos que acompanham o blog sabem bem foi o frio. Não sei se teria condições psicológicas de passar outro inverno na terra dos leprechauns. Sim, psicológicas. Eu detesto passar frio (e se você nunca saiu do Brasil, não me diga que gosta do frio porque, NÃO, você nunca passou frio de verdade). Há um mês, mais ou menos, fez muito frio para o padrão paulistano, as temperaturas chegaram a 6 graus e todos reclamavam e saíam de casa encapotados- eu senti frio, mas ainda assim, achei muito suportável e tranquilo. E fez frio por uns 5 dias. E saiu sol. Na Irlanda, no inverno, 5 graus é temperatura máxima, venta demais e por dias e dias, ao olhar para o céu, só se vê nuvens cinzas, nada de sol. Amanhece quase às 8h e no auge, em dezembro, às 16h30 já está escuro. É frio de meados de setembro à meados de abril. Eu não tinha condições psicológicas de lidar com isto novamente- bate uma deprê, a vontade de sair casa é quase inexistente e parece que o dia não rende.

E Morrissey, para variar, fala por mim- até sobre a deprê de um inverno melancólico.
“Everyday is like Sunday
Everyday is silent and grey”

A essa altura ou você está me achando exageradamente dramática ou chata. Até que você tem razão, mas não foi fácil – pra mim- passar muito frio por tantos meses.

Supondo que na Irlanda só fizesse muito frio de dezembro a fevereiro, como em Denver, CO, onde morei por um ano e moraria fácil o resto da vida, caso fosse uma opção, eu teria renovado? Não!

Há momentos da vida que a gente vai seguindo o fluxo e vivendo com o que vai aparecendo e há aqueles momentos em que estabelecemos objetivos, metas, prazos… whatever! No início do intercâmbio estava vivendo o hoje todo dia, mas quando tive o click de voltar comecei a pensar em prioridades, motivos e objetivos e foi quando notei que Irlanda, sua fria, não dava mais mesmo.

Muita gente decide que vai ficar mais um ano porque ainda precisa melhorar fluência no idioma. Oras, eu já era professora antes mesmo de ir para lá, ou seja, este não era um motivo. Além disso, eu pouco falava inglês lá já que convivia com muitos brasileiros. O interessante, por assim dizer, é que a maioria dos que decidem ficar para melhorar o inglês, não focam nos estudos por conta do trabalho (mas esta “polêmica” fica para outro post).

No Brasil eu tenho diploma de ensino superior e profissão reconhecidas. Na Irlanda eu era uma estrangeira que falava inglês muito bem e só. Meu diploma não tinha validade nenhuma e quais as chances de alguém dar emprego de professor de inglês para uma estrangeira? Eu precisaria, no mínimo, ter conseguido o CPE e fazer o CELTA para  tentar. E dar aula de português, well, quantas pessoas por aí têm interesse no idioma? Não daria para me manter assim por muito tempo. Ficar outro ano na Irlanda, então, significaria outro ano num subemprego. Calma aí, não estou criticando quem tem um subemprego, afinal, eu fui babá por quase todo o tempo em que morei lá e adorava a família M. e os loirinhos que eu cuidava, mas isso é bom por um tempo. É aquela história de o fim justificar os meios: eu queria morar fora um ano e viajar, eu não nasci nem em berço de prata o que dirá de ouro e precisava me manter lá- subemprego, vem ni mim! A questão era: valeria a pena ficar outro ano cuidando de crianças (lindas) em troca de algumas semanas de viagens pela Europa (que seria minha única meta)? Já dizia um bom amigo meu: você ganha um ano de Irlanda, mas também perde um ano de Brasil. E eu iria perder outro ano de trabalho (oi, aposentadoria), a Licenciatura e enfim, adiar quaisquer planos que tinha na volta. Claro que morar um ano fora não é perder no Brasil, pois profissionalmente falando, é sempre positivo uma experiência no exterior. Só que UM ano basta.

E eu comecei a sentir falta da vida no Brasil, com todos os seus problemas, mas senti. Sou movida a objetivos, vivo o presente pensando como vou alcançar algum objetivo daqui um ou dois anos. Antes de ir para a Irlanda, este era meu objetivo: eu aguentava trabalhar em n lugares diferentes, ir para faculdade duas vezes por semana e fazer estágio porque sabia que largaria tudo em algum momento para viajar. Na Irlanda eu vivia o hoje, mas com o objetivo de viajar sempre que possível e tirar certificados de proficiência, mas no segundo ano eu ficaria com aquela sensação de não estar fazendo nada de útil lá, entende? Abrir mão de outro ano no Brasil a troco de algumas semanas viajando não me pareceu mais tão vantajoso. Afinal, posso continuar minha vida por aqui e ainda assim, viajar algumas semanas por ano (inclusive, para Europa).

Eu não tinha bons motivos para ficar num país frio com um subemprego, sem estudar algo realmente relevante para minha vida. E eu voltei. 🙂

I quit!

Pois é, isso mesmo, pedi demissão!

Eu estava com meu trabalho de meio-período de babá. As meninas, de fato, eram muito tranquilas e comportadas. Obviamente, todos temos nossos dias e uma vez ou outra eu pegava uma delas de mau humor. Nada mais normal. Meu trabalho era muito tranquilo, nunca perdi a paciência com elas nem dei bronca. A família me pagava por hora e um preço justo, principalmente se levar em consideração como au pair é mal paga aqui.

Meio-período, meninas comportadas, pagamento relativamente justo… por que pediste demissão, criatura? Explico.

Trabalhava pouco e, consequentemente, ganhava pouco. Mas isso eu sabia desde o começo e quando você não tem fonte de renda nenhuma, tirar uns trocados por semana é lucro. Só que depois de um tempo, você percebe que pode (e precisa) ganhar mais e começa a pensar. Bem, além de eu ganhar pouco, eu estava gastando cerca de 17% do que  recebia pagando o trem para ir trabalhar. Então, num belo dia da semana passada, as tarifas de transporte público foram reajustadas, mas meu pagamento continuou o mesmo, e além disso, nas últimas semanas eu estava trabalhando menos ainda (porque me deram uns dias de folga e coisas assim), e portanto, recebendo menos. Juntei tudo isso e conclui que era hora de procurar outra coisa. Conversei com a família, que entendeu minha decisão e, agora sou a mais nova desempregada de Dublin.

But nor for a long time...
But not for a long time…

É claro que se eu pedi demissão sem ter outro emprego, é porque tenho condições financeiras de me manter aqui.

Agora vou aproveitar meu tempinho ocioso para fazer o que não estava tendo tempo: ficar jogada em casa assistindo seriados! Aproveitar e conhecer melhor a cidade de Dublin! 🙂