You won’t be ready to kiss… goodbye

Eu trabalho para a família M. desde janeiro. Já falei deles aqui e de como eles são pessoas muito bacanas. A B., mãe das crianças, é professora e as férias aqui vão de fim de junho a fim de agosto e quando ela está de férias não precisa de ninguém para ficar com os meninos, ou seja, hoje foi meu último dia com eles.

Trabalhar com criança é um negócio que não tem meio-termo: ou você ama ou você detesta. Criança dá trabalho, tem dia que é estressante, mas a gente acaba se apegando aos pequenos e eu, claro, me apeguei aos loirinhos.

Até aí nenhuma novidade, não é difícil se apegar a duas coisinhas loiras fofas e elétricas. Só que os pais, B, e K., sempre foram muito atenciosos e legais demais. Eles sempre me perguntavam se eu precisava de algo, se eu queria que eles comprassem algo para eu comer lá e coisas assim. Além disso, me deram um passeio de barco pelo Rio Liffey; quando perdi meu passaporte e comentei com eles, me deram quase metade do valor da taxa de emissão para me ajudar a pagar (e eles não tinham absolutamente nada a ver com isso); quando arrombaram a casa e levaram meu laptop, se ofereceram para ir me buscar para eu passar a noite na casa deles (o que não aceitei), além de me emprestarem o iPad e me deixarem usar o laptop deles na casa; já foram me buscar no ponto de ônibus de manhã em dia de chuva mais forte e enfim, são pessoas lindas.

Isso tudo é muito bom, o ruim é na hora de dizer tchau pela última vez. Resolvi agradar os meninos e ontem à noite, pela primeira vez na vida, fiz brigadeiro e modéstia à parte, ficou muito bom. Eles, obviamente, adoraram o “brigadeirrrou” e fiquei feliz por deixar a vida de dois irlandesinhos um pouco mais doce num dia chuvoso. O O. só tem 2 anos e não faz ideia do que está acontecendo, mas o F. já tem 3,5 anos e achei que devia dar uma explicação para ele. Peguei o globo terrestre, mostrei a Irlanda e o Brasil para ele e disse que eu estava voltando para casa num grande avião. Ele não entendeu muito bem. Depois, disse para ele que eu iria para o Brasil e não voltaria mais. Ele me olhou intrigado e perguntou por que, desconversei um pouco e ele disse que iria me visitar no Brasil, só que ele ia ter que voltar para casa depois para ficar com mummy e daddy. Resumindo, ele não sacou que eu não vou voltar mais lá. Finalmente, a B. chegou em casa com uma sacolinha. Dentro tinha uma St Brigid’s Cross de prata.

St. Brigid's Cross
St. Brigid’s Cross

Ela me disse que é um símbolo da Irlanda e do cristianismo e eu já havia visto uma dessas na casa deles. Também disse que estava me dando para eu ter algo para lembrar sempre do tempo que vivi na Irlanda. Depois li no livrinho que veio com ela, que ela representa esperança e novos começos. 😉

Até este momento estava tudo sob controle. Aí ela me dá um cartão homemade com uma foto minha junto com ela e dos loirinhos e dentro, o contorno das mãozinhas dos dois e um desenho de cada um que, teoricamente, sou eu. Eu nem li o que estava escrito e lágrimas rolaram (não muitas, tá?). A B. me agradeceu, disse que os meninos gostavam demais de mim, que eles serão eternamente gratos por eu ter cuidado tão bem deles, que sentiriam minha falta e que eles viam que eu realmente tinha jeito com crianças. Pediu para mantermos contato e trocarmos fotos. Ai, fiquei triste. 😦

Voltei para casa refletindo sobre tudo. Peguei o cartão e li a mensagem:

“We will be forever grateful for the great care you gave to F. and O. You are so kind and gentle and they love you so much. We wish you a bright and happy future wherever it lies!”
Lots of love,”

Quando termino de ler, no iPod está tocando a música The Game do Echo and the bunnymen, justamente no trecho que dá título a este post: “You won’t be ready to kiss… goodbye”. Talvez uma outra lágrima tenha rolado.

Ehhh… vou sentir saudades imensas desses loirinhos ligados no 220.

A au pair Isaura

O programa de Au Pair não existe na Irlanda, não como na Terra do Tio Sam nos EUA. Na Obamaland, tudo é regulamentado pelo governo e, normalmente, nenhuma au pair é explorada ou mal paga. As regras são muito claras e as agências autorizadas cadastram as famílias e as meninas interessadas no mundo todo.

Tanto famílias como au pairs pagam para a agência. Nos Estados Unidos, elas são responsáveis por visitar a casa e checar que a família têm condições de receber uma au pair, orientam como funciona o programa, checam referências da família e oferecem 3 dias de treinamento para a au pair que eles contratarão. Do outro lado, a au pair recebe orientações sobre o programa e visto, faz teste de inglês e psicológico e prepara um dossiê com referências e sua experiência com crianças. A agência também é responsável por reservar as passagens aéreas (na ida, pagas pela família e na volta, parte pela au pair e parte pela agência) e dá assistência durante todo período em que a menina morar nos EUA com o visto de intercambista. Por que estou falando tanto de au pair por lá? Daqui a pouco vocês vão entender…

Vem ser au pair, vem?
Vem ser au pair, vem?

Já a Irlanda é uma terra sem rei, digo, sem regulamentação. Tanto é assim que recentemente o The Journal publicou uma matéria sobre a exploração deste tipo de mão de obra e o apelo do Centro dos Direitos do Imigrante na Irlanda para regulamentar a profissão, aliás, o programa de au pair. Há uma grande diferença entre au pair e babá. A primeira mora na casa e via de regra, é uma estrangeira que estuda no país e deseja morar com uma família pela troca cultural, melhora no idioma e economia enquanto a segunda é uma trabalhadora “normal” que vai e volta para sua casa todos os dias.

Mas o que vemos por aqui são famílias que exploram meninas e por outro lado, meninas que não se informam e ou se acham mais do que realmente são ou se deixam ser exploradas. Sem contar brasileiras que exploram outras brasileiras nesta história toda.

As famílias normalmente oferecem 100 euros semanais se a menina morar na casa, podendo chegar até 150 em alguns casos. É justo? Vamos comparar com os EUA, onde é tudo regulamentado. O salário mínimo americano é US$ 7,25/h (varia por estado, mas este é o mínimo nacional) e a au pair pode trabalhar até 45h/semana, ou seja, US$326,25 semanais. Porém, como considera-se que a família tem gastos extras por ter uma pessoa morando em sua casa, deste valor desconta-se 40% (alimentação, moradia, internet, luz, água etc), sendo que a au pair recebe US$ 195,75 atualmente. O salário mínimo irlandês é € 8,65/h e a au pair trabalha, em média, 40h semanais. Ou seja, € 346,00 – 40%= € 207,06. E aí, é justo? Claro que não posso aplicar as regras americanas na Irlanda, mas serve como base.

Eu não entendo muito bem como funcionam os descontos do salário de um trabalhador registrado na Irlanda, mas sei que pelo menos 20% é descontado do rendimento líquido de cada um. A childminder que trabalhe 40h semanais sem direito a fazer refeições na casa (porque ninguém come de graça numa empresa, come?), deveria receber € 276,80 (346,00-20%= 276,80) por semana ou pouco menos que isso se fizer as refeições (diria algo em torno de € 250,00).

Money no bolso é tudo que eu quero...
Money no bolso é tudo que eu quero…

A essa altura você deve achar que estou viajando na maionese, né? Não, estou apenas contando como seria o mundo ideal, que não existe. Aí você me diz que a childminder não tem registro e, portanto, não tem desconto de imposto e deveria receber integralmente. E eu respondo que se você aceita trabalhar sem registro não tem mais o amparo da lei assim como a au pair, que mora com a família, não tem como exigir seu pagamento justo porque não há leis para isto.

Neste impasse, as famílias se aproveitam (porque nenhuma delas é tão inocente para não saber que é ilegal pagar menos que o mínimo) e as meninas que precisam trabalhar para se sustentar são exploradas. Não bastasse isso, aqui na Irlanda existe a tal da “experiência”, um dia que a menina é convidada a trabalhar para a mãe ver se ela corresponde às suas expectativas. Ah, não é anormal este dia não ser pago. Neste post do blog Juntos Por Aí, a Camille conta sua experiência com este tipo de família.

Como se tudo isso ainda não fosse suficiente, existe uma “consultoria de au pair” por aqui. A primeira pergunta é como pode haver consultoria para um programa que, legalmente, não existe? Eu não tive experiência com nenhuma das consultorias (que eu saiba, atualmente, existem 3, todas prestadas por brasileiras) porque sempre soube que eu não precisava pagar por um (de)serviço que eu poderia fazer sozinha, mas muitas conhecidas (por desespero ou por estarem acomodadas) recorreram a elas e me contaram como foi. A Camille, no blog, também contou sua (péssima) experiência!

E como funciona? Você preenche um cadastro com seus dados e as “consultoras” passam a enviar sms com toda e qualquer vaga que apareça. Se você se interessar por alguma, responde e marca a entrevista e o resto é por sua conta. Não há orientação para nada e menos ainda assistência depois que a “cliente” conseguiu uma vaga. Não posso afirmar com certeza, mas imagino que as famílias não são devidamente orientadas e muito menos entrevistadas antes de receberem uma au pair. E o valor desta consultoria (?) fica em torno de 100 a 200 euros, em média, dependendo do pagamento que a família oferecer, o que, na minha opinião, já descaracteriza completamente um serviço de consultoria, pois creio que o valor cobrado seja referente ao tipo de serviço prestado e não ao pagamento que a menina vai receber. Mas a questão é: que serviço prestado? No começo deste post expliquei como uma agência trabalha para au pairs e famílias e creio que tenha ficado claro que, de fato, prestam um serviço e cobram por ele (algo em torno de US$ 300,00 para a au pair), porém, por que as tais consultoras chegam a cobrar até 200 euros por apenas te encaminharem para uma entrevista (elas não procuraram a melhor opção para você, acredite, te enviam para a primeira que surgiu)? Eu posso procurar contatos de famílias de graça na internet e tenho as mesmas vantagens que a consultoria me oferece: nenhuma, se algo der é errado, é problema meu como vou resolver! É como sempre digo, só há espertos no mundo porque existem trouxas (com perdão da expressão)!

Como não há regras, o jeito é saber jogar o jogo. Não, não ganho o mínimo por hora como childminder (e nem 98% das brasileiras que cuidam de crianças full time) e faço todas as minhas refeições na casa com exceção do jantar, porém não me sinto explorada. Na última semana, por exemplo, a família me deu dois dias de folga e mesmo assim me deram o pagamento completo da semana. O ideal seria mesmo que eles me pagassem por hora, mas acreditem que mesmo não pagando, eu ainda recebo um salário alto se comparar com outras meninas por aí. C’est la vie.

 

Você quer ser au pair?

Conforme prometi há um tempinho, eis o post com dicas de como procurar uma vaga de au pair ou childminder aqui em terras irlandesas. Diferente de outros trabalhos que o que funciona é imprimir currículo e sair entregando, para ser babá o que se precisa é de paciência e jogo de cintura na internet para separar o joio do trigo e partir para as entrevistas.

Gumtree

Já falei várias vezes do Gumtree. Ele pode parecer um pouco confuso no começo, pois é um site para anunciar de tudo, mas com um pouco de paciência dá para fazer um anúncio bacana e procurar vagas. Na página inicial, basta ir em Jobs e escolher a opção nanny/babysitting. É importante selecionar o local que você está no lado esquerdo da tela (no caso de Dublin, Leinster>Dublin). Leia com atenção as vagas anunciadas para não perder seu tempo com famílias que não estão de acordo com seu perfil. Eu sempre respondia à anúncios que davam muitos detalhes (quantidade de crianças, horários de trabalho e local) e via no Google Maps se a casa da família ficava muito longe do centro.

Para criar um anúncio, é preciso se cadastrar no site primeiro e depois fazer o mesmo caminho para procurar vagas. Este era meu anúncio:

Hi there!
I have lots of experience taking care of kids. I worked as an au pair in the US for one year and I was a kindergarden teacher in Brazil before coming to Ireland.
I’m looking for a live-out position in Dublin. I’m available to work full time and to start immediately. I speak English fluently.
References are provided upon request.

O anúncio é curtinho porque o limite de palavras é muito pequeno. Acho importante também incluir foto com crianças, pois assim você chama mais a atenção das famílias. Foi no Gumtree que consegui meu primeiro emprego.

Au Pair World

No Au Pair World meninas do mundo inteiro procuram famílias do mundo todo! É um site muito simples e o melhor de tudo é que é gratuito! Há uma opção paga, mas acho besteira. Usando como usuário gratuito é possível pesquisar famílias, visualizar seu perfil e ainda enviar mensagens. A dica é caprichar na sua apresentação com muita informação sobre você e o que você espera, colocar fotos e não ter preguiça de ler o perfil das famílias antes de enviar mensagem. Não perca seu tempo com famílias que não correspondem às suas expectativas!

Esta era minha apresentação no site:

Dear Family,
My name is Beatriz, I’m 25 years old and I’m from Brazil.
I have plenty of experience teaching and minding children and I genuinely love to be with them. If you are looking for a reliable, hard working and lovely au pair/ minder I think we are a perfect match!

I have lived in the USA for one year as an au pair. I used to take care of two lovely children. A. was 4 years old at the time and S. was 8 months old. We had a great time together and I miss them very much.

Back to Brazil, I started working in Language schools teaching young children. I worked at XXXX for 6 months, teaching English to children around 6-9 years old. Then, I started working at XXXX, teaching kids from 4 to 11 years old. Our classes included songs, games, stories,art activities and cooking!

I love children and have plenty of experience with them. I have just good memories from all my jobs and I would like to keep on doing the same kind of job here in Ireland.
I’m looking for a full time/ live-out position, if it is possible, in Dublin area.

Facebook

Que ninguém mais vive sem Facebook em 2013 é meio óbvio, mas que você também pode usá-lo para procurar emprego nem tanto. Este grupo aqui é voltado para quem tem interesse em trabalhar neste área em Dublin. Basicamente, as meninas que estão deixando a família anunciam sua vaga, as interessadas mandam currículo e a atual au pair encaminha para a família. Consegui duas entrevistas assim, sendo a primeira aquela da mãe que me ligou oferecendo a vaga mais de um mês depois da entrevista quando eu já havia arranjado emprego. ¬¬

Great Au Pair

Há uns 5 anos, o Great Au Pair era o que estava bombando, mas hoje em dia é quase inútil ter uma conta gratuita no site. Dá para ver o perfil da família, mas não dá para enviar mensagem. A única coisa que dá para fazer é favoritar uma família, que receberá um aviso. Se acessarem seu perfil e te acharem interessante, podem enviar uma mensagem e assim vocês conseguem se comunicar, mas SÓ assim. Foi lá que consegui a entrevista da família com 4 crianças, lembram?

Há muitos e muitos sites por aí e não tem como eu explicar cada um deles. Também fiz cadastro no Kangaroo Au Pair e Roller Coaster, por exemplo, mas no primeiro não obtive muitos resultados e no segundo consegui uma entrevista.

Pagamento

Pouquíssimas famílias informam o salário antes da entrevista e meu conselho é: se a família te pareceu interessante, nem pergunte! Ninguém é inocente e é óbvio que você quer trabalhar como babá porque quer/precisa de dinheiro, mas fazer parecer que esta é sua única motivação não pega bem. Eu não perguntei para nenhuma família quanto seria o pagamento até ir fazer a entrevista. Sei que é perda de tempo ser entrevistada por uma família que ofereça um salário pouco interessante, mas se coloque no lugar da mãe. Você pode fazer mil perguntas sobre as crianças e sua rotina e escolhe perguntar de cara o pagamento? Não dá.

As família sabem que dinheiro não nasce em árvore, mas não precisa deixar isto óbvio!
As famílias sabem que dinheiro não nasce em árvore, mas não precisa deixar isto óbvio!

Acho que o importante é caprichar na sua carta de apresentação, pois é o que vai fazer a família te selecionar para uma entrevista ou não. Não mandei mensagem para a família para qual trabalho hoje, e sim eles que viram meu perfil e entraram em contato. Fotos são sempre muito bem-vindas, principalmente com crianças. Eu sei que muitas meninas não têm experiência nenhuma, mas não acho legal inventar mil mentiras para fazer um currículo legal. Todo mundo já cuidou de alguma criança na vida, nem que tenha sido por horas, então, fale disso. Mais importante ainda é não tentar cuidar de crianças se você não curte realmente os pequenos! Criança dá trabalho e tem que saber lidar, entrar nessa só para ganhar uns trocados é furada para você e a família que te contratar.

Eu sempre gostei de crianças, especialmente as pequenininhas e por isso fui ser au pair nos EUA. Mas antes de ir, eu não tinha certeza se realmente gostava de passar tanto tempo com elas. Então, aos 19 anos (uma criança também) usei minhas férias do trabalho para fazer trabalho voluntário numa creche na periferia da cidade e eu amei estar rodeada de criancinhas pequenas o dia todo! Com esta certeza dentro de mim, encarei cuidar de um bebê fofo (que hoje é um lindo menininho de 5 anos) e uma serelepe menina de 4 (hoje uma mocinha de quase 9 anos) e tive um ano ótimo nos EUA. Eu cuidava daquelas crianças com amor, não apenas com o sentimento de obrigação e me partiu o coração o dia que tive que dizer adeus sem saber quando (e se) as veria novamente (e apesar de ter tirado meu visto americano para visitá-las, ainda não tive a chance de ir). Quando voltei ao Brasil, o destino me colocou para dar aulas de inglês para crianças. Não vou dizer que dar aula para criança é um paraíso todo dia, que é só alegria. Não, não é. Tinha dia que saía da escola com a cabeça explodindo! Mas quando paro e lembro, eu sempre sinto saudade das minhas aulas, contando historinhas em inglês, fazendo brincadeiras, cantando, pintando e tendo aquela satisfação enorme ao ver uma criança de 5 anos cantando uma música inteira em inglês porque EU ensinei! Saudades de ser a Teacher Bia de vez em quando. 😉

:)
🙂

A família irlandesa é maravilhosa! Depois de 4 semanas com eles, eu não consigo achar nada para reclamar e a minha vontade é apenas de dar o meu melhor enquanto estou cuidando do F. e do O., dois meninos lindos! Tenho certeza de que sentirei falta destes dois anjinhos quando voltar para o Brasil. 🙂

Resumindo, faça uma apresentação caprichada, pesquise bem as famílias antes de topar uma entrevista, não minta ou minta o menos possível e não queira ser babá apenas por dinheiro. Lembre-se que cuidar dos filhos dos outros é sempre uma responsabilidade muito grande!

Desencontros, emprego e crianças

Há algum tempo eu falei da minha saga de procurar outro emprego. Aqui você pode ler por que pedi demissão e aqui e aqui como foi fazer entrevista com famílias irlandesas (e uma búlgara).

No total, fiz 6 entrevistas e como ficou óbvio no post que as descrevi, eu fui contratada pela última família. Eles foram uns fofos comigo no dia que os conheci e têm sido até hoje. 🙂

Fiz a entrevista na sexta-feira antes do Natal e no mesmo dia, quando cheguei em casa, mandei um email para eles com minhas referências (a família americana e a escola de inglês para crianças onde trabalhava). Minha surpresa é que eles conseguiram ligar para os dois no mesmo dia! No dia seguinte, a mãe me ligou.

“Hi, Biiitrrriz! How do you pronounce your name in Portuguese?”
“BE-A-TRIZ, but don’t worry about that.”

Fiquei sabendo que ela me perguntou isso porque foi difícil para a coordenadora da escola entender de quem ela estava falando e imagino que para a família americana também, porque eles me chamavam de Bia.

Enfim, ela me ligou para dizer que havia conseguido contatar minhas referências e havia ficado muito feliz com o que havia ouvido. Disse que gostaram muito de mim e perguntaram se as minhas expectativas estavam de acordo com a vaga oferecida. Sim, estavam. Mas havia um probleminha. Eu já havia avisado para ela que eu estava com viagem marcada e não poderia começar em 07/01, como ela gostaria, mas só no dia 21. Ela disse que como eu era a pessoa certa, que daria um jeito. Depois do Ano Novo, ela me ligou para saber como eu estava e dizer que o marido iria pegar 2 semanas de férias do trabalho para ficar com os meninos enquanto eu viajava. O que falar de uma família dessas? 🙂

A família

B., a mãe, é professora primária de uma tradicional escola irlandesa. A escola é bilíngue, o que quer dizer que as aulas são em irlandês- ela fala irlandês fluentemente. K., o pai, trabalha no centro, mas não sei dizer o que ele faz exatamente. O menino mais velho, F., tem 3 anos. F. é tranquilo e já fala muito! Ele ainda não consegue fazer os sons do ‘r’, então é muito fofo quando ele pede para eu ler uma “sto-ee” (story) para ele ou quando  diz que está brincando de “pi-ates” (pirates). O mais novo tem 1 ano e 8 meses e é a coisa mais linda. O. ainda não fala, mas não para de fazer sons, fazendo caras e bocas como se estivesse conversando! Ele fala uma palavrinha ou outra, mas consegue me dizer tudo que ele quer: se estou lavando a mão e ele me dá a chupeta, está pedindo para eu lavá-la. Se está com fome, pega minha mão e me leva para cadeirinha dele na cozinha e por aí vai. F. e O. são meninos lindos (sim, loirinhos de olhos claros, mas não por isso) e educados. Não fazem birra, não brigam e não são mimados. Obviamente, são meninos pequenos cheios de energia e que gostam de brincar, escalar tudo que conseguem, correr, explorar e enfim, serem crianças! 🙂

Os pais são pessoas maravilhosas! A mãe não trabalhou nos meus dois primeiros dias para poder me mostrar a rotina deles. O pai deixou todo passo-a-passo para ligar TV e DVD para eles (ah, gente, não me ligo nessas coisas). Eles sempre me perguntam se está tudo bem (com as crianças e comigo), se estou feliz em trabalhar para eles ou se eles podem fazer algo para melhorar meu dia com as crianças. Eu faço as refeições na casa e eles vivem perguntando se eu quero que eles comprem algo no mercado e que se eu lembrar de algo que queira comer durante a semana, é só mandar um sms para eles pedindo. Claro que eu fico sem graça de pedir qualquer coisa, mas eles têm tudo em casa e me alimento bem. O que foi bem engraçado é que no primeiro dia a mãe me perguntou o que eu costumava comer. Respondi na inocência, sem imaginar que ela estava perguntando para saber se ela tinha tudo em casa. Lembro que deixei claro que sempre comia arroz e variava o resto do cardápio. Não é que na semana seguinte achei mil tipos de arroz no armário?

A rotina

Trabalho das 7h30 às 15h30, o que significa que preciso acordar às 6h e essa é a parte ruim da história. Não dá para ficar com 2 crianças com sono, então preciso me policiar para ir para cama cedo, o que nem sempre é fácil, mesmo que eu esteja com sono.

Os meninos costumam acordar entre 8h e 8h30. Brinco com eles um pouco, preparo o café da manhã, brinco mais, preparo o lanchinho da manhã, troco os dois e saio de casa (parque, shopping, quintal, playground) para tomar um ar fresco (isso quando o tempo bipolar da Irlanda colabora). Voltamos, esquento o almoço que a mãe já deixa pronto na geladeira e depois coloco os dois para ver desenho enquanto eu almoço e arrumo a bagunça da cozinha. O engraçado é que F. gosta muito de Fireman Sam, um desenho sobre bombeiros, e todo dia eu coloco o mesmo DVD com os mesmos episódios e ele assiste como se nunca tivesse visto antes. Depois disso, o pequeno vai tirar uma soneca e eu faço alguma atividade com F. ,como pintura, brincar com massinha, montar quebra-cabeças ou qualquer coisa que não seja possível fazer enquanto O. está acordado. Dou o lanche da tarde para eles (ou só para o F. se o O. ainda estiver dormindo), a mãe chega e vou embora. 🙂

F. adora "bubbles"!
F. adora “bubbles”!

Já falei do emprego e das crianças, agora falta falar da primeira palavra do título deste post: desencontros.

A família deixou bem claro que iria esperar um mês para eu começar e que não tinham segunda opção, pois fui a única entrevistada. Logo, me pediram para dar minha palavra de que eu não desistiria e os deixaria na mão. Dei e cancelei todos os meus cadastros em sites de au pair e afins.

No primeiro dia útil do ano, depois da minha viagem a Londres, eu vejo várias chamadas não atendidas no meu celular. Como não sou nem um pouco curiosa e não estava esperando ligação de ninguém, nem dei bola e nem chequei a caixa postal, porque eu nem gosto de fazer isso (se for importante de verdade, a pessoa vai me ligar novamente – errada ou não, é assim que penso).

No final de semana seguinte, B. me ligou e não atendi. Como vi que ela deixou mensagem na caixa postal, resolvi pegar o recado. Mas antes, eu precisei ouvir todas as mensagens antigas que eu não havia checado ainda. E o tal número não atendido daquela semana era de quem? Da mãe da primeira entrevista, aquela que ficou de me dar a resposta e nunca mais me procurou. Ela estava perguntando se eu ainda estava interessada na vaga, pediu para retornar a ligação e me deixou morrendo de raiva. Primeiro porque se ela tivesse me retornado logo depois da entrevista (que foi feita antes mesmo de eu pedir demissão), eu não teria perdido tempo com as outras famílias; segundo, que eu já tinha me comprometido a trabalhar para a família de B. e não teria coragem de desistir depois de ter dado a minha palavra – a primeira família estava pagando mais do que a que me contratou.

Porém, me acalmei e pensei que nem tudo na vida se resume a dinheiro. A mãe desta primeira família também é professora primária e com certeza já precisaria que eu começasse no dia 07 (o que não iria rolar) e além disso, se eu tivesse fechado com eles ainda em dezembro, não teria viajado pela Europa em janeiro, o que teria sido uma pena, já que a viagem foi muito boa e adorei a Polônia! Mas que deu raiva, deu…

K., B., F. e O. são uma família maravilhosa e pessoas muito boas, então acho que tive sorte de ser “achada” por eles. Estou feliz e satisfeita com meu novo emprego, adorando os meninos (embora eu fique bem cansada) e creio que este será meu emprego até terminar meu intercâmbio aqui nesta terra de leprechauns! 😉

Mary Poppins II

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E eu continuei insistindo no meu plano A, a vida de Mary Poppins

Entrevista 4
Origem: Rollercoaster
Crianças: 2 meninas de 8 e 11 anos
Carga: 10,5h semanais
Pagamento: Por hora e ótimo
O bom desta vaga é que eu trabalharia de segunda a quarta à tarde com um pagamento justo e poderia procurar outro emprego que também pagasse por hora. Teria que usar o transporte público, mas não gastaria tanto quanto gastava indo para a casa da outra família. Fiz a entrevista e a mãe perguntou se eu poderia ir alguma tarde para fazer um “treinamento”. Topei e fiquei uma tarde lá vendo como seria a rotina. A mãe queria que eu dobrasse as roupas, arrumasse o quarto das meninas, passasse aspirador na casa, arrumasse a cozinha e preparasse o jantar para a família toda. Ah, também teria que ajudar as meninas com lição de casa. Ou seja, estava mais para cleaner do que para babá. Bem, ela me pagou por esta tarde que fiquei lá e disse que me mandaria um sms avisando se eu ficaria com a vaga ou não. Menos de um hora depois que fui embora, recebi o sms “Obrigada por ter vindo, mas não acho que somos um bom match“. Então tá. Nem gosto de aspirar casa mesmo.

Entrevista 5
Origem: Gumtree
Crianças: 1 bebê de 7 meses
Carga: cerca de 40h semanais
Pagamento: Por hora e muito bom
Posso dizer que esta foi a melhor vaga, pois era tempo integral e pagamento por hora, algo muito raro. Geralmente, quando as famílias querem alguém para trabalhar full time, pagam por semana e o valor é mais baixo do que se o pagamento fosse calculado por hora. A família era búlgara e os pais eram pessoas muito doces e simpáticas. Eu realmente queria ter ficado com esta vaga, tanto pelo pagamento (muito bom) quanto pela família. Ah, e porque eu adoro bebês. Infelizmente, a mãe me ligou dizendo que havia escolhido outra menina, mas que eu era a segunda opção e que se algo desse errado, ela me ligaria. Ok, mas a procura continua.

"Conte-nos sobre você."
“Conte-nos sobre você.”

Entrevista 6
Origem: Au Pair World
Crianças: 2 meninos de 3 e 1,5 anos
Carga: 40h semanais
Pagamento: Por semana e justo
Um dia estava olhando meus emails e recebi uma notificação de mensagem do Au Pair World. Uma família havia se interessado pelo meu perfil. Quando li a descrição da vaga, pensei “Nossa, tudo que eu estava procurando!”  Respondi a mensagem deles e dei meu telefone. No mesmo dia à noite, a mãe me ligou e explicou mais detalhes sobre a vaga. Ficamos uns 20 minutos no telefone e marquei uma entrevista. Eles foram muito gentis desde o começo. Me mandaram um email não apenas com o endereço deles, mas explicando como chegar até lá. Mesmo com os mapas, a tonta aqui se perdeu quando desceu do ônibus. Liguei para eles para avisar que estava perdida e qual não foi minha surpresa quando eles se ofereceram para me buscar no ponto de ônibus de carro? Fiquei um bom tempo conversando com eles, depois eles me convidaram para conhecer as crianças. Eu adoro criança pequena e sempre gostei mais de meninos (não me perguntem! Não é machismo, apenas acho mais legal), e adorei os dois. O de 1,5 anos já me pegou pela mão para mostrar os brinquedinhos dele… Na hora de ir embora, a mãe me levou de carro até o ponto de ônibus. Em todos os pontos tem um painel que mostra quando o próximo ônibus vem e quando ela viu que meu ônibus demoraria 20 minutos ainda, disse que ficaria lá comigo dentro do carro esperando, porque estava frio. Ficaram de checar minhas referências (todas verdadeiras) e me retornar em seguida.

E assim, a maratona de entrevistas 2012 foi encerrada, porque eu também quero férias!

Eu citei aqui alguns sites para procurar emprego de au pair/nanny/minder. Num post futuro, falarei um pouco deles e dicas de como usá-los. E contarei o resultado de todas estas entrevistas!