É hoje!

Os 4 meses que se passaram entre a divulgação do resultado e minha viagem não foram exatamente fáceis. Imagine se preparar para fazer mestrado no exterior enquanto trabalha todos os dias até praticamente às 19h, incluindo uma escola de inglês, aulas in company e alunos particulares? Ainda ia para o kung fu três vezes por semana religiosamente e meus finais de semana eram sempre muito ocupados pelos mais diversos motivos, incluindo trabalho.

Foi trabalhoso e até estressante me organizar! Precisei dar conta de alguns imprevistos e me descabelei  com a alta do euro – que mind you, continua subindo. Se eu contar que eu chorei, literalmente, por conta deste euro escalando o Everest eu não estou exagerando. Eu perdi noites de sono preocupada com acomodação, com alta do euro, com burocracia sem fim atrapalhando minha vida. Confesso que em certos momentos o stress era tanto que eu pensei em take the easy way out e desistir. Claro que não seriamente, até porque eu pensava que já tinha ido longe demais para deixar pra lá, mas em alguns momentos parecia que a rotina e a vidinha no Brasil estavam tão boas que ir morar fora era apenas um causador de stress – para mim e para quem convive comigo.

Pedir demissão do emprego, terminar aulas com alunos, fazer a última aula de kung às vésperas de me tornar faixa roxa, tentar comer tudo que gosto antes de ir viajar e ver amigos queridos (notem que coloquei comida e amizade no mesmo patamar), fazer as malas (gente, desta vez tô indo SÓ COM DUAS)… mesmo sendo a terceira vez que faço isto posso afirmar com toda certeza que ainda não tiro de letra e despedidas nunca são doces!

Não foi fácil, mas tudo deu certo e hoje estou pegando o avião para meu novo desafio! Farei aquela maratona de viagem descrita aqui no blog e já estou aqui pensando meu jetlag master quando chegar no meu destino.

Obrigada a todos pela torcida e desejos de sucesso e a gente se fala de novo quando eu chegar na terra da Aurora Boreal. 😉

And you can't stop me! ^^
And you can’t stop me! ^^

Compras, os loirinhos e adeus, Dublin!

De volta a fria Dublin, larguei minhas coisas na casa da Bárbara, fiz um lanche e fui às compras! Eu não separei dinheiro para fazer compras na Penneys porque o euro já estava um tanto alto (paguei mais ou menos 3,45 na época) e eu sou sofredora, digo, professora – já foi um baita de um luxo passar férias na Europa. Porém, sempre que calculo os custos de uma viagem eu tomo por base os valores máximos que gastarei com cada coisa e sempre jogo uns 10% a mais em cima da conta final, porque passar perrengue financeiro numa viagem não é assim muito glamuroso e precisar recorrer a cartão de crédito ou do banco no exterior sempre deve ser a última das últimas opções. Assim, quando cheguei em Dublin ainda tinha uma graninha sobrando e não tive dúvida: fui pra Penney e me joguei! Claro que como era inverno, tinha muito casado e afins, algo que eu realmente não preciso, ainda mais com esse inverno sem vergonha de São Paulo que não faz frio e eu amo tanto! ❤ Mas comprei vários lenços – sou a louca do lenço e aqui no Brasil eles são muitos caros. Compare: Irlanda- 4 euros ou uns 14 reais na cotação que peguei; Brasil – a partir de 30 reais. Também trouxe várias sapatilhas, alguns pares de tênis e três bolsas lindas. As bolsas são de qualidade bem razoável, mas os calçados eu já comprei sabendo que não durariam muito – só que eu ainda tenho tudo até hoje.

Cheia de sacolas e debaixo de uma garoa fina, fui encontrar a D., minha última flatmate antes de voltar ao Brasil. Nós convivemos por apenas um mês e nos demos muito bem. Apesar de agora que cada uma está de um lado do oceano não nos falarmos muito, foi muito bom reencontrá-la. Fiz uma parada no Burger King para um lanchinho e seguimos para um dos pubs que eu mais gostava de ir: o O’Reilly’s Bar. Como era um dia de semana, estava bem vazio e infelizmente eles estavam sem minha querida Kopparberg Strawberry & Lime. Conversamos tomando uma Bulmers mesmo que era o que tinha pra noite. Foi um encontro muito gostoso.

Se só tem tu, vai tu mesmo!
Se só tem tu, vai tu mesmo!

No dia seguinte, finalmente o grande encontro: fui ver os loirinhos! E claro, Dublin sendo Dublin e me trolando como se eu jamais tivesse morado naquela cidade. De manhã o dia parecia estar relativamente ok: sem chuva e pouco vento. Saí de casa com meu casacão e bem agasalhada, porém não levei touca nem luvas (e olha que comprei luvas de couro na Penneys por apenas 9 euros – NO-VE EU-ROS… DE COU-RO) porque enfim, não estava pra tanto. Foi eu chegar no centro pra encontrar o T. antes e pegar umas coisas que ele queria mandar pro Brasil, que o tempo virou absurdamente: frio, vento e chuva fina tudo junto e misturado deliciosamente congelando meu rosto e mãos desprotegidos, porque ou eu segurava a toca do casaco ou me molhava toda. Daora a vida, né?

No horário marcado, cheguei e esperei a B., mãe dos loirinhos. Lá estava eu quase sendo levada pela rajada de vento quando ela surge atrás de mim e me abraça. Muitos sorrisos e tal e corre pro carro porque nem ela que nasceu nesse clima maravilhoso de ruim estava aguentando. E o que dizer quando uma irlandesa fala para você que “nunca passou tanto frio na vida como nesta tarde”?

Tava com uma saudade desse clima!
Tava com uma saudade desse clima! sqn

Quando entrei no carro, o F. me cumprimentou, mas não fez grandes cerimônias. Ele se lembrava de mim, da Biiiiiiitriz, mas estava bem tímido. Ele ainda gosta muito de Lego e estava com umas pecinhas da série Star Wars na mão, então comecei a puxar papo com ele e voltamos a ser amiguinhos. No caminho para a casa deles, a B. parou para pegar o O. que agora fica com uma senhora nos dias que não vai para escolinha. Gente, quando eu vim embora aquele loirinho de olhos azuis não falava nada e o menino agora fala inglês melhor que eu! (Ai, que piadinha péssima, Bia). Enquanto o F. é mais introvertido e desconfiado, o O. é extremamente sociável e simpático e logo começou a conversar comigo. Tomamos uma sopa juntos e ele quis sentar na mesma cadeira que eu. Depois quis me mostrar a casa toda e até quis entrar comigo quando precisei usar o banheiro, mas eu gentilmente pedi que ele me esperasse do lado de fora… e ele ficou lá mesmo, esperando como um cachorrinho! Dei os presentes que havia levado para eles, a B. fez um chocolate quente porque aquele era um “momento especial”, já que os meninos nunca tomam isso. Conversamos um pouco, eles me deram achocolatado da Cadbury pra eu trazer comigo (eles ainda lembravam como sou viciada num bom chocolate quente), os meninos estavam muito curiosos sobre eu ser uma “mommy” ou não e ficaram surpresos quando eu disse que nope, I’m not a mommy. Na cabecinha deles toda mulher adulta precisa ser mommy – ainda precisam aprender muito sobre a vida. Aí o O. me perguntou se ele podia namorar comigo. Eu disse que tudo bem, mas que no dia seguinte estava voltando para o Brasil, um lugar que de tão longe a gente precisa dormir dentro de um avião até chegar,  e que se quisesse namorar comigo ele precisaria vir junto. Aí ele decidiu que era melhor ficar em Dublin com a mommy e o daddy. À noite o K., pai dos loirinhos, me levou de volta para a casa da Bárbara. Foi uma visita muito gostosa mesmo e gostei de ter visto os dois loirinhos, mas depois disso nunca mais nos falamos! Eu muito ocupada com a vida por aqui – trabalhando horrores e finais de semana cheios – e eles lá ocupados com os meninos e não muito adeptos de tecnologia. Mas sem ressentimentos.

No meu último dia em Dublin acordei com uma certeza: I didn’t belong there. Foi muito legal ter voltado para lá, ter visto amigos e os loirinhos, mas meu coração não bateu mais forte. Fica de tema para o próximo post.

Fui para o aeroporto de ônibus e o T. me encontrou lá para dar o último tchau e agradecer minha companhia, afinal, ele estava preocupado se ainda me veria este ano novamente quando voltasse ao Brasil por motivos de: logo logo eu conto. 😉

Peguei meu voo até Amsterdã pela Aerlingus – já havia viajado pela companhia antes. Comprei um lanche no aeroporto just in case e me despedi de Dublin, quem sabe pela última vez. Cheguei na capital holandesa perto das 21h e bom, contei que meu voo para o Brasil só saía no dia seguinte às 9h da manhã? Eu sentei numas mesinhas onde comi o lanche comprado ainda em Dublin, enquanto utilizava a tomada para recarregar meu celular e usava o wi-fi gratuito.

Eu nunca tinha ido ao aeroporto da cidade antes – quando fui a Amsterdã cheguei de ônibus vindo de Bruxelas e saí de ônibus indo para Berlin. Bem, já é um dos meus aeroportos favoritos dos mundo! É enorme, tipo, GIGANTE. O wi-fi é gratuito e ilimitado, apenas precisa ser reconectado a cada 1h. Tem poltronas mega confortáveis, ideais para aquelas pessoas que precisam passar a noite por lá – tipo eu.

Estava chegando perto das 23h e um funcionário veio me perguntar se eu iria pegar algum voo – eu estava num saguão de embarque e sei lá eu porque eu desembarquei lá. Eu expliquei que não, que meu voo havia chegado lá e eu só pegaria o próximo na manhã seguinte. Ele, muito gentil, me explicou que aquele saguão iria fechar em breve assim que o último voo decolasse, mas que eu poderia ficar em outras áreas que, inclusive, eram até mais quentinhas. Peguei minhas tralhas e saí andando… AAAAALL BY MYSEEEEEELF…

Um aeroporto todinho pra mim!
Um aeroporto todinho pra mim!

Finalmente achei uma poltrona confortável e depois de encher o saco de meio mundo via Whatsapp – eu estava carente hahaha -, eu acabei pegando no sono. Dormi muito bem, obrigada, até umas 2h da manhã quando uma galera que pegaria um voo logo cedo ali perto chegou falando alto e tal e resolvi ir passear. Depois de cruzar com um rato ali e outro aqui (nossa, gente, não sabia que tinha rato nos aeroportos europeus, que surpresa, achei que era coisa de brasileiro! *ironia*), checar onde era meu portão de embarque e onde deveria largar o tax free de tudo que comprei na Penneys e não achei o lugar onde deixar o formulário em Dublin, descolei um sofázinho ainda mais confortável onde dormi atracada com minha mochila até umas 6h da manhã, quando o aeroporto passou de “filme de terror teen” para “cena inicial de filme bonitinho”, cheio de gente pra lá e pra cá. Levantei, tomei um bom dum café da manhã, larguei meu tax free e fui pro meu saguão de embarque.

Good morning, sunshine!
Good morning, sunshine!

Na promoção que peguei, eu fui para a Europa de AirFrance e voltei de KLM. Foi minha primeira vez nas duas. A AirFrance é muito boa, mas a KLM me deixou de queixo caído! Achei tudo excelente – muitas opções de filmes, sorvete e sanduíche entre as refeições, comissários de bordo prestativos e simpáticos-, só não gostei da duração da viagem: foram 12h da capital holandesa até minha terra. DO-ZE HO-RAS. Eu sozinha dentro de um avião – aliás, sozinha é modo de dizer, o avião estava lotado! Dei o azar de ir bem no meião e tinha um homem muito alto de um lado e um gordinho do outro… sorte minha ser baixinhas, viu, senão! Aí que são 12 horas dentro de um avião. Eu dormi, assisti “Garota exemplar” (super recomendo, inclusive), comi, dormi, assisti “Moonrise Kingdom”, dormi mais, comi mais, assisti algum episódio aleatório de The Big Bang Theory, comi, dormi, olhei pro teto, pro chão, levantei pra esticar as pernas, dormi, levantei e tentei pegar minha mochila no compartimento do meio e entendi porque eles pedem altura mínima para comissário de bordo: eu não consegui fechar o compartimento e o homem alto do lado precisou me ajudar. Eh. Na reta final, faltando umas 2h para chegar, eu comecei a passar mal, espirrando e nariz escorregando como se não houvesse amanhã – tanta tempo exposta ao ar seco do avião atacou a abençoada da rinite.

O que falar desse aeroporto que mal conheço, mas já considero pacas? <3
O que falar desse aeroporto que mal conheço, mas já considero pacas? ❤

Depois dessa viagem muito louca de volta, cheguei pros quase 40 graus do verão paulistano. Foi um choque sentir aquele bafão quente ao sair do aeroporto e eu de meia grossa e calça jeans, fedendo mais que peixe podre depois de tanto tempo sem banho e usando a mesma roupa. Minha pele estava ao mesmo tempo ressecada por causa do tempo frio e vento europeu e com espinhas, provavelmente por causa de toda porcaria gordurosa que acabei comendo.

Cheguei em casa, tomei um bom banho e morri no sofá. Desconfiei quando senti frio no verão de 40 graus. Febrão de 38 graus – a mina que viaja de ônibus na madruga, enfrenta o frio de Dublin, dorme no aeroporto, bate perna o dia todo, desbrava Madri parecendo cena de filme terror, mas não aguenta o ar seco do avião! Cheguei em São Paulo doente, mas muito feliz com minha Eurotrip e me perguntando quando iria a Europa novamente! 🙂

Viagem solo

Todo mundo deveria viajar sozinho pelo menos uma vez na vida. Eu confesso que eu achava muito deprimente viajar só porque isso, na minha cabeça juvenil, significava que você não tinha amigos, mas eu não podia estar mais enganada! Confesso que a primeira vez que viajei sozinha foi realmente por falta de companhia e num ato de extrema coragem resolvi que “bem, se não tem ninguém pra ir comigo, vou só… eu que não vou ficar mofando em Denver.” E partiu para uma das suas melhores viagens: San Francisco, Califórnia.

Depois que você pega o jeito da coisa, vai chegar uma hora que você não vai procurar companhia para viajar: você vai querer ir só! Vai ter aquela viagem que você vai pensar “uhn, preciso de um tempo comigo longe da rotina para relaxar, para tomar as minhas decisões e fazer as coisas na hora e do jeito que eu quero”.

Sua viagem, você manda

Viajar em grupo sempre é aquela coisa: onde NÓS vamos e você acaba indo a lugares que não queria porque, né, vivemos em democracia. Não que isso seja o fim do mundo, afinal, seus companheiros também vão acabar indo a algum lugar só porque você queria, mas quando você está só, escolhe onde quer ir, a hora que quer ir e se quer ir. Simples assim.

Seus horários, seu roteiro

A ideia hoje era ir num parque, mas aí você acordou com vontade de ir no museu. Pronto, não precisa discutir isso com ninguém! Deu vontade de comer num restaurante mais caro? O dinheiro dá? Você vai, não precisa discutir o budget da galera inteira.

Sozinho, mas sempre acompanhado

Viajar em grupo te prende ao grupo: pra que fazer amizades se você já tem as suas ali com você? Mas se você estiver só num hostel e a fim de conhecer gente do mundo todo, com certeza vai achar muitos outros viajantes solo por aí. Eu não sou o tipo de pessoa extrovertida que vira BFF em minutos, e, normalmente, quando viajo só aprecio minha solidão nômade, mas se puxarem papo comigo, what the hell, vamos conversar! Já tive parceiros de viagem por um dia conhecidos por aí em San Francisco, Amsterdã e Paris, por exemplo, e quase rolou em Bruxelas também. E (quase) todo mundo tá no Facebook até hoje!

Budget

Nem sempre o seu budget acompanha os dos outros viajantes. Uns são mais gastões, outros toparam viajar, mas tem lá suas restrições. Viajando só você não se preocupa com isso e só toma conta do seu porquinho. Fui para Bruxelas e Amsterdã numa vibe “vou gastar mesmo” e como não tinha ninguém comigo para dizer o contrário, eu gastei MESMO!

Terapia de viagem

Passar tanto tempo só, sem jogar conversa fora com ninguém. Horas dentro de um trem, ônibus ou avião sozinho, noites solitárias no hostel (se assim preferir). O que você faz? Pensa na vida, avalia planos para o futuro, busca soluções para probleminhas, se avalia… eh, gente, é uma terapia das boas! O problema é se você tiver seus monstrinhos e precisar encará-los…

Sensação de total liberdade e independência

Fazer o que quer, na hora que quer, se quiser e ninguém pra discordar ou meter o bedelho. Tomar as suas decisões e descobrir do que gosta e do que não gosta, afinal, não tem ninguém pra pensar ou decidir por você. É se conhecer melhor.

Selfies

Se for um amante de fotos, especialmente de fotos SUAS, aí temos um problema, pois terá que tirar muitas selfies ou ter paciência de pedir para outros turistas tirarem fotos suas. Eu passei um pouco dessa fase louca de querer muitas fotos. Claro que quero sim uma foto minha com a atração turística ao fundo, mas não é o objetivo da viagem sair bonita e sexy em frente ao muro Berlin ou do Big Ben, mas registrar o momento. Até porque, quem me conhece sabe que eu não posto as fotos de viagem no Facebook depois… hahaha… Posto uma meia dúzia e o resto é meu, lembrança minha! 🙂

Já te convenci que viajar só pode ser uma ótima ideia?!

Berlin, Alemanha I

Ahhh Berlin! Não imaginei que fosse gostar tanto desta cidade. Mas como não adorar Berlin quando a cidade respira história? Quando o moderno se mistura com anos desta história?

Apesar de o ônibus sair apenas às 23h15, às 20h eu já estava no terminal rodoviário. Comprei um milkshake no Burger King e fiquei escrevendo pensamentos aleatórios num caderno enquanto esperava (olha o que a falta de wi-fi não faz com o ser humano!). Fui fazer o check-in no balcão da Eurolines e sou sacaneada pelo funcionário que, para minha surpresa, começa a falar português ao ver no sistema que sou brasileira. E ele era holandês, só pra constar.

Eu queria com todas as minhas forças dormir o máximo nas 9h de viagem até Berlin. Aí Murphy mandou dois leitores noturnos no ônibus, um no banco da frente e outro no banco de trás de onde estava, os únicos com as luzes, que pareciam holofotes, acesas no ônibus inteiro. Não bastasse isso, um grupo de espanhóis do inferno confundiram Berlin com o Hopi Hari e pareciam pré-adolescentes em excursão escolar. Moral da história: eu detesto espanhóis (houve outro evento com a nacionalidade durante a viagem).

Chegando em Berlin, peguei o metrô para ir ao hostel. Entrei na estação e cadê a máquina de comprar bilhete? Não achei. Quando notei, já estava na plataforma e nada de ver máquina para comprar o ticket. Imaginei que fosse dentro do trem, como em Amsterdã, mas não vi nada também. E o medo de entrar algum fiscal e me pegar andando de trem de graça? Desci duas estações depois, procurei a bendita maquininha e nada. Resumindo: andei de graça no metrô de Berlin e não me orgulho disso. Na estação que desci, finalmente, vi onde elas ficam: na plataforma mesmo. Talvez minha miopia tenha aumentado, né, porque juro que não vi nas outras estações.

Cheguei no hostel, fiz check-in, me troquei, tentei disfarçar a cara amassada e cansada com maquiagem, dei um tapa no cabelo, peguei o mapa e fui marcando os pontos turísticos da cidade. Um amigo me passou um roteiro supimpa de Berlin, super completo e organizado, então só precisei mesmo me localizar e escolher a ordem dos passeios. Também me informei sobre o free walking tour (adoro, já notaram, né?) e fui tomar café. Aliás, Berlin é super barata, todos os dias fui tomar café numa padaria na esquina da rua do hostel e o chocolate quente com croissant saía por apenas 2 euros. Só o croissant custa quase 1 euro no Tesco aqui de Dublin, para comparação.

O Museu Judeu ficava a alguns minutos de caminhada do hostel e para lá fui. A essa altura, vocês devem estar achando que sou fanática por Segunda Guerra e Holocausto, né? Não é para tanto, mas não posso negar que gosto muito do tema e acabei me interessando bastante pela cultura e costumes judeus depois de ter morado um ano com uma família judia nos EUA obedecendo a dieta kosher. E não me culpem, este museu é simplesmente sensacional!

Museu Judeu
Museu Judeu

A foto acima, gentilmente roubada cedida pelo Google, mostra que até o prédio é incrível. O formato do museu em zig-zag, na verdade, seria uma estrela de Davi distorcida e a única forma de entrar no prédio é através do subsolo, numa passagem entre o prédio em zig-zag e o prédio mais clássico, ao lado. O prédio e sua concepção tem até uma pequena exposição dentro do museu.

No térreo há diversos objetos expostos de família judias que foram deportadas. Cada objeto conta um pouco da história de seus donos e se você for como eu, que começa a imaginar toda uma vida pela leitura de um postal ou ao ler a respeito de uma câmera fotográfica, você ficará horas viajando no museu.

Carta
Carta

Nas paredes estão escritos os nomes de diversas cidades do mundo. São cidades onde existiam campos de concentração ou para onde os judeus europeus imigraram depois da guerra.

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No fim do corredor, fica a Torre do Holocausto. É uma torre de concreto vazia com uma única fresta no topo por onde entra a luz solar. Qualquer barulho faz um eco estrondoso. E o significado disso é você quem dá. Aliás, o museu é todo assim: há exposições que o artista dá a interpretação dele, mas no fim, o que vale mesmo é o que você interpreta. É assim com o Jardim do Exílio também, por exemplo, que lembra um pouco o Memorial dos Judeus Assassinados no Holocausto, em Berlin também.

Jardim do Exílio
Jardim do Exílio

Nos últimos andares a exposição entra mais na questão da cultura, costumes e tradições dos judeus. Para quem curte, dá para ficar horas lá dentro.

Do museu, fui andar um pouco na cidade apenas para ver alguns pontos turísticos, pois no dia seguinte faria o walking tour que cobriria muita coisa.

O primeiro deles foi o Checkpoint Charlie. Nos anos da Alemanha dividida, o checkpoint era um posto militar usado como passagem pelos estrangeiros e membros das Forças Aliadas para ir da Alemanha Ocidental para a Oriental. Charlie não é o nome de nenhum militar. Havia 3 postos, A, B e C, e eles recebiam nomes apenas para facilitar. Hoje em dia, o que tem no local é apenas atração para turista ver.

Checkpoint Charlie
Checkpoint Charlie

De um lado há a foto de um soldado russo e do outro, obviamente, de um americano. Em frente ao checkpoint, dois soldados fardados posam para fotos (que você precisa pagar, claro). Quase em frente ao checkpoint fica o Museu Checkpoint Charlie e o Museu do Muro. Não entrei em nenhum, pois achei que acharia fácil tudo que eu gostaria de saber a respeito no Google. Eh, simples assim.

Ali perto também tive o gostinho de ver os primeiros pedaços do muro de Berlin, que estão pintados e expostos.

Muro de Berlin
Muro de Berlin

Já encantada com a cidade, continuei minha caminhada. Mas isso eu continuo contando no próximo post.

Amsterdã, Holanda IV

Um dos passeios que eu mais esperava fazer em Amsterdã era a visita a Casa Anne Frank, o prédio onde funcionava a empresa de Otto Frank, pai de Anne, e posteriormente, se transformou no esconderijo de 8 pessoas por quase 2 anos durante a Segunda Guerra.

Os dois últimos andares faziam parte do Anexo Secreto
Os dois últimos andares faziam parte do Anexo Secreto

Resumindo MUITO a história, a família Frank se mudou da Alemanha para a Holanda na década de 30 temendo o partido nazista. O pai, Otto, abriu duas empresas (Opekta e Pectacon) que funcionavam neste prédio e estava tudo indo muito bem até o exército alemão invadir a Holanda. Em julho de 1942, a família Frank (Otto, Edith, Margot e Anne) e a família van Pels (Hermann, Auguste e Peter), além do dentista Fritz Pfeffer, se refugiaram nos dois últimos andares do prédio e com a ajuda dos funcionários, viveram lá por quase 2 anos até serem delatados. Todos foram deportados e mandados para os campos de concentração. Apenas Otto sobreviveu ao Holocausto.

Anne Frank manteve um diário sobre a vida no Anexo Secreto, como ela chamava, e após ouvir no rádio que havia interesse de publicar diários sobre o período após a guerra, ela expressou sua vontade de ter seu próprio diário publicado e passou a reescrever sua anotações e dar nomes fictícios aos moradores do Anexo. Uma das secretárias da empresa achou o diário de Anne e o guardou pensando em devolvê-lo quando ela voltasse. O  pai, Otto, decidiu que deveria fazer a vontade da filha e o publicou.

Placa em frente à casa
Placa em frente à casa

Claro, há várias teorias de que toda essa história foi inventada, que os textos de Anne eram muito maduros e profundos para sua idade, que como o diário foi tão facilmente deixado para trás pelos oficiais alemães e achado pela secretária blá blá blá. Isso, para mim, não tira o valor do livro e meu fascínio por ele.

A fila do museu estava ainda maior do que no dia anterior e acabei ficando 1h20 esperando. Eu poderia ter comprado o ticket no site do museu e ter entrado sem pegar fila, mas eu só descobri isso um dia antes de viajar e enfim, não tenho impressora em casa.

A fila anda virava a esquina ali na frente...
A fila ainda virava a esquina ali na frente…

Ainda na fila você recebe uma brochura com um resuminho de tudo, já que a visita não é guiada e eles supõem que nem todos leram ou se lembram bem do livro. O ticket custa 9 euros e para minha grande tristeza, não é permitido fotografar! Eu até entendo o motivo, já que o museu é pequeno e permitir que os turistas batessem fotos significaria um amontoado de gente em espaços pequenos.

Brochura
Brochura

Antes de chegar ao anexo, há vários documentos expostos,  exibição de entrevistas com as secretárias que ajudaram no enconderijo e maquetes de como o anexo secreto era na década de 40. Vale lembrar que toda a mobília foi retirada e Otto Frank, ao decidir criar o museu, não permitiu que o anexo fosse mobiliado novamente. Segundo ele, os cômodos vazios deveriam expressar a perda das vidas dos que lá viveram e assim continuam até hoje.

Finalmente, cheguei a falsa estante que escondia a porta que dava acesso ao anexo. Parei e fiquei alguns segundos tentando entender que estava no local que já tanto havia lido a descrição no livro. Wow, estou entrando onde a Anne Frank viveu por dois anos! A sensação é indescritível, um misto de emoção e incredulidade, como se eu conseguisse recriar na minha mente aquelas 8 pessoas passando seus dias lá na década de 40. As escadas que dão acesso aos andares superiores são muito estreitas e os degraus mais ainda. Na parede há trechos dos livros e no quarto que Anne dividia com Fritz, ainda há recortes de revistas e posteres que ela havia colado, tudo protegido por uma camada de vidro. Os ambientes são todos escuros, pois na época as grossas cortinas nunca eram abertas durante o dia, já que ninguém poderia perceber que havia pessoas morando ali. Os cômodos não eram pequenos, mas não eram suficientemente grandes para comportar seus moradores e provacidade não era algo que se tinha. O casal Frank e Margot dormiam onde também era a sala de estar e o casal van Pels dormia na cozinha. Fiquei poucos minutos no anexo secreto, meio boquiaberta achando incrível estar ali.

Na parte final da visita, há a exibição de outros vídeos, como trechos de entrevista de Otto, e outros documentos. Cara, o diário dela, Kitty, está exposto lá numa redoma de vidro! Meu, o diário! Tentei ler, apesar de estar escrito em holandês, mas fiquei mesmo observando a caligrafia (meio feinha, por sinal). Lembram-se que ela reescreveu o diário pensando em pública-lo? As folhas avulsas também estavam lá expostas. Incrível! Demais! Sensacional!

Finalmente, há um exposição dos 15 anos de Anne Frank e para cada ano de vida dela, há uma foto ou um objeto exposto. Uma foto me chamou a atenção. Nela, Anne está com uns 6 anos de idade com sua professora e seus coleguinhas de escola. Os 17 alunos judeus têm seu destino contado no lado da foto. A maioria não sobreviveu, assim como Anne Frank.

Eu fiquei com muita vontade de comprar o livro na lojinha do museu. Aí surgiu a dúvida: em português ou inglês? Como eu sempre parti do princípio que só faz sentido, pra mim, ler em inglês um livro originalmente escrito na língua, abandonei a ideia da versão inglesa. Porque se é para ler tradução, que seja na minha língua materna, né? (Ignorem o fato de eu estar lendo em inglês um livro originalmente escrito em alemão – tô na Irlanda, não tenho opção!). No fim, não levei nada, pois vi que a versão em português era de uma editora brasileira e enfim, por que pagar em euros algo que foi produzido em reais? No Brasil, eu garanto minha versão e leio pela 5ª vez. 🙂

Se você me aguentou falando de Anne Frank até agora, parabéns! Este é o  parágrafo que eu mudo de assunto. Cerca de 40% dos leitores já desistiram de ler este post a esta altura.

Saindo do museu, me toquei que eu não havia planejado mais nada para fazer naquele dia. Peguei o mapa da cidade e saí andando até chegar no museu de Amsterdã, que, obviamente, conta a história da cidade. Lembram-se que eu falei que visitar dois museus num dia me deixa mentalmente cansada? E a visita a Casa Anne Frank ainda estava pululando na minha mente. Decidi não entrar e fui ao pátio do museu descansar um pouco depois do almoço e aproveitar aquele calorzinho de 21 graus que há teeeeempos eu não sentia. E lá dentro, me deparei com isto:

Tamanho Bia, digo, miniatura!
Tamanho Bia, digo, miniatura!

É uma opção para ter a foto com as famosas letras, sem muitos turistas por perto, apesar de ser menor. 😉

Andei um pouco mais pelo centro, comprei lembrancinhas, fui a uma feirinha onde, fuçando os LPS, achei até um disco de lambada brasileira, cheguei ao Museu Judeu, mas estava cansada demais para encarar uma visita e o museu não parecia muito grande, dei mais uma volta na Red Light e, finalmente, voltei para o hostel, peguei minha mochila e segui para o terminal rodoviário para pegar o ônibus para meu próximo destino. 🙂

Havia mais o que se fazer na cidade, como visitar a Heineken Experience, ir ao Bar de Gelo ou fazer um tour de barco, por exemplo. Não quis ir no primeiro porque não bebo cerveja e não iria mudar nada na minha vida saber como uma bebida que eu não bebo é produzida; dispensei o segundo porque eu já passei muito frio aqui em Dublin e não tinha porque querer passar mais num pub todo feito de gelo; e o terceiro, bem, não tinha interesse nenhum de passear de barco, somente.

Curiosidades

* Há bicicletas por todos os lados! Amsterdã abraçou o meio de transporte com todo amor e carinho e há milhares delas espalhadas pela cidade. Jovens, adultos, idosos, moças, rapazes, pessoas bem vestidas, pessoas  de terno, enfim, todos andam de bicicleta. E por todo lado também há bicicletas estacionadas. O teu maior risco em Amsterdã é ser atropelado por uma delas, então preste atenção ao atravessar a rua e se ouvir o sininho tocando, saia da frente!

Detesto rosa, mas achei esta tão fofa!
Detesto rosa, mas achei esta tão fofa!

*Além das magrelas, a cidade ainda conta com ônibus e trem de superfície, os bondinhos, além dos carros e motos. Não bastasse isso, em várias ruas o limite entre a calçada e o meio da rua não é bem claro e a simples tarefa de atravessar a rua pode ser um super desafio!

É tudo junto e misturado!
É tudo junto e misturado!

*Os holandeses, em geral, falam inglês e falam bem! Um amigo que já havia visitado a cidade comentou que estava perdido no meio da rua e um mendigo se aproximou falando em holandês. Notando que eles não entendiam, mudou para inglês. Segundo este amigo, neste momento ele percebeu que estava num país de primeiro mundo, pois até o morador de rua era bilíngue. Pois é.

*Fiquem ligados com os preços de hostels! Na reserva não está incluso o imposto e você pode levar um susto quando for pagar a conta. Eu levei.

*Por toda cidade há banheiros públicos a 50 centavos. Mas se você for homem, pode se aliviar de graça num desses aí:

Curtiu a ideia?
Curtiu a ideia?

Não sei se gostei muito da ideia, porque o cheiro não é nada agradável.

*Descobri que é uma mania europeia (besta) colocar cadeados em pontes com as iniciais do casal e jogar a chave no rio para simbolizar o amor eterno. Isso parece mais amarração pra mim, mas tudo bem.

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Já havia visto em outras cidades da Europa

*Ou os hermanos migraram para lá ou os holandeses gostam muito de comida argentina, porque eu perdi as contas de quantos restaurantes argentinos eu vi na cidade!

Car-ne!
Car-ne!

*Nas lojinhas de souvernirs eu achei pirulito de maconha, chocolate de maconha, cookies de maconha, bala de maconha, camisinha de maconha, e enfim, maconha para todos os lados!

Gostei demais da cidade, me encantei por seu canais, sua flores e suas bicicletas! 😉