De volta a Oulu

Fim das férias no Brasil, hora de retornar a Oulu. Confesso que nos quase 3 meses que fiquei fora da cidade não senti exatamente saudade. Não me leve à mal, apesar de Oulu ser pequena e pacata, é uma cidade linda e que oferece uma super qualidade de vida, mas não deu tempo de sentir falta. Ainda mais se você pensar que no verão não escurece e o sol da meia-noite é realmente um fato por aqui – e eu já não conseguia dormir em maio por conta disso, estaria puxando os cabelos se tivesse passado o verão na cidade. São Paulo me deixou dormir.

Retornei no início de agosto somente porque os preços de passagem estavam melhores, senão teria deixado para o fim do mês mesmo. Foram 11 horas sem dormir até Paris (porque eu resolvi ver 3 filmes) pela AirFrance, que eu achei bem se comparada com a KLM, outras 2 horas até Helsinki pela Finnair e quase 8 horas de trem até Oulu. Vamos falar do trem. Eu escolhi esta opção porque trouxe uma mala de 32kg, dos quais metade era comida, e num voo doméstico o limite é 23kg enquanto no trem ninguém checa nada. Escolhi um trem que chegaria às 23h, pois assim poderia pegar o ônibus às 23h25 e ir para casa. Todas as vezes que usei o trem, o horário de chegada foi bem pontual, mas é claro que desta vez ele atrasou quase 1 hora. Perdi o ônibus que pretendia pegar e o último vinha só 1h25. Depois de 30 horas de viagem quase sem dormir, eu estava me sentindo um farrapo humano e sem disposição pra ficar 1h30 esperando ônibus. Conclusão: o ticket de Helsinki a Oulu custou 29 euros e o táxi da estação de trem até minha casa (uns 7km) custou 25 – isto porque eu pechinchei, o taxista queria 35.

Não estranhei nada no retorno, apenas a paisagem muito verde. A maior parte do tempo que morei na cidade ela estava coberta de neve e embora já fosse primavera quando fui embora, as árvores ainda estavam sem folhas e as flores não estavam nascendo. Foi meio que um choque ver Oulu tão tão tão verdinha!

Tudo verde!
Tudo verde!

Mas nem tudo são flores…

O PSOAS está trocando o sistema hidráulico dos banheiros do meu prédio, ou seja, desde que cheguei não posso usar meu banheiro e preciso usar o de uso comum e tomar banho na sauna. No começo foi bem ruim, mas depois de quase 2 meses a gente acostuma.

O verão aqui não é exatamente quente, mas o que tem de insetos! Embora eu tenha voltado já na reta final da estação, ainda pude sentir na pele, literalmente. Os pernilongos daqui são mutantes, deixam os de São Paulo no chinelo! Além de enormes, eles picam por cima da roupa e dói! Apesar disso, eles nem foram meu maior problema. Assim que cheguei fui picada por algum inseto até hoje não identificado e a picada inchou absurdamente, ficou vermelha, dura e quente. Fiquei assustada e fui ver o médico, que não sabia o que tinha me picado, mas ficou com medo que pudesse ter sido um carrapato que transmite a doença de Lyme. Saí do hospital mais assustada ainda e com a receita de uma pomada para aliviar as picadas. Voltei ao hospital uma semana depois e como as picadas não continuaram crescendo, a médica eliminou a suspeita da doença. As picadas só foram se curar de vez mais de duas semanas depois. Ainda tenho as marquinhas no braço, como se fossem cicatrizes das feridas da catapora.

Nos dias mais quentes desde que voltei fez 20 graus e como as casas são projetadas para o frio, fica realmente quente dentro. Eu nunca vi ar condicionado aqui e nem ventilador, então a solução era mesmo abrir as janelas e lidar com os insetos.

No fim das contas, é bom estar de volta e poder andar de bicicleta, correr em volta do lago, usar a sauna e viver por mais uns meses numa cidade tranquila, sem correria e muito segura! Sei que um dia vou sentir saudade de tudo isso! 🙂

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As passagens de volta ao mundo

Eu sabia que uma vez aprovada no mestrado, a aprovação do visto de estudante era quase automática, mas mesmo assim preferi esperar até isso acontecer para providenciar as passagens de avião. O seguro morreu de velho.

Ainda em 2014 quando chequei os preços de passagem para Finlândia, só por curiosidade, elas estavam na casa dos 3500 reais sem as taxas. Em 2015, para chegar até Oulu este valor já estava em quase 5000 reais, com taxas. Sim, cin-co mil re-ais! E isto estava me deixando bem brochada, porém, era o jeito. Num belo dia, encontrei passagens por 4400 reais, o que me pareceu um ótimo preço, só que aí o cartão não tinha limite disponível para fazer a compra e nessa de esperar o cartão aumentar o limite, a passagem aumentou também, claro. Mas Murphy não perdia por esperar.

Eu já comentei que na época estava muito sem tempo para ver os detalhes com calma, então deixava para pesquisar passagens só aos finais de semana, porque durante a semana à noite eu não era eu de tanto cansaço e eu tinha medo de fazer besteira comprando passagem com sono. Na primeira sexta-feira livre que tive, eu passei meu dia disposta a achar o melhor preço pra essa viagem que, de manhã, era um voo da AirFrance que custava 4900 reais.

Pesquisando uma companhia aérea ali e outra aqui, do nada me deu um clique: estou indo estudar fora, logo, tenho direito à passagem de estudante! 🙂

Para quem não sabe, comprar uma passagem de estudante não significa que você vai pagar metade do valor, mas que vai ter um desconto e a vantagem de ter a primeira remarcação gratuita. Claro, as regras mesmo vão depender da companhia, mas no geral é isso e as duas únicas exigências são ter uma carta comprovando que vai fazer um curso de pelo menos duas semanas no exterior e ter até 34 anos de idade. Outro detalhe é que o consumidor comum nunca vai encontrar essas passagens na internet e só há duas maneiras de consultar valor e efetuar compra: ligando na companhia aérea ou fazendo o processo através de uma agência de intercâmbio.

Liguei na AirFrance e qual não foi minha surpresa quando a atendente me passou exatamente o mesmo valor do site, mas garantindo que a maior vantagem era a remarcação gratuita. Afff! Aí lembrei de uma agência de intercâmbio pequena que meu amigo T. havia usado para comprar as passagens de estudante dele quando foi pra Dublin. Entrei em contato e já me animei: conseguiram passagens por 3200 reais, porém com destino final Helsinque, pois não tinha essa modalidade para chegar até Oulu. Ainda achando que poderia conseguir algo melhor, entrei no site de uma agência de intercâmbio grande onde é possível pesquisar preços por conta própria online e aí sim fiquei feliz: por exatos 3024 reais eu poderia chegar até Helsinque. E o mais legal de tudo é que era pela KLM, a melhor companhia aérea que já voei até hoje. ❤

Comprado o voo principal, ficou a dúvida: como chegar até Oulu? Eu tinha 3 opções: avião, ônibus e trem. E eu tinha planos: levar duas malas despachadas, uma enorme e uma pequena, além da minha mochila de cabine. As malas certamente pesariam uns 25kg, em média.

Avião
Tem uma companhia aérea que faz este trecho num esquema de voo low cost, a Norwegian Airlines. A passagem custava 29 euros, mas eles cobrariam 12 euros por mala despachada de até 20kg, totalizando 53 euros com as malas. O voo dura 1h e o aeroporto é mais afastado da cidade, tipo uns 20km da universidade. Além disso, eu chegaria em Oulu umas 22h pegando o primeiro voo possível.

Ônibus
É relativamente barato – 20 euros – e leva umas 7 horas. Só permitem levar uma mala além da bolsa/mochila. Teria que pegar transporte público para chegar até a rodoviária. O valor é fixo, então poderia pegar uma horário para viajar de madrugada e chegar em Oulu de manhã no dia seguinte.

Trem
O valor depende do horário e, a princípio, não há limite de malas ou peso (mas é óbvio que se você chegar lá com 5 malas fica complicado). A viagem dura 7h e a estação do aeroporto foi inaugurada mês passado, ou seja, fácil demais pegar o trem.

Dadas as circunstâncias e ao fato que eu sou aloka das malas e não quis arriscar e ficar no limite de duas malas de 20kg para poder ir de avião – até porque, eu precisaria comprar 2 malas médias e não faz sentido nenhum gastar dinheiro para economizar, né? – eu decidi pelo trem, que custou 42,90 euros ou muitos reais na fatura do cartão com o maldito IOF quem inventou essa merda?.

Sendo assim, segue o trajeto eterno que parece que vou dar a volta ao mundo:
São Paulo – Amsterdã: quase 12 horas de voo
Conexão em Amsterdã: 2h20
Amsterdã – Helsinque: 2h30
Tempo de espera no aeroporto até pegar o trem: 13h
Helsinque – Oulu: aproximadamente 7h
Tempo decorrido entre a saída de São Paulo e a chegada em Oulu: aproximadamente 37 horas!!!

Lembrando que eu optei em dormir no aeroporto de Helsinque por dois bons motivos: se pegasse o único trem barato da noite, chegaria em Oulu de madrugada – not a good idea. Se pegasse um para viajar na madrugada e chegar lá cedo, teria que desembolsar mais de 70 euros e eu não sou obrigada preciso economizar o máximo que posso. A opção foi pegar o primeiro trem da manhã que estava entre os mais baratos e perder conforto. Ninguém nunca morreu de passar a noite em aeroporto (o que já fiz em Dublin, Oslo, Buenos Aires, Amsterdã e Estocolmo) e felizmente eu ainda tenho idade e disposição pra isso, além disso, terei todo o final de semana seguinte para descansar e carregar as baterias para a primeira semana de aula. Ou pelo menos é o que acho.

É como digo, nesta vida ou a gente escolhe conforto ou economia, ter os dois ao mesmo tempo é um pouco complicado. Quem quer conforto, paga por isso: eu poderia ter pago quase 5 mil reais para ir direto de avião a Oulu, mas preferi gastar 1500 reais a menos e fazer uma viagem muito louca que vai me deixar de cabelo em pé!

E podem ter certeza que eu volto aqui para contar como foi essa aventura! Wish me luck!

A prova que eu já dormir em aeroporto!
A prova que eu já dormi em aeroporto!

Rolezinho na Europa: uma introdução

Julho de 2014, véspera da viagem à Argentina.

Chego em casa e checo meus emails. Sempre tem um do Melhores Destinos e eu sempre abro e bato o olho para ver se tem algo interessante. Sempre tem algo interessante, mas nunca num mês interessante pra mim – ossos do ofício, só posso viajar nos meses de férias, quando tudo está, via de regra, mais caro e quase não tem promoção. Mas neste dia tinha.

Eu já estava com as malas prontas para ir a Buenos Aires no dia seguinte, mas o preço estava ótimo, a Bárbara e o Rick me convenceram que eu não poderia deixar essa chance passar (ai, como sou influenciável) e resolvi que iria me endividar com outra viagem sem nem mesmo ter desfrutado da dívida feita para a primeira. Esse negócio de sofrer de wanderlust pode ser um caso sério, juro. E assim comprei minhas passagens para passar férias na Europa, passar 19 dias dando altos rolês no hemisfério norte, mesmo sabendo que deixaria para trás um baita verão para passar frio. Sério, sofrer de wanderlust te faz fazer coisas que você não faria em CNTP (condições normais de temperatura e pressão).

Fui e voltei de Buenos Aires. Trabalhei. Andei de bicicleta. Tive encrencas com a USP. Trabalhei muito mais. Comi muito doce. Fui ao cinema. Dormi às vezes. Passei umas 2 faixas no kung fu. Zoei meu joelho. Passei finais de semana corrigindo provas. Trabalhei um tico mais. E assim, seis meses se passaram até que o dia 30/12 chegou e eu, ainda meio desorganizada, fui ao aeroporto suando horrores (eita, verão paulistano!) e com um casacão enorme na mão para pegar meu voo rumo a… Dublin!

Primeiro que meu voo saía do Terminal 3, o terminal novo e super moderno do aeroporto de Guarulhos. Eu já passei por alguns aeroportos mundo à fora, mas nunca vi nada tão moderno! O check in é apenas pela máquina e a gente só pega a fila do guichê para despachar a mala. O controle de passaporte é todo automatizado (é essa a palavra?) – eu coloquei meu passaporte no leitor, a primeira catraca se abriu, aí me posicionei em frente a câmera que se abaixou até ficar da minha altura (né?), bateu uma foto minha e me identificou como menina e liberou a segunda catraca para eu passar. Ou eu sou muito caipira ou isso é realmente muito moderno!

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Viajei de AirFrance e gostei muito do serviço e tal. O voo foi bem tranquilo e pela primeira vez uma refeição de avião me deixou satisfeita, sem contar que deram sorvete – a Lufthansa não me deu sorvete! Eu dei muita sorte porque consegui ficar na primeira fileira de poltronas, aquela com espaço extra para as pernas – não que eu precise de espaço extra, afinal, mal cheguei ao 1,60 de altura, mas enfim, foi um voo muito confortável e 10h30 depois, cheguei em Paris com temperatura de 3 graus. Cho-que. Lá precisei passar pela segurança novamente e que lerdeza! Peguei um voo da CityJet e 1h20 depois desembarquei em Dublin!

Quando cheguei lá em 2012, tudo era festa! A imigração era festa! Era.

“Hi.”
“Hi. What’s the purpose of you visit?”
“Tourism.”
“How long are you staying?”
“I’m leaving on the 16th.”
“Can I see your tickets?”
Mostrei a reserva de passagem de volta para minha terra.
“Oh, you’ve been here before.” – ele viu meus carimbos de entrada no país de 2013.
“Yes, I had a student visa.”
“Where’s your old passport?” – err… lembram que eu “perdi” meu passaporte? Aquele que tinha meu primeiro visto de estudante?
“Well, I lost my passport… but I have my GNIB here.”
Entreguei para ele, ele jogou meus dados no sistema e eu vi minha foto feia do dia que cheguei na Irlanda pela primeira vez aparecendo na tela do computador dele.
“What are you doing here?”
“I’m visiting friends and traveling to some other countries.”
“And where are you staying?”
“I’m staying with a friend.” – e entreguei a carta do R., um irlandês.
“Uhnn… is R. your boyfriend?” – danado, querendo me pegar no pulo!
“No, he is not.”
“How did you meet him?”
“He dates a friend of mine.”
“Uhn. Did you work when you lived here?”
“No, I just studied.” – eu jamais tive um trabalho formal na Irlanda, não tinha motivo nenhum de contar que eu trabalhei como babá, porque ele poderia me fazer mais perguntas e eu poderia me enrolar. Preferi bancar a ryca que foi para Europa só estudar.

Depois de todo o interrogatório, carimbou meu passaporte me dando exatamente a quantidade de dias que eu ficaria lá como prazo para sair do país. Ah, e disse que ficaria com meu GNIB. Eu, corajosa demais, resolvi perguntar porque ele não ia me devolver o GNIB. “It’s expired and we usually keep it.” Perdi, playboy.

A fila para a imigração levou uns 20 minutos, porque eu não era a única respondendo mil perguntas e vi gente sendo levado para a salinha. Eh, a Irlanda está mesmo fechando as pernas.

Quando saí do aeroporto, vi aquele lindo dia irlandês me esperando: céu cinza e frio. Eu estava tão cansada da viagem (que eu mal dormi), que me sentia anestesiada vendo as ruas de Dublin pela janela do ônibus. Não sentia saudade, nostalgia, alegria, nada! Eu reconhecia as ruas e só. Parecia apenas que eu havia viajado de férias e estava voltando para “casa”.

Quando cheguei na casa da Bárbara, minha ex-casa, tudo pareceu muito familiar, mas ainda assim, não estava sentindo nada. O fato de anoitecer por volta das 16h30 me deixou muito confusa também. Fui ao mercado e tentei comprar uma Kopparberg – guess what? Não havia levado meu ID e o cara não me deixou levar.

Tomei um banho, tirei um cochilo de 2h que pareceram apenas 5 minutos e fizemos a ceia de Ano Novo. Fomos para um pub no centro e, tipo, já tive Reveillons xoxos, mas o de Dublin certamente estará no topo da lista por muito tempo: sem fogos, sem festa, apenas uma contagem regressiva no pub e nothing else to do. Voltamos para casa e é óbvio que o sono não veio até quase 5 da manhã, né?

Eu fiquei mais 2 dias em Dublin, mas isso fica para o próximo post.