Oi, Brasil! Cheguei!

Ao meu lado havia um casal de idosos brasileiros bem simpáticos que puxaram papo comigo e ainda me deram chocolate. O avião estava lotado e vi pouquíssimos lugares vazios, sendo que a maioria dos passageiros era brasileiro (eu só ouvia português perto de mim).

O voo foi bem tranquilo, sem turbulências, cheio de comidinhas e comissários de bordo super sorridentes (quase fez minha raiva da Lufthansa passar, quase, mas não). Eu tirei dois cochilos de meia hora na viagem toda- a poltrona mal reclinava e o espaço para as pernas era ridículo (e eu não tenho nem 1,60 de altura!).

No meio do voo, pensando na vida, me dá um clique! Nos últimos 3 meses da minha vida eu pedi o formulário de tax free em todas as compras que fiz. Qualquer não-europeu ou não residente tem direito a recolher de volta o imposto pago em tudo que comprar. Para isso, basta pedir o formulário na hora do pagamento, preencher com seus dados e número de cartão de crédito e deixar o envelope no aeroporto antes de sair da Europa. Contei a presepada que foi minha passagem pelo aeroporto de Dublin, né? Você acham que eu me lembrei disso? 😦

O melhor da viagem estava por vir. O voo pousou às 5h05 da manhã. Peguei minha mochila, passei pela imigração e fui aguardar minhas malas. Dois voos de Frankfurt chegaram no Brasil no mesmo horário, o da Lufthansa e o da TAM, e a bagagem de ambos estava passando pela mesma esteira. Veio a primeira mala, oba! Vi a filha pródiga que me foi tomada em Dublin, ufa! E fiquei no aguardo das outras duas. 10 minutos, 20 minutos. “Deve ter mala de mais de 500 passageiros aí, dois voos, por isso que tá demorando“- me consolei. 30 minutos, quase ninguém mais esperando mala e apenas meia dúzia delas rodando na esteira. Fui perguntar a um funcionária que estava supervisionando a esteira se ainda havia malas dos voos de Frankfurt e o ser humano, muito grossamente, me diz que não fazia ideia e que se a minha mala não tivesse chegado ainda eu tinha é que tratar com a companhia aérea.

E lá fui eu ao guichê da Lufthansa, aquela companhia que como vocês sabem, eu gosto muito (recomendo a todos os inimigos, inclusive). Tive que descrever as duas malas (sendo uma delas uma mala gigante verde-fluorescente-cheguei) e citar 3 itens que havia em cada uma (como se eu me lembrasse depois de ter feito 4 malas, né?). Milagrosamente, uma das malas apareceu no aeroporto, mas a verde havia sido extraviada, de fato. Passei no free shop (momento mulheres rycas) e voltei ao guichê para assinar uma declaração para a Polícia Federal de que não tinha bens tributáveis na mala extraviada e tive que passar pela fila da Polícia Federal, mesmo não tendo nada a declarar. Sacanagem, né?

Os funcionários da Lufthansa me informaram que num prazo de 2 a 3 dias, me ligariam para informar se a mala havia sido achada. Caso contrário, eu teria que fazer uma descrição detalhada de tudo que havia dentro dela e a companhia aérea calcularia um valor de indenização. Eu contei que esta mala pesava quase 34kg? 😦

Saí do aeroporto lá pelas 7h15, carregando meu sobretudo no braço porque não estava frio (estava uns 14 graus, mas isso já nem é mais frio pra mim, vamos combinar), chateada e sem a mala que tinha 90% das minhas roupas.

Achei São Paulo muito feia (a mesma impressão que tive ao chegar dos EUA, mas depois passa), achei o modo de se vestir das pessoas esquisito (acho que me acostumei às esquisitices de Dublin) e tudo parecia estranhamente novo e familiar ao mesmo tempo.

Cheguei em casa meio agitada e só consegui dormir depois do almoço. Aliás, dormi das 13h até às 6h da manhã do dia seguinte. Acordei umas 3 ou 4 vezes nesse tempo para comer, tomar banho e discutir (né?). Eu estava exausta!

E assim terminou minha “jornada” de volta para casa.

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Uma viagem muito louca

Eh, voltei para o Brasil, mas não pense que as 21h que se passaram entre a hora que saí da minha então casa em Dublin até chegar na minha agora casa em São Paulo não foram cheias de emoções e trapalhadas. Ou você acha que este post tem título de filme de Sessão da Tarde de graça?

Tudo começa com as malas. Eu não sou daquelas que consegue montar a mala dias antes da viagem, então, às vésperas de voltar, não sabia bem se precisaria de 2 ou 3 malas para levar minha vida de volta para o Brasil. A ideia era levar apenas 2 malas despachadas, mas aos 45 do segundo tempo notei que sou muito apegada às coisas materiais, bem estilo Material Girl da Madonna, e não consegui me desfazer das minhas posses. Nota mental: Viver à lá Chris McCandless qualquer dia desses, mas sem me meter no meio do mato.

Arranjei uma terceira mala e lá fomos nós para o aeroporto: eu, duas flatmates lindas e maravilhosas, 4 malas e uma mochila. Como o voo era à tarde, resolvi ir de ônibus e no caminho encontramos uma brasileira indo para o aeroporto também. Eu meio nervosa, querendo me distrair, puxei papo com ela e me arrependi 5 minutos depois. A menina era daquelas que foi au pair nos EUA e mora na Europa (tipo eu), e acha que Brasil é uma merda e a Europa é vida (tipo eu, só que não) e ficou com esses papinhos de ter necessidade de morar em Portugal, porque, né, que retardado iria querer morar no Brasil? Convencida de que eu não precisava ouvir isso naquele estado de nervosismo de quem volta para o Brasil depois de 1 ano fora, virei a cara para a janela e deixei a menina falando com as flatmates (sorry, meninas, mas estava quase vomitando ouvindo o ser humano).

Ou eu calculei mal o tempo ou o motorista era muito lerdo (segunda opção, os motoristas de Dublin são a cara da lerdeza) e já estava tensa pelo horário quando finalmente chegamos ao aeroporto faltando 1h30 para o voo decolar. Fiz check-in, paguei excesso de bagagem pela minha 3ª mala despachada (165 euros, diga-se de passagem), me despedi das meninas, passei pela segurança e fui procurar o portão 311. Naquele misto de emoções, eu meio avoada, me dei conta que fui parar no lugar errado e quando tentei voltar, tá dáááá: no way out! A porta era bloqueada e não havia como eu voltar. Faltando 20 minutos para começar o embarque, eu estava perdida dentro do aeroporto. Como eu saí de lá? Eu SAÍ, literalmente! Fui parar na fila da imigração que tinha apenas um oficial para atender. Comecei a pedir desesperadamente para os primeiros da fila me deixarem passar, pois estava atrasada, até que um casal de americanos me deixou passar na frentes deles, e o asiático da frente, comovido com minha cara de loser, me deixou passar também. Já estava esperando ser barrada lá, porque, né, eu só tinha uma desculpa esfarrapada de que saí pelo portão errado e não deveria estar ali.

– Oi! Eu me perdi no aeroporto e precisei sair para ir para o portão certo. Meu voo para Frankfurt sai daqui a pouco!
– Ah, vai reto aqui pelo corredor até o final, suba e procure as plaquinhas de voos de conexão. (e nem olhou meu passaporte – e se eu estivesse mentindo?)

Cheguei, novamente, na segurança do aeroporto. A essa altura já estava suando até pela sola do pé. E lá vamos nós tirar bota, cinto, lenço e apitar no detector de metais (engraçado que da primeira vez não apitou) e ser apalpada revistada pela funcionária. Desta vez olhei as plaquinhas com mais atenção e consegui chegar no portão quando a fila se formava para o embarque, molhada de suor.

Ainda consegui fazer umas ligações de última hora na fila. Quando entrego meu bilhete para a agente de embarque, ela me lança um olhar do mal e diz que minha mala é muito grande para ir comigo na cabine, pega a balancinha e diz que o limite de peso é 8kg e a minha tinha mais (eh, tinha mesmo). Falei que iria colocar os kilos extras na minha mochila, então, simples. Aí começou uma pequena discussão (porque eu sou bocuda e argumento com o pessoal da companhia aérea, mesmo sabendo que eu posso ficar sem minha mala ou parte das minhas posses):

– Não, porque sua mala é muito grande e você só pode levar uma mala de mão.
– Mas isto não é uma mala, é uma mochila.
– Não importa, é muito grande.
– Meu destino final é o Brasil e quando vim, eu pude trazer a mala e a mochila comigo.
– Ah eh? Não sei disso.
– Tem muita gente embarcando com mala e bolsa (apontei a galera passando), isto não é justo!
– Sua mala é muito grande e você só tem direito a uma na classe econômica. Você pode despachá-la ou deixá-la aqui.
– E quanto você vai me cobrar para despachar a mala?
– Não estou te cobrando nada, mas se você quiser pagar, fique à vontade. (e este é o treinamento que a Lufthansa dá aos funcionários!)
– É seu trabalho me informar isso!
– Sua mala não tem nem etiqueta de mala de mão, você não mostrou ao fazer check-in.
– A atendente não me perguntou sobre minhas malas de mão e não sou obrigada a saber disso, não sou eu que trabalho para a Lufthansa. Ela deveria ter me orientado sobre as malas de mão (na verdade, eu sabia de tudo, mas o fato é que a moça do check-in realmente deveria ter perguntado sobre as malas de mão, né?)
– É obrigação do passageiro apresentar todas as suas malas ao fazer check-in. Você vai despachar a mala ou deixá-la aqui?
(muuuuuito frustrada)
– Você tem algum lacre para eu colocar na mala?
– Não, não tenho.
– Qualquer um pode abrir a minha mala, a Lufthansa se responsabiliza se algo estiver faltando quando eu chegar no Brasil?
– Nós não abrimos malas. (inocência ou ironia?)

Abri minha mala de mão, tirei os itens de valor e amarrei um lacinho prendendo o zíper. Não iria impedir ninguém de abrí-la, mas pelo menos não seria fácil demais. Fui a última passageira a embarcar num voo lotado para Frankfurt, lançando um último olhar à minha malinha e me perguntando se a veria novamente.

O voo decolou às 18h15, horário local, e a viagem toda durou 1h30. Acostumada ao padrão Ryanair, achei estranho quando serviram um lachinho, uma saladinha com torradas. O voo foi tranquilo, mas eu tenho o dom de me sentar perto de pessoas que cheiram mal, acontecia sempre nos ônibus de Dublin. Foi um voo tenso, vários odores e eu não via a hora de chegar!

Saí do avião e tinha 1h para embarcar no voo para São Paulo. Quer dizer, 1h para o avião decolar, o embarque começaria 40 minutos antes. Coloquei a mochila nas costas e fui seguindo as placas muito atentamente desta vez (porque imagina a confusão se eu me perdesse novamente?) e uns 15 minutos de caminhada depois, cheguei a segurança (terceira vez no dia). Para variar, o detector apitou quando passei e fui, mais uma vez, apalpada revistada.

Meu celular toca e um policial da GARDA se identifica, falando sobre laptops roubados. Juro que se ele estivesse ligando para avisar que haviam achado meu laptop eu iria xingá-lo, porque isso não se faz! Ligar para pessoa com uma notícia dessas no dia que ela está deixando a Europa nas lembranças? Mas não, era só para me perguntar se quando levaram meu laptop eu recebi uma ligação pedindo “resgate”, porque havia acontecido um caso assim na região que ele atendia e queria apenas checar se os crimes eram parecidos. Ah bom, né?

Embarquei sem grandes problemas no voo para o Brasil (já tinha dado de causar na Europa), pronta para as próximas 11h20 de viagem.

[continua]