Cracóvia, Polônia

Chegamos em Cracóvia à noite e fomos procurar um restaurante (note que eu disse restaurante, não McDonalds! Sim, porque na Polônia é tudo muito barato!). Fomos a um próximo ao hostel mesmo. Pedi uma sopa com um enroladinho e foi tão barato que quase não acreditei!

No dia seguinte fomos a Auschwitz e apesar de termos chegado no hostel por volta de 17h, não havia muita coisa para se fazer depois… Um dos pontos negativos de se viajar pela Europa no inverno é que às 16h já está escurecendo e museus e afins fecham mais cedo e, portanto, o dia não “rende” muito. Então, resolvemos visitar um shopping da região e jantar (num restaurante, novamente).

No dia seguinte acordamos cedo para ver algumas atrações turísticas da cidade, como o Wawel Castle e a Main Square, antes de fazer um tour a pé. Não estava muito frio (temperaturas pouco abaixo de 0 grau, mas era um frio bem suportável) e a cidade estava coberta de neve.

O castelo de Wawel foi construído para Casimiro III no século XIV e após a primeira guerra, se tornou um prédio do governo e em seguida, residência oficial do presidente. Finalmente, após a segunda guerra, o castelo foi transformado em museu.

Wawel Castle
Wawel Castle

Não achamos interessante entrar no museu e nem tínhamos tempo também. Em frente ao castelo há a escultura de um dragão, que é o símbolo da cidade. Diz a lenda que o dragão estava matando pessoas e animais do reino e o rei ofereceu a mão de sua filha e mais metade de seu reino para aquele que o matasse. Um humilde sapateiro enganou o dragão ao deixar um carneiro recheado com enxofre e alçafrão. Ao comer, o dragão sentiu muita sede e ao beber uma enorme quantidade de água, explodiu. O sapateiro se casou com a princesinha.

Símbolo de Cracóvia
Símbolo de Cracóvia

O centro velho da cidade é rodeado por um parque. Imagino como deve ser agradável passear por ele nos meses de verão! Quando fui, estava todo branquinho.

Park... snow...
Park… snow…

Existe algo muito legal em Cracóvia (mas não só lá) que são os free walking tours. Há várias empresas que oferecem tours pagos, mas esta oferecia dois gratuitos: um pelo centro da cidade e outro pela Cracóvia judia. Achamos a segunda opção muito mais interessante e fomos encontrar a guia no local e horário marcados.

Começamos pela sinagoga mais antiga da cidade, que durante a segunda guerra virou depósito de explosivos e acabou tendo seu teto destruído após uma explosão. Hoje em dia não é mais uma sinagoga, mas uma espécie de museu. Visitamos também o então bairro judeu Kazimierz. Após o fim da segunda guerra, os prédios do local permaneceram abandonados, pois seu donos não retornaram. Assim, o governo disponibilizou as casas para dependentes químicos e pessoas sem condições. Com o tempo, o bairro se tornou um lugar perigoso, mas nas últimas décadas decendentes dos antigos donos passaram a administrar as propriedades e hoje em dia é um lugar seguro com muitos restaurantes judeus. Algumas cenas do filme “A lista de Schindler” foram gravadas lá.

Kazimierz
Kazimierz

Visitamos outras sinagogas e locais importantes, sempre com explicações da guia. Ela nos disse, por exemplo, que antes da segunda guerra, 1/3 de todos os judeus europeus eram poloneses e 1/4 da população de Cracóvia era judia. Hoje, há apenas 100 judeus registrados na cidade.

No meio do tour, paramos numa cafeteria onde tomei o melhor chocolate quente da minha vida. Eu sei que isso não tem nada a ver com o tour (apesar de termos sido levados lá pela guia), mas quem me conhece sabe que adoro um chocolate quente (já que não bebo café) e este, sem dúvida, foi o melhor que já experimentei!

Lugar do melhor chocolate quente do mundo!
Lugar do melhor chocolate quente do mundo!

Seguimos para o local onde ficava o gueto judeu. O gueto foi estabelecido em março de 1941 e 15 mil judeus tiveram que ocupar uma região onde antes habitavam apenas 3 mil pessoas. Como consequência, cada apartamento do local poderia abrigar até 4 famílias. O gueto era cercado por muros e apenas aqueles que trabalhavam nas fábricas tinham permissão para sair. Em março de 1943, o gueto foi “liquidado”. Dos 9 mil habitantes que ainda restavam, 7 mil foram mandados para campos de concentração e outros 2 mil, considerados inaptos para o trabalho, foram assassinados dentro do próprio gueto.

No local, hoje, há várias cadeiras apontando para o campo de Plaszow para onde os judeus foram levados. As cadeiras simbolizam os judeus que foram obrigados a esperar pelo seu destino na praça. Como sabiam que a seleção demoraria, muitos levaram cadeiras e quando todos foram finalmente levados, foi apenas isto que sobrou.

Gueto judeu
Gueto judeu

A visita terminou em frente a fábrica de Schindler, que hoje é o museu do Holocausto. Havia a opção de visitar o museu com a guia do tour (pago), mas decidimos visitar por conta própria. O tour guiado foi excelente e com certeza não teria sido a mesma coisa visitar Cracóvia sem as explicações da guia, mas dentro de um mudeu achei dispensável.

Fábrica de Schindler - portões originais
Fábrica de Schindler – portões originais

O museu conta a história desde setembro de 1939, quando a Polônia foi invadida até o fim da guerra. Abaixo, algumas fotos que tirei dentro do museu.

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Nomes das pessoas salvas por Schindler

DSC02129 DSC02096 DSC02085 DSC02072 DSC02074 DSC02080Quando terminamos a visita já estava escuro, o que significa que não havia mais nada para se fazer. Fomos ao shopping novamente e voltamos para o hostel. No dia seguinte teríamos que acordar bem cedo para pegar o trem para a última cidade da nossa viagem.

Auschwitz-Birkenau III

De um campo a outro são cerca de 3km. A mesma van que nos pegou no hostel, nos levou a Birkenau.

Cercas de Birkenau
Cercas de Birkenau

Os trilhos do trem vão até dentro do campo e na própria “plataforma” era feita a seleção. Após explicar detalhes dos trilhos, trens e seleção, a guia nos disse que faríamos exatamente o mesmo caminho feito pelos recém-chegados que iam para a câmara de gás. Foi forte.

Câmara de gás destruída pelos alemães antes de abandonarem o campo
Câmara de gás destruída pelos alemães antes de abandonarem o campo

Em seguida, entramos nos prédios onde os prisioneiros dormiam e a guia reassaltou que o inverno polonês poderia ter temperaturas de até -20 graus e, mesmo assim, não havia qualquer tipo de aquecimento nos prédios e os prisioneiros não recebiam nenhuma roupa extra para aguentar o frio. Visitamos também o “banheiro”, local sem condição nenhuma de higiene e nenhuma privacidade.

Banheiros de uso comum
Banheiros de uso comum

E como praticamente tudo no campo era feito pelo próprios prisioneiros, eles deveriam limpar o banheiro também. Mas por incrível que pareça, este era um dos trabalhos “bons” de Auschwitz. Primeiro porque os prisioneiros só poderiam ir ao banheiro de manhã ao acordarem e à noite quando voltavam do trabalho e trabalhando com a limpeza, o acesso ao banheiro era livre (lembrando que diarréia era um sintoma comum entre os prisioneiros devido a várias doenças). Segundo, porque ficavam tão mal cheirosos que os guardas do campo não chegavam perto nem para bater.

Birkenau
Birkenau

Em Birkenau foi construído um memorial para as vítimas e há uma pedra de mármore com uma mensagem escrita em cada uma das línguas faladas pelos prisioneiros. Comovente.

Memorial
Memorial
"Que este lugar seja sempre um pranto de desespero e um aviso à humanidade, onde os nazistas assassinaram cerca de um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, principalmente judeus de vários países da Europa."Auschwitz-Birkenau 1940-1945
“Que este lugar seja sempre um pranto de desespero e um aviso à humanidade, onde os nazistas assassinaram cerca de um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, principalmente judeus de vários países da Europa.”
Auschwitz-Birkenau 1940-1945

Terminada a visita, saí dos campos refletindo muito e até agora às vezes me pego pensando nas coisas que vi ali. Uma cena muito forte em Auschwitz é da sala onde estão 2 toneladas de cabelos raspados dos prisioneiros. Não é permitido fotografá-los. Ver objetos pessoais de pessoas que foram tratadas de forma desumana choca, mas ver seus cabelos comove de uma forma que não consigo expressar com palavras. E por que os nazistas raspavam os cabelos? Retorno financeiro, como tudo que exploravam nos campos. Os cabelos eram vendidos para a indústria têxtil e as cinzas dos prisioneiros poderiam virar fertilizante.

Este memorial foi colocado em todos os lugares onde cinzas humanas foram encontradas
Este memorial foi colocado em todos os lugares onde cinzas humanas foram encontradas

Como contei no início do primeiro post sobre Auschwitz-Birkenau, sempre me interessei por esta parte da história. Já li alguns livros, reportagens e vi alguns flmes relacionados ao tema, então, achei que seria interessante indicar alguns.

1. A vida é bela

A vida é belaFilme italiano de 1997 com direção de Roberto Benigni e é um dos meus preferidos. Guido e seu filho são levados para um campo de concentração, mas o pai consegue fazer com que o filho acredite que estão participando de um grande jogo e o menino não percebe o meio em que está inserido. O final é comovente.

2. O menino do pijama listrado

Eu sempre digo que primeiro se deve ler o livro para em seguida ver sua adaptação ao cinema, mas neste caso, fiz o caminho inverso. Bruno é filho do comandante de Auschwitz e fica frustrado ao ser obrigado a deixar Berlin para viver ao lado do campo. Aos 8, 9 anos, ele não entende o que acontece à sua volta e adora sair para explorar. Conhece, então, um menino que está sempre vestindo “pijama” e viram amigos. A linguagem do livro é muito simples, pois a história é contada à partir do ponto de vista de uma criança.

3. Bastardos Inglórios

O filme mistura ficção e realidade e é bem para o gosto daqueles que adoram ver sangue. Um grupo de soldados judeus tem a missão de matar de forma cruel o maior número possível de nazistas e Shosanna é uma judia que conseguiu fugir de um massacre que matou toda a sua família e agora dirige, com um nome falso, um cinema em Paris. Eles se encontram e o final é interessante, eu diria.

4. A lista de Schindler

O filme foi rodado em Cracóvia e após visitar alguns locais que aparecem nas cenas, fiquei com muita vonta de assistí-lo (porque apesar de passar todos os dias no SBT desde que eu tinha uns 8 anos, eu nunca tinha visto!). São mais de 3h, mas o filme é maravilhoso! Conta (de forma romanceada, claro) a história de Oskar Schindler, um membro do partido nazista que se simpatizava com os judeus. Quando o gueto judeu foi extinto, gastou sua fortuna (conquistada com o trabalho escravo de judeus) salvando o maior número possível de pessoas exigindo que levassem todas para trabalhar em sua fábrica. Lá, os prisioneiros tinham condições mais dignas de vida e não sofriam nenhum tipo de punição ou tortura.

5. O diário de Anne Frank

Anne Frank
Anne Frank

Já li o livro 3 vezes, sendo que a primeira vez foi aos 14 anos. Anne Frank era uma alemã judia que havia se mudado para a Holanda com a família fugindo dos nazistas. Infelizmente, a Holanda também começou a deportar judeus e sua família se escondeu em um “anexo secreto” num prédio comercial que era de seu pai. A menina manteve o diário por mais de 2 anos, até que sua família foi denunciada e enviada a Auschwitz. Recentemente descobri que há uma adaptação para o cinema de 1959! Para quem se interessar, basta digitar “O diário de Anne Frank” no YouTube e encontrará o filme completo.

6. Auschwitz: The Nazis and the Final Solution

Excelente documentário da BBC de 6 episódios sobre a história do campo que assisti logo antes de viajar. Traz muitos relatos de sobreviventes e até de um guarda que trabalhava no campo. Sei que a BBC tem mais alguns documentários sobre o tema, é só dar uma pesquisada!

7. A queda – As últimas horas de Hitler

Filme alemão de 2004 que, enfim, o título é autoexplicativo. A secretária de Hitler conta como foram seus últimos dias escondido em seu esconderijo de segurança máxima. O filme tem 2h e meia e pode ser um pouco cansativo se você não estiver realmente interessado.

8. O pianista

Filme dirigido por Roman Polanski. O diretor é franco-polonês e viveu no gueto de Cracóvia, de onde conseguiu fugir antes de ser enviado a Auschwitz. O filme conta a história de um pianista judeu que consegue fugir dos soldados nazistas e se esconde em prédios abandonados até que a guerra acabe.

Sei que há muitos outros filmes, livros (ficcionais ou não) e documentários sobre esta parte da história e estas são apenas algumas sugestões. Vi nas livrarias aqui da Irlanda um livro chamado “The dark charisma of Adolf Hitler” da BBC e estou seriamente pensando em comprar. Ah, tem o documentário de mesmo nome.

A próxima parada da viagem também foi marcada pelas lembranças do horror nazista.