Conversando com o diretor – Parte 1

Como parte do meu estágio na escola primária finlandesa, tive a oportunidade de conversar com o diretor. Conversamos por aproximadamente 2 horas e ele respondeu todas as minhas perguntas e com toda a paciência e boa vontade do mundo me ajudou a entender um pouco mais como funciona o sistema de educação do país, agora de uma perspectiva de quem precisa lidar não só com a educação em sala de aula, mas com orçamento e outras burocracias.

O diretor trabalha na área de educação há quase 25 anos e ele também dá aulas. Segundo ele, ser diretor não é uma função exclusiva e a única diferença entre ele e os os outros professores da escola é que ele fez cursos para poder exercer a função. A conversa foi bem longa e não teria como detalhar tudo que conversamos em um post, então vou destacar e resumir os assuntos mais relevantes a seguir.

Currículo

Assim como muitos países, a Finlândia tem um currículo nacional que deve ser seguido no país todo. Porém, de acordo com o diretor, ele é uma referência do que deve ser feito, mas não deve ser seguido à risca, pois há também um currículo local que leva em conta as peculiaridades e necessidades de cada região e, por fim, um currículo da própria escola. Trocando em miúdos, isto significa que sim, eles seguem o currículo nacional, mas têm a liberdade de adicionar ou adaptar o que for necessário para que este currículo fique o mais “customizado” possível para atender às necessidades dos alunos daquela região. Portanto, escolas de regiões diferentes não vão, necessariamente, ensinar exatamente as mesmas coisas. A filosofia por trás disso é de que igualdade não é oferecer a mesma coisa a todos, mas oferecer a cada um o que ele precisa. E eu, particularmente, concordo muito com esta visão de mundo.

Profissão: professor

Um diferencial na educação finlandesa que eu nunca vejo ser citado em nenhuma reportagem ou artigo (publicado no Brasil) sobre o tema é o prestígio da profissão: ser professor na Finlândia é ter o respeito da sociedade pela importância da sua função na comunidade. O professor tem prestígio, respeito dos alunos, dos pais e da população. Apesar de o salário dos professores não estar entre os mais altos, ainda é uma profissão muito procurada e concorrida. Na Faculdade de Educação da Universidade de Oulu, por exemplo, apenas 10% dos inscritos são selecionados e isto não é apenas um número, isto traz algumas implicações. Por ser uma carreira muito procurada, a concorrência é grande e, assim, os 10% mais preparados são selecionados – lá no comecinho, então, “os melhores” já começam na carreira. Junte-se a isso o fato de que todo o curso de graduação é composto por 3 anos de bacharelado seguidos por 2 anos de mestrado. No começo, eu não entendia direito porque era um diferencial tão grande ter mestrado, já que no fim das contas eles teriam estudado 5 anos, o que é menos tempo do que eu estudei para ser bacharel e licenciada em Letras, mas com o tempo a relação ficou clara: no mestrado aprendemos a fazer pesquisa, ou seja, a nos virar para estudar e aprender como achar a informação confiável e relevante. Um professor que sabe se preparar, sabe como pesquisar, como encontrar o que precisa, certamente saberá como planejar sua aulas. E isto tem um impacto enorme no trabalho de professor.

O professor fora da sala de aula

Além de falarmos do que é ser um professor na Finlândia, também conversamos sobre outros aspectos da profissão. Como já ficou claro no post, o professor é muito respeitado na comunidade e a consequência é que há uma relação de confiança muito grande. O diretor confia que seus professores sabem o que estão fazendo e, consequentemente, estão fazendo seu melhor. Logo, não há qualquer tipo de fiscalização, por assim dizer, do trabalho do professor. O diretor não faz avaliações, observações de aula ou checa planejamento – cada professor tem a liberdade de planejar suas aulas como achar melhor e ninguém questiona sua decisões. Os pais, por confiarem no trabalho, agem da mesma forma e cooperam com o professor ao invés de questioná-lo. E, como já citado, o professor sai da faculdade mestre e com uma boa formação na área, isto não significa que cada um faz o que quer, mas que fazem o que sabem que será o melhor para seus alunos.

Por outro lado, como os professores não trabalham no verão – junho e julho – e nem nos breaks – inverno, outono e Natal/Ano Novo -, para não ficarem sem salário, é calculado o valor mensal do pagamento baseado no número de aulas. Este total é multiplicado pelos 9 meses que eles efetivamente trabalham e, então, dividido por 12 meses para que recebam salários todos os meses. Pois é, nem tudo é tão maravilhoso, nem na Finlândia!

No próximo post continuo contando sobre a conversa com o diretor.

 

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Estágio – Peculiaridades do ensino finlandês

No post anterior comecei a contar sobre meu estágio na escola finlandesa. Este estágio surgiu por acaso, já que eu estava mesmo tentando achar algo em alguma ONG brasileira, mas no fim das contas, fiquei satisfeita de não ter obtido resposta de nenhuma das ONGs e acabar estagiando numa escola local. Como professora, posso dizer que a experiência foi excelente e pude ver na prática o que já havia lido na teoria em vários artigos sobre a educação no país. Neste post vou contar mais um pouco sobre esta experiência e o sistema de ensino.

Aulas de inglês

Até 2015, os alunos começavam a ter aula de inglês no 3º ano (com 9 anos de idade), mas com a implementação do novo currículo em 2016, as aulas de inglês começam no 2º ano. Eu pude observar algumas aulas do 2º ano e também dar algumas aulas. Os professores ainda estão “testando” o novo currículo e deixam bem claro que tudo ainda é uma experiência.

De modo geral, nas aulas os professores e os alunos recorrem muito a primeira língua (finlandês) para ensinar inglês. Quando estava trabalhando com os 6ºs anos, por exemplo, todos os textos que entregava os alunos, literalmente, traduziam em finlandês no caderno e eu observei que era uma atitude natural, ou seja, algo que já estavam habituados a fazer em aula. O material didático também recorre a tradução o tempo todo para ensinar inglês.

Conversando com os professores, perguntei se existia algum tipo de escola de idiomas particular (como as que temos no Brasil) ou se os alunos aprendiam inglês apenas na escola. Eu fiquei muito surpresa quando a professora falou que todo o inglês dos alunos é aprendido apenas na escola. No 6º ano, os alunos já dominam o idioma suficientemente bem para se comunicarem em situações do dia a dia e o ensino continua até o fim do ensino médio. Além disso, os alunos tinham 2 aulas semanais de inglês, sendo que em uma delas a turma sempre era separada em duas e fazia a aula em horários diferentes. Segundo a professora, isso acontecia para dar mais oportunidade aos alunos, já que a atenção da professora não era dividida com uma turma inteira.

Porém, de modo geral, os finlandeses são muito tímidos e humildes para reconhecerem que falam inglês bem, então uma situação muito comum é um finlandês ter vergonha de conversar em inglês e se desculpar muito pelo “péssimo inglês”, o que não é verdade. Minha experiência morando em Oulu é que qualquer finlandês com menos de 40 anos tem um nível de proficiência suficiente para se comunicar, mesmo que cometa erros ou tenha um sotaque muito forte, o que prova como o ensino de idiomas no sistema público de educação é bom. Claro que algumas pessoas têm mais facilidade/interesse que outras e falam melhor, mas isto se aplica a tudo, né? Matemática, Biologia, Física etc.

Outros idiomas

Além do inglês, sueco também é obrigatório, pois é a segunda língua oficial do país. Eles só começam a aprender sueco lá pelo 5º ano e, pelo o que notei, não são tão fluentes no idioma como em inglês, talvez até porque não necessitem tanto usar no dia a dia quanto o inglês. Além dos dois idiomas obrigatórios, as escolas costumam oferecer outros idiomas como aulas extras após o período de aula – geralmente espanhol ou alemão. Os alunos que optarem por fazer mais um idioma, não pagam nada a mais, já que o ensino é completamente gratuito.

Aulas optativas

Os alunos da escola primária têm o professor de sala e o professor de inglês/sueco. Na escola onde fiz estágio, eles também poderiam escolher entre fazer aula de trabalhos manuais voltada para artesanato ou marcenaria e afins. Apesar de toda a fama de ser um país com mais igualdade de gênero, alguns estereótipos são os mesmos: eu só vi meninas na aula de artesanato e os meninos todos na aula de marcenaria. Não acompanhei nenhuma aula de marcenaria, mas na de artesanato a professora ensinava a fazer decoração de Natal. Eu gosto muito de trabalhos manuais e acho que teria adorado ter uma aula dessas na escola, ainda mais porque tudo que os alunos fazem tem alguma ligação com a vida fora da escola – quando visitei a escola no verão, as meninas estavam aprendendo corte e costura fazendo saias, por exemplo. Notei que todas as mulheres finlandesas sabem tricotar e todas aprenderam na escola – e saber tricotar uma boa meia ou cachecol na Finlândia é realmente uma habilidade necessária! 🙂

Alunos especiais

 Há um imaginário que no sistema finlandês há a inclusão total. Na verdade, é o que vendem: “nenhum aluno é deixado de fora”. Por um lado, como o sistema é público e trabalha de acordo com a necessidade dos alunos, isto é verdade, mas por outro, não significa que todos os alunos estarão juntos em sala de aula sem qualquer tipo de “segregação”. Os alunos com dificuldades são separados da turma para aula de reforço. Numa turma de 6º ano, duas irmãs gêmeas que tinham muita dificuldade com inglês não participavam das aulas com os demais alunos e faziam exercícios extras em outra sala. As mesmas irmãs e uma outra aluna tinham dificuldade com as aulas de finlandês e as 3 iam para outra turma ter aula com uma professora especial. Nesta aula, com menos alunos, elas podiam ir no próprio ritmo e, assim, ter a oportunidade de aprender também.

Religião

A maioria da população finlandesa é luterana e a aula de religião “padrão”, então, é luterana. Mas o sistema impõe que a religião de cada aluno seja respeitada, portanto, caso o aluno professe outra fé, a escola é obrigada a contratar um professor para dar aulas daquela religião para o aluno. Descobri isso um dia, depois do horário de aula, quando vi uma aluna sozinha com uma professora em uma sala e perguntei a A., a professora de idiomas, o que estava acontecendo. Foi quando ela me explicou que a aluna era católica ortodoxa e como não participava da aula de religião com os demais alunos e era a única na escola, ela ficava depois do horários para ter estas aulas. A A. também me explicou que se a família não tem nenhuma religião, a criança tem aula de ética. Já perguntaram o que aconteceria se a criança fosse do candomblé ou umbanda, ou até mesmo espiritismo… bem, primeiro que eu acredito que não tenha essas religiões por lá ainda, já que são “brasileiras”. Caso isso acontecesse, eu não sei se a escola poderia prover uma aula especial a estes alunos, pois precisariam de professores capacitados. Meu “chute” é que talvez a criança participasse da aula de ética, mas eu realmente não tenho uma resposta final para esta pergunta.

Continua… 😉

Como é fazer estágio numa escola finlandesa?

Antes de começar meu estágio, a A., professora de idiomas, e eu tivemos uma reunião para discutir como aconteceria tudo. Ela me perguntou o que eu gostaria de fazer na escola e me deu sugestões também. Foram 6 semanas consecutivas de estágio e eu ia para a escola 3 vezes por semana em média. A cada 2 semanas nós fazíamos outra reunião para discutir o planejamento das semanas seguintes. Além de acompanhar a professora A., que dá aulas do 4º ao 6º ano, também pude acompanhar aulas com o professor da turma de um 5º  ano e de uma professora de um 2º ano.

Bia, a estagiária

Com a professora A., eu desenvolvi um projeto sobre desenvolvimento sustentável, desta forma, eu não estava ensinando inglês, mas ensinando algo em inglês. Os 6ºs anos fizeram cartazes após finalizarmos o projeto. Com o 5º ano, eu planejei aulas de diversos temas e também falei um pouco da cultura brasileira. Com o 4º ano, a professora dividia a turma em duas e enquanto eu desenvolvia as atividades com metade da turma, a professora trabalhava com a outra. Elaborei também revisões de conteúdo utilizando recursos tecnológicos para engajar mais os alunos e foi muito legal. Tive a oportunidade de dar várias aulas sozinha e isso foi muito legal também.

Os alunos

 A escola fica num bairro de classe mais alta da cidade e os alunos são quase todos apenas de origem finlandesa. Não vi nenhum aluno negro ou latino, por exemplo, vi apenas um muçulmano e um ou outro aluno era possível notar que um dos pais vinha de algum outro país europeu, como Grécia ou Inglaterra, então diversidade não era exatamente o que eu via em sala de aula.

Em geral, não havia problemas de comportamento entre os alunos, mas isso não significa que eram anjos. Como a escola tem um foco maior em artes, algumas turmas dos 5ºs e 6ºs anos têm aulas extras de arte e, normalmente, as turmas de arte têm mais meninas e as turmas “normais”, mais meninos. As turmas de arte, com mais meninas, eram muito mais tranquilas que as turmas que tinham mais meninos. Não que os meninos não respeitassem a professora, mas ficavam mais dispersos.

De modo geral, os alunos demonstraram curiosidade em ter uma estagiária estrangeira em aula, mas tímidos em conversar comigo, pois só poderiam se comunicar em inglês. Como em qualquer sala de aula, algumas crianças são mais extrovertidas que outras e muitos alunos faziam perguntas em inglês e se comunicavam sem maiores problemas, mas outras crianças simplesmente se recusavam a falar comigo porque não queriam de jeito nenhum falar em inglês. Nestas situações, recorriam a professora A., com quem poderiam falar finlandês.

Alunos brincando na troca de aulas
Alunos brincando na troca de aulas

Tive algumas situações engraçadinhas/fofas com alguns alunos. Um aluno do 4º ano, por algum motivo, gostou muito de mim e sempre vinha falar comigo e perguntava de mim para a professora quando eu não ia para a escola. Um dia, na saída da aula ele olhou para mim e disse “I like you very much” e saiu correndo. Gente, é um finlandês expressando seus sentimentos, indo completamente contra o estereótipo dos finlandeses! haha… brincadeiras à parte, foi engraçadinho. Numa outra aula, também num 4º ano, eu estava explicando adjetivos e pedia que as crianças me dessem exemplos para checar se elas realmente haviam entendido. Por exemplo, o adjetivo “big” – explicava e pedia que elas dessem exemplos de coisa/animais/objetos que eram “big“. Prosseguindo a aula, chegamos em beautiful e eu pedi exemplos. As crianças diziam butterfly, cat, flowers… até que um menino levantou a mão, me olhou e disse “you“. Jamais esperaria isso de um aluno finlandês! hahaha…

De modo geral, tive uma experiência positiva com os alunos e gostei muito de ver como eles são extremamente independentes porque nenhum adulto os trata como se não fossem. Um exemplo é que eles têm computadores à disposição e acesso a impressora, que é desbloqueada para impressão. Ninguém precisa autorizar/aprovar a impressão que eles enviam e, algumas vezes, os professores nem estão próximos para ver o que eles estão imprimindo e o mais impressionante é que eles realmente imprimem somente o necessário. Num mundo ideal, este meu exemplo é muito bobo, mas no mundo real (pelo menos no Brasil), eu não imagino alunos pré-adolescentes usando um laboratório de informática com essa maturidade. Basta lembrar dos tempos que dava aula e levava meus alunos para usar o computador para praticar inglês e precisa ficar de olho para ter certeza que não estavam entrando em sites que não deviam ou acessando o Youtube. Sim, eu tinha que ter um par de olhos para cada aluno e isso era muito desgastante – não é como se eles não tivessem um celular com planos de dados para acessar o que eles quisessem fora do horário de aula. E falando em celular, a relação dos alunos com o aparelho era algo a ser notado. Não havia nenhuma política de uso de celular em sala de aula e eu não vi nenhum aluno, durante a aula, usando o aparelho, sendo que muitos deles nem traziam para sala e deixavam dentro da mochila no corredor. Quando o uso era permitido, para usar dicionários online, por exemplo, as crianças se limitavam a usar de acordo com a proposta da aula. Ou quando os professores utilizavam tablets, eles também se limitavam a acessar o site indicado para a aula. Mais uma vez, este deveria ser o comportamento normal, mas como não é o que eu vivia dando aula no Brasil, eu realmente encarei com surpresa.

Uso de tecnologia em aula

 Eu acredito que um bom professor é bom com ou sem tecnologia para ajudar na aula, mas tecnologia nenhuma vai transformar uma aula ruim numa aula boa. Porém, já estamos em 2017 e tecnologia faz e muito parte das nossas vidas e hoje em dia a escolha não é mais se a usamos ou não, mas como a usamos (Black Mirror feelings) e é claro que uma aula que já seria boa sem seu auxílio, pode ficar ainda melhor. A escola dá todo o suporte que o professor precisa para não perder tempo em aula, tirando o máximo da tecnologia. Em todas as salas de aula tem um computador, data show e lousa inteligente e isso facilita muito! Sem contar que em Oulu, todo o prédio público tem wifi gratuito e liberado. Os livros usados pela turma estão todos online, então o professor só precisa acessar o capítulo do dia e projetar na lousa. Os exercícios do livro são corrigidos de forma interativa na lousa também – eu fiquei com invejinha boa, porque mesmo dando aula numa escola caríssima de São Paulo, a gente estava muuuuito longe de ter toda essa tecnologia em sala – o que é muito vergonhoso! Além disso, a escola tem muitos tablets e qualquer atividade que o professor planejar e precisar de um por aluno, ele terá. Com toda essa facilidade, eu pude usar algumas plataformas online para praticar vocabulário e fazer revisão com alunos com toda a facilidade. É muito legal porque eles já nasceram nessa era touch screen, então se sentem muito à vontade com tudo isso e tiram muito proveito.

Sobre o inverno: você chega para a aula às 9h e ainda está escuro!
Sobre o inverno: você chega para a aula às 9h e ainda está escuro!

No próximo post continuarei falando do estágio… 🙂

Procurando um estágio

O meu mestrado tem estágio obrigatório e pode ser feito em qualquer instituição ou organização que tem minimamente a ver com educação, ou seja, as possibilidades são infinitas e cada um é livre para escolher uma área que que tiver mais afinidade. Além disso, dependendo das circunstâncias, a universidade dá bolsa. Por exemplo, se o estágio for feito fora da Europa e durar pelo menos 3 meses, o aluno recebe uma bolsa (que seria mais uma ajuda de custo) de 2000 euros.

Pensando nisso, eu tentei procurar estágio em ONGs do Brasil para juntar o útil ao agradável, mas quem disse que as ONGs me respondiam? Eu entrei em contato com mais de 10 organizações brasileiras por e-mail, me apresentando e anexando carta de recomendação da universidade e jamais me responderam, mesmo eu deixando claro que o estágio era não-remunerado. Ok, vida que segue e acabei aceitando um estágio aqui em Oulu mesmo.

Primeira tentativa de estágio

A coordenadora do curso nos enviou um e-mail sobre uma empresa que exportava o sistema de ensino finlandês para outros países e que procurava estagiários. A promessa era que, dependendo do desempenho, o estagiário poderia ser contratado para trabalhar meio-período após as férias de verão. Meus olhos cresceram e resolvi aceitar o estágio. Minha função? Criar apostilas de treinamento para professores numa linguagem simples abordando diferente metodologias. A suposta vantagem é que eu trabalharia em casa, no horário que achasse melhor, e teria que cumprir 125 horas, pois segundo o dono da empresa “125 horas equivalem aos 5 créditos” que eu ganharia pelo estágio.

Eu faço trabalhos freelance de casa e estou acostumada a trabalhar por conta, mas meu problema começa quando eu não tenho data de entrega e, no caso deste estágio, eu não tinha datas, só precisa ir elaborando os textos. Após completar cerca de 25 horas eu já estava bem infeliz com o estágio por motivos de:

1. A ideia de um estágio é aprender e/ou ganhar mais experiência e eu não estava tendo nenhum nem outro, pois não tinha ninguém pra me ensinar nada e a suposta experiência que estava acumulando não era conhecimento útil;
2. O trabalho era muito chato, pois eu basicamente escrevia um essay por semana, já que precisava procurar conteúdo, ler tudo e mastigar a informação numa linguagem mais do cotidiano num texto de 5 a 6 páginas;
3. Passei a me sentir explorada, pois obviamente estava criando conteúdo que traria retorno financeiro a instituição sem receber nada por isso e nem me beneficiar de outra forma;
4. Descobri que uma das estagiárias contratadas receberia pagamento e achei muito cara de pau da parte da empresa negar pagamento quando eu pedi alegando que não tinha dinheiro – a história ficou estranha.

Como eu jamais havia entregue meu acordo de estágio assinado para a coordenação, eu simplesmente informei o dono da empresa que o estágio não estava de acordo com minhas expectativas e que, portanto, eu estava saindo. Melhor decisão de 2016.

Segunda tentativa de estágio

Voltei das férias de verão sem um estágio para chamar de meu e continuei tentando achar algo no Brasil e olha, fico realmente surpresa que ONGs não respondam pessoas que se oferecem para trabalhar de graça para elas. Enfim, aí um dia tive uma ideia. Em maio do ano passado, visitei uma escola primária a convite da professora de idiomas – ela queria uma troca em que os alunos estrangeiros tivessem a oportunidade de conhecer um pouco do dia de uma escola finlandesa e os alunos pudessem conversar com estrangeiros para praticar inglês. Contei sobre a visita aqui. Sem muita expectativa depois do vácuo de ser ignorada por ONGs brasileiras, mandei um e-mail para a professora explicando que eu precisava de um estágio e se ela estaria disposta a me receber em suas aulas. Para minha surpresa, ela não só respondeu, mas aceitou meu pedido e já marcou uma reunião para discutir os detalhes.

O estágio

O estágio precisa ter a duração mínima de 6 semanas ou 125 horas se for um projeto. No caso de o estágio ser feito em escola, é necessário pelo menos 40 horas em sala de aula e o restante das horas entram para planejamento das aulas e elaboração de relatórios. Como foi realizado em Oulu, não tive direito a nenhuma bolsa ou ajuda de custo da universidade. Por outro lado, também não tive nenhum custo, pois ia para o estágio de bicicleta (ótima motivação para fazer exercício) e levava meu próprio almoço (já que eu não curto muito comida finlandesa da universidade e a da escola é igual).

Além disso, ter a oportunidade de estar numa escola finlandesa quase diariamente por 6 semanas é uma experiência muito relevante para o meu currículo de professora e a ideia de pode estar em contato com alunos finlandeses e conversar com os professores realmente me deixou bem empolgada. Felizmente, não me decepcionei.

Nos posts seguintes vou contar como foi esta experiência super bacana e enriquecedora. 🙂

Usando o seguro saúde na Finlândia

Seguro saúde é aquela coisa que a gente faz (porque é obrigado) e espera jamais ter que usar – eu prefiro não ficar doente ao “fazer uso” do dinheiro investido. E é claro que para morar na Finlândia eu precisei fazer um seguro, afinal, era exigência da imigração para emitir o visto. Quando fui para a Irlanda, o seguro não era obrigatório porque a imigração exigia o pagamento de 120 euros (valores de 2012) para usar seu sistema público (e pago) de saúde, mas mesmo assim eu fiz um por conta. Eu precisei usar meu seguro na Irlanda e escrevi sobre isso aqui. Eu tive um pequeno drama contratando meu seguro para vir para a Finlândia e expliquei aqui.

Felizmente, eu sou uma pessoa que raramente fica doente – meu último resfriado foi em 2009. Tudo de ruim que eu tenho é coisa “minha”, não que eu peguei de alguém ou me contaminei, mas não sou imbatível e acabei precisando usar o seguro aqui. No primeiro ano de mestrado eu contratei o SIP e no segundo, o Swisscare e precisei utilizar os dois.

SIP

Eu contratei esse seguro, que é belga, porque foi recomendado pela universidade e quando cotei seguros no Brasil, mesmo pagando em reais e o SIP em euros, ainda era mais em conta contratar o SIP. Infelizmente, não conhecia outros seguros da Europa para cotar e acabei fechando esse mesmo, que não foi o melhor e nem o mais em conta – o que eu só descobri depois.

No meu primeiro ano tive dois probleminhas: micose no pé (eca) e quebrei o dente. Jamais na história dessa indústria vital tinha tido micose na vida, mas tudo tem uma primeira vez! Eram umas bolinhas vermelhas na sola do pé que coçavam muito e fui ao hospital universitário, onde posso me consultar com enfermeiras e clínicos de graça (porque sou obrigada a pagar 55 euros/semestre para a união dos estudantes), e peguei a receita para uma pomada. Mais ou menos na mesma época eu lasquei um pedaço de um molar (como? jamais saberei, quando notei, já estava lascado) e como meus amigos dentistas me disseram que buracos nos dentes podem causar infecções se não tratados, marquei dentista. No mesmo hospital, o check-up oral é gratuito, mas qualquer outro procedimento é pago e é interesse que a cobrança não é por tratamento, mas de acordo com a duração do procedimento. Assim, os primeiros 20 minutos custam 18 euros, por exemplo, e como a dentista foi rápida (nem era um buraco absurdo também), foi esse o valor do meu tratamento.

Como tinha o seguro, lá fui eu atrás do reembolso e a SIP é meio atrasada nesse processo. Eu precisei preencher formulários no computador, imprimir, assinar e enviar tudo pelo correio. Sabe, já era 2016 e eles ainda não tinham um sistema de reembolso online. Após algumas semanas, eles me enviaram um e-mail e decidiram que eu poderia receber 20% do valor pago. O creme custou cerca de 10 euros, ou seja, meu pedido de reembolso foi de uns 28 euros, 20% deste valor dá cerca de 5,60 e descontando 1,20 que gastei do selo, eu fui reembolsada em 4,40 euros! Sério, se eu soubesse que era assim, não tinha perdido meu tempo indo atrás de formulários e correio pra isso. A justificativa deles é que como meu plano era o Complementar (valor de 260 euros/ano), não poderia receber o reembolso integral. Para isso, teria que ter o plano Premium (430 euros/ano). O mais legal é que quando mandei e-mail perguntando a diferença dos dois, jamais me explicaram isso e nem na apólice tinha algo a respeito. A lógica deles é que o plano complementar é pra quem já tem algum tipo de assistência (e eu tinha, já que posso usar o hospital universitário), mas não li em lugar nenhum que isso tiraria meu direito de reembolso integral, considerando que o restante do valor não seria reembolsado pelo sistema de saúde finlandês. De qualquer forma, no fim das contas, ainda compensou o plano mais barato, porque não precisei de nenhum outro tipo de tratamento ou remédio.

Swisscare

Para o segundo ano contratei a Swisscare, empresa suíça, que é muito mais em conta (197 euros/ano) e menos complicada. Você pode contratar o seguro por dias, sendo o limite 365, e vai ficando mais barato valor/dia quanto mais dias você contrata. Além disso, a cobertura é mundial (a SIP era apenas na Finlândia) e o reembolso é integral. É só amor.

Relatei no blog que quando estava viajando pelos países bálticos meu joelho resolveu que era hora de me matar de dor. Eu comprei remédio na Lituânia, mas quando cheguei em Oulu, apesar de melhor, o joelho ainda doía. Cheguei às 7h da manhã vindo de Turku e mesmo após uma noite inteira viajando dentro de um ônibus (eu ainda tenho idade pra aguentar isso, mas sinto que em breve vou parar com essa vida de viagens noturnas), fui direto ao hospital, com mochilas e tudo, ver qual era o problema. Não fui ao hospital universitário porque eles não ligam muito se você está com dor, vão te dar uma consulta pra data mais próxima, que no caso de ortopedista leva um mês (eu já havia passado com o especialista antes porque… tá dááá… estava com dores no joelho). No hospital (Terveystalo), aguardei 2 horas e passei com o médico. Foi patético. Ele pediu para eu tirar a calça e me deitar na maca. Mexeu no meu joelho aqui e ali, fez algumas perguntas e me disse o que eu já havia descoberto no Google: estava com síndrome do trato iliotibial, ou uma inflação na região por conta de ter andado muito. Ele mandou eu repousar e fazer compressas frias e só me deu receita pra medicamento porque eu pedi, já que caso contrário, o seguro não reembolsaria. Essa consulta durou menos de 15 minutos e me custou 125 euros. Cen-to e vin-te e cin-co eu-ros. Como comprei o remédio também, tudo ficou por cerca de 136 euros.

Foto retirada de yle.fi
Foto retirada de yle.fi

A vantagem da Swisscare é que basta preencher os formulários, escanear os documentos e recibos e enviar pelo próprio site da empresa. Muito simples e fácil. No site eles dão prazo de até 6 semanas para processar o pedido e como 6 semanas depois eles ainda não tinham me dado um retorno, resolvi ligar para saber como andava minha solicitação. Não andava, estava lá parada, mas no dia seguinte a minha ligação, me enviaram um e-mail confirmando o reembolso e pedindo cópia do meu passaporte e um comprovante de matrícula da universidade. Enviei e 10 dias depois o reembolso integral foi feito na minha conta. 🙂

Conclusão

Não fique doente no exterior! haha… Mas se ficar, o melhor é ter um seguro descomplicado e a garantia de reembolso integral nestes casos de consultar médico e comprar medicamento. Fica claro que entre o SIP e o Swisscare, eu indico o segundo. Todos os seguros que consultei no Brasil eram muito mais caros que Swisscare, mesmo pagando em euros. Além disso, como já expliquei, ele é bom porque você pode contratar por quantos dias precisar (então, por exemplo, se for fazer uma viagem de 13 dias pela Europa, pode contratar por estes exatos 13 dias) e sua validade é mundial (o de estudante, pelo menos, é). É claro que todas estas informações devem ser confirmadas direto com a empresa, pois as regras podem mudar e é sempre muito importante ler a apólice para saber exatamente o que está contratando. E quando a apólice não é clara e precisar contatar a empresa, faça a pergunta de forma bem direta, senão pode acontecer o que aconteceu comigo quando contratei o SIP achando que o reembolso era integral.

Se você conhecer algum seguro mais em conta e/ou melhor, deixe um comentário. Vai que eu preciso contratar de novo no futuro? 😉

Frio: como lidar?

Sabe aquela pessoa que detesta o verão porque transpira muito, dorme mal e não aguenta de calor? Que prefere um friozinho e se sente muito melhor quando as temperaturas estão mais baixas? Bom, esta pessoa não sou eu! Eu adoro o verão, acho maravilhoso sair de casa usando um vestido ou uma saia bem fresquinha e não me preocupar em levar nem um casaquinho porque vai continuar quente à noite; adoro acordar de manhã num belo dia de verão, pular da cama, abrir a janela e ver aquele céu azul com um baita sol brilhando – isso me enche de energia e me deixa feliz; eu transpiro relativamente pouco e menos ainda se não estiver fazendo nenhuma atividade física e o calor não muda isso; eu consigo dormir maravilhosamente bem no verão e ainda uso meias (porque eu estou acostumada mesmo); e para o calor começar a me incomodar precisa estar chegando perto dos 40 graus. Ou seja, o calor de São Paulo, que costuma ter suas máximas entre 30 e 35 graus no verão, só me deixa feliz. Por outro lado, eu detesto o frio! Em São Paulo, por não termos nenhum tipo de sistema de aquecimento, tem dia que fica mais frio dentro de casa do que fora e eu posso fácil fácil listar vários motivos porque frio não é legal no Brasil:

  • Você vai dormir, a cama está fria;
  • Você acorda e fica morrendo de preguiça de levantar;
  • Aliás, você acorda e fica com medo de sair da cama e enfrentar a vida, porque sabe que assim que se livrar do cobertor vai morrer de frio;
  • É preciso muita coragem pra tomar banho, porque tirar a roupa não é fácil;
  • Quando a temperatura cai muito, não temos roupas quentes o suficiente para nos proteger do frio da rua;
  • A pele fica ressecada;
  • Todos fecham as janelas porque está frio e qualquer lugar fechado ou transporte público se torna uma “sauna” em pouco tempo;
  • Não sei que tipo de pessoa fica mais chique no inverno, porque eu pareço uma mendiga vestindo qualquer roupa que me faça sentir menos frio;
  • Minhas costas doem, pois o frio me faz contrair os músculos e no fim do dia não aguento de dor.

Ah, Bia, mas na Finlândia não é assim, tem aquecimento em todo lugar e mesmo que esteja – 30 lá fora, dentro de caso está quente. Eh, mais ou menos. Vai aí outra lista de como o frio é horrível quando o fator “falta de aquecimento” é eliminado:

  • O inverno é escuro;
  • A pouca luz pode causar muitos efeitos negativos na vida de uma pessoa, como eu já falei aqui;
  • Sair de casa e chegar em casa é sempre um ritual: colocar/tirar camadas e camadas de roupa, touca, luvas, cachecol, meias grossas, botas etc;
  • E mesmo que você esteja adequadamente vestido para a temperatura, isso não significa que você vai poder ficar horas na rua de boa – o rosto normalmente fica exposto e se faz -30, por exemplo, não é frio que você sente, é dor;
  • Os pés e as mãos doem de frio depois de um tempo na rua;
  • O aquecimento é maravilhoso, levantar de manhã e não morrer de frio é sensacional, mas resseca a pele e muito! O ar fico muito seco e você até acordo de madrugada com a boca seca;
  • Num país como a Finlândia onde o norte fica coberto de neve  por praticamente 6 meses todo ano, andar na neve pode ser uma aventura – se neva muito, a neve fofa dificulta caminhar, mas se a temperatura esquenta um pouco e a neve derrete, é horrível andar entre neve e água e, finalmente, quando a temperatura cai novamente e a neve derretida, vulgo água, congela de novo, aí a cidade vira um rinque de patinação – não é legal;
Tipo isso (meme retirado da internet)
Tipo isso (meme retirado da internet)
  • Aliás, neve só é legal em filme e por uma semana quando você está de férias – viver sua vida por quase 6 meses rodeado de neve não é! Já até escrevi um post sobre os tipo de neve.

Eu não teria nenhum problema em continuar esta lista, mas vamos seguir em frente, acho que já ficou claro que eu detesto não gosto muito de frio. Mas e como lidar com um inverno tão rigoroso como o do norte da Finlândia?

A primeira coisa que você precisa saber é que os finlandeses têm um ditado por aqui: não está frio, você que não se vestiu direito. Há controvérsias, mas eles dizem que basta você se vestir adequadamente para a temperatura e ficará bem. Se isso é verdade ou não, de qualquer forma é importante usar roupas adequadas para a temperatura e sensação térmica (porque -20 sem vento não é igual a -20 ventando). Quando a temperatura está até 0 grau, eu não me visto muito diferente de como me vestiria no Brasil num dia bem frio. De -1 a -10, eu já visto a legging e camiseta térmicas por baixo da roupa e saio com protetor de orelha e luvas térmicas. Dependendo do vento, coloco uma segunda camadas de meias (grossas) e um fleece. A partir de -10, eu visto calças de inverno (que parecem calças de ski), coloco uma camada extra entre a camiseta térmica e o fleece, visto uma meia mais grossa, coloca luva de couro e por cima dela, luva térmica e cubro a cabeça com um gorro. Se vou pedalar, também uso um buff, uma espécie de cachecol que se coloca em volta do pescoço que corta o vento e ao mesmo tempo deixa a pele respirar – é extremamente útil, pois pedalar numa temperatura tão baixa sem proteger o rosto pode ressecar muito a pele e causar feridas em volta dos lábios.

Saindo para pedalar num dia que fazia -16 graus e sensação térmica de -26
Saindo para pedalar num dia que fazia -16 graus e sensação térmica de -26

O sapatos também devem ser apropriados, como botas de neve ou tênis mais grossos. É muito importante também usar muito hidratante e protetor labial e, além disso, tentar não lavar o rosto pouco antes de sair na rua, pois nossa pele tem uma oleosidade natural que a protege e se lavamos o rosto, ela se vai e ficamos mais vulneráveis aos efeitos do frio.

É importante proteger bem a cabeça, mãos e pés. A cabeça porque é por onde nosso corpo mais perde calor e os pés e mãos porque acabam sendo os mais prejudicados nessa história e sério, doem muito! Tanto luvas como calçados devem estar meio folgados para deixar o ar circular e aquecê-los. Sapatos muito justos acabam fazendo os pés perderem muito calor, por isso a recomendação é sempre comprar botas de inverno um número maior para poder usar meias grossas e deixar o pé confortável.

E claro que todo nesse ritual de virar uma cebola (as roupas formam várias camadas) a gente acaba levando uns 5 minutos para ficar pronto para sair e mais 5 para se despir quando chega em casa! Olha, morar num lugar frio como Oulu não é só a beleza de uma paisagem de inverno!

E minha melhor dica é: tá absurdamente frio? Você realmente precisa sair de casa? Se a resposta for não, não saia! Se precisar, tente ficar o menor tempo possível na rua.

E é assim que eu lido com o frio, que aqui nesse lado do mundo, fica só da porta da rua pra fora. 🙂

Retrospectiva 2016 e planos para 2017

Primeiro dia do ano e eu venho aqui fazer a retrospectiva do ano que se foi há algumas horas e falar um pouco dos planos para 2017, aquele que eu faço 30 anos (mas geeente)!

Todo mundo falando que 2016 foi o horror, um ano horrível. De fato, aconteceu muita coisa ruim estranha, mas de uma perspectiva pessoal foi um ano bem tranquilo pra mim, sem grandes emoções nem para o bem nem para o mal. Vamos a retrospectiva feat. planos 2017?

Viagens

Eu não viajei tanto quanto gostaria (eu nunca vou viajar tanto quanto gostaria, não importa quantas viagens tenha feito!), mas conheci 8 países este ano (País de Gales, Hungria, Eslováquia, República Tcheca, Uruguai, Estônia, Letônia e Lituânia) e fica até feio eu reclamar. Eu também conheci outras partes da Finlândia, como Turku e Rovaniemi, e “repeti figurinhas” voltando a Londres e Liverpool. Passei as férias no Brasil e acho que isso me fez um bem tão grande nessa jornada de morar na Finlândia!

Rovaniemi, 2016
Rovaniemi, 2016

Eu optei por não começar o ano viajando (quando se tem tempo e dinheiro e não viaja é realmente opção, né?). Tenho alguns motivos como economizar dinheiro para outras viagens que estão meio sei lá talvez quase certas e outros motivos que vão ficar claros nos posts futuros. Não quero dar spoilers (a louca achando que o blog é um seriado), mas pode rolar Ásia este ano, o que me leva a uma reflexão…

Eu conheço 28 países, o que pode parecer muito, mas são quase 200 países nesse mundão todo e 28 não é assim exatamente um número impressivo no fim das contas. Destes 28 países, só 5 não estão na Europa e vamos combinar que Europa é bem mainstream. Além disso, depois que você começa a viajar por muitos países europeus, tudo começa a ficar meio igual. Todo país tem algo na história sobre a Segunda Guerra, todo país tem algo sobre o Holocausto (uns mais e outros menos, claro), todo o país tem uma baita influência da Igreja Católica com suas igrejas e catedrais, todo país tem o “mais” ou “maior” qualquer coisa da Europa… No começo você não percebe, mas depois de algumas viagens algumas histórias soam muito familiares e você começa a fazer as conexões. Eu não estou aqui falando pra ninguém mais viajar pra Europa ou que se você conhecer um país, conheceu todos. Não! Cada país tem uma particularidade, óbvio, mas no geral, você vai vendo que há tanta coisa em comum… Basta pensar em termos de Brasil, que é quase tão grande quanto a Europa toda. A cultura do norte e do sul são super diferentes, né? Comidas, tradições, clima e até sotaque e vocabulário – ou seja, cada região tem sua particularidade, mas no geral nós somos mais iguais que diferentes, temos mais em comum do que diferente e às vezes ao viajar a Europa toda você sente isso: sim, são países diferentes, mas às vezes são tão iguais! Enfim, espero que isso tenha ficado claro e eu agora sinto uma preguiça tremenda de viajar para conhecer mais do mesmo que é um pouco diferente. Por este motivo, em 2017 se for pra viajar, que seja mais da América do Sul ou Ásia – ou ambas.

Mestrado

Eu tive altos e baixos com o mestrado. O primeiro semestre, em 2015, foi muito intenso, porque não foi só começo do mestrado, mas o começo de um período na Finlândia. Em 2016, com a poeira (ou a neve) baixando, as coisas mudaram um pouco. Eu posso dividir entre antes e depois das férias no Brasil. Ao terminar o segundo semestre eu estava muito insatisfeita com o curso e postei a respeito aqui no blog. Não vou discutir muito isto, pois “desabafei” em 3 posts! Quando chegou a hora de retornar a Finlândia para o segundo ano eu só vim porque fui obrigada não fazia sentido ter investido um ano da minha vida num projeto e largar na metade, além de todo o dinheiro que investi e deixei de ganhar neste um ano (basicamente, torrando as economias e por não estar trabalhando, deixando de juntar mais no Brasil para outros projetos). Ou seja, começou, termina. E no fim das contas, eu sabia que não precisaria ficar outro ano inteiro fora e que a longo prazo, um diploma de mestre obtido na Finlândia na área de educação acabaria compensando (essa parte eu volto daqui uns anos para contar que se é verdade).

Voltei, é a vida, e terminei o terceiro e último semestre de aulas. Tenho outra visão do curso agora e futuramente escreverei sobre isso com mais detalhes. Eu continuo achando que o curso ficou aquém das expectativas, mas no fim das contas quando eu penso no resultado, não posso negar que aprendi muito e melhorei profissionalmente, academicamente e serumanamente como indivíduo.

Agora com todos os cursos concluídos, eu tenho o primeiro semestre de 2017 apenas para escrever a dissertação que ainda existe apenas nos planos das ideias. O que quero dizer com isso? Eu sei o que quero fazer, sei como fazer, tenho ideia dos meus resultados, falta “fazer”. E como eu sou bem procrastinadora, só estou começando mesmo agora. Eu tenho 4 anos para me formar a partir da data de início do curso, o que significa que eu poderia entregar minha dissertação até 2019 sem problemas. Meu plano é tentar (veja bem, tentar) entregar até junho deste ano, mas se não der (porque life happens), ficaria satisfeita se pudesse terminar até o fim do ano (o que me dá ainda 364 dias e 1/2). No fim das contas, eu prefiro viver a vida com mais leveza e o mestrado não resume minha vida – ele é um pedaço desse bolo de chocolate com blueberry que eu chamo de minha vida. Eu tenho outras áreas, aka pedaços de bolo, que são tão ou mais importantes que ele e sendo muito sincera, obter o título de mestre em junho ou em dezembro de 2017 não vai fazer muita diferença na minha vida profissional – e foi com este raciocínio que eu optei estender minha graduação em Letras em 6 meses para terminar as matérias com calma, por exemplo. No regrets.

E depois do mestrado? O doutorado? O pós-doc? E os empregos? O casamento? Os filhos? Os netos? 

Já dizia Mafalda, a vida não é um fluxograma.

tirinha-mafalda-vida-fluxograma

Eu não sei o que vem depois do mestrado ou se vem algo. Acho que a vida acadêmica não é pra mim, talvez. Mas eu posso mudar de ideia e ir fazer doutorado na China, vai saber? Se eu acabar o mestrado em junho de 2017, eu não sei o que vem depois e estou feliz assim. Um passo de cada vez, né?

E como o blog é basicamente sobre viagens e intercâmbio (que no caso, atualmente é o intercâmbio disfarçado de mestrado), este post termina aqui! As outras áreas da minha vida, o resto do bolo, são offline. 😉