Sobre como eu quase perdi o mestrado

A vida é essa coisa que você planeja e de repente pá! Não acontece nada como você planejou. E tudo bem, para tudo dá-se um jeito, não é? Bom, no meu caso eu quase achei que não ia ter jeito nenhum, mas vocês terão que ler o post da “fênix” aqui (estaria eu ressurgindo das cinzas e voltando a postar neste humilde blog?) todinho para entender a confusão que arranjei e como tudo acabou.

Eu voltei ao Brasil em janeiro com absolutamente todas as matérias e estágios finalizados lá em Oulu, faltando só aquele nem tão pequeno detalhe que eu não entreguei a tese. Meu plano: chegar no Brasil e não trabalhar até o fim de maio ou junho para poder me dedicar a tese com a vantagem de não estar pagando meus custos de vida em euro (na verdade, de nem estar pagando nada – paitrocínio) e virar mestre. O que aconteceu: estava entediada em casa (vocês já escreveram uma tese? Não é exatamente empolgante) e me sentindo muito mal por não ter dinheiro pra comprar nem uma casquinha no McDonald’s, então comecei a procurar um emprego em fevereiro e em abril eu já tinha 2 empregos com carteira assinada (coisas de professor), um informal, aulas online e alunos particulares. E onde entrou a tese no meio disso tudo? Foi pra escanteio! Para não dizer que nada fiz, neste 1 mês e pouco sem trabalhar eu finalizei todas as minhas entrevistas, fiz a transcrição e juntei referências para a parte teórica.

Depois de arranjar mil empregos e definir novas metas e planos pra vida, gradativamente a tese foi ficando esquecida na minha cabeça… até que simplesmente sumiu da minha lista de prioridades. Eis que me programei e pensei: em 2017 preciso juntar dinheiro, portanto, vou desencanar de terminá-la este ano e deixo pra 2018, quando tudo estiver mais calmo. Quem nunca adiou planos acadêmicos que atire a primeira pedra. Trancar faculdade, parar o curso de inglês por um tempo, deixar aquela pós para um pouco mais pra frente… eu só estava sendo uma pessoa normal uma vez na vida – eu sempre fui muito certinha e há alguns anos acharia inadmissível essa história de concluir o mestrado depois. Things change.

Até aí não está tudo ótimo, mas estava tudo certo. Certo? Errado. Entre junho e setembro (ou “até agora”) eu estava numa correria tremenda da vida e ainda tendo que dar conta de todas os empregos que eu citei lá no comecinho. E o que eu esqueci de fazer? Rematrícula na universidade. E por que eu deveria fazer rematrícula?, você me pergunta. Porque eu ainda não terminei o mestrado, portanto, preciso manter algum vínculo com a universidade e tudo que deveria ter feito era me rematricular como aluno ausente, pois não receberia nenhum crédito no segundo semestre de 2017. E eu fiz isso? Não. E quando me dei conta, no fim de setembro, que precisaria fazer isso, o que descobri? Que o período de matrícula havia se encerrado em 12/09. Daí começa a saga para “não jogar todo o investimento do mestrado no lixo e levar um puxão de orelha da minha mãe“.

Além de ter perdido a data de matrícula, a minha conta para acessar o site da universidade seria suspensa. E como se isso já não fosse suficiente, minha senha de acesso ao sistema que estava para expirar já havia expirado!

Resumindo a treta toda:
1. Eu perdi o período de matrícula;
2. Por não ter me rematriculado, minha conta estava com os dias contados para expirar (28 dias depois do fim do período de matrícula, ou seja, 11/10);
3. Minha senha havia expirado e eu não conseguia nem entrar no sistema para ver se dava pra dar um jeitinho.

E quando me dei conta do problemão, foi um tal de correr atrás de um monte de gente que achei que pudesse me ajudar. Foram algumas mensagens no messenger de conhecidos e tentativas de comunicação com a universidade, tudo a muitos quilômetros de distância.

Primeiro, contatei o pessoal do TI pra tentar reaver minha senha. Eles me deram uma senha provisória que eu deveria usar para redefinir minha senha, mas essa senha não era aceita no site de “mudar senhas”. Enfim, estou com a senha fornecida por eles. Melhor que nada. E esta história está muito resumida, porque com uma diferença de 6 horas de fuso horário, nossa comunicação era na base de um email ao dia, porque eu mandava a noite quando conseguia acessar a internet (sou professora, né, não passo o dia em frente a um computador e muito menos fuçando celular), eles me respondiam quando era madrugada aqui e mesmo que eu respondesse de manhã, se passasse das 10h aqui, já era fim de expediente lá. Sério, essa novela de redefinir senha levou uns 5 dias entre erros e acertos.

Depois fui caçar no próprio site da universidade alguma informação sobre babacas como eu que simplesmente dormiram no ponto e perderam a data de matrícula. Não achei muita coisa, então mandei email para o student center. Demoraram um pouco a responder, mas veio a solução: preencha esse formulário de re-rematrícula e pague uma multa de 35 euros. Como as coisas evoluem muito, hoje em dia o Transferwise já faz remessas de dinheiro do Brasil para  o exterior, mas elas ainda demoram uns 3 ou 4 dias para chegar ao destino e eu não estava assim exatamente com todo esse tempo, porque meu acesso ao sistema já estava prestes a expirar. Entrei em contato com uma amiga que ainda mora em Oulu e pedi que ela fizesse a transferência e me mandasse o comprovante. Tudo feito, formulário preenchido e záz! Enviei. Devido a problemas de fuso já citados, essa história levou uns outros 5 dias também. Ah, eu reembolsei a dita amiga via Transferwise! 🙂

No dia seguinte o student center já confirmou que estava tudo certo e haviam reativado meu status de estudante. Ufa! Porém, seria cômico se não fosse trágico que neste mesmo dia meu acesso ao sistema expirou! :/

Felizmente, esta questão foi mais simples de ser resolvida. Assim que o departamento de TI recebeu a confirmação da minha re-rematrícula, o acesso foi ativado novamente.

Agora a situação é essa: estou ativa no sistema como aluna ausente e não preciso pagar a taxa estudantil de 54 euros. No próximo semestre, em 2018, eu precisarei me matricular (o prazo é 31/01/18 – alguém certifique-se que eu fiz isso, por favor… hahaha), mas desta vez como aluna presente, pagar a taxa e receber os créditos pela tese que, se tudo conspirar pro lado certo, será entregue em 2018!

Juro que por alguns dias eu achei que daria tudo errado e não conseguiria me formar, mas parece que o jogo virou, não é, Murphy?! O plano para 2018 é largar uma parte dos meus empregos para focar na tese. Me cobrem!

 

A decisão de voltar

No início de 2014 eu comecei a sonhar com a possibilidade de fazer intercâmbio mais uma vez, dessa vez fazendo um mestrado. Três anos depois, eu pensava na possibilidade de encerrar mais esta fase da vida.

Como todo mestrado, o de Educação e Globalização também tem a duração de 2 anos ou 4 semestres. As aulas são distribuídas nos 3 primeiros semestres e no último o mestrando fica livre para trabalhar em sua tese. Como não há aulas, muitos mestrandos optam por voltarem a seu país de origem e terminarem de lá. Quando retornei a Finlândia em agosto de 2016, eu não sabia exatamente quando iria voltar ao Brasil, mas sabia que seria antes de maio de 2017.

O que ainda me prendia a Finlândia após o término do 3º semestre era meu estágio. Eu havia começado um estágio no início de 2016, mas com o tempo notei que ele não estava me fazendo aprender nada e eu ainda me sentia como se estivesse fazendo um trabalho qualificado de graça com o nome de “estágio” e sem receber nada por isso. Por isso, desisti do primeiro estágio e fui em busca de outro – e como contei aqui, a ideia era fazê-lo no Brasil, mas com as reviravoltas da vida, acabei fazendo em Oulu mesmo. Quando assinei o contrato, ficou decidido que eu terminaria em janeiro, então já comecei a mexer os pauzinhos para adiantar minha volta.

E por que eu não quis ficar até o final?

Morar na Finlândia como estudante = gastar dinheiro e não ganhar nenhum
Por mais que eu tenha feito alguns “bicos” por lá, não ganhei nenhuma fortuna para ter o suficiente para arcar com os custos de moradia e ainda trazer uns trocados para o Brasil. Ficando lá mais tempo, eu só ia torrar mais grana do Brasil e isso já não fazia mais sentido uma vez que eu tinha o total de zero aulas para frequentar e nenhum vínculo com o país.

Fim das aulas
Como já citei, com o fim dos cursos, minha presença não era mais necessária na universidade. Eu poderia continuar lá e escrever minha tese, mas eu posso fazer isso de qualquer lugar do mundo! Já estamos em 2017 e a tecnologia já ajuda muito: posso consultar artigos online no site da universidade, posso pegar e-books emprestados, posso fazer reunião por Skype com minha supervisora, posso enviar a tese por e-mail e o melhor: na Finlândia não se defende tese como no Brasil. Basta eu enviar para minha supervisora para aprovação, depois passar por um programa de plágio e enviar para a universidade. Não tem necessidade nenhuma mesmo de continuar no país.

Frio
Sim, isso mesmo. Eu detesto frio, eu prefiro um milhão de vezes o calor do Brasil no alto verão do que o inverno finlandês. Não foi o fator decisivo, claro, mas eu já tinha passado um inverno inteiro na Finlândia e não estava feliz com a ideia de ter que encarar um segundo inverno. É lindo? É. É lindo 6 meses do ano? Não. E todo aquele ritual de colocar várias camadas de roupa, gorro, cachecol, luvas, botas e tomar cuidado para não escorregar quando a neve derretia ou pedalar “curtindo” uns -15 graus… eu passo! Se eu posso ir embora antes, por que ficar mais meses vivendo como um pinguim?

Lindo, mas ordinário!

Oulu
Isso mesmo, Oulu é o 3º motivo. É uma cidade linda, juro! Eu realmente acho uma cidade super fofa, cheia de natureza e belas paisagens, mas eu sou de São Paulo e estou acostumada com um estilo de vida nem tão monótono… A cidade era muito pequena mesmo, com poucas opções de cultura e lazer, especialmente no inverno. Para quem é dos esportes, não faltam opções nem no inverno, mas eu, apesar de curtir uma corrida e fazer kung fu, não curtia todos esses esportes de inverno. Sendo assim, a vida social acaba se limitando a frequentar a casa de amigos para comer e beber, ir em um dos dois shoppings minúsculos ou cafés – que nem são tantos assim.

O mestrado não é minha vida
No começo, realmente parecia que o mestrado era minha vida, porque afinal eu larguei emprego e toda uma vida no Brasil para ir pro fim do mundo pra Finlândia estudar. Mas depois de um tempo eu acabei percebendo que minha vida não se resume em conseguir um diploma acadêmico, mas que o diploma é parte de um monte de outras coisas que eu chamo de vida. Uma vez fiz a comparação com um bolo aqui no blog. A minha vida é esse bolo de chocolate com blueberry e cada pedaço desse bolo é uma parte da minha vida, sendo que algumas fatias podem ser maiores que outras, mas todas juntas que formam um bolo. No começo, o mestrado representava quase 100% desse bolo, mas aí percebi que este pedaço estava grande demais e que eu queria cortar o bolo em outros pedaços também. Aí que notei que tem um pedaço para emprego (vulgo “ganhar dinheiro”, porque vivo numa sociedade capitalista, né), um pedaço para vida pessoal, um pedaço para hobbies etc, e que o mestrado não precisava ser um pedaço tão grande que me prendesse na Finlândia e não me deixasse aproveitar o resto do bolo… que estava no Brasil!

E como eu nunca tive planos de morar definitivamente por aquelas bandas, achei que antecipar a volta ao Brasil faria mais sentido. Até porque o tempo que passo no exterior “atrasa” planos que tenho no Brasil. Se não há necessidade de passar mais um semestre fora, “bora” voltar. E voltei.

Conversando com o diretor – Parte 2

A conversa com o diretor foi longa e muito produtiva e com certeza foi mais uma peça para entender o quebra-cabeça da educação finlandesa – não que o sistema seja confuso, mas para nós, brasileiros é tão diferente e cada aspecto que eu “desvendo” vai completando o desenho desse quebra-cabeça.

Crise na Finlândia

Nós também abordamos a recessão no país e seu impacto na educação. Houve sim corte em educação por parte do governo e cabe ao diretor de cada escola “se virar” com o orçamento reduzido. Como não há muito no que se mexer em questão de aluguel e prestação de serviços (restaurante, limpeza etc), o corte acaba sendo em folha de pagamento, ou seja, professores, já que 80% dos gastos da escola é com o salário deles. Com um orçamento menor, a escola acaba dispensando auxiliares de classe, professores especiais ou aumentando o número de alunos por turma. Um exemplo são as aulas de inglês, que é dada por professor especialista. Por ser considerado que é uma disciplina mais desafiadora, a turma costuma ser dividida em duas e cada grupo tem a aula em um horário – por exemplo, a turma A tem aula às 9h da manhã enquanto a turma B, às 14h. Numa situação de contenção de gastos, essa divisão acaba reduzida ou não mais ocorrendo. Os alunos têm duas aulas de 45 minutos de inglês por semana, sendo que uma delas é a turma toda e a outra, a turma dividida e, no futuro, dependendo do orçamento, as duas podem voltar com os grupos divididos ou o contrário, as duas aulas com as turmas cheias.
Ainda, segundo o diretor, no último ano fiscal as 50 escolas de Oulu gastaram 10 milhões de euros acima do orçamento estipulado. Ele não entrou em detalhes sobre a dívida – de onde veio o dinheiro extra, como o débito seria quitado etc.

Aulas

Segundo o diretor, não há um número máximo de alunos por turma estipulado por lei, mas atualmente, o máximo que há na escola é 24 alunos por turma. Ele deixou claro que, dependendo do número de crianças matriculadas ou do orçamento, este número poderia subir.
Não há qualquer tipo de prova até o 6º ano (quando os alunos têm cerca de 12 anos), pois a ideia é que os alunos não precisam ser testados quando ainda são tão novos. Segundo ele, provas serviriam para fazer comparação e nesta idade a criança não tem motivos para ser comparada com os colegas e gerar competitividade desde cedo. O fato é que o povo finlandês é realmente conhecido por não ser competitivo, por não ter essa necessidade de provar que é sempre melhor – vai ver que é por isso que eles são mesmo considerados os melhores do mundo em educação – não estão competindo por este posto, estão apenas trabalhando em educar suas crianças da forma que acham melhor.
Outro tópico abordado foi reprovação. Os alunos raramente reprovam alguma série e quando isso acontece, os pais precisam aprovar a decisão da escola. O diretor contou que em todo o seu tempo de profissão – mais de 20 anos – apenas uma vez precisou reprovar um aluno na escola, mas os pais não concordaram e ele acabou seguindo em frente.

O espaço físico

O diretor também ressaltou que o espaço físico da escola é muito importante no processo de aprendizado. Ele acredita que os alunos precisam se sentir felizes e confortáveis no ambiente onde estão e uma escola feia pode ser desmotivante. A escola onde fiz estágio é realmente um espaço bonito e por ser uma escola focada em artes, os corredores são repletos de desenhos e pinturas feitas pelos alunos. Além disso, eu acredito que o fato de a escola não parecer uma prisão – não tem muros nem grades e as portas não ficam trancadas – colabora muito para essa sensação de bem estar no ambiente escolar. É claro que eu compreendo as diferenças de contexto e uma escola sem muros, grades e portas com trancas em São Paulo jamais seria uma realidade, mas o uso desses sistemas para manter as crianças protegidas dentro da escola também causam a sensação de obrigatoriedade de permanecer num lugar, com horários rígidos de entrada e saída… e quem é que gosta disto? Nós só podemos estar sendo treinado desde pequenos para bater cartão mesmo!

O segredo da educação finlandesa

Para terminar a conversa, eu perguntei se havia um “segredo” para a educação finlandesa ser tão famosa e bem-sucedida nos testes internacionais.  O diretor me respondeu que não há um segredo, mas o que muda é o objetivo. Enquanto os outros países costumam ensinar para os testes (gente, e o que é o Ensino Médio no Brasil se não uma grande preparação para passar num exame, o vestibular?), na Finlândia eles ensinam as crianças para o mundo (palavras dele) e para serem cidadãos… ir bem nos testes é uma consequência, não o objetivo.

Conversando com diversos profissionais da área de educação do país, eu sempre fico com a sensação que eles são felizes na profissão e que nunca enxergam mesmo educação como “metas”, ou seja, como rendimento em testes, mas realmente como um meio para trabalhar em desenvolver certas habilidades nos alunos que serão usadas futuramente. Eu não estou venerando o sistema finlandês e muito menos dizendo que é perfeito e que ele deveria ser copiado à risca no mundo todo para as crianças do mundo inteiro terem boa educação. Eu acredito que o exemplo da Finlândia se baseia em conhecer sua sociedade, identificar seus pontos fracos e trabalhar nisso. Cada sociedade precisa achar seu amigo e é isto que podemos aprender com este país nórdico.

Conversando com o diretor – Parte 1

Como parte do meu estágio na escola primária finlandesa, tive a oportunidade de conversar com o diretor. Conversamos por aproximadamente 2 horas e ele respondeu todas as minhas perguntas e com toda a paciência e boa vontade do mundo me ajudou a entender um pouco mais como funciona o sistema de educação do país, agora de uma perspectiva de quem precisa lidar não só com a educação em sala de aula, mas com orçamento e outras burocracias.

O diretor trabalha na área de educação há quase 25 anos e ele também dá aulas. Segundo ele, ser diretor não é uma função exclusiva e a única diferença entre ele e os os outros professores da escola é que ele fez cursos para poder exercer a função. A conversa foi bem longa e não teria como detalhar tudo que conversamos em um post, então vou destacar e resumir os assuntos mais relevantes a seguir.

Currículo

Assim como muitos países, a Finlândia tem um currículo nacional que deve ser seguido no país todo. Porém, de acordo com o diretor, ele é uma referência do que deve ser feito, mas não deve ser seguido à risca, pois há também um currículo local que leva em conta as peculiaridades e necessidades de cada região e, por fim, um currículo da própria escola. Trocando em miúdos, isto significa que sim, eles seguem o currículo nacional, mas têm a liberdade de adicionar ou adaptar o que for necessário para que este currículo fique o mais “customizado” possível para atender às necessidades dos alunos daquela região. Portanto, escolas de regiões diferentes não vão, necessariamente, ensinar exatamente as mesmas coisas. A filosofia por trás disso é de que igualdade não é oferecer a mesma coisa a todos, mas oferecer a cada um o que ele precisa. E eu, particularmente, concordo muito com esta visão de mundo.

Profissão: professor

Um diferencial na educação finlandesa que eu nunca vejo ser citado em nenhuma reportagem ou artigo (publicado no Brasil) sobre o tema é o prestígio da profissão: ser professor na Finlândia é ter o respeito da sociedade pela importância da sua função na comunidade. O professor tem prestígio, respeito dos alunos, dos pais e da população. Apesar de o salário dos professores não estar entre os mais altos, ainda é uma profissão muito procurada e concorrida. Na Faculdade de Educação da Universidade de Oulu, por exemplo, apenas 10% dos inscritos são selecionados e isto não é apenas um número, isto traz algumas implicações. Por ser uma carreira muito procurada, a concorrência é grande e, assim, os 10% mais preparados são selecionados – lá no comecinho, então, “os melhores” já começam na carreira. Junte-se a isso o fato de que todo o curso de graduação é composto por 3 anos de bacharelado seguidos por 2 anos de mestrado. No começo, eu não entendia direito porque era um diferencial tão grande ter mestrado, já que no fim das contas eles teriam estudado 5 anos, o que é menos tempo do que eu estudei para ser bacharel e licenciada em Letras, mas com o tempo a relação ficou clara: no mestrado aprendemos a fazer pesquisa, ou seja, a nos virar para estudar e aprender como achar a informação confiável e relevante. Um professor que sabe se preparar, sabe como pesquisar, como encontrar o que precisa, certamente saberá como planejar sua aulas. E isto tem um impacto enorme no trabalho de professor.

O professor fora da sala de aula

Além de falarmos do que é ser um professor na Finlândia, também conversamos sobre outros aspectos da profissão. Como já ficou claro no post, o professor é muito respeitado na comunidade e a consequência é que há uma relação de confiança muito grande. O diretor confia que seus professores sabem o que estão fazendo e, consequentemente, estão fazendo seu melhor. Logo, não há qualquer tipo de fiscalização, por assim dizer, do trabalho do professor. O diretor não faz avaliações, observações de aula ou checa planejamento – cada professor tem a liberdade de planejar suas aulas como achar melhor e ninguém questiona sua decisões. Os pais, por confiarem no trabalho, agem da mesma forma e cooperam com o professor ao invés de questioná-lo. E, como já citado, o professor sai da faculdade mestre e com uma boa formação na área, isto não significa que cada um faz o que quer, mas que fazem o que sabem que será o melhor para seus alunos.

Por outro lado, como os professores não trabalham no verão – junho e julho – e nem nos breaks – inverno, outono e Natal/Ano Novo -, para não ficarem sem salário, é calculado o valor mensal do pagamento baseado no número de aulas. Este total é multiplicado pelos 9 meses que eles efetivamente trabalham e, então, dividido por 12 meses para que recebam salários todos os meses. Pois é, nem tudo é tão maravilhoso, nem na Finlândia!

No próximo post continuo contando sobre a conversa com o diretor.

 

Estágio – Peculiaridades do ensino finlandês

No post anterior comecei a contar sobre meu estágio na escola finlandesa. Este estágio surgiu por acaso, já que eu estava mesmo tentando achar algo em alguma ONG brasileira, mas no fim das contas, fiquei satisfeita de não ter obtido resposta de nenhuma das ONGs e acabar estagiando numa escola local. Como professora, posso dizer que a experiência foi excelente e pude ver na prática o que já havia lido na teoria em vários artigos sobre a educação no país. Neste post vou contar mais um pouco sobre esta experiência e o sistema de ensino.

Aulas de inglês

Até 2015, os alunos começavam a ter aula de inglês no 3º ano (com 9 anos de idade), mas com a implementação do novo currículo em 2016, as aulas de inglês começam no 2º ano. Eu pude observar algumas aulas do 2º ano e também dar algumas aulas. Os professores ainda estão “testando” o novo currículo e deixam bem claro que tudo ainda é uma experiência.

De modo geral, nas aulas os professores e os alunos recorrem muito a primeira língua (finlandês) para ensinar inglês. Quando estava trabalhando com os 6ºs anos, por exemplo, todos os textos que entregava os alunos, literalmente, traduziam em finlandês no caderno e eu observei que era uma atitude natural, ou seja, algo que já estavam habituados a fazer em aula. O material didático também recorre a tradução o tempo todo para ensinar inglês.

Conversando com os professores, perguntei se existia algum tipo de escola de idiomas particular (como as que temos no Brasil) ou se os alunos aprendiam inglês apenas na escola. Eu fiquei muito surpresa quando a professora falou que todo o inglês dos alunos é aprendido apenas na escola. No 6º ano, os alunos já dominam o idioma suficientemente bem para se comunicarem em situações do dia a dia e o ensino continua até o fim do ensino médio. Além disso, os alunos tinham 2 aulas semanais de inglês, sendo que em uma delas a turma sempre era separada em duas e fazia a aula em horários diferentes. Segundo a professora, isso acontecia para dar mais oportunidade aos alunos, já que a atenção da professora não era dividida com uma turma inteira.

Porém, de modo geral, os finlandeses são muito tímidos e humildes para reconhecerem que falam inglês bem, então uma situação muito comum é um finlandês ter vergonha de conversar em inglês e se desculpar muito pelo “péssimo inglês”, o que não é verdade. Minha experiência morando em Oulu é que qualquer finlandês com menos de 40 anos tem um nível de proficiência suficiente para se comunicar, mesmo que cometa erros ou tenha um sotaque muito forte, o que prova como o ensino de idiomas no sistema público de educação é bom. Claro que algumas pessoas têm mais facilidade/interesse que outras e falam melhor, mas isto se aplica a tudo, né? Matemática, Biologia, Física etc.

Outros idiomas

Além do inglês, sueco também é obrigatório, pois é a segunda língua oficial do país. Eles só começam a aprender sueco lá pelo 5º ano e, pelo o que notei, não são tão fluentes no idioma como em inglês, talvez até porque não necessitem tanto usar no dia a dia quanto o inglês. Além dos dois idiomas obrigatórios, as escolas costumam oferecer outros idiomas como aulas extras após o período de aula – geralmente espanhol ou alemão. Os alunos que optarem por fazer mais um idioma, não pagam nada a mais, já que o ensino é completamente gratuito.

Aulas optativas

Os alunos da escola primária têm o professor de sala e o professor de inglês/sueco. Na escola onde fiz estágio, eles também poderiam escolher entre fazer aula de trabalhos manuais voltada para artesanato ou marcenaria e afins. Apesar de toda a fama de ser um país com mais igualdade de gênero, alguns estereótipos são os mesmos: eu só vi meninas na aula de artesanato e os meninos todos na aula de marcenaria. Não acompanhei nenhuma aula de marcenaria, mas na de artesanato a professora ensinava a fazer decoração de Natal. Eu gosto muito de trabalhos manuais e acho que teria adorado ter uma aula dessas na escola, ainda mais porque tudo que os alunos fazem tem alguma ligação com a vida fora da escola – quando visitei a escola no verão, as meninas estavam aprendendo corte e costura fazendo saias, por exemplo. Notei que todas as mulheres finlandesas sabem tricotar e todas aprenderam na escola – e saber tricotar uma boa meia ou cachecol na Finlândia é realmente uma habilidade necessária! 🙂

Alunos especiais

 Há um imaginário que no sistema finlandês há a inclusão total. Na verdade, é o que vendem: “nenhum aluno é deixado de fora”. Por um lado, como o sistema é público e trabalha de acordo com a necessidade dos alunos, isto é verdade, mas por outro, não significa que todos os alunos estarão juntos em sala de aula sem qualquer tipo de “segregação”. Os alunos com dificuldades são separados da turma para aula de reforço. Numa turma de 6º ano, duas irmãs gêmeas que tinham muita dificuldade com inglês não participavam das aulas com os demais alunos e faziam exercícios extras em outra sala. As mesmas irmãs e uma outra aluna tinham dificuldade com as aulas de finlandês e as 3 iam para outra turma ter aula com uma professora especial. Nesta aula, com menos alunos, elas podiam ir no próprio ritmo e, assim, ter a oportunidade de aprender também.

Religião

A maioria da população finlandesa é luterana e a aula de religião “padrão”, então, é luterana. Mas o sistema impõe que a religião de cada aluno seja respeitada, portanto, caso o aluno professe outra fé, a escola é obrigada a contratar um professor para dar aulas daquela religião para o aluno. Descobri isso um dia, depois do horário de aula, quando vi uma aluna sozinha com uma professora em uma sala e perguntei a A., a professora de idiomas, o que estava acontecendo. Foi quando ela me explicou que a aluna era católica ortodoxa e como não participava da aula de religião com os demais alunos e era a única na escola, ela ficava depois do horários para ter estas aulas. A A. também me explicou que se a família não tem nenhuma religião, a criança tem aula de ética. Já perguntaram o que aconteceria se a criança fosse do candomblé ou umbanda, ou até mesmo espiritismo… bem, primeiro que eu acredito que não tenha essas religiões por lá ainda, já que são “brasileiras”. Caso isso acontecesse, eu não sei se a escola poderia prover uma aula especial a estes alunos, pois precisariam de professores capacitados. Meu “chute” é que talvez a criança participasse da aula de ética, mas eu realmente não tenho uma resposta final para esta pergunta.

Continua… 😉