Mais sobre a educação finlandesa

Sendo mestranda em educação na Finlândia, no famoso país do milagre educacional, eu não perco uma oportunidade de visitar escolas. Recentemente falei sobre meu estágio numa creche, já escrevi sobre a vez que dei aula numa escola da região e também já fiz outras visitas em escolas neste período que acabei não postando no blog. Há alguns dias, a diretora de uma escola convidou os alunos do meu curso para conhecer um pouco o local e conversar com os alunos, e é claro que eu aceitei o convite. As outras escolas que visitei, eu só conversei com os diretores e fiquei por apenas 2 horas “pulando de galho em galho” observando um pouco de uma ou outra aula. Desta vez, tínhamos a chance de observar toda a rotina durante um dia  e foi muito interessante.

A escola

O público da escola são alunos de 7 a 12 anos, do 1º ao 6º ano – é uma escola primária e fica num bairro um pouco mais elitizado da cidade (sim, a Finlândia é um país com menos desigualdade social, mas ainda existem pessoas que são mais ricas que outras). Cada turma tem cerca de 24 alunos, sendo que em algumas aulas os alunos são divididos em grupos menores para facilitar o aprendizado – é o caso das aulas de inglês, por exemplo. Os alunos têm suas matérias obrigatórias, mas também podem fazer aulas extras, como línguas depois do horário de aulas (normalmente, espanhol ou alemão) ou corte e costura no horário normal, por exemplo.

Os alunos das séries iniciais têm pelo menos 20 aulas semanais, podendo chegar até 27 aulas nos últimos anos. Cada aula consiste em 45 minutos de aula mesmo e 15 minutos de intervalo, ou seja, as crianças sempre têm 15 minutos para “espairecer” entre uma aula e outra. Nestes 15 minutos, elas podem sair da escola.

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As aulas

Acompanhei algumas aulas. Em uma delas, de marcenaria, as crianças haviam projetado um amplificador de som para celular e estavam trabalhando no projeto. Achei genial conectar a aula com algo muito relevante na vida de um adolescente!

Em outra aula, as crianças haviam desenhado saias e shorts e estavam cortando o tecido para costurá-lo. Achei muito relevante o tema também, já que o verão está chegando e poderão usar algo que fizeram. O lado negativo é que só vi meninas nesta aula, que é optativa.

Na aula de matemática, as crianças do 3º ano estavam aprendendo a olhar a hora. Não vi absolutamente nada revolucionário: a professora checou a lição de casa, fez a correção na lousa e pedia a participação dos alunos. O que era muito diferente era a estrutura da sala de aula: lousa interativa e todos os materiais possíveis e imagináveis para facilitar o trabalho do professor. O comportamento dos alunos também era peculiar: prestavam atenção sem interromper e participavam ativamente da aula.

Aula de matemática
Aula de matemática

Na aula de física, o professor explicava dobre fricção, novamente associando o tópico a vida dos alunos usando como exemplo o cascalho que fica acumulado na ciclovia depois que a neve derrete – muitos alunos vão para a aula de bicicleta.

Finalmente, na aula de inglês, a professora usou a oportunidade de ter estrangeiros em aula para pedir aos alunos que nos entrevistassem e escrevessem uma redação. Achei uma ótima ideia para praticar o idioma e os alunos, que já estavam no 6º ano, tinham um nível de inglês muito bom e se comunicaram sem problemas.

Detalhes

Todo aluno tem direito a almoçar na escola e, por lei, os professores devem almoçar a mesma comida e no mesmo local que os alunos. O que é interessante é que os professores não estão lá para monitorar as crianças, pois elas já são independentes e responsáveis para saber como se portar num refeitório e, acreditem, elas se comportam! Eles estão lá apenas para almoçar e, talvez, conversar com os alunos e estreitar a relação. Eu também almocei no local e, enfim, um típico almoço finlandês de refeitório – com leite e pão, como sempre.

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Naqueles 15 minutos que as crianças têm entre uma aula e outra, elas podem ficar em qualquer local da escola, exceto dentro das salas de aula. A escola não tem muros, nem portões, nem grades e as crianças respeitam os limites. Quando o sinal bate, elas sem enrolação voltam para dentro da escola. Tenho certeza que estes intervalos entre uma aula e outra são essenciais no processo de aprendizado delas, que podem brincar, conversar, usar o banheiro ou apenas “esvaziar a mente” para a aula seguinte.

Por tabela, os professores também têm 15 minutos de intervalo entre uma aula e outra e eu, falando como professora, não tenho dúvidas que isto torna o dia deles menos estressante. Eu tinha 15 minutos de intervalo a cada 2h15 de aula, sendo que estes eram usados para pegar o material da aula seguinte. Eu não preciso nem dizer que nas primeiras semanas depois das férias, eu chegava em casa com o corpo destruído e extremamente cansada. Com o tempo, o corpo acostuma e não reclama tanto, mas não significa que está tudo bem, não é?

Sala dos professores
Sala dos professores

Talvez vocês já tenham ouvido dizer que na Finlândia as crianças não têm lição de casa. Isto é um mito! Elas têm lição todos os dias, sim. Elas até podem ter uma carga horária de aulas menor em relação a outros países desenvolvidos, mas sempre tem lição para fazer em casa.

Finalmente, elas não precisam usar uniforme, podem andar de meia dentro da escola se assim desejarem e chamam o professor pelo primeiro nome. O ambiente escolar é bem acolhedor e tenho certeza que as crianças se sentem muito confortáveis.

Conclusão

 Eu sou apenas uma outsider que visitou algumas escolas e leu artigos sobre o sistema educacional finlandês e de modo algum quero fazer parecer que minha opinião é a última palavra no assunto, mas pelo o que pude observar até o momento, não há nenhum método revolucionário de ensino aplicado em sala de aula e, por muitas vezes, vi métodos bem tradicionais: o professor fala e explica, os alunos tiram dúvidas e fazem exercícios. O que vi, por outro lado, são detalhes que juntos fazem toda a diferença. As escolas têm uma super estrutura que facilita e ajuda o trabalho do professor em aula; as crianças finlandesas têm um comportamento bem diferente das crianças brasileiras e eu, sinceramente, não sei explicar o motivo disso – o fato é que elas respeitam o professor, não interrompem as aulas, não desviam o foco e o professor efetivamente consegue dar uma aula. A escola não têm aquele aspecto de “prisão” das escolas brasileiras, sejam elas públicas ou particulares, com todos os seus muros e grades, com funcionários vigiando os alunos o tempo todo, com regras rígidas para se vestir (na maioria das vezes, com uniforme) etc. Os professores, apesar de não receberem os salários mais altos, são extremamente respeitados e é uma profissão com muito prestígio no país. Finalmente, os pais colaboram na educação e confiam nos professores que, por serem bem treinados, têm condições de aplicar em sala de aula tudo que aprenderam na faculdade.

Pois é, talvez o tal milagre da educação finlandesa não esteja num método inovador e revolucionário e sim na combinação de pequenos detalhes.

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5 comentários sobre “Mais sobre a educação finlandesa

  1. Ana

    Muito obrigada por compartilhar todo esse conteúdo Bia! Esse post me deixou com uma pulguinha, sou estudante de licenciatura em Artes, e o tópico educação me é de grande interesse e penso em fazer uma pós relacionada. Você acha que é uma boa investir em algum curso de educação na Finlândia?

    Agradeço ❤

    1. Bia

      Obrigada pelo comentário, Ana!
      A Finlândia sempre será lembrada como uma referência em educação e, por tabela, ter um mestrado feito no país será um super diferencial para você. Pesquise algo que você goste e tem relação com sua área e invista. Lembrando que, infelizmente, a partir de 2017 o ensino não será mais gratuito para estudantes não-europeus. 😦

      1. Ana

        Poxa, que sorte a minha hahaha infelizmente termino minha graduação no fim de 2017! haha Mas as informações continuam válidas.

        Obrigada pela atenção!

  2. Que demais, Bia, super interessante! A gente sempre ouve falar do sistema educacional finlandês e fica com essa curiosidade em saber mais. Cara, que legal que as crianças participam da aula e respeitam o professor – além, é claro, dos 15 minutos de break que eles tem após cada aula. Essas pequenas coisas fazem a diferença, né?

    1. Bia

      Quanto mais eu observo, mas eu penso que a fórmula para o “sucesso” finlandês está nos detalhes, não num sistema revolucionário e, sinceramente, acho muito difícil as coisas funcionarem como funcionam no país em lugares com contextos diferentes. Mas o povo ainda sonha, né?

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