O lado B do estágio

No último post eu contei muito resumidamente como foi meu estágio numa creche finlandesa. Apesar de ter confessado que me senti entediada diversas vezes, eu não me arrependo e acho que a experiência foi muito válida para entender o sistema educational do país, porque é com os pequenos que tudo começa. Eu só fiquei com aquela impressão que 50 horas é muito, eu poderia ter passado metade deste tempo lá e já poderia ter tido esta mesma impressão, ainda mais pensando nos meus objetivos com este estágio. Mas este post é para contar um pouco do lado B desta experiência.

Os professores, em geral, foram bacanas e sempre respondiam minhas perguntas, mas a interação basicamente era assim: se eu perguntasse algo, eles respondiam, eu se falasse com eles, eles falavam comigo, do contrário,  não havia comunicação, pois eles nunca “puxavam assunto”. Poderia até ser a tal timidez finlandesa, mas dos 9 professores, 3 eram estrangeiros, sendo que eu passava o dia com 2 desses 3 não-finlandeses. Mas isso não é tão problemático para mim, pois eu não sou uma pessoa de falar muito de qualquer forma e eles nunca me trataram mal ou ignoraram alguma pergunta minha.

As crianças finlandesas são um caso de estudo, pois o comportamento delas é inacreditável! Imaginem quase 70 crianças entre 3 e 6 anos juntas. Imaginem que elas precisam ficar sentadas e cantar músicas por períodos que variam de 10 a 20 minutos. Eu não consigo imaginar isto com crianças brasileiras sem que, durante este tempo, elas levantem, briguem, reclamem, conversem… pode ser que este não seja o perfil normal de uma criança brasileira em todo o Brasil, mas este é o perfil que estou acostumada. Pois as crianças finlandesas são o oposto do que descrevi: elas não interrompem, não conversam entre si, não levantam… elas ficam sentadas e cantam! Eu não posso generalizar e dizer que toda criança finlandesa é assim, mas em todas as escolas que fui e pude observá-las, eu vi o mesmo tipo de comportamento.

Por fim, o tal lado B que dá nome ao post. Uma das donas da escola, que por sinal não é exatamente um doce de pessoa, me bombardeou com perguntas e comentários esdrúxulos e um tanto preconceituosos. Às vezes a gente pensa que em 2016 tudo isto já está superado, aí vem a vida e te mostra que não, é que você está cercado de pessoas que já superaram algumas questões. Ela é uma senhora de idade e isso até me faz pensar que poderia dar um desconto, mas não sei, nós seres humanos podemos mudar, né? Mas vamos aos fatos.

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A conversa começou com ela insistindo que meu nome era de origem holandesa, enquanto eu, que me chamo Beatriz há quase 29 anos, insistia que o nome vem do latim. Ela não quis me dar ouvidos e daí a gente já tem uma noção da personalidade da pessoa. Em seguida, ela me perguntou por que eu havia escolhido a Finlândia e eu dei aquela resposta padrão: gostei do programa, é minha área e é gratuito. Aí que começa  show de horrores.

– Por enquanto.
– Sim, infelizmente, a partir de 2017 cobrarão de alunos não-europeus.
– Eh, mas está certo, muitos podem pagar. Alguns alunos vêm para cá usar nossa educação e são ricos. Alguns nem são muito honestos, principalmente os chineses (detalhe: tem aluno de origem chinesa na escola dela), que são ricos e não pagam nada.

Eu poderia responder, mas eu já havia notado que ela é que aquele tipo de pessoa que não vale sua saliva numa argumentação, pois ela não vai te ouvir. Então, como não era questão de vida ou morte, eu só fui ouvindo – além disso, eu precisava da assinatura dela no meu acordo de estágio. Do nada, o assunto muda e eu fico completamente sem reação.

– Que cobras vocês têm no Brasil? Tem cobra no quintal de vocês?

Oi?! Eu suspirei sem saber o que dizer, afinal, não sou bióloga, não é? E eu moro numa cidade meio grande…

– Não, não tem cobra no quintal. São Paulo é a maior cidade da América do Sul, pelo menos, não tem cobra passeando na rua.
– E a questão das drogas?
– Temos problema com drogas como em todos os lugares: as pessoas usam drogas, mas em alguns lugares é pior que em outros. Se você fala de guerra de tráfico, não é algo que acontece onde moro.
– Ah, mas tinha uma família de brasileiros que tinha filho matriculado aqui e uma vez a mãe chorou ao falar comigo, pois estava muito feliz no país. Ela disse que é muito difícil ser mãe no Brasil.
– … (juro, nessa hora eu fiquei completamente perdida… o que ela quis dizer com isso?)
– Ela falou que tem muito sequestro de criança, é muito perigoso.
– Não faço ideia do que você está falando.
– Uhnn… mas e sua família?

Depois que contei que pai, mãe e irmã têm ensino superior completo, ela me solta essa, com cara muito surpresa:

– Ah, então todos tiveram acesso a educação?!

Felizmente a conversa parou por aí. E por que estou contando isso no blog? Eu fiquei um tanto chocada com a visão que uma senhora finlandesa, obviamente conservadora, tem do mundo e de países em desenvolvimento como o Brasil. Ela enalteceu o sistema finlandês ao comparar com a educação que ela teve quando fez intercâmbio nos Estados Unidos – “eles não têm um sistema tão bom e clássico como o nosso” – e achei muito desagradável ouvir a opinião dela sobre estrangeiros que estudam no país e sua surpresa ao saber que toda minha família tinha ensino superior. Ela não parece compreender que acesso à educação é um valor do país e que cobrar taxas de não-europeus vai contra estes valores e, definitivamente, não é uma solução para os problemas financeiros que estão passando. Seguindo este mesmo raciocínio dela, certamente deve ter uma opinião não muito positiva de imigrantes e refugiados. As ideias dela são completamente opostas a de todos os professores do departamento de educação da universidade, já que todos que se pronunciaram sobre estas questões, entendem o problema de uma maneira completamente diferente. Os jovens finlandeses, em geral, também pensam de forma oposta a dela.

Moral da história: quando se vive numa bolha de pessoas de mente aberta, a gente se choca quando percebe que o mundo não é todo assim! 😦

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6 comentários sobre “O lado B do estágio

  1. Não sei o que esses finlandeses tem com cobras. Hoje mesmo um me perguntou quais tipos de cobras existem no Brasil e se elas são venenosas e, cinco minutos depois, fez a mesma pergunta para um australiano!

    1. Bia

      Eu acho que o Brasil é muito exótico para eles e devem imaginar que todos nós vivemos no meio da floresta rodeados de animais. Não sei se julgo, porque afinal estamos em 2016 e a internet está aí, eu se finjo que compreendo.

  2. rickmartins

    Isso é verdade. É aquele efeito (que nao sei o nome técnico) do filtro.. a gente acaba filtrando muito a vida, tanto virtual quanto real, que as vezes a gente tem a falsa impressao de que tood mundo pensa como a gente e qdo alguem nao pensa, da um choque ne.

    1. Bia

      Não sabia que exista uma teoria para isso. Por um lado fico feliz de saber que estou rodeada de pessoas legais, por outro me entristece saber que vivo numa bolha…

    1. Bia

      Eu achei a parte de “mães brasileiras sofrem muito” too much. Eu conheço várias mães “recentes” e não ouvi nenhuma história triste delas por serem mães no Brasil. Esse povo tira essas histórias do c*, não é possível! A visão dela de superioridade em relação a outros povos e culturas foi o fim da picada!

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