O dia que dei aula numa escola finlandesa

Quando conheci minha kummi family, contei que levei um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Eu notei que eles realmente gostaram, mas não havia notado que o sucesso tinha sido tão grande. Explico.

L., a mais velha, além de suas aulas de inglês, cursa Home Economics em inglês. Nada mais que é que uma aula de culinária que faz parte do currículo das escolas finlandesas com o único diferencial que esta disciplina, no caso dela, é dada em inglês e eles aprendem a fazer comidas tipicamente americanas. L. ficou muito empolgada em poder falar inglês comigo e comentou com sua professora. Ela, então, perguntou a L. se eu estaria disposta a dar uma aula e ensinar um pouco sobre culinária brasileira. Por uma feliz coincidência, as aulas da L. são às quartas de manhã, horário que eu normalmente tenho aula, mas naquela semana não teria e então, confirmei que poderia ir. Eu estava pensando qual prato brasileiro eu poderia fazer levando-se em consideração que nem todos os ingredientes são facilmente achados por aqui, quando a L. me envia uma mensagem dizendo que o bolo de cenoura seria ótimo, pois todos na casa dela comeram e gostaram muito. Bolo de cenoura it is.

Eles moram a 40km da minha casa e como a aula começaria às 8h30, decidimos que eu iria dormir na casa deles. Vieram me buscar na terça à noite e fizemos um lanche com o pão de queijo finlandês, que nada lembra o nosso. O juustoleipa é outro item tipicamente finlandês e lembra a textura do queijo coalho, mas ele é levemente adocicado e o que me serviram, pelo menos, tinha um creme também adocicado. É gostoso, mas eu ainda prefiro o nosso pão de queijo mineiro.

É tipo isso - foto do Google
É tipo isso – foto do Google

No dia seguinte, a E. deixou os dois meninos e a L., de 12 anos, sozinhos em casa, deixou a A. na creche e levou L. e eu para escola de carro. Ela trabalha na escola ao lado de onde L. estuda. O que me surpreendeu? Que os meninos de 6 e 8 anos iriam terminar de se arrumar e pegar o ônibus para escola sozinhos às 8h da manhã. Outra coisa muito comum por aqui, ou em Oulu e região, pelo menos, é que as crianças são muito independentes desde cedo e elas realmente são ensinadas e motivadas a se virarem sozinhas desde muito pequenas.

A aula

Conheci a professora, que foi muito simpática e me deixou muito à vontade. Ela me fez algumas perguntas sobre a receita, me deu um avental e recebemos os alunos do 9º ano, na faixa dos 15 anos de idade. Eu me apresentei, expliquei a receita e eles fizeram todo o restante sozinhos com pouquíssima supervisão da professora. O interessante é que meninos e meninas dividiam as tarefas igualmente, apesar de numa turma de 16 alunos, 6 eram meninos.

Mãos na massa
Mãos na massa

Enquanto os bolos assavam, eu falei um pouco sobre a vida de um adolescente de 15 anos no Brasil, ou melhor, de um adolescente da minha época, porque hoje em dia está um tanto diferente. Depois mostrei fotos de comidas tipicamente brasileiras e expliquei um pouco. Mostrei o prato mais brasileiro de todos: feijão, arroz, bife, batata frita e salada e eles ficaram um pouco surpresos em ver arroz e batatas na mesma refeição: o resto do mundo vê isso como excesso de carboidrato, a gente só vê que batata é legume e vive feliz. Mostrei feijoada e alguns lanches, como coxinha e pastel (que eles fizeram cara feia por ser fritura) e docinhos, como brigadeiro e beijinho.

Quando o bolo já estava assado, eles fizeram a cobertura e vou confessar que os bolos ficaram bons! Como eles praticamente comeram tudo, vou concluir que adoraram!

Yummy!
Yummy!

Conclusão

Gostei muito da experiência, apesar de a aula ter sido apenas ensinar como fazer um bolo de cenoura.

Eu já havia visitado outras escolas finlandesas, mas foi a primeira vez que tive a chance de participar de uma aula do início ao fim e algumas coisas me chamaram a atenção.

  • Alunos finlandeses, em geral, são mais introvertidos que brasileiros e não costumam conversar muito entre si nas aulas ou interagir com os professores. Observei isso em todas as outras aulas em que participei em outras ocasiões.
  • As escolas finlandesas dão muita liberdade. Não tem uniforme, o aluno não é massacrado se chegar alguns minutos atrasados, eles podem ficar descalços na aula se assim desejarem, o celular não é proibido e vi até alunos com fone de ouvido enquanto cozinhavam, as portas da escola não são trancadas e, nesta escola onde a L. estuda, entre uma aula e outra os alunos ficam do lado de fora do prédio.
  • Aliás, os alunos nunca saem de uma aula e vão diretamente para outra, há sempre alguns minutos de intervalo em que eles podem conversar, sair um pouco da escola e preparar a mente para a próxima aula.

Foi uma ótima experiência e espero que tenha outras oportunidades logo. 🙂

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3 comentários sobre “O dia que dei aula numa escola finlandesa

  1. Cara, que experiência sensacional, dessas coisas que você vai lembrar pra sempre – eu pelo menos lembraria! rs

    Super interessante saber mais do comportamento dos adolescente de um país de “primeiro mundo” que é tão elogiado em relação à educação. Adorei!

    1. Bia

      Sim. Eu acho que o suposto sucesso educacional finlandês também tem a ver com o perfil das crianças e adolescentes, que é muito diferente dos brasileiros (eu que o diga, ufa)!

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