Kummi Family

Independente do motivo que escolhemos para ir morar fora, queremos entender um pouco da cultura daquele local e, quem sabe, até fazer parte dela em algum momento. Nos Estados Unidos eu era au pair, morava com uma família americana e aprendia todos os dias um pouco da cultura e religião deles, que eram judeus. Uma experiência ótima e certamente aprendi muita mais que inglês com eles. Na Irlanda, eu trabalhei como babá para duas famílias e embora eu não tenha morado com nenhuma delas, eu passava boa parte do meu dia com as crianças da segunda família, os loirinhos (aliás, eles ganharam uma irmã, agora tem uma loirinha!) e conversava bastante com a B., mãe deles e, de certa forma, também pude aprender mais com nativos sobre a cultura irlandesa. Aqui na Finlândia minha situação é bem diferente, pois como estudante em tempo integral não tenho tempo para arranjar emprego de babá, por exemplo, e ter a chance de conviver diariamente com uma família finlandesa. É claro que tenho amigos finlandeses, mas não convivo com eles o suficiente para dizer que aprendo a cultura plenamente, então, para preencher essa lacuna eu resolvi me inscrever num programa da universidade que visa a troca cultural entre uma família finlandesa e um aluno internacional, o kummi family (família tutora).

A ideia é bem simples: famílias e alunos se inscrevem na universidade e as famílias escolhem um aluno, com quem devem passar algum tempo em atividades diversas. O programa é gratuito e não há nenhuma obrigatoriedade de nenhuma das partes em estar sempre disponível ou se encontrar todo o final de semana, por exemplo. É uma atividade de lazer nas horas vagas.

Eu me inscrevi em janeiro e embora o prazo seja de duas semanas para um match, um mês depois eu ainda estava esperando ser escolhida por uma kummi family e quase desistindo da ideia. Finalmente, recebi um email da universidade informando que eu poderia entrar em contato com a família L.! Na verdade, eles me mandaram um email logo em seguida se apresentando: uma família com 5, eu disso cin-co, filhos! Eles me pediram meu contato de Whatsapp e começamos a nos comunicar pelo aplicativo.

Os pais aparentam estar na faixa dos 40 anos e têm 3 meninas e 2 meninos. A mais velha, a L., tem 15 anos e é com quem mais converso. A L. tem 12 anos,  os meninos são o P. e o N., de 8 e 6 anos, e a menina mais nova, a A., tem 3 anos e é muito fofa! Eles não me contaram antes, mas no primeiro dia que nos encontramos eu notei que tem uma 6ª criança chegando!

A família mora numa cidade chamada Ii (engraçado, né?) que fica a 40km  de Oulu e no nosso primeiro encontro eles vieram me buscar em casa para passar uma tarde/noite de sábado com eles. E. e P., os pais, conseguem se comunicar em inglês, mas com certa dificuldade e algumas vezes a comunicação fica um pouco difícil. L., a mais velha, é a que mais fala e embora também não seja fluente, conseguimos nos comunicar bem, mesmo que às vezes ela precise usar o Google Tradutor. As outras crianças não falam inglês ainda, então só trocamos sorrisos. Os meninos sempre ficam me olhando com muita curiosidade e a mais novinha, a A., acha engraçado que eu não sei falar finlandês – ela não entende como uma pessoa não fala a língua dela!

Vista do "quintal" da casa da família L.
Vista do “quintal” da casa da família L.

O primeiro encontro

Quando chegamos na casa, eu vi que eles não exageraram quando me disseram que moravam na floresta. O vizinho mais próximo está a uns 5 minutos a pé e não se vê nada além de árvores ao redor da casa. Conversamos um pouco e logo serviram o jantar – às 17h – que era sopa de salmão, comida tipicamente finlandesa que estava deliciosa. Havia também vários tipos de pão e leite para acompanhar, porque isso também é algo muito finlandês – eles comem pão e bebem leite em praticamente todas as refeições.

Após o jantar, todos nos vestimos adequadamente e fomos brincar na neve. No dia fazia -1 grau, uma temperatura super agradável – sem ironia. Saímos todos com sledges na mão para descer os morrinhos. Eu já fui esquiar, mas pra ser sincera, não me lembro e já ter usado um sledge antes e nas primeiras vezes desci junto com a L., a mais velha. Ficamos lá uma meia hora e foi muito legal ver aquela família enorme se divertindo. Fiquei pensando como pra eles aquilo é algo super normal e como tudo aquilo fará parte da memória dos pequenos quando eles crescerem enquanto eu só fui ver neve pela primeira vez aos 21 anos. Por outro lado, minha memórias de infância incluem praia, mar e calor e talvez aquelas crianças nunca tenham visitado um mar de verdade e sua praia seja a beira dos rios no verão. Esse mundo é muito grande mesmo, né?

Indo para o morrinho
Indo para o morrinho

Voltamos para casa e foi a hora da sobremesa. Eu quis agradar e levei um bolo de cenoura com cobertura de chocolate ao estilo brasileiro para eles. Bolo de cenoura tem no mundo todo (pelo menos em todo “o mundo” onde eu estive), mas é sempre marrom e com cobertura de cream cheese, já o bolo laranjão com chocolate é invenção nossa e os finlandeses acharam bem interessante e adoraram! A gente sabe quando eles comem por educação e quando gostam – tenho experiência servindo comida brasileira pra gringo – e eles gostaram mesmo, pois até repetiram.

Em seguida, fomos todos para a sala e o pai trouxe seu laptop com o Google Maps aberto e quis que eu mostrasse minha casa em São Paulo. Eu já morrendo de vergonha, porque apesar de morar num prédio com uma fachada limpa e organizada, a rua que eu moro não é exatamente linda e tem  uma casa abandonada, velha e toda pichada bem em frente, além de todos os fios pendurados nos postes que deixam as ruas de São Paulo horrorosas e não passaram despercebidas pelos olhares dos finlandeses. Eles ficaram surpresos com o prédio, muito alto na opinião deles. Eu querendo sair logo da rua, resolvi mostrar pontos mais interessantes da cidade, como a Avenida Paulista, a USP e o Parque do Ibirapuera. Eles ficaram admirados com o tamanho da cidade, curiosos vendo as estações de metrô na avenida e não sabiam o que eram aquelas “caixas” nas janelas dos prédios da Paulista.

– O que são essas coisas nos prédios?
– Ah, isso é ar condicionado.
Cara de interrogação.
– Ar condicionado para deixar o local mais fresco, faz muito calor em São Paulo no verão e as empresas sempre têm para deixar o ambiente numa temperatura confortável.

Aparentemente, ar condicionado não é algo normal para eles, mas pois bem, eles moram na Finlândia, não é? Aquecedor eles conhecem bem, mas uma máquina para deixar o ambiente mais frio é estranho… hahaha…

E é claro que eles me fizeram perguntas esdrúxulas, mas eu não julguei, porque eles moram no meio da floresta da Finlândia e o Brasil é realmente algo bem diferente e exótico pra eles. E eu já perdi as contas de quantos brasileiros já me perguntaram se tem urso aqui perto de Oulu, então fica quase que elas por elas.

– Os meninos adoram futebol! Quando contamos para eles que você era do Brasil, ficaram empolgados porque adoram o Messi.
– Ah, legal. Mas o Messi é da Argentina. Conhecem o Neymar? Eles sim é do Brasil.
– Ahhhh.

– Que tipo de animais de estimação vocês têm no Brasil?
– Gatos, cachorros, passarinhos… essas coisas.
– Ah, vocês não têm macacos?
– Olha, que eu saiba nem pode ter macaco de estimação. São animais silvestres, sabe?

– E lá em São Paulo todos têm eletricidade em casa?
– Sim, claro, São Paulo é uma cidade grande.

Fora isso, ficavam me perguntando os nomes da árvores que eles viam no Google Maps. Aqui em Oulu e região só tem pinheiros e estas árvores de tronco fino e longo, algumas escuras e algumas brancas e basicamente é isso. Em São Paulo, mesmo nas ruas, temos essas árvores de copa gigante e galhos crescendo pra todos os lados, algo que eles acharam bem curioso, só que quem sou eu pra saber o nome dessas árvores? Eu nunca nem pensei em saber o nome delas!

Finalmente, me contaram que adoram pescar no verão e queriam saber de peixes brasileiros. Taí outro assunto que sou expert, só que não. Se eu mal sei o nome dos peixes que eu como em português, o que dirá em inglês. Lembrei, então, que eu gosto muito de comer cação que, por definição, é um tubarão. Expliquei isto e ficaram muito surpresos que no Brasil se come tubarão – agora imagino que eles ficaram pensando no Tubarão Branco e nos achando ainda mais exóticos.

Gostei da família L. e fui muito bem tratada por eles. Eles estão abertos a novas culturas e curiosos para aprender coisas novas, ou seja, realmente estão no clima do programa. Acredito que outro motivo para participarem seja para melhorar inglês, principalmente dos filhos, já que a filha mais velha está aprendendo na escola e ter um estrangeiro é uma forma de praticar.

Agora é esperar para ver o que mais sai desta interação. 🙂

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5 comentários sobre “Kummi Family

  1. rickmartins

    Ah que massa! Deve ser legal visitar o ambiente deles mesmo, ainda bem que a Finlandia e bem diferente do US e da Irlanda, ne. Dias atras eu fui convidado por uma amiga da minha sala a ir na casa dela para um roast dinner tipicamente welsh com a familia dela.. foi bem legal e tb ouvi perguntas asssim hahah.. me lembrou desse video do Flama https://www.youtube.com/watch?v=Jmm7LCE9GVc

  2. Bia, achei isso muito legal! Uma experiência única mesmo poder ter esse contato com uma família finlandesa do interior, sabe? E cara, 6 filhos?! Coragem, né? hahaha

    Eu antes ficava ofendida com perguntas estranhas sobre o Brasil, mas acho que aprendi a relevar – o Brasil é um país exótico aqui na Europa, não tem como negar. Então o jeito é sorrir e responder as perguntas e quebrar preconceitos pouco a pouco!

    ps: poxa, não tem urso em Oulu? hahaha Que eu saiba tem urso na Noruega, imaginei que fosse igual nos outros países nessa altura do mapa….

    1. Bia

      Deve ter urso mais ao norte, mas é que me perguntam se nas florestas próximas da cidade têm urso e que eu saiba, não! Os únicos animais que cruzamos por aqui são esquilos, coelhos e pássaros.

  3. Cara, essa coisa toda de diferença cultural não é o máximo? Não sei você, mas sinceramente me vejo no futuro me envolvendo de alguma maneira com isso. Conhecer sobre a experiência das pessoas de outros países (ainda mais estando no país e vivenciando experiências com nativos, como esse seu caso) só mostra o quanto esse mundo e gigante e curioso! S2 planeta Terra!

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