Kaamos

No último post comentei que viajei no winter break, mas antes de começar a escrever sobre a viagem, não posso perder o timing e falar do assunto que dá nome ao post: kaamos!

Kaamos é uma palavra finlandesa que significa “transtorno afetivo sazonal” ou, em outras palavras, aquela deprê que bate por causa do inverno frio e principalmente escuro destas bandas. O transtorno é algo tão presente por aqui que tem uma palavra só para nomeá-lo!

O nome em português é autoexplicativo, mas não custa nada falar um pouco a respeito. Como o próprio nome sugere, é uma depressão relacionada a determinadas épocas do ano e como eu nunca ouvi falar que alguém se sinta deprê num belo verão, ele está relacionado mesmo ao inverno (brincadeiras à parte, apesar de bem mais raro, também existe a de verão, viu?). Os sintomas geralmente incluem transtornos de humor e episódios depressivos, irritabilidade, sonolência e/ou muita preguiça e moleza além do normal, cansaço anormal,  a concentração diminui e há um desejo maior de ingerir alimentos ricos em açúcar e carboidrato e, consequentemente, ganho de peso.

Há teorias de que o transtorno tenha relação com a luz solar: menos sol, menos alegria.

Agora feche um olho (o outro continua lendo o post, ok? haha) e imagine que você está em Oulu. Oulu é uma cidade lindinha a cerca de 170km do círculo polar ártico e no auge do inverno o dia começa a ficar claro depois das 10h da manhã e começa a escurecer pouco depois das 14h. O sol nasce e se põe depois e antes disso e ele não fica a pino – ele nasce no horizonte, “anda de ladinho” e se põe poucas horas depois. Num dia que, de fato, o céu esteja limpo e vemos o sol, ele fica lá por menos de 4h.

That's the feeling!
That’s the feeling!

Olhando pelo lado positivo, pelo menos aqui o sol aparece, né? No extremo norte da Finlândia ele se põe no fim de novembro e só nasce novamente em meados de janeiro. Vou me considerar uma sortuda. 🙂

E eu tenho kaamos? Como estou sobrevivendo no inverno finlandês?

Eu não sei o porquê, mas eu sentia muito mais quando morava em Dublin, onde no auge do inverno o sol nasce pouco depois das 8h e se põe lá pelas 16h. Eu me sentia irritadiça e sem ânimo e estranhava muito o dia extremamente curto – meu cérebro não conseguia lidar bem que apesar de já estar completamente escuro às 17h, o dia ainda estava longe de acabar. Aqui eu não me sinto irritada, mas claro que a sonolência, o cansaço e a preguiça me pegaram de jeito mesmo antes do inverno começar, mas com a vitamina D eu estou indo bem. Um outro sintoma relacionado ao inverno é a perda de cabelo e enquanto no Brasil meu cabelo quase não caía nem quando eu lavava, aqui passei a tirar perucas do ralo depois do banho. Claro que me assustei e comecei a tomar um multivitamínico para dar um help para natureza e como ele também tinha vitamina D – numa dosagem 5 vezes menor – eu resolvi que só tomaria ele. Duas semanas depois chegou uma manhã que eu não aguentei levantar da cama e hoje em dia eu alterno os comprimidos: um dia a vitamina D apenas, um dia o multivitamínico. Tem funcionado – o cabelo ainda cai mais do que caía no Brasil, mas já diminuiu e eu não fico mais sonolenta.

Vontade de comer doce eu sempre tive, então não sei dizer se isso aumentou aqui – o que aumentou foi meu peso. Tem horas que acho que meu cérebro pensa que sou um ser que hiberna e está poupando banha gordura para essa etapa da vida que nunca vai chegar. Engordei 2-3kg desde que cheguei aqui, mas isso também pode ser facilmente associado a falta de exercícios físicos regulares e uma alimentação baseada em “no que estou com vontade de comer agora”. No Brasil eu fazia kung fu três vezes por semana e caminhava bastante e aqui, apesar de andar de bicicleta, a frequência diminuiu muito com a chegada do inverno.

Meu cérebro está muito de bem com a escuridão, porque eu não tenho aquela sensação que meu dia acabou depois das 15h quando está completamente escuro. Só fico atenta que para certas atividades preciso me atentar ao horário para aproveitar a pouca luz do dia que aparece aqui.

Estou lidando bem com os possíveis efeitos colaterais do inverno aqui. Isto é um tapa na cara da sociedade que fez de quem fez cara de nojinho pra mim me perguntando o que eu ia fazer num país de clima inóspito! Não vou dizer que adoro o inverno finlandês, mas nós dois estamos nos entendendo bem. 🙂

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7 comentários sobre “Kaamos

  1. Hahaha, adorei a tirinha!

    Sempre tive medo dessa depressão sazonal, mas apesar do clima ter piorado um boca nas últimas semanas aqui em Dublin, acho que passei mais raiva com ele em Galway, então está tudo bem.

    Esse lance das vitaminas foi algo que você decidiu meio que na automedicação, não foi? Não tem nenhum perigo de efeito colateral? Às vezes imagino que precisaria de algo do tipo, mas sei lá…

    1. Bia

      Err… sim, me pegou no pulo!
      Confesso que o ideal seria ir ao médico para saber a dosagem correta que deve ingerir, mas se todo mundo fizesse isso, os médicos só trabalhariam prescrevendo vitamina D.
      A questão é que todos devem tomar e isso é recomendação médica aqui. As dosagens variam entre 10, 25, 50 e 100. Quando passei a tomar só o multivitamínico que tem 10, eu voltei a sentir moleza e sonolência, então passei a alterná-lo com a vitamina D pura de 50 e agora estou bem.
      Claro que há consequências em ingerir vitamina D em excesso, como absorver muito cálcio e ter cálculo renal. Mas veja é que o mesmo princípio da vitamina C que encontramos no Brasil: as pessoas tomam sem receita, encontramos em todo lugar facilmente e apesar do excedente ser eliminado pelo organismo, isso pode sobrecarregar os rins e causar outros danos. Cada país com sua vitamina! 🙂

      1. (Desculpe a demora da “tréplica”, mas como te disse nunca recebo notificação dos seus comentários, e tenho que voltar no post que comentei e ver se você falou algo, kkkk).

        Não me entenda mal, pois pode ficar parecendo que “tô te julgando”, hehe. Entendo e realmente acredito que essa reposição vitamínica seja mesmo necessária. Aqui mesmo em Dublin já ouvi gente falar que faz isso. Na verdade eu até estava tentado a fazer, mas depois que falou da possibilidade de cálculo renal, pra uma pessoa que já precisou se operar duas vezes por isso e quase morreu de tanta dor, eu passo, rs!

      2. Bia

        Eu acho que você precisa ticar que você quer seguir os comentários do post, aí quando eu (ou qualquer outra pessoa) responder, você recebe uma notificação por email.

        Eu não te entendi mal, não, foi uma dúvida. Eu já tive cólica renal 3 vezes, mas se eu não tomo a vitamina D eu fico muito mole e com mais preguiça que o normal. É óbvio que pode ser só efeito placebo, mas o importante é que eu sinto a diferença, então nem penso em parar de tomar.

  2. rickmartins

    Bia, será que em Dublin voce nao sentia mais pq tinha uma vida menos agitada? Era só casa e trabalho…em Oulu voce tem faculdade, trabalhos, projetos e bla bla bla.. dai voce se ocupa mais e manda a depre um pouco mais pra longe. Nao posso reclamar de Cardiff, Sligo era muito pior e já estou sentindo que o o dia está ficando maior…ontem eram 16:30 e estava claro ainda!

    1. Bia

      Acho que não, Rick, porque eu também ficava o dia inteiro fora com os loirinhos ocupada. Aqui eu vejo o sol em muitos dias, acho que isso faz diferença.
      Os dias estão ficando mais longos aqui também, mas ainda está escuro a maior parte do dia.

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