O finlandês e eu

E por “finlandês” eu quero dizer o idioma, ok? 🙂

Quando fiquei sabendo que vinha para Oulu fiquei me perguntando se deveria aprender finlandês e todos me diziam que não era necessário, pois eu poderia me virar muito bem falando apenas inglês aqui – o que não é mentira.

Eu diria que a população com menos de 35 anos, em geral, é fluente em inglês, pelo menos nas cidades grandes, então não falar finlandês realmente não atrapalha sua vida por aqui – a caixa do mercado fala inglês, o zelador do prédio fala, o porteiro da escola fala, o funcionário do banco fala. Já não é verdade que a comunicação escrita é assim também. Tudo em todo lugar está apenas escrito em finlandês, ou seja, se vira! E confesso que dá um desespero quando recebo algo escrito só nesse idioma único e preciso 1- tentar deduzir o que está escrito pelo contexto ou 2- pedir pra um finlandês me ajudar.

Bate um desespero!
Bate um desespero! Carta do correio que foi traduzida pela flatmate. 🙂

E não adianta usar o Google Tradutor, porque a tradução é muito ruim, muito mais por culpa da complexidade da língua do que do Google em si. :/

Uma matéria obrigatória no mestrado é o Survival Finnish, que como o nome já diz, é o basicão da língua pra gente conseguir sobreviver. Eu aprendi a me apresentar, cumprimentos, números, falar a hora, alguns verbos e suas conjugações,  frases-chave, dar direção, comidas e bebidas, frases para usar em em algumas situações como restaurantes e cafés, e um dos casos da língua, o partitivo.

Falando assim parece muito, né? Mas isso é o suficiente para eu conseguir ir ao mercado e não comprar batata achando que estou comprando carvão (o que de fato eu já fiz – a embalagem era muito igual)! Bem, o curso terminou e eu tinha duas opções: parar por aí e deixar a vida me ensinar – ou seja, não ia aprender mais nada- ou me matricular no Finnish Beginner 1, uma disciplina oferecida pela universidade gratuitamente.

Eu tive várias discussões mentais entre eu e eu mesma para decidir se ia ou não continuar tentando a aprender esse língua tão peculiar. A discussão:

– Vou morar aqui quase 2 anos, seria no mínimo educado aprender a língua local.
– Mas só se fala finlandês aqui! E só tem uns 5 milhões de finlandeses no mundo… ou seja, uma língua completamente inútil quando não estiver mais morando por estes lados.
– Talvez, mas não deixa de ser interessante a ideia de poder entender o básico ao ler anúncios, ir ao mercado ou falar com alguém.
– Bem, mesmo que tudo esteja escrito em finlandês, eu sempre vou achar alguém que fale inglês em todos os lugares que precisar ir, desde que fique nas cidades grandes.
– Eh, mas ainda acho uma afronta morar num lugar 2 anos e não ser capaz de entender o básico…
– Porém também sei que mesmo que saiba o básico, em todos os lugares públicos vou poder continuar falando inglês.
– O curso na universidade é gratuito! Já imaginou o privilégio de aprender uma língua sem pagar nada?
– Fato! Mas vim aqui fazer mestrado, estarei desperdiçando meu tempo aprendendo algo sem utilidade prática enquanto poderia estar focando em coisas mais importantes.
– Quem vê pensa que não passo horas no Youtube, Facebook… Pelo menos o curso me dá 3 créditos de disciplinas eletivas.
– Uhnn… 

E no fim, eu me convenci que deveria fazer o curso. São 7 semanas, 3h de aula por semana. Não estou super mega empolgada para aprender finlandês, mas conforme vou aprendendo algumas regras fico feliz em ver que a língua tem sua lógica, apesar de isso não a fazer parecer mais fácil.

Alguns fatos:

  • Não tem preposição nem artigo;
  • Não tem masculino e feminino at all! Só existe um pronome para ele/ela (hän/se) e só se sabe se a pessoa sobre quem se fala é homem ou mulher pelo contexto;
  • Não existe o tempo futuro e é o contexto também que indica o tempo verbal;
  • A fonética é muito simples (e só a fonética). Podemos ler uma palavra em finlandês quase do mesmo jeito que lemos em português;
  • Tem duas vogais a mais: ä e ö;
  • O ä tem som tipo “É”, o ö se faz fazendo boca de O, mas falando E; o y se pronuncia fazendo boca de I e falando U; o J também tem som de I;
  • Há vogais e consoantes duplas em muitas palavras e todas as letras devem ser pronunciadas, do contrário você pode estar falando uma palavra completamente diferente;
  • Tem 14 casos na língua e, oficialmente, só aprendi um até agora, o partitivo;
  • Para formar palavras novas, se junta palavras. Exemplo: jää – gelo, kappi – armário > jääkappi – geladeira;
  • Há muitos e muitos sufixos que são adicionados na palavra e às vezes fica até difícil reconhecer a palavra original;
  • E como se não bastasse ser difícil por natureza, há duas versões da língua: a coloquial e a formal e elas podem ser muito diferentes – e não, não estou falando dialetos, que também existem.

E assim sigo. Às vezes acho que será mais fácil assoviar chupando cana do que aprender esta língua – e eu não sei assoviar -, mas se tudo der certo, até o fim do ano terei um nível de finlandês A1.1. Aguardem os próximos posts.

E para terminar, deixo vocês com esta mensagem motivacional para quem deseja aprender este idioma tão único!

finnish

 

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15 comentários sobre “O finlandês e eu

  1. rickmartins

    Que legal, Bia! Eu to pensando em me matricular nos cursos de Welsh tb….a biblioteca oferece it for free! Adoraria aprender os sons loucos que eles fazem hahaha. E ADORO ESSES PAISES BOLINHAS HAHAHUHAHA

      1. rickmartins

        Em CArdiff, nao tanto…em Gales….bastante! Bem mais do que a Iranda fala irlandes…aqui gales esta presente emtodos os lugares, de McDonald a Primark… ouve-se gente falando na rua… minhas housemates sao fluentes… muitas cidades apenas falam gales.. tem gales q fala ingles como segunda lingua haha.. Engracado, ne?

  2. Amei esse quadrinho no final, Bia! Dei muita risada. Que tenso aprender finlandês, mas eu super te apóio e acho que aprender línguas nunca é desperdício. Você vai se sentir mais confiante e parte do lugar onde você mora durante esses 2 anos e a gente nunca sabe se no futuro você vai precisar fazer uso do finlandês novamente, né?

    1. Bia

      Acho pouco provável, a menos que fique aqui pro PhD (o que, no momento, não é o plano). Mas vou desbravando essa língua até onde conseguir.

  3. Parabéns pela escolha! Eu amo idiomas e sempre acho útil aprender – mesmo que pareça inútil hahaha. Desbravar uma língua difícil que parece impossível, é uma coisa muito gostosa e dá um orgulho que só 🙂 Abraço!

  4. É super chavão, mas sou desses que acha que conhecimento nunca é demais, especialmente se puder aplicá-lo nos seus dois anos aí. Tô contigo!
    Com relação ao tecniquês (não resisto), o problema é que as ferramentas de tradução sempre vão pro lado do literal né, e ainda não é perfeitamente possível fazer com que elas “raciocinem” usando o contexto (apesar das ferramentas do Google já meio que engatinharem nesse sentido por meio de inteligência artificial).

    1. Bia

      É verdade, mas português-inglês, hoje em dia, até dá pro gasto, mas finlandês-qualquer outra língua, muitas vezes não pega nem o essencial.

    1. Bia

      Dizem que sim, mas acredito que o fator mais importante é a motivação! Minha motivação em aprender finlandês é porque moro aqui e acaba sendo satisfatório ir ao mercado, por exemplo, e entender o que estou comprando. 🙂

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