Madri – a cidade fantasma e o walking tour

Ao fim do terceiro dia em Barcelona, peguei um ônibus overnight com destino a Madri – me chamem de louca, mas sempre que possível prefiro pegar esses ônibus noturnos por motivos de: eu não desperdiço tempo que poderia estar turistando durante o dia com locomoção e ainda economizo uma noite de hospedagem dormindo no ônibus – sim, eu consigo dormir dentro de um ônibus, não é o melhor sono da vida, mas acho muito suportável. E o ônibus era moderno e confortável.

Cheguei na capital espanhola muito cedo, antes do horário previsto, e como ainda era inverno, estava tudo escuro. Eram 6 e pouquinho da manhã, tinha wifi ilimitado na rodoviária e eu tinha meu café-da-manhã previamente comprado no dia anterior comigo: resolvi enrolar por lá até o dia começar a amanhecer. Por volta de 7 e pouco, já entediada e sem ter visto se havia amanhecido ou não – a parte da rodoviária que eu estava ficava no nível underground com o metrô – resolvi tomar meu rumo para o hostel. Era uma terça-feira e estranhei o metrô muito vazio, mas sei lá, né? Não estava em São Paulo e vai ver que era assim mesmo. Quando cheguei na estação que iria descer, tudo estava igualmente deserto. Era uma daquelas estações que se resumem a plataforma e os trilhos, nada parecido com as grandes estações de metrô da minha terra. Não tinha uma alma espanhola lá e quase vi a bola de feno rolando. Saí da estação às 8 e pouquinho da manhã e supresa! Ainda estava escuro e não tinha absolutamente ninguém na rua, nem carro passava e todo o comércio estava fechado. Estranhei, afinal, era uma terça-feira às 8h da manhã, mesmo no inverno, supus que deveria haver algum movimento na rua. Eu saí da estação mor-ren-do de medo! Lá estava eu com minha mochilona nas costas, passaporte e euros andando só numa rua deserta e escura. Tensão. A sorte é que o hostel ficava a duas quadras da estação, coisa de menos de 2 minutos andando, mas foram os minutos mais longos da minha estadia!

Cheguei no hostel e fui fazer check-in. Cheguei no local falando meu bom inglês e recebendo respostas em inglês também. Quando entreguei meu passaporte, o rapaz da recepção automaticamente começou a falar em espanhol comigo. Why oh why? Eu não estava entendendo quase nada do que ele falava! Se eu começo falando contigo em inglês, por que tu muda para espanhol no meio da conversa quando descobre que sou brasileira? No hablo español! E quando o rapaz se deu conta que eu não estava entendendo metade do que ele dizia, voltou para o inglês. Isso me mostrou uma coisa: brasileiro viaja e não se dá ao luxo de aprender o basicão do inglês, aí quando chega em países de língua espanhola, esbanja seu portunhol e ficamos todos marcados como o povo que não sabe falar inglês. Desabafo feito!

Eu estava muito cansada e como ainda estava escuro, resolvi sentar um pouco na área comum do hostel e traçar meu roteiro para aquele dia. Por volta de 10 e pouco, sai rumo a um mercado que ficava a uns 15 minutos a pé dali. Obviamente, mesmo com um mapa na mão, eu me perdi – e não venha você me falar que é porque sou mulher! Eu sempre me perco mesmo com mapas na mão. Enfim, achei o lugar e as coisas continuaram muito estranhas: todo o comércio pelo qual passei no caminho estava fechado, vi pouquíssimas almas andando na rua e ao chegar no mercado, me deparo com os quiosques fechados também! Eu ali sozinha parada, comecei a refletir e cheguei à conclusão óbvia: era feriado, mas não qualquer feriado – era 6 de janeiro, dia de reis e os espanhóis, por algum motivo, consideram esse feriado tão importante quanto o Natal e absolutamente tudo estava fechado, inclusive os museus. Olhei no relógio: 10h45 da manhã. Fiquei imaginando o que poderia fazer naquela cidade fantasma para não perder o dia. Aí lembrei do walking tour que havia incluído para ser feito no dia seguinte, quando o T. iria chegar em Madri e me encontrar. Bem, aproveitei que tinha wifi no mercado, entrei rapidamente no site para ver onde era o ponto de partida, depois chequei no GoogleMaps como chegar lá e corri para ver se conseguiria pegar o tour das 11h e salvar meu dia. Obrigada, tecnologia, wifi e smartphones!

Corri que nem louca e consegui pegar a galera ainda no ponto inicial, a Plaza Mayor, aprendendo mais sobre a estátua que fica ali no centro. O guia falava um inglês muito bom, mas com um inconfundível sotaque espanhol – ou seja, como eu sempre falo, sotaque não é problema, gente, falar errado é!

O walking tour foi mais uma aula de história do que uma visita a pontos turísticos, por assim dizer. Não que Madri não tenha pontos de interesse, mas não há quase nada mundialmente famoso, né? Bem, neste tour pude comprovar minha teoria de que tapas, a comida típica do país, é realmente uma pequena porção de qualquer coisa. O guia contou que antigamente as pessoas bebiam umas biritas na hora do almoço e voltavam ao trabalho trançando as pernas e pouco rendiam. Um rei X (não vou lembrar o nome a essa altura da vida, gente) sugeriu que os bares servissem um lanchinho junto com a bebida e todo mundo sabe que não se bebe de barriga vazia, né? Dizem que então, as pessoas começaram a render no trabalho depois do almoço mesmo depois das biritas. O nome tapas vem do hábito de tapar os copos de bebida com um prato, ou seja, tapas. Interessante, não?

Ele também comentou que existem quatro língua faladas na Espanha: o espanhol, óbvio, o catalão, o basco e o galego, uma língua muito parecida com o português. O guia fez questão de ressaltar que mesmo onde se fala outra língua, o espanhol também é falado, apesar do sotaque dos falantes ser muito forte. Fora tudo isso, também foi contando toda a história da formação da Espanha, seus reis e rainhas até a geração atual.

Ainda no começo do tour, ficamos conhecendo o restaurante mais antigo do mundo, o Botin, fundado em 1725. Claro que para poder fazer uma refeição por lá é necessário reservar com certa antecedência e tirar o escorpião do bolso. Eu não inclui este restaurante no meu roteiro porque sou pobre não estava a fim.

Botin
Botin

O tour ainda passou pelo Palácio Real, que estava isolado pois o rei estava por lá, dentre outros lugares, e terminou na Plaza de Oriente, onde existe um teatro que na época em que foi construído, era considerado um dos mais caros e importantes da Europa.

O palácio real visto de um morro
O palácio real visto de um morro

Confesso: o walking tour não me empolgou muito. Foi importante pela questão histórica e tal, afinal, é legal saber um pouco da história da cidade que se visita, mas no quesito “sightseeing” não havia muito a se ver de verdade. E não foi culpa do guia nem nada, o guia era bom, aliás, todos os guias do Sandemans costumam ser, mas já fiz tours mais empolgantes.

Eu já estava morrendo de fome quando o tour terminou, por volta das 2 e pouco da tarde, e decidi comer num Burger King bem em frente a Plaza de Oriente mesmo, me julguem. Depois de comer, resolvi dar uma volta nas redondezas só para ver a cidade e tal e quando tentei voltar para o hostel, guess what! Me perdi e fiquei dando voltas eternas até achar uma rua principal! The story of my life.

Cheguei no hostel pouco depois das 4 da tarde e achei por bem tentar dormir, já que eu não ia poder continuar turistando, pelo menos que descansasse um pouco. Mas quem disse? Não consigo tirar cochilos vespertinos sem toda uma preparação psicológica, mesmo que esteja morrendo de cansaço, e confesso que o quarto ainda claro não ajudou muito. Desisti do sono, tomei um banho e saí para procurar algum lugar para jantar. Voltei, desperdicei um pouco da vida na internet – já fazia dias que eu não fazia isso-, tracei meu roteiro para o dia seguinte e resolvi que ia dormir cedo. Foi aí que precisei ir escovar os dentes e não sei como, perdi o cartão de acesso ao quarto do hostel. Eu juro pra vocês que depois de tantos dias dormindo pouco, minha memória estava péssima (e como eu lembro de tudo isso pra contar aqui no blog? Segredo!) e quando retornei ao quarto não me lembrava se havia deixado o cartão por lá ou não – o pessoal do quarto estava só encostando a porta. Aí que lá vou eu revirar a cama procurando o bendito. Tiro tudo da mochila e arrumo de novo. Tiro tudo da bolsa e arrumo de novo. Volto no banheiro e nada. Nessa história, matei quase 1h procurando um cartão que não achei e já era meia-noite. Conformada que havia perdido e iria perder 10 euros de depósito, resolvi que era melhor dormir logo, então. Deitada na cama, tive um clique: e se eu realmente perdi e alguém achou e deixou num lugar estratégico? Saí do quarto e não é que achei o bendito em cima da mesa do computador do andar? Traumatizada e decidida a não mais me dar sustos, guardei o cartão num lugar que jamais o perderia novamente: dentro da capinha do meu celular. Afinal, só o perderia se perdesse o celular e meu celular é algo que eu com certeza não perco. Não é?

E finalmente meu dia chegou ao fim, sem muitas emoções e sem parecer que turistei de verdade, mas com a primeira noite bem dormida em toda a viagem!

Uma das muitas estátuas de Madri
Uma das muitas estátuas de Madri

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8 comentários sobre “Madri – a cidade fantasma e o walking tour

    1. Bia

      Nem sei como sobrevivi a viagem toda! haha… Ah, Rick, visite Madri quando já tiver completado as figurinhas mais disputadas do álbum! hehe

  1. Ótimo texto só para variar… parecia que eu estava lendo um conto de suspense/terror nos primeiros parágrafos, comédia na parte do hostel, slice of life no meio e drama no final. Praticamente uma novela rs.

    E a grande verdade é que brasileiro é preguiçoso com o inglês. Fica provado isso.

  2. Paulo

    Hummm, de repente me deu uma preguiça de ver a distância do aeroporto pra cidade hahahaha
    Madrid não me empolgou com a sua experiência lá…
    Acho que vou conhecer só o aeroporto mesmo, como você diz, “me julguem”.

  3. Esse post muito me interessa… Tenho uma conexão de 6 horas em Madrid e queria saber se dá pra sair de Barajas e dar um pulinho rápido no Centro. Bom saber que leva pouco mais de meia hora! Agora também preciso de uma forcinha da galera da imigração pra deixar eu sair. Vamos ver.

  4. Quando li “E o celular com certeza eu não perco, né?” Já me deu um aperto no coração e pensei putz, ela perdeu o celular também. Hahaha mas que bom que não aconteceu mais nada trágico!

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