Eu sinto em português

Uma das coisas que gosto em São Paulo é a intensa vida cultural da cidade. Sempre há algo novo para se fazer ou ver morando nesta Paulicéia Desvairada, afinal, tudo quanto é exposição chega aqui.

Apesar de não postar a respeito no blog, eu costumo ir em tudo quanto é evento cultural e esse ano fui ver Stanley Kubrick, David Bowie, Castelo Rá-Tim-Bum, Cazuza, o musical e FILE 2014, para citar alguns. Pois bem, ontem começou a exposição surrealista de Ron Mueck na Pinacoteca e como era feriado, resolvi ir. Como esperado, a fila estava enorme e já que o Museu da Língua Portuguesa fica bem em frente, resolvi dar uma volta lá (pela 3ª vez na vida) antes de encarar a fila que dobrava o quarteirão.

No último andar do museu é exibido um filme sobre a origem da língua e em seguida, são feitas projeções nas paredes ao som de trechos e poesias de vários autores brasileiros. No meio de todas aquelas palavras, eu ouço “Eu falo português. Eu penso português. Eu sinto português.” e tive um remember de uma epifania!

Explico. Mas senta que lá vem história.

Falar uma língua não é pura e simplesmente conhecer seu vocabulário e gramática, mas tomar conhecimento de sua cultura – língua e cultura são inseparáveis. Se português é sua língua materna, você traz na bagagem tudo que inclui ser um falante nativo de português do Brasil. Você pensa em português e todas as suas experiência de vida foram processadas por você em português. Reserve este parágrafo.

Dizem por que pessoas bilíngues assumem personalidades diferentes quando falam cada idioma. Claro que isso não significa que a pessoa se transforma em outra completamente diferente, mas que assume posturas diferentes, como ser mais extrovertida falando uma língua do que outra e, claro, isso acontece se a pessoa também está/esteve inserida na cultura de ambas as línguas. A minha voz muda quando eu estou falando inglês por muito tempo – esta semana mesmo, por exemplo, precisei falar português com meus alunos teens, algo que nunca faço, e o comentário imediato deles ao me ouvirem falando português: “Teacher, sua voz em português é tão diferente”. Tenho dupla personalidade vocal, aparentemente. Reserve este parágrafo.

Se você fala outra língua e já precisou/foi obrigado a usá-la por muito tempo sem poder/conseguir usar português, lembre-se como você se sentiu. E por muito tempo quero dizer dias seguidos, no mínimo. Na Irlanda eu falava português frequentemente, pois vocês já sabem que em Dublin tem mais brasileiros que muitas cidades pequenas daqui, né? Passava o dia falando inglês com os meninos, mas a noite era só português com os flatmates. Mas quando cheguei nos Estados Unidos só fiz amizade com estrangeiras, morava com uma família americana e nos meus primeiros 2,5 meses eu praticamente não falei português. Eu cheguei num ponto de estar quase pirando, de não aguentar mais falar “a língua dos outros”, de querer expressar meus sentimentos e pensamentos na minha língua e em alguns momentos me sentia até frustrada de olhar para a cara daqueles americanos e saber que não entendiam uma palavra na minha língua.

Finalmente, se você é fluente em algum idioma, já chegou aquele momento em que precisou falar dos seus mais profundos sentimentos e não conseguir achar as palavras certas, não por não sabê-las, mas porque parecia que nada descrevia exatamente o que você sentia? Ou então, falar alguma frase carregada de sentimentos, mas ter a sensação que ela não soa tão sincera/real/profunda quanto soaria se pronunciada na sua própria língua?

Agora junte os quatro últimos parágrafos. Exatamente! Não importa o quão fluente eu seja numa língua, o quanto eu manje dos paranauês dela, o quão confortável eu me sinta enquanto a falo, eu sempre vou sentir e processar minhas emoções em ~português~. Eu falo português, eu penso português e eu sinto português. Afinal, inglês é e sempre será minha segunda língua, “guardada” no meu cérebro numa gaveta diferente do português, aquela língua que parece que também tem uma gavetinha no coração. 😉

Ah e sim, eu acabei visitando a Pinacoteca e achei as obras sensacionais! Visita recomendada!

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2 comentários sobre “Eu sinto em português

  1. Ótimo post, Little. Muito bom mesmo.
    O inglês tem uma gaveta no seu cérebro, mas o português tem uma em seu coração. Show. Lembrei do Museu da Língua Portuguesa… devo ter ido lá umas 3x também e lembrei dessa projeção… é uma sensação muito boa

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