Não é porque sabe falar inglês…

…que pode ser professor!

Dia desses, eu estava desperdiçando minha vida checando o Facebook e vi um post de uma pessoa conhecida que morou um ano no exterior e voltou ao Brasil recentemente. Ela estava oferecendo aulas de inglês, simples assim. “Quer aprender inglês de verdade? Fale comigo. Aulas por Skype”. Li. Indignei-me. Desabafei com a Bárbara (um oceano de distância não é suficiente para nos afastar). Como uma pessoa ousa a se achar capaz de ensinar uma língua que ela não domina com o argumento de “morei um ano no exterior”? Eu já havia lido posts em inglês desta pessoa no Facebook e bem, ela consegue se comunicar, mas apresenta vários erros gramaticais e tem a tendência de traduzir literalmente do português (o famoso “falar português em inglês”), então, jura mesmo que ela se sente capaz de ensinar inglês e cobrar por isso?

Ah, Bia, para de ser chata! Deixa o ser humano ser feliz!

Não dá. Eu dou aula, mas eu sou formada em Letras por uma boa universidade, eu fiz 6 anos de curso de inglês e só depois de morar um ano fora e melhorar minha fluência que me senti confiante para ser professora. Mas nada disso é essencial, pois conheço ótimos professores que não são formados em Letras e/ou não moraram fora. Eu sou quase formada no curso de Licenciatura e já fiz diversos treinamentos. Mas isso também não é essencial, pois conheço pessoas formadas ou com excelente nível de inglês que são péssimos professores (não sabem ou têm preguiça de ensinar).

Falei o que não é necessário para ser professor. Mas e o que precisa?

Há pessoas que pensam que porque aprenderam a conjugar o verbo to be, já podem dar aula. Mas não, a primeira coisa é dominar aquilo que você quer ensinar. Uma pessoa com um inglês razoável que consegue se comunicar não é, necessariamente, capaz de identificar as dificuldades daquele que aprende, além disso, como identificar erros se nem você sabe direito o que está fazendo? É óbvio que não precisa saber toda a gramática de inglês de cabo a rabo, eu não sei (nem do português), mas um nível avançado, no mínimo, a gente precisa, além de ter conhecimento daquilo que se usa no dia-a-dia. Conheço uma outra pessoa que é professora de inglês e já a vi postar diversas vezes no Facebook que estava “corrigindo homeworks”. Homework é um substantivo incontável, ou seja, não tem a forma plural. E eu acho que é uma palavra muito comum na vida de um professor para não saber que homeworks é errado. Só acho.

O domínio do idioma não significa apenas saber gramática e ter muito vocabulário. Pronúncia e entonação são fundamentais. Uma pessoa que converse com você em inglês com a mesma musicalidade do português, sorry, não é completamente fluente. Pessoa com pronúncia ruim também não, e é importante não confundir pronúncia com sotaque. Falar “comforteibou” para comfortable é problema de pronúncia, não de sotaque. Finalmente, inglês é uma língua e português é outra e nem da mesma família de línguas elas fazem parte. Pode parecer óbvio, mas na prática, pra muita gente, não é. Muitas vezes me deparo com frases escritas por brasileiros em inglês que eu enxergo o português nas entrelinhas- a pessoa foi pensando na sua frase em português e na hora de escrever, só colocou as palavras em inglês. Uma pessoa com pleno domínio da língua não faz isso.

Tá, Bia, a pessoa domina a língua inglesa plenamente, pode dar aula? Não! Você, nativo do português, conseguiria dar aula para um estrangeiro que não fala a nossa língua? Você conhece as metodologias utilizadas no ensino de idiomas? Conhece as tendências? Já ouviu falar em alfabeto fonético? Sabe ler e escrever palavras usando o tal alfabeto fonético? Sabe aplicar exercícios utilizando materiais lúdicos? Tem ouvidos treinados para reconhecer erros de pronúncia e gramática? Consegue identificar os pontos altos e baixos do seu aluno? Para ensinar inglês (ou qualquer coisa nesta vida) não basta apenas dominar o assunto, mas saber transmiti-lo, ser o agente facilitador entre o aluno e o objeto de estudo.

Dito tudo isto, eu me incomodo sim ao ver pessoas sem domínio da língua querendo “ensinar” inglês para ganhar uns trocados. Acho que é menosprezar a profissão que eu escolhi pra mim por vocação (porque vamos combinar que ninguém entra nessa vida pra ficar rico) e que eu sempre me esforcei como pude para dar o meu melhor. Então, a pessoa vai morar um ano no exterior e volta para o Brasil se sentindo o professor? My ass.

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3 comentários sobre “Não é porque sabe falar inglês…

  1. O que mais tem é esse tipinho que mora fora e acha que pode ser professor. E as pessoas ficam “óóóóó”, fulano morou fora, ele sabe falar, sabe dar aula. Nunca vi pensamento mais equivocado! Fiquei tão revoltada com essa história quando você me contou (que fofo o comentário do oceano!) que também escrevi a respeito, mas mudando um pouco o foco: professores nativos e não-nativos (postarei em breve).

    Enfim, Bia, a gente que é professora de verdade fica revoltada quando vê essas coisas, mas o máximo que podemos fazer é provar nosso valor dentro de sala de aula, né? Meus alunos ficavam impressionados quando eu dizia que nunca havia morado fora – significa que eu tava fazendo alguma coisa certa! 🙂

    1. Bia

      Pois é, estamos numa sociedade onde todos cobram educação, mas não se incomodam com pseudo-professores. Que coisa! E vai saber se quem reclama não está ganhando dinheiro também?! E sabendo o que faz. Que louco!

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