Onze meses de Irlanda

Longe de casa há 335 dias.

“Mas você já morou fora antes, já sabe como é, está acostumada”, todos dizem. A gente não se acostuma com a saudade e com a falta que faz viver longe de onde cresceu. Não eu. Eu me adapto muito fácil, foi assim nos EUA, está sendo assim aqui, mas eu sempre digo que eu só suporto estar longe do meu mundo porque sei que tem prazo de validade: um dia eu volto. Contraditório, eu sei.

No meu ano na Obamaland nos EUA eu percebi como era flexível e que eu, com 20 anos, já conseguia ser um tanto quanto responsável. Mas eu tinha casa, comida e roupa lavada (por mim, mas tinha) e minha preocupação era “só” cuidar das crianças (uma baita responsabilidade). Na Irlanda eu aprendi a pagar todas as minhas contas, a me preocupar com meu café-da-manhã, almoço e janta, a não me preocupar a que horas chegaria em casa, a cozinhar (não morri de fome nem emagreci, logo…). Eu não precisava sair do Brasil pra isso – era só ir morar sozinha- mas em terras tupiniquins eu teria tudo fácil (família, amigos, realidade que eu conheço) e aqui eu cheguei sem nada.

Foram onze meses bons e ruins ao mesmo tempo. As coisas ruins eu levo como aprendizado e algumas delas vão virar histórias engraçadas em roda de amigos em algum tempo. As coisas boas vou lembrar nostalgicamente no futuro.

Em onze meses eu perdi o medo da chuva (e matei minha vontade de ter galochas enquanto me desfiz do guarda-chuva- touca na cabeça é vida); controlei meu consumo de doces (o que não é nada fácil morando num país onde chocolate é barato demais e o Tesco vende mousse a 1 euro); troquei a Smirnoff Ice pela Kopparberg; não aprendi a beber cerveja; saquei que se a vida é minha e eu pago as minhas contas, ninguém tem nada a ver com a  roupa que eu uso (me deixa ir no mercado de pijama, ok?); que eu não nasci para passar frio; que eu não tenho mais desejo de ver neve; que a melhor comida do mundo é a do Brasil; que o motorista do ônibus ouve Beatles e Alanis; que roda de samba aqui é música celta com jeito de Senhor dos Anéis (filme que, aliás, eu nunca vi); que irlandês deve ser um pouco triste por achar que 20 graus é calor; que violência tem em todo lugar, até em Dublin (destruí seu mundo!); a valorizar imensamente um lindo dia de sol; que a marca do mercado é, na maioria das vezes, tão boa quanto a marca cara; a parar de converter do euro para o real; que se eu não fizer, ninguém vai fazer por mim; que eu gosto mesmo é de São Paulo, com todos os seus prós e contras.

Quem diria que eu poderia aprender tanta coisa em tão pouco tempo?

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9 comentários sobre “Onze meses de Irlanda

  1. Ana

    Fiquei feliz em ouvir sua voz hoje no fone. Espero que você volta ao planeta terra e não saia de pijamas por aqui. Fico feliz em saber que não aprendeu a tomar essa porcaria de cerveja. kkk

  2. Chegando ao final de mais uma página virada no livro de sua vida, Bia! Que texto bacana. Sempre costumo dizer que amadurecemos muito rápido nesta experiência em um período muito curto. Temos que nos preparar para a volta, tanto mais quanto a vinda, e você mandou bem demais! Bjs e boa sorte no seu caminho!

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