Sachsenhausen

Este é o nome do lugar que visitei na minha última manhã na Alemanha. A pronúncia é algo como Zaksenrauzen, um campo de concentração. Como expliquei mais ou menos no post anterior, eu vi um panfleto de um walking tour que cobria os pontos principais da Segunda Guerra e Holocausto e incluía a visita a um campo de concentração. Tive, então, a excelente ideia de ir à recepção do hostel pedir mais informações (já que eu não tinha interesse em fazer o tour completo):

– Oi! Tenho interesse de visitar Sachsenhausen (falei o nome errado, porque, né, alemão é a língua do capeta), você sabe me dizer como chegar lá?
– Você pode pegar o trem sentido estação X (vocês não acham que vou decorar nome de estação de trem em alemão, né?), descer na estação final e de lá é fácil ir a pé.
– Ah sim. E você sabe se o campo ainda está bem conservado ou é mais um museu, um memorial?
– Não sei, não, nunca fui lá. Não é um lugar que eu gostaria de visitar, porque meu avô faleceu lá.
– +.+

Fiquei sem palavras, agradeci e voltei para o meu quarto. Pois é.

No dia seguinte, encarei 1h de trem e uns 25 minutos a pé até o campo. Aliás, a parte do caminho feita a pé passa por ruas bem bonitinhas que dão uma sensação de tranquilidade. Irônico até.

Entrada de Sachsenhausen
Entrada de Sachsenhausen

Os campos poderiam ser de concentração, extermínio ou uma combinação dos dois. Na Alemanha havia apenas campos de concentração e os campos de extermínio ficavam mais para o leste europeu. Obviamente, isso não significa que não aconteciam execuções nos campos de concentração, apenas que esta não era sua principal função (em Treblinka, por exemplo, os judeus chegavam e iam diretamente para a câmara de gás – não havia seleção para trabalhos forçados).

O campo de Sachsenhausen foi inaugurado em 1936 para prisioneiros políticos e se tornou uma espécie de centro de treinamento para oficiais da SS, que futuramente, acabariam por ser comandantes de outros campos de concentração (Rudolf Hoess, comandante de Auschwitz, passou por lá). Mais tarde, os judeus chegaram ao campo e, em 1943, uma pequena câmara de gás e um crematório foram construídos no local.

"O trabalho liberta" - Portão do campo
“O trabalho liberta” – Portão do campo

A entrada é gratuita e a visita não é guiada, mas o audiotour custa apenas 3 euros. Eu fiz a visita com o audiotour, só que  é muita informação e se fosse ouvir tudo, teria ficado lá quase o dia inteiro.

O campo foi quase todo destruído e os poucos prédios que ainda estão no local abrigam museus com exposições sobre a vida no campo, o Holocausto etc.

Até 400 prisioneiros usavam o lavatório ao mesmo tempo
Até 400 prisioneiros usavam o lavatório ao mesmo tempo

Se comparado a Auschwitz-Birkenau, Sachsenhausen não é tão tocante, digamos assim. Talvez por Auschwitz ainda conservar os prédios como eram na década de 40, por ser maior, por o museu conter objetos pessoais das vítimas (o que me causou emoções bem fortes), pela visita ser guiada, enfim, o contexto todo causa uma reação mais forte do que Sachsenhausen. Ainda assim, recomendo a visita pela questão histórica. Alguns prédios ainda conservam áreas como eram quando o campo estava funcionando. A cozinha, por exemplo, fica no subsolo de um dos prédios e me deu arrepios andar por lá.

Memorial às vítimas
Memorial às vítimas

Outra parte do campo que também me deu calafrios visitar foi o mortuário, por razões óbvias.

Por questão de tempo, não consegui visitar o campo inteiro, que é muito grande, e retornei a Berlin para terminar a viagem, como contei no post anterior.

Depois de visitar Auschwitz, assisti alguns filmes com o tema da Segunda Guerra e  Holocausto e até recomendei alguns aqui no blog. Dessa vez, parti para os livros e já estou lendo o quarto!

Night – Elie Wiesel
Neste livro, Elie conta de forma fragmentada sua experiência nos campos de concentração. Na primeira parte, ele conta como era sua vida na Transilvânia antes da invasão alemã, a vida no gueto e o transporte. Na segunda parte, conta como era a vida no campo, mas sem muitos detalhes, apenas relatando eventos. Chama a atenção quando conta que a primeira coisa que viu ao chegar foi crianças sendo jogadas vivas nas chamas e como, à todo custo, tentou se manter próximo de seu pai.

Elie é o 7º da esquerda para direita no 2ª "andar" - Foto tirada no dia da liberação do campo de Buchenwald
Elie é o 7º da esquerda para direita no 2ª “andar” – Foto tirada no dia da liberação do campo de Buchenwald

Creio que haja uma versão em português.

Tell no one who you are – Walter Buchignani
Este livro conta a história real, porém de forma romanceada, de Régine Miller, uma menina belga de origem polonesa de 10 anos que foi escondida na casa de quatro famílias diferentes para que não fosse deportada. Régine vira Augusta Debois e não pode contar a ninguém sua verdade identidade e assim vive por quase 3 anos, até o fim da Guerra.

The Commandant – editado por Jurg Amann
O comandante de Auschwitz, Rudolf Hoess, mudou de nome e se escondeu numa fazenda, onde trabalhava, até que sua mulher revelou tudo às autoridades (ela foi enganada- alegaram que seu filho seria mandado para um campo de trabalho na Rússia caso ela não revelasse o paradeiro do marido- era mentira, mas ela acreditou). Enquanto aguardava a execução de sua pena (ele foi enforcado em Auschwitz), resolveu escrever um auto-biografia. A versão original foi editada neste livro que não alterou em nada o conteúdo, apenas o resumiu. No livro, o comandante fala de sua infância, da sua indiferença em relação aos pais, que nunca foi de frequentar bordéis (o comandante de Auschwitz só transava com amor, vejam só!) e como chegou ao posto de comandante. É muito interessante como no livro ele deixa claro que tudo que fazia era cumprir ordens, fazer seu trabalho, como se estivesse falando de uma fábrica que, sei lá, produz sapatos. “Ah, eu era o comandante e tinha que me certificar que todos os judeus estavam sendo mortos da maneira mais eficiente possível. Era só o meu trabalho”, basicamente. Em outro trecho ele deixa claro que, pessoalmente, nunca odiou os judeus, mas como eles eram os inimigos da Alemanha e recebia ordem de assassiná-los, ele fazia, ué! Excelente funcionário, não? Ele não demonstra remorso nenhum morre fiel ao partido nazista.

Is this a man?/ The Truce – Primo Levi
Estes dois livros (que na minha edição, são um só) são mais complexos. Primo Levi era um quimico italiano de 24 anos quando foi deportado para Auschwitz, onde ficou por 11 meses até a liberação. Ele conta com muitos detalhes o dia-a-dia no campo e faz reflexões sobre o que viveu lá. Conta como a ecomonia e o mercado negro funcionavam dentro do campo (uma porção de pão poderia ser trocada por n coisas), a rotina, o trobalho, a hierarquia entre os prisioneiros e por aí vai. O livro é longo e eu ainda não terminei de ler o primeiro. No segundo, The Truce, ele conta como é retomar a vida após o Holocausto.

O assunto me interessa muito (quem lê o blog sempre já meio que tá careca de saber isso) e eu estou devorando estes livros (em menos de um mês, já estou lendo o quarto!). Mas na última noite tive um sonho terrível, sonhei que estava num campo de concentração e eu tinha ciência de tudo que estava acontecendo. Lembro que no sonho eu tinha acabado de chegar ao campo e aguardava a seleção. O terror e o medo que eu sentia me fizeram acordar suando.

Se tiverem alguma sugestão de leitura, comentários são bem-vindos.

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8 comentários sobre “Sachsenhausen

  1. Débora

    Oi Bia, tudo bem? Achei seu blog em outubro do ano passado, quando estava fazendo minhas pesquisas pro intercambio, e desde então tenho acompanhado suas histórias.
    Hoje estava ouvindo um programa que falava sobre Hitler e como ele conseguiu influenciar tantas pessoas, e me lembrei do seu interesse pelo assunto. Se quiser ouvir segue o link: http://www.brainstorm9.com.br/37822/braincast9/braincast-66-a-maquina-de-propaganda-nazista/
    Parabéns pelo blog!!!

  2. Daniele Rodrigues

    Olá Bia! Também fui a Sachsenhausen, e não há como descrever a sensação de pisar em um lugar como esse. O silêncio impera.
    Vi que você se interessou pelo tema, então vou te indicar um livro muito bom. Chama “Depois de Auschwitz”, biografia de Eva Schloss, que vem a ser meia irmã da Anne Frank (a mãe de Eva se casou com Otto Frank, pai de Anne, depois da guerra).
    Eva e sua mãe sobreviveram a Auschwitz-Birkenau, e o livro conta toda a história de vida dela, antes, durante e após a guerra. Vale a leitura.
    Bjs,
    Daniele

    1. Bia

      Olá, Daniele!
      Obrigada pelo comentário!
      Eu me interesso pela Segunda Guerra de modo geral e comprei este livro que você recomendou, mas ainda não o li. De qualquer forma, obrigada pela dica!

      1. (agora que vi que posso logar no twitter rs)
        Eu também tenho fascínio por esse tema, nessa mesma viagem fui a casa de Anne Frank em Amsterdam, para quem leu o livro é uma visita e tanto.
        Anotei suas dicas de livros também, não conhecia todos. 🙂

      2. Bia

        Eu já havia lido O diário de Anne Frank umas 4 vezes antes de visitar a casa. Foi o ponto alto da minha visita a Amsterdã.

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